  DE TODO O MEU SER
  Mnica de Castro
  Pelo esprito Leonel

  Mnica de Castro


  Meu amor pela literatura existe desde os meus tempos de menina. Sempre gostei de ler e escrever, em verso e prosa, e foi nos poemas de Manoel Bandeira que lapidei 
ainda mais a sensibilidade da minha alma. Gostava de escrever poemas, contos, textos diversos, e cheguei a ganhar um concurso de poesia aos treze anos, aqui na cidade 
do Rio de Janeiro, onde nasci, em 1962. Ao mesmo tempo, minha mediunidade despertou, e adotei o espiritismo como blsamo do meu corao.
  Meu desejo sempre foi o de ser escritora, mas a vida nos leva por caminhos diferentes, sempre em nosso benefcio, e acabei me formando em direito e passando num 
concurso para o Ministrio Pblico do Trabalho. Anos depois, aps o nascimento do meu filho, senti a primeira inspirao. Foi uma coisa estranha. Uma voz ficava 
na minha cabea, repetindo esse nome: Rosali, e a ideia de fazer um romance brotou na mesma hora. Rejeitei a ideia e pensei: Quem sou eu para escrever um romance?.
  Por outro lado, a mesma voz tambm me dizia: No custa nada tentar. O mximo que pode acontecer  no dar em nada. Aceitei a sugesto do invisvel, acreditando 
ser o meu pensamento, e fui sentar-me ao computador. Na mesma hora, a inspirao para Uma Histria de Ontem surgiu espontnea, e fui escrevendo, cada dia um pouquinho. 
At ento, eu no sabia psicografando.
  Foi s quando terminei o romance que recebi a psicografia do Leonel, que abre o meu primeiro livro, onde ele se apresenta e d o seu nome. Mas foi preciso uma 
boa dose de desprendimento para escrever, sem questionar e aceitar a interferncia do Esprito. Hoje, posso dizer, Leonel  parte fundamental da minha vida.
  No escrevo para viver. Escrevo porque gosto e porque acredito estar levando algum bem para as pessoas. E  esse sentimento que me faz querer escrever cada vez 
mais.  pelas pessoas que vale a pena escrever. Pelos leitores, que esto em busca de algo, alm do aqui e agora, e que acreditam no poder da f, do autoconhecimento 
e do amor, como caminhos seguros para a transformao do ser.
  Acredito que ns todos podemos trabalhar pelo aperfeioamento moral da humanidade para construir um mundo melhor.

  Leonel  um Esprito muito querido do meu corao. J em nosso primeiro romance, ele me deu uma ideia do que teria sido em sua vida passada: escritor.
  Sei que nasceu e viveu na Inglaterra, em sua ltima encarnao, assim como nas anteriores. Em Segredos da Alma, ele narra um pouquinho da sua histria, juntamente 
com a da mulher que foi o grande amor da sua vida. Foi um escritor dos mais famosos. Era um bomio, mas algum com tanta dignidade que despertou para os verdadeiros 
valores do Esprito, e hoje est em condies de transmitir mensagens de otimismo e amorosidade. Eu mesmo percebi isso no contato quase dirio com ele e nas comunicaes 
que transmite, sempre de forma mental.
  H algum tempo, ele me permitiu conhecer sua aparncia. Leonel mostrou-se para mim na casa Esprita, em um momento de profundo reconhecimento e reflexo. Fisicamente, 
 um rapaz bonito. Cabelos negros, cheios, com feies delicadas e olhos azuis. Estatura mediana, magro, veio vestido com cala e bata brancas, descalo e com ar 
tranqilo. Tinha um rosto to sereno que me contagiou. Ali, ele me disse coisas que modificaram para sempre o meu modo de encarar certos aspectos da vida.
  Sua proposta  a do crescimento e da disceminao do amor.  para isso que trabalha, e nisso que acredita e me faz tambm acreditar. Sem a esperana e a certeza 
na consolidao do amor, a vida no tem razo de ser. E o instrumento que ele encontrou para a realizao desse propsito, no momento, foi a psicografia. Assim como 
eu, Leonel escreve por amor a si mesmo e ao prximo.
  Considero Leonel mais um batalhador do invisvel. Um esprito com enorme sabedoria e inigualvel capacidade de amar. Um ser em evoluo que conhece o caminho para 
o crescimento e sabe onde est a fonte do discernimento e da moral. Uma alma que cresce por meio do esforo prprio, do reconhecimento de suas imperfeies e da 
busca incessante do domnio sobre si mesmo. E  nisso, acima de tudo, que rezide o seu valor.

  Mnica de Castro.

  2010, por Mnica de Castro

  Direo de arte: Luiz Antnio gasparetto
  Projeto grfico: Priscila Noberto
  Diagramao: Andreza Bernardes
  Reviso: Maria Glria Nola Pires e Ivnia Paula Leite Barros Almeida

  1 Edio
  Junho de 2010
  20000 exemplares.

  Dados internacionais de catalogao na publicao (CIP)
  (Cmara Brasileira do Livro  SP, Brasil)
  Leonel (Esprito)
  De todo o meu ser / Pelo Esprito Leonel (Psicografado por)
  Mnica de Castro  So Paulo: Centro de Estudos Vida & Conscincia Editora.
  ISBN 978-85-7722-101-1
1. Espiritismo 2. Psicografia 3. Romance esprita 1. Castro, Mnica de. 2. Ttulo

  10-06002  CDD-133.9
  ndice para catlogo sistemtico:
1.   Romance Esprita: Espiritismo 133.9

  Publicao, distribuio, impresso e Acabamento
  Centro de Estudos Vida & Conscincia Editora LTDA,

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  Proibida a reproduo total ou parcial desta obra, de qualquer forma ou por qualquer meio eletrnico, mecnico, inclusive atravs de processos xerogrficos, sem 
permisso expressa do editor (Lei no. 5.988, de 14/12/73).

  PRLOGO
  O sol mal acabara de nascer e Marianne j estava de p, fitando com olhos marejados a imensa bola alaranjada que surgia no horizonte. Pela janela aberta, entrava 
uma brisa suave, trazendo o doce aroma do jardim, que a menina inspirou com prazer. Foi soltando o ar aos pouquinhos, sentindo imenso bem-estar.
  Apanhou a tnica branca que passara a usar desde que chegara ali, vestiu-a com cuidado e penteou os cabelos, bem mais compridos. Olhou-se no espelho e sorriu. 
Nunca antes se julgara bonita. Agora, contudo, seu semblante havia adquirido um brilho e uma suavidade que at ento no existiam.
  Quando acabou de se vestir, ouviu batidas leves na porta e virou-se, no exato instante em que um rapaz alto e muito claro entrou.
  - Bom dia, Marianne  cumprimentou, endereando-lhe um sorriso jovial.  Como se sente hoje?
   Bem  respondeu ela, dando-lhe um beijo delicado nos lbios.  Graas a voc, j consegui me reequilibrar.
  - Graas a mim, no, graas a voc mesma. Percebendo o seu embarao, ele prosseguiu com ternura.  O que foi?
  Ela apertou as mos dele e confessou:
          Em minha confuso mental, no lhe disse coisas que gostaria de ter dito...
          O que, por exemplo?
          Eu o amo. Sabia disso?
  Ele sorriu e respondeu com emoo:
          Sabia sim. No precisava dizer.
  Era verdade. Pela primeira vez em muitos anos, Marianne dizia a Ross que o amava. E como o amava! No fosse por ele, sua vida teria sido muito mais difcil. Alis, 
a ltima encarnao de Ross teve praticamente uma finalidade: seu amor por Marianne era tanto que ele pedira para reencarnar ao seu lado, s para ajud-la a atravessar 
o tortuoso caminho que escolhera. Fora o nico.
          Estou muito feliz por ter voc  tornou Marianne, tambm emocionada.  Hoje posso compreender muitas coisas. Principalmente a importncia do amor.
Ross no disse nada. Sorriu e estendeu-lhe a mo, convidando-a para sair. Fazia j algum tempo que haviam chegado quele lugar e se preparavam para uma nova jornada 
na terra, dessa vez, no Brasil. Estavam em uma cidade invisvel, localizada no espao astral situado bem acima de Londres, preparada para receber espritos que, 
a exemplo de Ross e Marianne, haviam perdido suas vidas na guerra.
  De mos dadas, os dois saram para o jardim. Marianne andava descontrada, como nunca pudera caminhar na Terra, a toda hora inspirando aquele ar revigorante. Sua 
aparncia era a de uma menina de dezesseis anos, ao passo que Ross mantivera as feies do jovem maduro e muito seguro de si mesmo que j era aos vinte anos.
          O que ser de mim agora?  questionou ela, ainda incomodada pela dor das muitas lembranas.
          Voc sabe que vai reencarnar em breve.
   No sei se terei coragem.
          Ter sim. J passou pelo pior.
          Acho que no quero mais voltar. Quero ficar aqui.  to bom...
          Voc no pode, no deve. E os seus projetos de vida? Quer adi-los?
  Marianne olhou-o indecisa. Sua ltima encarnao, bastante difcil e dolorosa, fora uma escolha sua para acelerar a recomposio de seu corpo fludico, to comprometido 
pelos excessos do passado. Aquela vida no era nem de longe a vida que sonhara para si mesma. Era como uma encarnao intermediria, na qual fizera uma espcie de 
limpeza em seu corpo espiritual, preparando-o para uma outra jornada, dessa vez mais prazerosa e alegre.
  Com os olhos midos, respondeu convicta:
          No quero adiar nada. J perdi muito tempo. No vou mais desperdiar a vida.
          Ningum perde tempo. O tempo  o mestre dos nossos destinos, porque  atravs dele que vamos coletando experincias para o nosso crescimento. Ningum 
desperdia tempo. Ns o aproveitamos com maior ou menor intensidade, mas nunca de forma intil.
          Tem razo. S que, quando penso no que j fiz... Fui to ruim... A vida toda, fui uma pessoa m.
          No diga uma barbaridade dessas! Voc sabe que no era m. Era apenas descontrolada, em virtude de suas dificuldades mentais e espirituais. Mas maldade... 
essa  uma palavra muito forte que, decididamente, no se aplica a voc.
          Que bem fiz nessa encarnao?
          Transformou a si mesma e salvou a vida de seus irmos. S isso j  o suficiente.
Ela no respondeu. Sentaram-se na grama do jardim para trocar idias com uns amigos, e Marianne pousou a cabea no ombro de Ross, distanciando-se da conversa. No 
estava triste, mas seu olhar, de repente, comeou a divagar pelo horizonte, evocando lembranas dos ltimos tempos.
  Duas grossas lgrimas surgiram em seus olhos, e ela apertou o brao de Ross. O rapaz afagou os seus cabelos, e ela questionou:
          Como ser a vida no Brasil?
          Deve ser boa, no sei. Dizem que  um pas muito bonito.
          Vou deixar todo mundo aqui.
          Ao contrrio, todos j foram para l.
          Menos minha me.
          Voc sabe que ela pertence a outra realidade. Vocs formaram elos poderosos e perptuos, que a distncia no poder desfazer.
  Marianne calou-se acabrunhada. Partiria em breve para uma nova encarnao no Brasil, junto daqueles que a vinham acompanhando por muitas vidas. Kate, contudo, 
no fazia parte desse grupo. Conhecera-a naquela vida quando ela se dispusera a receb-la como filha, no fazia muito tempo. Com o tempo, aprendera a gostar dela. 
E quem poderia no gostar de Kate?

  Primeira Parte

  1
  Tudo comeou quando Marianne completou sete anos. Corria o ms de janeiro, e fazia bastante frio naquela poca do ano. Ainda assim, seus pais haviam lhe preparado 
uma bonita festa. Ela era a mais velha de quatro filhos, com olhos expressivos que variavam do verde para o azul e cabelos negros que lhe caam fartamente sobre 
os ombros. No era feia, contudo, sua beleza no era algo que impressionasse ou detivesse a ateno de algum por muito tempo.
  Morava numa casa grande e confortvel, em um bairro da periferia de Londres. O pai era engenheiro e tinha um emprego razovel numa construtora local, e a me ocupava 
os dias cuidando da casa e das crianas. Marianne no era muito socivel e quase no brincava com os irmos, preferindo a companhia do primo, que morava na casa 
ao lado da sua.
  Quatro anos mais velho, Ross era filho nico do irmo de seu pai, que perdera a mulher alguns anos atrs, vtima da tuberculose. Sozinho com uma criana, Nathan 
mudou-se para perto do irmo, onde a cunhada poderia ajudar na criao do menino.
  s trs horas em ponto, os convidados comearam a chegar. No havia muitos; apenas algumas coleguinhas da escola, cujos pais haviam aceitado o convite aps exaustiva 
insistncia, e outros primos que moravam mais distante. Marianne recebia os abraos e os presentes com indiferena e no disfarava a irritao quando solicitavam 
a sua presena, privando-a da companhia do primo.
          No sei o que se passa com essa menina  queixou-se a me.  Fazemos de tudo para agrad-la, mas parece que nada a satisfaz.
          No ligue  contestou a irm.  Criana  assim mesmo.
          Sei o que estou dizendo, Jane. Marianne sempre foi esquisita, desde pequenina.
          No devia falar assim da sua filha.
          Mas  verdade. Ela nunca foi afetuosa nem socivel. E receio que no seja muito inteligente tambm.
          Marianne  apenas uma menina. S precisa de amor.
          Voc pensa que David e eu no lhe damos amor?
          Sinceramente? Acho que no o bastante.
          Como voc pode dizer uma coisa dessas? Fazemos tudo por nossos filhos. Por todos. Veja s a festa que preparamos para Marianne!
          Acha mesmo que  disso que Marianne precisa?
          Toda criana gosta de festas, doces, brinquedos...
          Crianas precisam  de amor!
          Voc est sendo injusta. Ns amamos muito Marianne.
          Pois ento, deviam demonstrar-lhe mais. S o que vejo so cobranas. Vocs cobram de Marianne um comportamento que ela no sabe ou no pode ter. Por que 
no a aceitam do jeito que  e param de exigir que ela seja do jeito como vocs gostariam que ela fosse?
  - Por que est falando dessa maneira?  tornou Kate, ressentida.  Sabe que nos esforamos para que nada falte a nossos filhos. David tem trabalhado muito para 
lhes dar uma vida melhor. As coisas no so fceis.
  Na mesma hora, Jane se arrependeu do que dissera. No tinha o direito de julgar a irm.
          Perdoe-me  falou.  No queria mago-la.  que me preocupa o temperamento de Marianne.
          Todo mundo j notou, no  mesmo?  Jane titubeou.  Vamos, pode falar. Todos j perceberam que Marianne no  uma garota normal.
          No sei se normal  bem o termo. Marianne  muito calada, quieta, triste. No  como as meninas da sua idade.
          David e eu tambm j percebemos isso.
          Por que no experimentam lev-la a um mdico?
          Para que mdico? Marianne  uma menina saudvel.
          No me refiro a esse tipo de mdico.
          A que tipo se refere ento? No v me dizer que acha que eu deveria levar Marianne a um psiquiatra.
          Qual o problema?
          Minha filha no  maluca.
          No estou dizendo que . Mas talvez precise de ajuda. Algum que a entenda e fale com ela.
          Por que no eu? Sou a me dela.
          No  a mesma coisa. E no era bem a psiquiatra que me referia, mas a um psiclogo. Uma amiga minha foi e gostou muito.
          Mas que ideia, Jane! Levar minha filha a um mdico de loucos?
          No  mdico de loucos. Os psiclogos ajudam as pessoas a compreenderem-se a si mesmas.
          O que  que uma menina de sete anos precisa compreender de si mesma? No entende nem o mundo ainda.
   Por isso mesmo. Talvez ela no esteja conseguindo uma boa compreenso do mundo, de si prpria, de sua vida.
          Besteira! Marianne no precisa de nada disso. Ela  esquisita porque tem um gnio ruim e no  muito inteligente. O que podemos fazer? Foi Deus quem quis 
assim.
  Era intil discutir com Kate, e Jane silenciou.
  A irm no entendia ou preferia no entender. Qualquer observador mais atento teria notado que Marianne possua mesmo algo estranho. No o temperamento ou a estupidez, 
como pensava Kate, mas, provavelmente, algum problema psicolgico. Quem sabe alguma experincia traumtica? As crianas costumam ser muito impressionveis, e talvez 
Marianne tivesse visto ou vivido alguma coisa difcil que no contara aos pais.
  Estavam em 1931 e, naquela poca, as coisas no eram assim to fceis. O medo e a ignorncia elevavam os problemas psicolgicos ao patamar de verdadeiras desgraas, 
temidas e negadas por quase toda a sociedade. Ningum sabia lidar com os
distrbios da mente, e qualquer comportamento que fugisse aos padres de normalidade corria o risco de ser taxado de loucura, e a pessoa, levada a tratamento em 
hospcios sombrios onde a doena tendia a piorar.
  Jane pediu licena  irm e foi ver os filhos. As crianas brincavam no jardim em frente da casa, construindo um boneco grande e gordo e atirando bolas de neve 
umas nas outras. Encostada numa rvore, Marianne espremia a neve com as mos, fazendo pequenas bolas que ia jogando no cho. Do outro lado, Ross corria com os demais 
meninos, parando de vez em quando para olhar para ela.
  No meio da brincadeira, Paul, filho mais velho de Jane, aproximou-se por detrs dela. Sem fazer barulho, deu um salto e agarrou a cintura da prima, dizendo com 
uma voz que, propositalmente, tornou rouca e fantasmagrica:
          Peguei voc, Marianne.
  Na mesma hora, Marianne ps-se a gritar e chorar, enquanto ia andando para trs, tentando fugir para a rua.
          No! No! Saia daqui! Afaste-se de mim! V embora! V embora!
  Assustado com a reao da prima, em quem apenas pretendia dar um susto, Paul foi seguindo-a para desculpar-se. Quanto mais perto ele chegava, mais ela se apavorava 
e gritava:
          Saia daqui, demnio! No o chamei! Mame! Mame!
  Ouvindo aquela gritaria, Kate correu para ela e sacudiu-a pelo ombro, exclamando preocupada:
   Marianne! O que houve? O que aconteceu?
          Mame!  continuava ela a berrar.  Quero minha me!
          Estou aqui, tenha calma.
  Marianne olhou-a como se no a conhecesse, imaginando quem seria aquela mulher que lhe falava como se fosse sua me. Debatia-se desesperadamente, na tentativa 
de desvencilhar-se, ao mesmo tempo em que gritava aterrada:
          No! Voc no  minha me! No conheo voc. Onde est minha me? Onde est?
Alguns parentes tentaram acalm-la com palavras doces e, ao mesmo tempo, carregadas de uma repreenso velada:
          J passou. Foi s um susto. Foi brincadeira.
          Que brincadeira? Quem so vocs?
  Todos se entreolharam atnitos. Ela parecia delirar. Foi ento que David veio l de dentro, gritando com ela:
   Se isso  alguma piada, no tem a menor graa. Est assustando sua me. Pare j com isso!
   Onde est, mame? No posso v-la. Me! Me!
   Quieta, Marianne!  esbravejou David, agora bastante enfurecido.  Onde j se viu estragar assim a sua prpria festa?
  Presa pelas mos da me, Marianne se debatia e urrava feito louca, at que o pai, no aguentando mais aquela balbrdia, desferiu-lhe uma bofetada no rosto, e ela 
desabou no cho, chorando convulsivamente.
          No faa isso  queixou-se a cunhada.  No v que ela  apenas uma criana?
          No se meta  rilhou entre os dentes, sentindo raiva da vergonha a que ela o expusera.  Marianne precisa 2 de umas boas palmadas,
  Jane retrocedeu. No queria brigar e no tinha o direito de se intrometer. Buscou com os olhos o marido, que lhe fez um sinal quase imperceptvel, e foi para junto 
dele.
          O que David est fazendo no est certo comentou baixinho.
          Ele  o pai  tornou Bill.   melhor no nos metermos.
  Enquanto isso, David continuava a berrar:
          Levante-se, vamos! Ou quer realmente apanhar diante de todos os seus convidados?
  Encolhida no cho, Marianne no ousava levantar os olhos. Chorava descontrolada, sem entender o que estava acontecendo. Tinha medo daquelas pessoas e no queria 
ficar com elas.
  Conhecendo-a como a conhecia, Ross resolveu agir. Abrindo caminho entre os convidados, alcanou-a e pediu licena ao tio para se ajoelhar ao lado dela. Percebendo-lhe 
a presena, Marianne, como que atingida por um raio de lucidez, retornou  conscincia e recordou-se de onde estava e quem eram aquelas pessoas.   Envergonhada, 
esticou os braos e atirou-se no colo do primo, desabafando num lamento:
  - Ross... ajude-me... No sei o que me deu...
  - Est tudo bem. No foi nada. J passou. Agora vamos, levante-se ou vai ficar gripada.
  Em silncio, Marianne se levantou e deixou-se conduzir por Ross, que a levou para dentro, com Kate logo atrs.
  -  O que foi que deu em voc?  indagou a me, totalmente aturdida.  Ficou maluca?
  Marianne no respondeu. Nem ela sabia por que tinha feito aquilo. S o que sabia era que, ao ouvir aquela voz, dentro dela despertara um medo inexplicvel, como 
se um inimigo h muito perdido a tivesse, finalmente, reencontrado.

  2
  Enquanto se desenrolava o drama de Marianne, um esprito sombrio comemorava sua vitria. Aproveitando-se da mediunidade de Paul, aproximara-se dele e inspirara-lhe 
a ideia do susto, das palavras e do tom de voz que deveria usar. Sem de nada desconfiar, Paul seguiu a sugesto do invisvel, realizando exatamente o que o ser das 
trevas desejava.
  Finalmente conseguira se aproximar. At ento, Marianne estava guardada por defensores iluminados que o mantinham afastado. Durante muito tempo, ele a seguia e 
a vigiava de longe, sempre acompanhado por aqueles seres que se faziam propositadamente visveis, como se desejassem ostentar sua superioridade moral.
  Como aquele era o dia do stimo aniversrio de Marianne, ele comparecera  festa, mesmo sem ser convidado, na esperana de que um descuido dos protetores lhe facilitasse, 
ao menos, uma pequena apario. Todavia, ao chegar  casa dela, notou, surpreso, que os espritos de luz no estavam ali. No comeo, desconfiou e permaneceu afastado, 
acompanhando os passos da menina. Mas as horas foram passando, e nada de os espritos aparecerem. Finalmente, reuniu coragem para agir.
  Foi assim que se aproveitou de Paul. Menino dado a travessuras maldosas,  primeira sugesto, acedeu  sua vontade, executando o plano que ele idealizara para 
assust-la. O resultado foi excelente, melhor do que o esperado. E qual no fora a sua surpresa ao perceber que Marianne o vira atravs dos olhos do primo. No s 
o vira, como tambm, inconscientemente, o reconhecera!
  Quase no conteve a euforia. Ainda percorreu todos os cantos da casa, para se certificar de que nenhum ser iluminado o incomodaria. Vendo-se sozinho, sentiu-se 
confiante. Os anjos protetores de Marianne haviam ido embora1.
  O esprito acompanhou-a at o quarto, para onde Ross e a me a haviam levado a fim de trocar as roupas molhadas. Ao ver o seu corpinho nu, no pode deixar de fazer 
uma observao sarcstica:
          Ora, ora, Marianne. Voc est muito magrinha agora. Nem parece aquela mulher exuberante que foi um dia.
  Soltou estrondosa gargalhada, que Marianne ouviu nitidamente, embora no conseguisse ainda v-lo.
          Quem ?  indagou temerosa.  Quem est a?
          No h ningum aqui  respondeu a me de m vontade, enquanto enfiava uma blusa pela cabea da filha.
          Mas eu ouvi algum rindo.
          Devem ser seus amigos l embaixo.
  Ela se aproximou da porta do quarto, que estava fechada, e chamou:

  1.  aos sete anos que a criana inicia o seu processo de individualizao, passando a direcionar-se pelo caminho espiritual, de acordo com suas tendncias e assumindo 
suas prprias responsabilidades. Por isso, at essa idade, os espritos superiores se mantiveram mais prximos de Marianne, a fim de evitar que inimigos astrais 
conseguissem abalar a formao de suas bases para a vida fsica e a espiritual, que se formam durante os primeiros sete anos de vida (Nota da Autora).
  - Rossi!  voc?
  Do outro lado, o primo respondeu:
          O que foi, Marianne?
          Foi voc quem deu essa risada?
          Que risada?
  A menina fitou a me, que a olhava com ar recriminador.
          Pare com essa besteira e venha terminar de se vestir. J no basta o que aprontou hoje?
  Em silncio, Marianne voltou para junto dela e terminou de se trocar. Por prudncia, no fez mais nenhuma pergunta, pois a me estava visivelmente aborrecida, 
e era melhor no a provocar. Em seu ntimo, porm, continuava a indagar quem dera aquela risada. Ouvira nitidamente. Tinha certeza de que no haviam sido as outras 
crianas. Era uma risada cnica, ruidosa, malfica. Sim. Aquela gargalhada tinha algo de maligno que a assustara, e ela se arrepiou toda.
          Fui eu, Marianne  respondeu o esprito.  Seu amigo Luther, no se lembra? Bonito nome, esse que escolheram para voc. Marianne...
  Ela deu um salto para trs. Ouviu claramente o que ele dissera e se assustou. Conhecia aquela voz e sentiu uma presena familiar. Era de algum que representava 
uma ameaa.
          O que foi?  tornou Kate.  Ainda ouvindo vozes?
  Apavorada, Marianne abriu a porta do quarto e correu para fora, encontrando Ross no corredor, parado perto da escada.
          Puxa!  exclamou ele.  At que enfim... Ela no lhe deu tempo de terminar. Atirou-se em seus braos, toda trmula, e comeou a chorar baixinho.
          Vamos embora logo  chamou a me.  Todos devem estar preocupados. Tambm, onde j se viu fazer o escndalo que voc fez s por causa de uma brincadeira? 
Vamos, Ross, traga sua prima para baixo.
  Ross percebeu que havia algo errado com a menina, mas preferiu silenciar. Se dissesse alguma coisa, a tia ficaria ainda mais zangada. Kate passou por eles e foi 
descendo as escadas, murmurando o que deveria ser uma recriminao.
          No quero ir  protestou Marianne.  Tenho medo.
          Medo de qu?  retrucou Ross.
          No sei. De Luther.
  O nome brotou espontaneamente de seus lbios, como se ela j o tivesse ouvido muitas e muitas vezes, embora no se lembrasse onde nem quando.
          Luther?  tornou Ross, em dvida.  Quem  Luther?
           algum que apareceu...
          No diga isso  censurou ele, colocando os dedos sobre seus lbios.  Quer que sua me fique zangada?
          Como  que ?  era a voz de Kate, chamando do p da escada.  Vocs dois vm ou no vm?
  Ross lanou um olhar encorajador a Marianne, segurou-lhe a mo com firmeza e desceu com ela. No andar de baixo, as crianas j estavam na sala, esperando para 
cantarem o Parabns. Havia comeado a nevar, e algumas pessoas queriam ir embora, com medo de que a neve aumentasse e os retivesse ali.
  A aniversariante tomou lugar atrs do bolo, sempre com Ross a seu lado, algum acendeu as velas e todos comearam a cantar:
          Parabns pra voc...
  De onde estava, Marianne via os rostos ao seu redor. A me fingia que nada havia acontecido. O pai estava carrancudo, tentando disfarar o mau humor. Os pais de 
suas colegas de escola estavam meio sem jeito, querendo arranjar uma boa desculpa para ir embora.
  Enquanto as vozes prosseguiam cantando, ela passou os olhos pela sala. Ao fundo, perto da porta, um homem estranho a olhava fixamente. Era alto, magro e vestia 
roupas negras. Batia palmas vagarosamente e sorria um sorriso irnico e debochado. Uma sensao de familiaridade a invadiu, e ela o encarou, a pele se arrepiando 
toda quando ele lhe atirou um beijo.
          Quem  voc?  pensou.
          Sou seu amigo Luther  respondeu o homem em voz alta e soltando nova gargalhada.
  Aquilo foi o suficiente para descontrol-la. Completamente aterrada, Marianne fez meno de fugir, mas o olhar severo dos pais a impediu. Parecia que uma multido 
gritava sem parar, e ela foi se sentindo invadida por aquela gritaria, como se centenas de vozes clamassem ao mesmo tempo por vingana.
  A seu lado, o primo percebeu que havia algo errado. Seguiu o olhar apavorado da prima, mas no viu nada perto da porta. Ficou olhando para ela, tentando entender 
a sua angstia, at que ela levou as mos aos ouvidos, e o corpo todo amoleceu. Segundos depois, desabou no cho, desmaiada, e as vozes silenciaram.
  David ergueu a filha no colo e deitou-a no sof. Como ardia em febre, ele estacou alarmado. Pediu ao irmo que fosse chamar o mdico e mandou que a mulher servisse 
bolo aos convidados. Kate, agora seriamente preocupada, ia cortando o bolo e distribuindo as fatias, enquanto se desculpava:
          Sinto muito, minha gente. Marianne no est bem. Deve ser gripe. Est fazendo muito frio.
  Os convidados, mais por educao do que por desejo, aceitavam a fatia de bolo, comiam-na rapidamente e, pedindo licena, iam-se retirando, com a desculpa de que 
seria melhor deixar que Marianne descansasse. Quando o mdico chegou, examinou-a detidamente. Ela estava com muita febre e a garganta parecia inflamada.
          No se preocupem  disse ele, ao final do exame.  Ela est com uma gripe muito forte, mas vai ficar boa. Deem-lhe xarope e essas plulas, faam-na ficar 
em repouso, e ela logo voltar ao normal.
          Doutor...  gaguejou Kate.  Ser que  s isso mesmo? Ela hoje falou coisas sem sentido, nem parecia nos reconhecer.
   Sintomas da febre alta, minha senhora. A menina estava tendo alucinaes.
Kate e David agradeceram e pareceram satisfeitos. Levaram-na de volta para o quarto e a puseram na cama.
          Posso ficar aqui com ela, tia Kate?  pediu Ross.
          Isso  com seu pai  respondeu David.
  Ross encarou o pai com ansiedade. Nathan coou o queixo e piscou para ele, acrescentando com bonomia:
          Est bem. Se sua tia no se importar...
          No me importo  falou Kate.  Vai fazer bem a Marianne.
  Nathan se foi, e Kate tratou de cuidar dos outros filhos. Com aquela confuso, haviam ficado de lado, e eram ainda muito pequenos para se arranjar sozinhos. Mais 
novos que Marianne, havia Roger, com cinco anos, em seguida Kevin, com trs, e, por ltimo, a pequena Suzie, de apenas um ano.
  Kate apanhou Suzie no colo e chamou os outros dois, que saram atrs dela. Depois de acomod-los na cama, foi ver como Marianne estava passando. Abriu a porta 
do quarto vagarosamente, e Ross levantou a cabea. Estava ajoelhado ao lado dela, o rosto pousado sobre o colcho, quase adormecido.
.  Puxando-o pela mo, Kate ajudou-o a se levantar. Em silncio, estendeu um cobertor no cho, colocou sobre ele um lenol e um travesseiro e mandou o menino se 
deitar, cobrindo-o com uma grossa manta de l. J bastante sonolento, Ross tornou a se deitar e imediatamente adormeceu, somente despertando no dia seguinte, com 
Marianne sentada a seu lado.
          Bom dia, amiguinho  cumprimentou ela, dando-lhe um beijo na face.
          Como est?  retrucou o primo carinhosamente.  Melhor?
          No sei. O que foi que tive?
          No se lembra? Ela estreitou a vista, puxando pela memria, e respondeu hesitante:
          Lembro...
  Aos poucos foi recobrando a lembrana daquele ser maligno, e seu corao disparou.
          O que foi?  preocupou-se Ross.
          Aquele homem...
          Que homem?
          No sei. Era feio, esquisito. Falou comigo.
          Quem? No vi ningum.
          Eu vi. Disse que seu nome era Luther e que era meu amigo.
          Voc est imaginando coisas.
          No estou no. Eu o vi, tenho certeza.  Ela levou a mo  boca e acrescentou espantada:  Ser que era um fantasma?
   Credo, Marianne! A porta do quarto se abriu, e Kate apareceu com um frasco de vidro e uma colherzinha. Experimentou a testa da filha, entornou o xarope na colher 
e fez com que ela o bebesse.
          Vejo que est melhor, graas a Deus.
          Estou sim.
   timo. Que susto nos deu, hein? Falando aquelas coisas...
  Marianne encarou o primo e disse, sem desviar os olhos dos dele:
          Mame, acho que vi um fantasma.
  Kate pousou o vidro de xarope na mesinha, colocou a mo na cintura e repreendeu com uma certa impacincia:
          Deixe de bobagens. O doutor Brown disse que foi tudo alucinao. Voc estava com muita febre. E agora, chega dessa tolice  encerrou o assunto e virou-se 
para o sobrinho.                  
    Vamos, Ross, levante-se e v se lavar. J est na hora do caf.
          Ah! titia, deixe-me ficar aqui.
          Nada disso. Voc no est doente. Desa e tome seu caf.
          E Marianne? No vai comer nada?
          No estou com fome...  protestou ela.
          Voc tambm precisa se alimentar  objetou a me.  Depois que Ross terminar de tomar o seu caf, poder lhe trazer uma bandeja. Est bem assim?
  No havia como contest-la. Em silncio, Ross se levantou e fez como ela lhe ordenou. Terminado o desjejum, pegou a bandeja e levou-a para a prima, com leite, 
po, manteiga, queijo e uma fatia do bolo de aniversrio. Como gostava de Marianne! Ela no era sua irm, mas bem que poderia ter sido. Ou, quem sabe, mais tarde 
poderia ser sua namorada? Ser que poderiam? Eles eram primos, e ele no sabia se primos podiam namorar.
  Mas ele a amava tanto!

  3  
  Como Marianne era uma menina fisicamente saudvel, logo se recuperou da gripe, e a vida retomou a normalidade. Ou quase. Na escola, as crianas a olhavam com desconfiana. 
Se antes j no simpatizavam muito com ela, agora ento, passaram a ach-la deveras esquisita. Ela entrou, cabisbaixa como sempre, e foi sentar-se em seu lugar habitual. 
O professor ensinava as primeiras letras, mas Marianne no parecia muito interessada. Ficava rabiscando o caderno, fazendo desenhos estranhos, linhas desconexas. 
Em dado momento, o professor olhou para ela, bateu com a varinha na mesa e exclamou em tom severo: Marianne! Onde  que est com a cabea?
  A menina olhou-o assustada. Por que estava gritando com ela? Permaneceu em silncio, encarando-o com ar de espanto, enquanto ele a fuzilava com os olhos e continuava 
a lio. Ao trmino da aula, Marianne arrumou o material e saiu sem dizer uma palavra.
  Do lado de fora, Ross j a aguardava, como sempre. Ele e Marianne estudavam em escolas diferentes: uma para meninos, e outra s para meninas. Como, porm, as duas 
escolas ficavam prximas, costumavam ir e voltar juntos todos os dias. Assim que o viu, Marianne correu para ele e tomou-lhe a mo.
   Demorei muito?  indagou, visivelmente feliz.
   No. Cheguei ainda agora.
  Seguiram de mos dadas e conversando. Ross era a nica pessoa com quem Marianne conversava. No tinha amigos.  exceo do primo, todas as outras crianas lhe 
pareciam sem graa e aborrecidas.
  Ross abriu a porta de casa, dando-lhe passagem. Como de costume o pai dele saa bem cedo para trabalhar, e o menino ficava aos cuidados da tia, at que Nathan 
voltasse, no comeo da noite.
          Ol, tia Kate - cumprimentou ele amistosamente.
          Boa tarde, crianas. Como foram na escola?
          Bem...
  Marianne passou por ela sem lhe prestar muita ateno e subiu para o quarto. Ia trocar-se e lavar as mos, e s ento desceria para o almoo. Apanhou um vestido 
velho no armrio, estendeu-o sobre a cama e comeou a desabotoar a blusa do uniforme. Ao se virar na direo da janela, aquele homem lhe surgiu novamente. Sentado 
no parapeito, balanava as pernas e sorriu para ela. Marianne sufocou um grito de pavor e recuou dois passos. Pensou em fugir correndo, mas algo nele a deteve. Ergueu 
os olhos, assustada, e o encarou. Enchendo-se de coragem, balbuciou:
          O... o que... quer, moo? Quem o deixou entrar? Ele saltou da janela, passou por ela e sentou-se na cama, que no afundou nem fez qualquer barulho.
          Quero ser seu amigo  respondeu com ironia. Ela se afastou um pouco mais, aproximando-se da porta, e retrucou temerosa:
          V embora... Por favor...
          Por qu? No gosta de mim?
          Voc me assusta.
          No quero assust-la. Sou seu amigo, e voc devia confiar em mim.
          Como posso confiar em algum que me d medo?
  Ele soltou nova gargalhada e acrescentou:
   Sou o nico que a entende. Sei o quanto voc sofre.
          Sabe?
   Sei sim. Ningum a compreende, no  mesmo? Todos a acham estranha, chamam-na de esquisita. E as outras crianas no gostam de voc. Voc no tem amigos, e sabe 
por qu?  ela fez que no.  Porque as outras crianas so todas umas idiotas.
   So?
    claro. No sabem de nada. No tm o seu dom especial.
   O que  isso?
   Um dom  um presente...
   Presente?  repetiu desconfiada.  Quem me daria um presente?
   Hum... deixe ver... no seu caso... bem, isso no importa. O que importa  que voc recebeu esse... presente e deve us-lo.
   Us-lo como, se nem sei de que presente se trata?
  Ele soltou nova gargalhada, cruzou as pernas e fitou-a com profundidade, deixando-a incomodada com a insistncia de seu olhar.
          Voc fala com os mortos, Marianne  revelou friamente.
  Ela abriu a boca, aterrada, e encostou-se na parede, pensando que ia desmaiar.
          Voc est morto?
          Bem, sim e no. Digamos que estou morto para o seu mundo. Mas no meu, continuo bem vivo.
          No acredito em voc.
          No acredita? Pois olhe.
  Luther levantou-se da cama, aproximou-se da parede em que ela estava encostada e atravessou para o outro lado, voltando em seguida e parando bem junto a ela. Pelo 
seu ar apavorado, ele podia perceber que ela se convencera. Quem no se convenceria?
          No se assuste nem fique triste  prosseguiu ele.  Esse seu dom  especial.
          Mas... no o quero, tenho medo... Minha me... quero minha me.
  Ela comeou a choramingar e fez meno de sair, mas ele a deteve com um gesto.
          No precisa ter medo de mim. No estou aqui para lhe fazer mal.
          Por que me escolheu?
          Eu no escolhi voc. Foi voc quem me escolheu.
          Mas eu nem conheo voc!
          Conhece sim. S que no se lembra. Vamos, no se assuste comigo. Afinal, no sou to feio assim, sou?
  Marianne comeou a se acalmar. Realmente, ele no era feio nem tentara lhe fazer nenhum mal. Ser que era mesmo seu amigo como lhe dizia? Mas por que isso tinha 
que acontecer com ela? Nunca havia ouvido falar que qualquer de suas colegas da escola conversasse com fantasmas.
          Voc  diferente  respondeu Luther, que mentalmente ouvira a sua pergunta.  Quantas pessoas voc conhece que falam com os mortos? Provavelmente, nenhuma. 
E sabe por que voc consegue?  Ela meneou a cabea.  Porque voc tambm  uma menina especial. Tem uma coisa a dentro da sua cabecinha que funciona de maneira 
diferente e faz com que voc veja coisas que ningum mais v. No  verdade?
          ...  respondeu hesitante.
          Pena que ningum vai conseguir compreender... E sabe o que vai acontecer? Eles vo pensar que voc  louca.
          Eu no sou louca!
  - No, no ... ou quase.
   No quero que voc se zangue, Luther, mas no preciso de voc. Eu tenho o Ross. No quero ser amiga de nenhum fantasma.
   Tem certeza?
          Tenho.
  Luther a mirava fixamente e falou com voz sonora:
          Olhe, para provar que sou seu amigo, vou fazer um trato com voc. No vou mais aparecer para voc, a menos que me chame.
          No vou chamar voc.
   Vai sim. Quando as coisas ficarem ruins, vai ver que sou o nico amigo capaz de entend-la. E a ento, vai me chamar.
  Ela estava realmente confusa, sem entender por que aquele esprito fora ali para atorment-la. Talvez fosse melhor pedir ajuda  me, que j era grande e sabia 
resolver muitos problemas.
   Eu no faria isso se fosse voc  prosseguiu ele.
   Fazer o qu?
   Contar  sua me.
          Como  que sabe que estou pensando em contar  minha me?
   Sei muitas coisas.
   Voc no conhece minha me. Ela vai mandar  voc embora.
   Ela vai cham-la de louca ou mentirosa.
   No vai, no!
   E vai precipitar as coisas.
   Que coisas?
  Fazendo ar de mistrio, ele no respondeu. Marianne estava muito confusa e assustada. Ficara         tanto tempo no quarto, conversando com Luther, que nem percebeu 
a hora passar. Demorou tanto que a me, da cozinha, ps-se a gritar o seu nome, sem que ela ouvisse. Kate teria mandado Ross ir busc-la, mas o menino estava comendo, 
e ela resolveu ir pessoalmente cham-la.
  J na porta do quarto, parou com a mo na maaneta. Ouviu a voz de Marianne do lado de dentro, conversando sabe-se l com quem, e levou um susto. Encostou o ouvido 
 porta e ps-se a escutar. Ela falava sozinha!
          Por que no me responde?  indagou Marianne, em seu aparente monlogo.
  Pausa... Kate no escutou a resposta de Luther. S o que ouviu foi a voz da filha:
          No entendo voc. Fala de coisas estranhas. 
  Novamente a resposta silenciosa, e a voz de Marianne se fez ouvir outra vez:
          Amigo... Voc quer  me enganar. Pensa que no sei?
  Silncio. Depois de uma breve pausa, Marianne falou de novo:
          Se  meu amigo como diz, por que no para de me assustar?
  Nova pausa, novo monlogo:
          Eu preferia que voc fosse embora...
  Kate no suportou mais. Escancarou a porta e entrou feito um furaco, assustando ainda mais a menina.
          Muito bem, Marianne!  esbravejou.  Com quem est falando?
  Aturdida, ela olhou para Luther, que lhe sorria com ar irnico. Ele continuava ali sentado, mas a me, com certeza, no o via.
          Estou esperando uma resposta!  prosseguiu Kate.  Com quem estava falando?
  Apesar do medo, Marianne resolveu contar a verdade. Afinal, Luther estava mesmo ali, e no era culpa dela se ele resolvera assombr-la.
          Com Luther...  respondeu ingenuamente. Ele  um fantasma e quer ser meu amigo.
   Como? Fantasma? Que histria  essa?
          E... Ele est morto.
          Deixe de besteiras. No acha que j est ficando grandinha para inventar essas bobagens?
          No estou inventando. Luther  de verdade. 
  Kate a fitou desconfiada, imaginando se ela no estaria com febre novamente. Aproximou-se e experimentou-lhe a testa. Estava fria.
  De onde estava, Luther soltava gargalhadas diablicas, e Marianne contestou:
          No sei qual  a graa...
          Com quem est falando?  indagou a me, bastante aborrecida.  Voc no est com febre. No pode estar tendo alucinaes.
           o Luther, j disse. Ele est rindo de mim.
          Ele est aqui? Onde?
          Bem ali, sentado na cama.
  Marianne apontou para a cama, e Kate olhou abismada. No havia nada ali. Apenas o vestido que Marianne retirara do armrio e se esquecera de vestir. Luther, invisvel, 
dobrava o corpo de tanto rir.
          Deixe dessas bobagens. No tem ningum ali.
          Tem sim. Eu o estou vendo. Ele agora est rindo de voc.
          Voc no pode estar vendo o que no existe. No tem ningum ali, no existe nada ali. Pare de inventar essas coisas!
          Mas me...
          Basta, Marianne! No quero mais escutar essas sandices. Trate logo de se trocar e desa para o almoo. Fantasmas no existem, e se voc est vendo um, 
 porque ou est louca, ou est mentindo!
  Saiu batendo a porta, furiosa, e Marianne comeou a chorar, ocultando o rosto no vestido. Impassvel, Luther levantou-se da cama e ajoelhou-se ao lado dela, cochichando 
bem baixinho ao seu ouvido:
   Eu no falei?
  Desapareceu, sem que Marianne percebesse por onde. Ela se espantou, procurando-o por todo o quarto. Como no o viu, ficou cismada. Ser que a me tinha razo? 
Ser que fantasmas no existiam realmente, e ela...
  Teve medo at de pensar. Ela no era mentirosa, ento, ser que no estaria mesmo ficando louca?

  4
  Daquele dia em diante, Luther desapareceu, e Marianne comeou a desconfiar que ele no existia no mundo real. O doutor Brown dizia que as crianas tinham uma imaginao 
muito frtil. Ross lhe explicou que aquilo queria dizer que as crianas costumavam imaginar coisas estranhas e fantsticas, como, de certo, acontecia com ela. Era 
uma menina normal, s que com uma mente frtil e muito criativa.
  Mas a vida de Marianne estava longe de ser normal, e era na escola, principalmente, que seu comportamento estranho se revelava. Naquele momento, o professor desenhava 
algumas consoantes no quadro-negro, e as crianas acompanhavam na cartilha. Todas prestavam ateno, e muitas j conseguiam formar as primeiras slabas. Apenas Marianne 
parecia alheia. Rabiscava o caderno com o lpis, desenhando formas desconexas, e s de vez em quando olhava para o professor.
  O senhor O'Neill era um homem austero e no permitia desrespeitos em sua sala. E uma aluna que no prestava ateno  aula, para ele, era uma falta imperdovel. 
Ainda mais se a faltosa fosse reincidente. Ante a distrao de Marianne, bateu com a varinha na mesa, como fazia sempre, e foi-se aproximando dela, enquanto falava 
com raiva:
   Divagando de novo, Marianne? A aula est muito aborrecida para voc? Gostaria de algo mais divertido? Que tal... aula de desenho?
  Bruscamente, arrancou-lhe o caderno, e Marianne levou um susto. Olhos baixos, sentiu que ia chorar. Parado a seu lado, o senhor O'Neill parecia maior do que realmente 
era, e ela encolheu-se toda. Cada vez mais empertigado, ele no parava de recrimin-la:
   Seu comportamento est ficando deveras impertinente. No vejo outro jeito. Terei que lhe aplicar um corretivo  ergueu a varinha bem diante de seus olhos e ordenou: 
 Vamos, estenda as mos!
  Apesar do medo e da revolta, Marianne fez como ordenado. Estendeu as mos para a frente, e o professor desferiu-lhe um golpe moderado com a varinha, fazendo surgir 
linhas vermelhas na alvura de suas palmas.
   Espero que tenha aprendido a lio  falou secamente.
  Recolocou o caderno na frente da menina e voltou para o seu lugar. As outras crianas nem respiravam. Apesar do medo que todas sentiam dele, ningum se condoeu 
de Marianne. Acharam at bem feito. No gostavam mesmo dela. Era esquisita, carrancuda, no se dava com ningum. Bem que merecera.
  Marianne, por sua vez, sentia-se triste e humilhada. Olhou para a vermelhido em suas mos e sentiu que lgrimas quentes deslizavam pelo seu rosto. Engoliu o choro. 
Se o senhor O'Neill escutasse o seu pranto, lhe daria outra bronca e poderia at bater-lhe de novo.
  Quando a aula terminou, Marianne recolheu o material e saiu. No corredor, algumas meninas conversavam e cochicharam algo quando ela passou. Depois, comearam a 
rir, olhando-a com ar de sarcasmo. Sentiu vergonha e raiva. Teve vontade de esgan-las, mas fingiu que nada percebeu e seguiu adiante.

  Do lado de fora, Ross a aguardava, como sempre. Ela chegou cabisbaixa, e ele logo percebeu que algo havia acontecido. Tomou-a pela mo, que ela puxou com um ai 
quase inaudvel, escondendo-a dentro do bolso do casaco.
          O que foi que houve?  indagou Ross, puxando a mo dela do bolso e espantando-se com o tnue vergo que ainda a manchava.  Voc apanhou?
          No foi nada.
          Como no foi nada? Ento no estou vendo? O que foi que aconteceu?
  Ela estacou debaixo de uma rvore, soltou os cadernos no cho e agarrou-se a ele, chorando copiosamente:
          Ah! Ross, no gosto da escola nem do senhor O'Neill! Ele me bateu s porque eu estava desenhando... Eu o odeio! E as outras meninas riram de mim...
  Seu corpo frgil foi sacudido pelos soluos, e Ross a estreitou com ternura, alisando seus cabelos compridos.
          No chore, Marianne. Eu estou aqui. Gosto de voc.
          S tenho voc no mundo...  balbuciou.
          No diga isso. Voc tem os seus pais e seus irmos. Eles a amam.
          No  verdade. E eu tambm no os amo. Sinto como se eles fossem estranhos para mim.
           impresso. Eles so a sua famlia, assim como eu tambm sou.
          O que ser que meus pais vo fazer quando souberem que o senhor O'Neill me bateu? So capazes de me castigar de novo.
   No diga nada.  melhor. Se o senhor O'Neill contar, no tem jeito, mas voc no precisa se antecipar. E procure prestar mais ateno s aulas. Assim, voc satisfaz 
o senhor O'Neill, no volta a apanhar e seus pais no brigaro com voc. No  melhor?
  Marianne no sabia o que era melhor, todavia, seguiu os conselhos de Ross e no disse nada. A partir daquele dia, passou a abrir o caderno e a cartilha, fixando 
os olhos no senhor O'Neill. Enquanto ele falava e gesticulava, pensava na inutilidade de tudo aquilo. Os olhos, aos poucos, iam adquirindo uma expresso de alheamento, 
e o professor imaginava se ela realmente entendia o que ele ensinava. No raras eram as vezes em que lhe fazia perguntas, porm, Marianne no respondia nenhuma. 
Abaixava e balanava a cabea, deixando o senhor O'Neill sem saber o que fazer para que ela aprendesse. 
  Faltavam trs meses para o trmino do ano letivo, e Ross estava sentado  mesa da sala, fazendo a lio de casa. A seu lado, Marianne fingia estudar, mas o que 
fazia na verdade era olhar o rosto dele, seus cabelos, seu queixo, seus olhos. Ross era um menino muito bonito, e ela iria se casar com ele.
  Percebendo que ela o encarava, Ross levantou o rosto dos livros e sorriu para ela. Em que estaria pensando? Tinha vezes em que Marianne lhe parecia to distante... 
Por que ser que era assim?
  No final da tarde, Ross fechou os livros e os cadernos. J havia estudado demais. Kate sara e no dissera aonde ia, levando consigo os outros filhos. Somente 
Ross e Marianne haviam ficado em casa.
          Sua me est demorando  observou, enquanto ela desenhava numa folha solta de papel.
          J deve estar chegando - disse despreocupada.
  Meia hora depois, Kate entrou em casa em companhia de David e das crianas. Entrou carrancuda e foi ajeitar os filhos no quarto. O pai veio vagarosamente, acomodou-se 
no sof e cruzou as mos sobre o colo, olhando fixamente para Marianne. Pouco depois, Kate apareceu com uma carta na mo. Parou diante da filha e estendeu-lhe o 
papel, que ela apanhou mecanicamente.
          Sabe o que  isso?  indagou zangada.
          No  respondeu ela com indiferena.
          Leia! 
  Marianne encarou-a aturdida, sem saber o que fazer.
          Tia Kate  interveio Ross -,        Marianne ainda no sabe ler. Est aprendendo...
          Aprendendo o qu?
          A ler...  respondeu o menino, certo de que o assunto dizia respeito ao senhor O'Neill.
           verdade, Marianne no sabe ler, embora j devesse ter aprendido.
          Se quiser, posso ler para voc...  ofereceu-se o menino.
          No  preciso. Eu j li. Mas vou ler para Marianne.  Ajeitou os culos, pigarreou e prosseguiu:   uma carta da senhora Plumer, diretora da escola: 
Meu caro senhor Landor. Sua presena est sendo solicitada na escola com urgncia, para tratar de assuntos pertinentes  sua filha, Marianne, que est tendo problemas 
com as aulas. O senhor O'Neill, nosso mais competente professor, j esgotou todos os recursos para fazer Marianne aprender a ler, sem sucesso, contudo. Como ltimo 
recurso, no vejo outra alternativa, seno cham-los, ao senhor e  sua esposa, para uma reunio em particular, onde sero discutidas as medidas que devem ser tomadas 
com relao  sua filha. Atenciosamente, Jessica Plumer. Kate abaixou a carta e encarou Marianne, que no entendera muitas daquelas palavras difceis e desconhecidas. 
Em seu ntimo, contudo, sabia bem do que se tratava.
   No estou entendendo bem  desculpou-se. No fiz nada. O senhor O'Neill no gosta de mim...
   Cale a boca!  berrou o pai, subitamente.  Quando quiser que diga alguma coisa, eu perguntarei.
  Marianne se encolheu toda e buscou Ross com os olhos. Ele quis abra-la para proteg-la, mas o olhar reprovador do tio o paralisou. Feito o silncio, David prosseguiu 
em tom de furiosa cobrana:
   Eu trabalho o dia inteiro, dou duro para sustentar esta casa e pagar-lhe uma boa escola, porque mulheres instrudas tm mais chance de fazer um bom casamento. 
E para qu? Para voc ficar pensando em suas fantasias e fazendo rabiscos no papel!
          Papai...
          Silncio! No mandei voc falar!  ela engoliu em seco e abaixou a cabea.  Pois fique sabendo que isso no vai continuar assim. Como pensa que nos sentimos, 
sua me e eu, quando lemos a carta da senhora Plumer? Ficamos envergonhados. J no basta voc ser a esquisita da escola? Tem que ser tambm a mais estpida?
  Marianne desatou a chorar, magoada pelo jeito como o pai a recriminava. Afinal, no tinha culpa se no se interessava pelas lies sem graa do senhor O'Neill.
          Tio David  intercedeu Ross -, Marianne  ainda muito pequena. Vai aprender.
          No se meta, Ross! Isso no  problema seu. Ross calou a boca e encarou Marianne, que chorava de olhos baixos. Como gostaria de pux-la pela mo e tir-la 
dali, lev-la para outro lugar, onde ningum a importunasse! Era por isso que ele seria algum na vida. Se, por um lado, Marianne no aprendia a ler, por outro, 
ele tinha muita facilidade com os estudos. Pois iria se formar, talvez como advogado, e ganhar muito dinheiro. Casar-se-ia com ela, e Marianne jamais seria repreendida 
novamente.
  Naquele momento, porm, era apenas uma criana e nada podia fazer.
   Isso no  coisa que se faa, Marianne  acrescentou a me.  Fui obrigada a perturbar seu pai no trabalho, ele pediu licena para sair mais cedo s para ir 
comigo  escola. O chefe no gostou, mas consentiu. Sem contar que tive que incomodar sua tia Jane e pedir a ela que cuidasse dos seus irmos enquanto amos conversar 
com a diretora. Se seu pai perder o emprego, a culpa ser sua!
   Minha? Mas o que foi que eu fiz?
  Sem prestar ateno ao que ela dizia, Kate continuava a falar:
   E tudo por qu? Porque voc no consegue aprender. Todas as suas colegas j aprenderam. A turma toda sabe ler. Menos voc.
   No tenho culpa...
   Tem sim!  esbravejou o pai.  O senhor O'Neill estava l tambm e nos contou que voc no presta ateno. Disse at que j a castigou com a vara, mas voc no 
toma jeito. Parece alheada, fica com a cabea no ar, no ouve o que ele diz, no se concentra. Como espera aprender assim?
   Ela no aprende porque  burra!  disparou Kate.
          Marianne no  burra!  defendeu Ross.
   Se no fosse burra, aprenderia como as outras.
   Ah! meu Deus  queixou-se Kate , o que foi que fiz para merecer uma filha assim? Uma filha estpida, que nem consegue aprender as primeiras letras!
   E como pensa que ir fazer um bom casamento?  tornou o pai.  Que tipo de marido acha que encontraremos para voc? Com certeza, algum operrio bronco e pouco 
instrudo. Sim, porque os bons partidos querem moas cultas, que saibam conversar e no faam feio em sociedade.
  Marianne no estava entendendo nada. Agora j pensavam at em casamento. Mas como, se ela ia se casar com Ross? Em sua ingenuidade, tentou expor aos pais a situao:
   Papai, se o problema  esse, no precisa se preocupar. Quando crescer, vou me casar com Ross...
   Sua tola!  vociferou David, completamente irado.  Ross  seu primo!
    verdade  confirmou o menino.  Marianne e eu j combinamos tudo...
   Casar  desdenhou David.  Voc no sabe o que diz, Ross. Pensa que seu pai vai permitir que voc se case com a prima estpida? Logo voc, que  to inteligente?
  As crianas, com medo de David, se calaram, enquanto Kate continuava em seu ataque:
   Escute aqui, Marianne, voc vai aprender a ler de qualquer jeito, ou o castigo vai ser severo.
    isso mesmo  concordou David.  No vou permitir que os outros digam por a que David Landor possui uma filha analfabeta porque no consegue entender a cartilha. 
De jeito nenhum! Ou voc aprende, ou mando voc para um colgio interno em Newcastle, e voc s vai nos ver nas frias. Entendeu?
  Marianne nem de longe imaginava onde ficava Newcastle, mas desconfiava que deveria ser muito longe de Londres. Vencida e humilhada, ela soluou e, com o pranto 
a embargar-lhe a voz, respondeu sentida:
   Sim, papai...
  A conversa estava encerrada. Pouco depois, o pai de Ross chegou e ele foi para casa, deixando Marianne sozinha. Subiu para seu quarto e fechou a porta, atirando-se 
na cama para chorar. Sentia-se s e amedrontada. No queria sair dali. Se os pais a separassem de Ross, seria melhor que estivesse morta.

  5
  Ao entrar na escola naquele dia, Marianne sentiu algo diferente no ar. As meninas todas olharam para ela ao mesmo tempo e cochicharam, algumas rindo, outras balanando 
a cabea. Em seus rostos, Marianne podia ler a reprovao e o sarcasmo.
  Sentada em sua carteira, livro aberto  sua frente, esforava-se para entender o que o professor dizia. O senhor O'Neill a olhava como se ela fosse uma aberrao. 
J no lhe dava mais muita importncia. Estava certo de que ela no era inteligente e no estava disposto a perder seu tempo com quem no tinha condies de aprender.
  Durante os dias que se seguiram, Ross entregou-se  difcil tarefa de ensinar Marianne a ler. Apanhou a cartilha, sentou-se com ela  mesa e tornou-se seu professor. 
No comeo, no foi fcil. Ela no conseguia se concentrar, pois a mente no se fixava na lio.
   Escute, Marianne  disselhe Ross, certa vez , voc tem que se esforar. Ou quer se mudar para Newcastle e nunca mais me ver?
  A ameaa fora proposital, para deix-la chocada. Ross dissera que Newcastle ficava perto da fronteira com a Esccia. Ela tambm no sabia onde ficava a Esccia, 
mas ele lhe mostrou no mapa, e pela distncia que seu dedo percorrera, indo de uma cidade a outra, percebeu que deveria ser mesmo muito longe. No queria ir. Morreria 
se fosse.
          No quero ficar longe de voc...
          Pois ento, tem que se esforar. Se no, seus pais mandam voc para l e ns no nos veremos mais. No  isso o que quer, ?  ela balanou a cabea. 
 Pois ento vamos. Tente. Sei que pode.        
  Marianne concentrou a ateno no papel e no que Ross dizia. De repente, tudo lhe pareceu fcil. O a ficou familiar, assim como as demais vogais. Em poucas horas, 
j memorizara todas. Nos dias seguintes, Ross lhe ensinou as consoantes e formou as primeiras slabas, sempre acompanhando a cartilha. Marianne ia aprendendo com 
facilidade, lendo as palavras simples que compunham as primeiras lies. Em pouco tempo, j conseguia ler algumas frases, at que, finalmente, alcanou o nvel da 
turma.        
  A pouco menos de uma semana dos exames finais, Marianne j estava pronta. Fez a prova com capricho, esforando-se para no errar. O resultado foi brilhante, e 
at o professor se espantou. 
  Marianne aprendia. Quando queria, era capaz de aprender qualquer coisa. O que acontecia era que, na maioria das vezes, no tinha vontade. Era difcil se concentrar, 
porque sua mente no se fixava em nada por muito tempo, j que nada prendia seu interesse. Distraa-se com qualquer coisa, principalmente quando voltava os pensamentos 
para Ross.
  O senhor O'Neill, apesar de rigoroso, era um homem justo  sua maneira e no pde deixar de elogiar o resultado de Marianne. Ao entregar-lhe a prova corrigida, 
a nica nota dez da turma, fez grandes elogios, no s ao seu desempenho, como  sua enorme fora de vontade, que acabara por contrariar todas as expectativas que 
tinha a respeito dela.
  Quando saiu da escola, Ross a estava esperando e correu para ela assim que despontou no topo da escada.
  E ento?  indagou ansioso.  Como foi?
  Tirei dez, Ross. D para acreditar?
  Duas meninas vinham descendo as escadas. Ao passarem por eles, ouviram o comentrio de Marianne, e uma disse bem baixinho  outra:
  No d para acreditar mesmo.
  Apesar do cochicho, Ross escutou. E Marianne tambm. Ela ficou parada no meio da escada, vendo as meninas se afastarem. No sabia se chorava ou se corria para 
esbofete-las. Ross, contudo, no lhes deu importncia. Puxou a prima pela mo e finalizou:
          Deixe-as para l. Esto com inveja. Vamos correndo contar a novidade a tia Kate.
A felicidade que sentira havia poucos minutos sbito se esvara. Parecia que aquelas meninas, com seu comentrio maldoso, haviam despertado uma raiva desconhecida 
dentro dela. Sentia raiva de tudo e de todos: dos pais, dos irmos, do professor, das colegas. S no sentia raiva de Ross.
  A seu lado, Luther caminhava com eles. Mos para trs, ia mentalmente falando para Marianne:
  Droga, cansei de esperar! Est certo que prometi no aparecer para voc e no pretendo quebrar a minha promessa. Afinal, sou um homem de palavra  riu debochadamente 
e continuou:  Mas  que est demorando muito. Pensei que voc fosse logo chamar por mim. Acontece que esse a no deixa, no  mesmo?
  Apontou para Ross, que no percebia a sua presena. S Marianne percebeu. No estava vendo o esprito, mas comeou a sentir uma estranha sensao de torpor, e 
todos os seus pelos se eriaram.
          Por isso  prosseguiu ele , resolvi dar um empurrozinho. Sabe, Marianne, as pessoas no gostam de voc, e voc se irrita  toa. Veja que tima combinao! 
Voc nem imagina como podemos nos utilizar de pessoas que nem conhecemos, mas cujas vibraes de menor lucidez facilitam o nosso acesso  riu novamente.  E depois... 
tem a sua... dificuldade.
  Bateu com a ponta do dedo na cabea de Marianne que, sentindo o cutuco, gritou espantada:
          Ai!
          O que foi?  indagou Ross a seu lado.
  A menina olhou ao redor, desconfiada. Sentira nitidamente algum bater em sua cabea. No entanto, como no via nenhum esprito, achou melhor repetir para si mesma 
que aquela voz e a sensao que a acompanhava eram fruto da sua imaginao. E a cutucada... era impresso.
  Luther soltou uma gargalhada e foi embora. Tinha outras coisas a fazer e voltaria mais tarde, quando fosse a hora.
  Finalmente, as frias de vero chegaram, e Marianne se viu livre das maantes lies. Podia passar os dias todos ao lado do primo querido, sem ter que se ocupar 
com coisas inteis.
  Sentada  mesa da varanda, construa um castelinho de cartas com Ross. Os dois estavam distrados, colocando as cartas umas sobre as outras, entusiasmados com 
a altura da construo. O irmozinho de Marianne, Kevin, de apenas trs anos, puxou uma cadeira e, auxiliado por Ross, sentou-se  mesa para olhar. Estava admirado. 
O castelo ia subindo cada vez mais, e ele olhava, extasiado, as cartas que balanavam sem cair.
  De to admirado, estendeu a mozinha para a frente, na esperana de apanhar alguma. Como Marianne no permitia, fez um gesto mais brusco e acabou por esbarrar 
no castelo, que se desmanchou com leveza. Ross riu e gentilmente puxou a mo do menino, falando com brandura:
  - Seu danadinho. Entregou o castelo do primo.
  Kevin riu gostosamente e olhou para Marianne, que o fuzilava com o olhar:
  - Seu garotinho intrometido!  gritou ela, apertando a mo dele.  Quem mandou?
  Na mesma hora, Kevin desatou a chorar, tentando soltar a mo que Marianne apertava.
  - Solte-o, Marianne  pediu Ross.  Ele no tem culpa.  pequenino.
  -  um idiota, isso sim! Por que no se mete com os seus brinquedos?
  Kevin esperneava, tentando livrar-se das garras da irm. A me, ouvindo o choro do filho, veio correndo l de dentro e parou estupefacta.
  - O que est fazendo, Marianne?  censurou aborrecida.  Largue j o seu irmo!
  - No largo! Ele  um intrometido!
  Deu-lhe um belisco no brao, e Kevin soltou um grito estridente, deixando Kate plida de horror e indignao. No podia permitir que a filha machucasse os menores. 
Sem nem pensar, desferiu uma bofetada no rosto de Marianne, que comeou a chorar tambm.
  - Isso se faz com seu irmo?  esbravejou Kate.  Uma menina desse tamanho! Que covardia!
  Marianne encarou-a com raiva. Aquele tapa doa-lhe imensamente, e ela retrucou, com a mo no rosto:
  - Voc me bateu!
  - Bati e bato de novo, se voc no se comportar. No vou permitir que maltrate seu irmo, que  muito menor que voc.
  Com olhar ensandecido, Marianne comeou a se levantar e teria avanado na me de Ross no a impedisse.
   Nem se atreva!  zangou ele.
   Mas Ross, ela me bateu! Voc viu.
   Ela  sua me, e voc no tem o direito de desafi-la.
   Voc tambm est contra mim?
   Ningum est contra voc.
   Est sim! Vai trocar de lado, ? Vai defender essa mulher?
   Isso l  jeito de se referir a sua me, menina?  objetou Kate indignada.
   Voc no  minha me!
  Kate perdeu a cabea. Colocou Kevin no cho e desferiu novo tapa no rosto de Marianne, dando-lhe violento puxo de orelha.
   V j para o quarto, de castigo! E hoje, no tem jantar!
  Saiu puxando Marianne pela orelha, com Ross atrs, tentando contornar a situao. Kate, contudo, estava perplexa e furiosa. Arrastou Marianne pelas escadas e trancou-a 
no quarto. Do lado de fora, Ross ainda ponderava:
          Por favor, tia Kate, ela no fez por mal.
          Ela tem que me respeitar.
          Sei que ela errou, mas foi sem maldade. Por favor, deixe-me ficar com ela.
          No! Marianne precisa aprender. E vou contar tudo ao seu pai, Marianne, est ouvindo?  berrou, com a boca encostada na porta.
  Barulhos no corredor e na escada indicavam que a me havia ido embora, levando Ross com ela. Sozinha, veio o arrependimento. Marianne no compreendia por que dissera 
aquelas coisas nem por que beliscara o irmo. No queria fazer nada daquilo, mas de repente, no conseguiu se controlar. Uma fria desmedida se apoderou dela, despertando 
o desejo de maltratar o menino. No faria mais aquilo.
  Da prxima vez, conseguiria se controlar. Se no por ela, ao menos por Ross, que era seu amigo e no merecia passar por aquela situao.
  Marianne no sabia, mas, a partir da, dificilmente conseguiria se controlar outra vez.

  6
  Com as mos mergulhadas na bacia, Kate esfregava as roupas, pensando no que fazer com a filha. A cada dia, Marianne se tornava mais estranha. No comeo, era s 
arredia. Agora demonstrava uma agressividade crescente. O episdio com Kevin fora preocupante, mas ela no comentara nada com David, com medo da sua reao.
  Estava ficando difcil controlar Marianne. O vero ainda no havia terminado, e ela passava os dias em casa, brincando sozinha ou com Ross. Kate no entendia por 
que Ross era o nico a quem ela escutava. Parecia mesmo ser o nico de quem gostava. Levantou os olhos da bacia e vistoriou o quintal, onde as crianas brincavam.
  Do outro lado, Roger atirava pedras com um estilingue, tentando acertar as frutas maduras que pendiam dos galhos mais altos. Como no conseguia sucesso, resolveu 
subir na rvore. L em cima, esticou-se o mais que pde, na tentativa de apanhar as frutas. Mas elas estavam fora de seu alcance, e ele foi se esticando mais e mais, 
sem perceber que o galho em que deslizava era muito fino e no aguentaria seu peso. No demorou muito, e este se partiu. Roger caiu em queda livre, soltando um gemido 
de dor quando bateu no cho.
  Vendo o filho cado, chorando e gemendo, Kate largou a bacia e o sabo e correu, ao mesmo tempo que Ross, que tambm escutara os gritos do primo. Marianne estava 
com ele, desenhando num caderninho branco, e nem se mexeu. Apenas levantou os olhos e espiou na direo do barulho para, em seguida, concentrar sua ateno nos desenhos 
novamente.
  Kate e Ross alcanaram Roger quase ao mesmo tempo, e a me falou afobada:
          Roger, meu filho, o que foi isso? Machucou-se?
          Ai, ai, mame, ai!
  O menino chorava, segurando o brao arranhado, onde um calombo crescia na altura do cotovelo.
          Depressa, Ross  falou Kate.  V chamar o doutor Brown.
  Na mesma hora, Ross saiu desabalado a caminho do consultrio mdico.
          Ele est atendendo um paciente  informou uma senhora na antessala.  Vai ter que esperar.
  Ross acomodou-se na poltrona para esper-lo. Quando, por fim, ele apareceu, foi logo falando:
          Doutor Brown, doutor Brown! Tia Kate o est chamando. Foi o Roger... Caiu e machucou o brao.
  O doutor Brown passou a mo na cabea de Ross e falou bondosamente:
          Diga a sua tia Kate que agora no posso ir. Ainda tenho alguns clientes para atender. Fale para ela colocar o menino na cama e fazer-lhe uma compressa 
com gua fria. Mais tarde, irei v-lo.
  Enquanto isso, Kate j havia colocado Roger na cama e pusera-se  espera do mdico. Por momentos, esquecera-se dos outros filhos, que continuavam sozinhos no quintal. 
Pela janela, ouviu-os choramingar l embaixo, chamando por ela. Mais adiante, Marianne continuava com seus lpis e papis, sem se importar com o que faziam.
          Marianne!  chamou Kate. A menina ergueu os olhos e encarou a me, sem responder.  Traga seus irmos para cima. Precisamos esperar o doutor Brown.
  De forma mecnica, Marianne se levantou, apanhou Suzie no colo de qualquer jeito, pegou Kevin pela mo e saiu puxando-o. Fazia algum tempo que o menino sentia 
medo da irm, e foi esse temor que fez aumentar o seu pranto. Marianne no tinha a menor pacincia com ele nem era carinhosa. Obedecia ao comando da me, sem se 
dar conta de que puxava o garoto como se ele fosse um fardo, ao invs de uma criana.
  Os gritos de Kevin chegaram aos ouvidos de Kate, que foi para a janela novamente, deparando-se com uma cena que julgou revoltante.
          Tenha calma, Roger  disse para o filho machucado.  Mame vai l embaixo e j vem.
  Rodou nos calcanhares e desceu as escadas feito uma bala, alcanando Marianne quando ela j estava na porta da cozinha.
          O que pensa que est fazendo?  perguntou zangada.
  Marianne no entendeu bem a pergunta e respondeu com simplicidade:
          Estou levando os dois para cima.
  Kate sentiu o sangue subir-lhe s faces. Marianne parecia estar debochando dela, o que lhe causou imensa irritao. Na verdade, Marianne estava apenas obedecendo. 
Recebera ordens de subir com as crianas, e era isso o que fazia. Por sua cabea no passava que deveria ser carinhosa ou cuidadosa. Tinha que fazer o que a me 
mandava.
  Ela tambm era pequena e procurou segurar os irmos da melhor forma possvel, de um jeito que seu corpo franzino suportasse. E o melhor jeito era aquele. Para 
a me, parecia que segurava e arrastava dois fardos. Para ela, simplesmente obedecia, e o fazia da nica maneira que conseguia.
  Inesperadamente, Kate partiu para cima dela, arrancou-lhe Suzie do colo e puxou Kevin de sua mo, acomodando os dois no cho, perto da pia. Em fraes de segundo, 
voltou e acertou sonora bofetada em Marianne, causando-lhe genuno espanto.
          Sua desaforada!  vociferou Kate.  Isso  jeito de falar com sua me? Onde foi que aprendeu esse cinismo?
  Marianne nem sabia o que era cinismo e, por isso, no respondeu. Ficou parada no mesmo lugar, com a mo sobre a face, encarando a me com frieza. Cada vez mais 
irritada, Kate continuava a esbravejar:
          No estou aguentando mais os seus desaforos! Isso no vai ficar assim. Algum precisa dar um jeito em voc!
  A menina no dizia nada. Continuava olhando para a me com cara de quem no a conhecia. Achava mesmo que aquela mulher no era sua me, mas uma estranha, que gritava 
com ela sem motivo algum.
   Pea desculpas, Marianne!
  Desculpas por qu? Ela no sabia. No havia feito nada de errado. Por que haveria de se desculpar?
   Pea desculpas, ande! Estou lhe avisando: ou pede desculpas, ou vai apanhar novamente!
  Marianne nem piscava. Furiosa, Kate segurou-a pelos braos e arrastou-a at a poltrona da sala. Sentou-se apressadamente e virou a menina de bruos sobre suas 
pernas, acertando-lhe diversas palmadas nas ndegas.
   Sua pirralha malcriada! Vai ter o que merece!
  Sentindo a dor das palmadas, Marianne comeou a gritar e a se remexer, tentando se desvencilhar do jugo da me. Kate, contudo, no aliviava. Continuava a bater 
com fora, sem nem se importar com os gritos amedrontados de Kevin e Suzie.
          Pea desculpas, vamos!  gritava, cada vez mais zangada.  Estou mandando, pea desculpas!
  Marianne berrava de dor. Parecia mesmo um animal ferido. Mas no pedia desculpas. Ao contrrio, comeou a xingar a me com selvageria:
          Cretina! Miservel! Desgraada!
  Kate saiu do srio. Era muita falta de respeito. Em dado momento, Marianne conseguiu se desvencilhar e correu para a porta, e Kate partiu em seu encalo. Apanhou-a 
pelos cabelos, dando-lhe tapas a esmo. Os golpes acertaram-na no rosto, nos braos, no peito, em todo lugar.
  Foi quando Ross chegou. Vendo aquela cena horrorosa, correu em direo a elas e segurou o brao da tia, implorando em desespero:
          Pelo amor de Deus, tia Kate! Solte-a! Ela  apenas uma menina!
  Ele tinha razo. Marianne era apenas uma criana, mas fazia coisas que crianas normais no eram capazes de fazer. Os gritos desesperados do sobrinho a trouxeram 
de volta  razo, e Kate soltou os cabelos da filha, cessando os golpes. Marianne, aos prantos, foi escorregando at o cho, ocultando o rosto entre as mos e dando 
livre curso s lgrimas.
  J arrependida, Kate tentou ergu-la, em vo. Marianne no queria sua ajuda e se desviou dela, estendendo as mos para Ross, que a ajudou a se levantar. Os dois 
subiram as escadas lentamente, e Ross ainda teve tempo de lanar um olhar de conforto para a tia, ao passo que Marianne evitou encar-la.
  No quarto, Marianne no disse nada. Foi para a cama, deitou-se e esperou at que as lgrimas secassem. Enquanto Ross lhe alisava os cabelos, foi-se acalmando e, 
poucos minutos depois, adormeceu. De vez em quando, agitava-se no sono, sacudida por um soluo perdido.        
  Certificando-se de que ela dormia profundamente,        Ross beijou-lhe os cabelos e saiu, fechando a porta sem fazer barulho. Pegou a direo do quarto dos primos, 
onde a tia estava, apalpando o brao de        Roger. Os outros dois, sentados no cho perto dela,
se distraam com alguns bichinhos de pano.        
          Tia Kate...  chamou baixinho.
  A tia fez sinal para que ele entrasse e, tentando no pensar em Marianne, indagou:
          Onde est o doutor Brown?
          Est atendendo uns clientes. Disse para voc fazer compressas de gua fria no brao de Roger at que ele possa vir v-lo.
          Muito bem. Fique aqui e tome conta deles.
  O menino sentou-se ao lado de Roger, que acabara adormecendo, o brao, roxo e inchado, apoiado num travesseiro. Kate acariciou a testa do filho e, antes de sair, 
perguntou meio sem jeito: 
   E Marianne?
  Havia tanta angstia no olhar do sobrinho que ela        quase chorou. Ross abaixou os olhos com tristeza e        respondeu num sussurro: 
          Est bem. Est dormindo. 
  Kate balanou a cabea e saiu para o corredor Parou em frente  porta do quarto da filha e colou o ouvido  porta. Silncio. Vagarosamente, rodou a        maaneta 
e entrou. Marianne dormia profundamente, o rosto e os braos cheios de hematomas. Sentiu o remorso corroer-lhe a alma. A filha podia ser meio esquisita, mas era 
ainda uma criana e no tinha culpa de ser do jeito que era.        
  O mdico veio mais tarde e examinou o garoto. No fora nada de mais, apenas uma pequena toro. Enfaixou o brao de Roger e receitou arnica para diminuir a dor 
e a inflamao. Em pouco tempo estaria bom.
  Ao cair da noite, David chegou e foi colocado a par do acidente com Roger e do incidente com Marianne.
          Temos que tomar uma providncia  comentou David.  Isso no pode ficar assim.
          Eu sei. Ela est se tornando cada vez mais agressiva e debochada.
          Onde ser que anda aprendendo essas coisas? Ser que  com Ross?
          No creio. Ele  um menino muito educado e corts. Jamais me respondeu mal ou fez qualquer m-criao.
          Na escola no deve ser.  um dos melhores colgios para meninas da regio.
          No sei no... s vezes fico pensando. Ser que ela no tem nenhum problema mental?
          No diga besteiras. Marianne  rebelde e malcriada. S isso. Mas no se preocupe. Eu mesmo darei um jeito nela.
          No faa nada por enquanto. J basta a surra que lhe dei. Sei que me excedi e acho que no deveramos puni-la outra vez.
  Kate encerrou o assunto, mas David no se convenceu. Alguma coisa dentro dele o deixou inquieto. No fundo, no achava nenhuma besteira a possibilidade de Marianne 
ter mesmo algum problema mental. J havia reparado nisso. Nos ltimos dias, olhando para a filha, ficou imaginando se ela no seria meio retardada. Marianne fazia 
coisas muito estranhas. Era rebelde, no se relacionava com ningum. E agora, Kate lhe dizia que estava ficando agressiva e debochada. Alm de tudo, parecia no 
se importar com nada. Os problemas da famlia no a afetavam, e ela no se interessava pelos irmos. Podiam estar bem ou doentes. Para ela era indiferente. Marianne 
no era uma menina afetiva.  exceo de Ross, no se dava com ningum.
  David virou para o lado e tentou dormir. Se suas desconfianas estivessem corretas, seria muito doloroso para todos. Sem falar na vergonha. Ter uma filha maluca 
no era do agrado de ningum. Poderia at comprometer o seu cargo na empresa e o futuro dos outros filhos. Mas o que poderia ele fazer? Lev-la ao tal psiquiatra? 
Intern-la? Talvez fosse a melhor ou a nica soluo.
  O difcil seria convencer a mulher, que era muito apegada aos filhos. Precisava dar tempo ao tempo. Mais tarde, tomaria as providncias que se fizessem necessrias.

  7
  O vero havia chegado ao fim e, com ele, tambm as frias escolares. Apesar de nada animada com a volta s aulas, Marianne foi para a escola como sempre. Conseguira 
passar de ano, e o senhor O'Neill, que as acompanharia durante todo o curso primrio, deu as boas-vindas  turma.
  No final das aulas, Ross l estava para acompanh-la. De mos dadas, seguiam seu caminho, como sempre faziam. Naquele dia, porm, algo estranho acontecera. O pai 
de Ross voltara mais cedo do trabalho e deixara ordens para que ele fosse imediatamente para casa.
  Ross entrou devagarzinho. O pai estava sentado na sala, anotando nmeros num papel. Quando viu o menino, soltou o lpis e sorriu, fazendo sinal para que ele se 
aproximasse.
          O que foi, papai?  indagou desconfiado.  Foi despedido?
  Nathan deu um sorriso maroto, apertou de leve o nariz do filho e respondeu bem humorado:
          No, meu filho, no fui despedido. Fui promovido.
          Promovido?
          . Agora sou chefe de produo. Vou ganhar mais e poderei lhe dar uma vida melhor.
  - Que bom, pai! Voc merece.
  - O senhor Bradley, meu patro, est to satisfeito com o meu trabalho que me promoveu e me deu um aumento, deixando-me o resto do dia de folga. Por isso, vim 
logo para casa, a fim de lhe contar as novidades.
  - As novidades? Tem outra?
  Nathan pigarreou e comeou a falar, cautelosa e pausadamente:
  - J faz alguns anos que sua me morreu... Sua tia Kate tem sido muito boa para voc, e eu lhe serei eternamente grato. Contudo, creio que chegou a hora de voc 
ter uma me de verdade.
  - Me de verdade? Como assim? J tenho tia Kate.
  - Eu sei...  balbuciou, evitando encar-lo.  Como disse, serei eternamente grato a sua tia. Entretanto, ainda sou jovem, e voc, uma criana.
  - O que est tentando me dizer?
  Ele pigarreou novamente, sentou o menino em seu colo e disparou:
  - Faz algum tempo que conheci uma moa... Seu nome  Lilian, e... vamos nos casar.
  Ross no sabia o que dizer. No sabia se a novidade era boa ou ruim.
  - O que isso vai mudar em nossas vidas?
  - No vai mudar nada. Lilian  uma boa moa. Tenho certeza de que voc vai gostar muito dela. Essa semana pretendo apresent-la a voc e ao resto da famlia. J 
falei com David e Kate, e sua tia concordou em preparar um jantar aqui em casa, no sbado. Assim, todos podero se conhecer.
  - Por que no me contou antes?  rebateu ele magoado.  Por que no me disse que estava saindo com algum?
  - Bem, esses no so assuntos que se converse com crianas.
        
  - Sou seu filho.
          Ainda assim. Mas no se preocupe. Tenho certeza de que vai gostar dela, e ela de voc.
  Lilian era uma mulher muito esnobe e antiptica, e ningum simpatizou com ela. Tinha idias extravagantes sobre a criao dos filhos e no achava certo misturarem-se 
crianas de sexos diferentes. Era uma clara referncia  amizade entre Ross e Marianne, com quem implicara desde o incio.
          Meninos so diferentes de meninas. Pensam coisas diferentes, agem de forma diferente, gostam de coisas diferentes. No fica bem meninos e meninas dormirem 
no mesmo quarto, por exemplo.
          Nem quando so primos?  quis saber Ross, preocupado.
          Nem assim. Quando bem pequeninos, ainda v l. Mas depois que entram para a escola, suas cabecinhas comeam a se modificar, e sabe-se l o que pode vir 
a acontecer.
  Kate tossiu de leve e indagou:
          No acha que est sendo severa demais, Lilian?
          Lilian teve educao muito rgida  explicou Nathan.
           verdade  acrescentou Lilian.  Fui criada num dos bairros mais tradicionais de Londres e duvido que l um filho no se refira ao pai como senhor. De 
onde vim, as coisas so diferentes.
  Outra clara aluso a eles. As famlias de Ross e Marianne no eram muito ligadas a formalidades, o que parecia aborrecer Lilian.
          Mas aqui tambm  Londres!  cortou Ross, indignado com aquela excluso.
          , mas  diferente  respondeu Lilian, de m vontade.  As crianas de l no andam soltas como as daqui.
          Perdo, Lilian  era Kate novamente.  Fala em l e aqui como se estivesse se referindo a cidades diferentes, como se fssemos provincianos ou roceiros. 
E depois, nossas crianas no andam soltas. Do jeito como fala, parece que as criamos em meio  promiscuidade.        
  Sentindo o rubor cobrir-lhe as faces, Lilian tratou de se desculpar: 
          No foi o que quis dizer. 
  Percebendo o mal-estar que se instalara, David mudou de assunto:        
          Confesso que foi uma surpresa para ns esse noivado assim to repentino. Nathan nunca nos falou nada a respeito. 
           que no queria precipitar as coisas  esclareceu Nathan.  E depois, tinha o Ross. No queria que ele ficasse preocupado. 
  Ross no conseguia ver onde estava o problema em saber, mas no disse nada. No gostou de Lilian e olhou discretamente para Marianne, que comia        um pedao 
de pudim e parecia nem se dar conta do que estava acontecendo. Mera iluso! Marianne se roia por dentro, certa de que aquela mulher ainda acabaria lhe causando problemas.        
          Como foi que se conheceram?  tornou David, fingindo interesse. 
          Depois que meus pais morreram, tive que me arranjar  esclareceu Lilian.  Procurei emprego, mas no consegui nada. At que uma amiga me falou de uma 
vaga de fiandeira.        
          Trabalha na mesma fbrica em que Nathan?  indagou Kate.        
          Sim  respondeu ele.  No mesmo setor. Lilian  uma de minhas subordinadas.
  Estava tudo explicado. Kate olhou de soslaio para        o marido e percebeu que ele tambm compreendera. Aquela Lilian era uma interesseira. Estava s no mundo, 
sem ningum que a amparasse, e viu em Nathan um homem tolo o bastante para sustent-la. Nathan no quisera estudar feito David. Podia no ser rico, mas agora, com 
a promoo, melhoraria um pouco de vida.
   E voc pretende continuar trabalhando depois do casamento, Lilian?  tornou David, em tom de malcia.
   No!  exclamou Nathan.  Imagine se vou deixar minha mulher trabalhar fora! Lilian no vai         mais precisar disso. O que vou ganhar ser suficiente para 
nos sustentar com um certo conforto.
  Nathan segurou a mo de Lilian por cima da mesa, e ela lhe endereou um sorriso em que apenas ele no identificava a farsa. Marianne achou que aquela mulher sorria 
feito uma bruxa, e em sua cabea j se delineava o rosto enrugado e o nariz pontiagudo, coberto de verrugas. Precisava ter cuidado com as vassouras. Se no, correria 
o risco de v-la voando defronte a sua janela numa noite de lua cheia.
  Nada do que ningum dissesse teria demovido Nathan da ideia de se casar. Os planos j haviam sido feitos, e tudo estava devidamente arranjado, de forma que, em 
trs meses, o casamento se realizou. O casal seguiu em viagem de lua de mel para Canterbury, deixando Ross hospedado na casa dos tios. Foi uma alegria para os dois. 
Se antes j no se largavam,
 falou agora ento, iam dormir juntos e acordavam juntos. Ao contrrio de Lilian, Kate no se importava que ele dormisse no quarto da filha. Ambos eram primos, e 
ningum levava a srio aquela histria de casamento. E depois, que mal poderia haver?
  Kevin e Roger dormiam em outro quarto, e Suzie, por ser ainda muito pequenina, dormia junto com os pais. David montou uma cama de armar no quarto de Marianne, 
e Ross quase se mudou para l. No fundo, at que apreciavam a companhia do menino. Alm de muito educado, a presena de Ross fazia um grande bem a Marianne. Desde 
a sua chegada, sua melhora era visvel. Apesar de ainda continuar meio alheia a tudo, j no estava to agressiva e passou a se interessar mais pelos estudos.
  A lua de mel durou apenas uma semana. Fora o mximo que Nathan conseguira junto ao patro, e at que fora muito. De volta ao lar, retomou suas obrigaes e deixou 
Lilian  vontade para cuidar da casa e do filho. A curta estada de Ross em casa de Marianne havia terminado, e a melhora que ela experimentara naquela semana desapareceu 
em poucos segundos. Quando viu Ross atravessar o quintal rumo  sua prpria casa, Marianne caiu em profunda depresso.
          No fique triste  consolou a me.  Tudo vai continuar como antes. Ross s foi para casa, que  logo aqui ao lado. Daqui a pouco ele volta, voc vai 
ver.
  No foi o que aconteceu. A ida  escola seguiu como sempre, contudo, na volta, veio a primeira surpresa. Em casa de Marianne, a mesa estava posta apenas para dois, 
e no para trs, como era de costume. Roger, Kevin e Suzie, como eram pequenos e no precisavam ir  escola, comiam mais cedo, e Kate deixava para almoar em companhia 
da filha e do sobrinho.
          O que foi que houve, tia Kate?  indagou Ross preocupado.  Almoou mais cedo hoje, foi?
  Kate fitou-o com desgosto e respondeu desanimada:
          No. Lilian veio aqui e deixou ordens para voc ir para casa assim que chegasse. Disse que, de hoje em diante, no preciso mais cuidar de voc.
          O qu?  indignou-se Marianne.
          Isso  ridculo  observou Ross irritado. No vou.
   Lamento, mas voc tem que ir. Lilian agora  quem manda.
   No quero. Ela no  minha me. Voc  que .
          No posso fazer nada  retrucou Kate emocionada, esforando-se para no chorar.      
    Eu tentei argumentar, dizendo que voc e Marianne estavam acostumados a almoar e estudar juntos. Mas ela disse que no, que voc deveria ir e que, daqui para 
a frente, as coisas seriam diferentes.
          Ela no pode mandar em mim assim.
          Pode sim. Ela  a mulher do seu pai. Sua madrasta. Tem mais direitos sobre voc do que ns.
  Ross olhou para Marianne com imenso desgosto e percebeu que seus olhos iam se enchendo de lgrimas. A menina agarrou-se a ele e comeou a gritar:
          No vou deixar, Ross! No vou! Ela no pode lev-lo embora!
          Solte-o, Marianne!  ordenou a me.
          No solto! Aquela bruxa...! Vai ver s uma coisa!
          No fale assim de sua nova tia.
          Ela no  minha tia! No  nada minha! Nem de Ross tambm!  apenas uma bruxa velha, feia e horrorosa...!
          Voc no tem mesmo nenhuma educao, menina!
  Ouvindo essa voz estranha, todos se voltaram ao mesmo tempo. Parada na porta da cozinha, Lilian encarava Marianne com ar de censura. Como Ross demorava a aparecer, 
resolvera ir, ela mesma, cuidar daquele assunto. Marianne era uma pssima influncia para o menino. Pelo que Nathan contara, era agressiva e mal-educada, fato que 
agora constatava pessoalmente.
          Ross j estava de sada  disse Kate, sem graa  No  mesmo, Ross?
  Ele encarou a tia com ar de splica, e Marianne respondeu com raiva:
  No estava no. Ele no vai!
          Ah! vai sim  contestou Lilian.  E no vai ser uma menina mal-educada feito voc quem ir impedir.
  Lilian adiantou-se e colocou a mo no brao de Ross, tentando pux-lo para fora. O menino enrijeceu o corpo e fez uma cara de zanga, enquanto Marianne soltava 
gritos esganiados:
          Solte o Ross, sua bruxa! Voc no  a me dele! Minha me  que !
          Fique quieta e no se meta!  respondeu Lilian, furiosa.  Voc no  boa companhia para Ross!
          Espere um momento!  intercedeu Kate, enfurecida.  Sei que voc tem idias diferentes sobre como educar os filhos, mas isso no lhe d o direito de vir 
aqui insultar a minha filha. Marianne  apenas uma criana.
          Que no tem um pingo de educao.  no que d, deixar os filhos largados por a.
          No vou permitir que voc venha a minha casa me destratar ou a minha famlia. Alis, no me lembro de hav-la convidado.
          Vim buscar o Ross. Ele tem que me obedecer. Kate estava furiosa. Fitou o menino com ar de autoridade a falou decidida:
          V com sua madrasta, Ross.
          Mas me...  contestou Marianne.
          Deixe  cortou Kate.  Depois teremos uma conversa com seu tio Nathan.
          Eu no quero ir  rebateu o menino.  Ela no manda em mim.
          Mando sim, seu atrevido  repreendeu Lilian.  No aprenda a ser malcriado tambm.
          V, Ross, estou dizendo  insistiu Kate.  Depois conversaremos.
  Vendo que no tinha sada, Ross obedeceu. Lilian tentou segurar-lhe a mo, mas ele a puxou bruscamente. Esperou que ela passasse e saiu atrs dela.
          At logo  falou ela secamente.
  Kate no respondeu. Segurou a filha, que chorava descontrolada, e estreitou-a contra o peito. Talvez aquele tenha sido um dos poucos gestos de carinho de Kate 
para com Marianne, e a menina, sentindo-lhe o afeto, agarrou-se a ela e desabafou confiante:
          Ah! Me... me! Ross  tudo o que tenho.
          Sossegue, Marianne. Seu pai dar um jeito.
  S muito tempo depois foi que Marianne se acalmou, embalada pelo amor da me. Todavia, recusou-se a comer, deixando Kate preocupada e cheia de raiva de Lilian 
e de sua incompreenso.

  8
  Quando David entrou na cozinha da casa do irmo, a havia acabado de jantar.
    noite, Nathan... Lilian...
   Ah! David, boa noite  respondeu o irmo. Entre, entre. Acabamos de jantar. Aceita uma xcara de caf?
   No, obrigado... Ser que poderamos conversar um instante?
  Nathan assentiu e levantou-se da mesa, indo com ele para a sala. David seguiu-o em silncio e sentou-se no sof, olhando-o sem saber por onde comear. 
  - Muito bem  falou Nathan.  O que foi que houve?
  Davi pigarreou e olhou na direo da cozinha, onde Lilian tirava a mesa do jantar, atenta s vozes do marido e do cunhado.
   Bem comeou David ,  sobre o Ross.
  - O que tem ele? Fez alguma coisa errada?
  - No se trata disso. Ross sempre foi um menino muito educado. E voc sabe o quanto ele  amigo de Marianne.
  - Sei...
  - Quando sua mulher morreu e voc veio para c, Rossi era pouco mais do que um beb, e Kate cuidou cuidou dele como se fosse seu prprio filho. Mesmo depois que 
as crianas nasceram, Kate continuou se dedicando a ele.
          Eu sei. Ningum  to grato a Kate como eu. Ela foi uma verdadeira me para Ross durante todos esses anos.
          Voc sabe o quanto as crianas se apegaram a ele. Principalmente Marianne.
          Eu sei. Eles so como irmos.
          Pois . Por isso  que no entendo por que agora voc pretende afast-los.
          Quem disse que quero afast-los?
          Da forma como sua esposa agiu hoje, nem foi preciso dizer.
          O que tem Lilian a ver com isso?
          Ela no lhe contou?
          O qu?
   sua maneira, Lilian contara a Nathan sobre o episdio embaraoso na casa de Kate. Fora apenas um leve desentendimento, ela dissera, nada com que devesse se preocupar. 
Pequenas divergncias na educao do menino, de que ela agora pretendia, pessoalmente, cuidar.
          Caso no saiba  prosseguiu David , Lilian foi hoje  nossa casa buscar Ross na hora do almoo e no o deixou ficar...
          Ora, isso no  nada. Lilian est apenas assumindo seu papel de esposa e me. No h mais motivos para que Ross continue dando trabalho a Kate.
          No foi isso que pareceu. Lilian foi muito arrogante com Kate e Marianne, insinuando que ela no  companhia para Ross.
          Ela disse isso?
          Disse.
   Kate no deve ter entendido direito.
   Entendeu sim. Lilian chamou Marianne de mal-educada. O que ela pensa? Que no damos educao a nossa filha?
   Voc tem que concordar que Marianne no  l nenhum exemplo de boa educao, no  mesmo?
  David sentiu o rosto arder. Era a primeira vez que o irmo se referia  sobrinha daquela maneira. At ento, nunca dissera nada. Ao contrrio, parecia at gostar 
da menina e nunca se importou com a amizade entre ela e Ross.
   Voc sabe que Marianne  uma menina diferente  prosseguiu David, tentando conter a indignao. E sabe o quanto a amizade de Ross  importante para ela. Se 
os afastar, estar condenando Marianne.
   Condenando Marianne a qu?
   Ela  nervosa e agressiva. Ross  o nico a quem ela escuta. O que poder acontecer se Ross desaparecer de repente?
   Acho que voc est exagerando. Lilian foi apenas busc-lo para almoar em nossa casa, a refeio que ela prpria preparou para ele.
   E no deixou que voltasse  tarde.
   Porque tinha que estudar.
   Por que no permitiu que ele estudasse l em :asa, como sempre fez? Voc sabe que ele tambm ajuda Marianne com os deveres.
   Talvez esteja na hora de Marianne aprender a se virar sozinha. Ela  muito dependente de Ross, e isso no  bom para nenhum dos dois. Afinal, Ross tambm  apenas 
uma criana. No deveria ficar com essa responsabilidade toda.
  - Se voc pensa assim, ento no vejo mais motivo para continuarmos essa conversa.
  Ele foi-se levantando para sair, mas Nathan ergueu-se diante dele, barrando-lhe a passagem. 
   Ora, vamos, David. No vamos brigar, no  mesmo? Somos irmos. No,        ficar desse jeito. Olhe, no se preocupe.  claro que Ross no vai se afastar de 
Marianne. Eles apenas no se vero tanto. Ross vem da escola, almoa, faz seus deveres e depois,  tardinha, vai visitar vocs. Ento? O que acha?
  David no respondeu. Empurrou o irmo para o lado e murmurou um boanoite, que ele retribuiu apenas com um aceno. Depois que ele se foi, Nathan foi at a cozinha, 
onde Lilian acabava de enxugar a loua do jantar. Sentou-se, serviu-se de uma xcara de caf frio e ficou vendo-a cuidar de seus afazeres.
   Onde est Ross?  indagou aps alguns minutos.
          J foi se deitar.
          To cedo?
          Isso no  mais hora de criana estar acordada. Francamente, Nathan, voc acostumou muito mal esse menino.
  Ele deu um suspiro e coou a testa. Ao final de alguns segundos, considerou:
     Ser que  certo o que est fazendo?
          Como assim?
          Voc sabe, o Ross... Ele e Marianne esto acostumados um com o outro.
          Ela no  boa companhia para ele.
          Por que diz isso? Ela  s uma menina.
          Uma menina mal-educada e arrogante. Aposto como exerce uma influncia daninha sobre o Ross.
          No sei no. Eles foram criados juntos. So muito apegados. No sei se  certo separ-los assim.
           para o bem de ambos, voc vai ver. Daqui a pouco, Marianne j vai estar uma mocinha. O que pensa que os outros diro, vendo-a o tempo todo agarrada 
 barra da cala do primo?
          David e Kate no gostaram.
   Eles tambm se acostumaro. Esto com cimes, s.
          Gostaria de lhe pedir uma coisa.
          O que ?
          No impea Ross de ver Marianne. A menina  meio esquisita.
          Mais um motivo para afast-los.
          No, falo srio. Marianne sempre foi uma menina estranha. No tem amigos, no brinca com as outras crianas, no gosta de festas nem de folguedos. S 
gosta do Ross.
          Ela est  mal-acostumada, isso sim. Gosta de Ross porque ele faz todas as suas vontades.
          De qualquer forma, no gostaria de separ-los. No se esquea de que devo muito a Kate, que foi uma verdadeira me para ele.
          Ele no precisa mais de Kate.
          Mas eu no posso ser ingrato. Kate fez por ele muito mais do que qualquer madrasta faria.
  Lilian encarou-o com mgoa e, voltando as costas para ele, respondeu com dissimulado rancor:
          J entendi tudo. No sou preo para Kate, no ? Ela  a me perfeita, a mulher ideal. Pena que j  casada com o seu irmo, ou vocs poderiam juntar 
as duas famlias.
          Jamais repita uma infmia dessas!  aborreceu-se Nathan.  Kate  minha cunhada, merece todo o meu respeito.
          E eu sou sua mulher. No mereo tambm o seu respeito?
          No se trata disso.
          Voc no confia em mim.
           claro que confio!
          No entanto, no me d autoridade sobre seu c. Que confiana  essa?
          No quero desautoriz-la nem impedi-la de dar ao menino o tratamento que julgar mais adequado. S o que lhe peo  para ir com calma. Traga-o para casa 
aps as aulas, faa-o almoar e estudar aqui. Mas depois, deixe-o ir. At a hora do jantar, pelo menos.
  Ela fitou-o novamente, respirou fundo e retrucou
          Est bem. Farei como voc quer porque o amo e quero evitar discusses. Mas fique sabendo que no concordo com isso!
  No dia seguinte, Ross apareceu para buscar Marianne para irem  escola. Ela nem podia definir a alegria que sentiu. Passara todo o dia anterior mais triste do 
que o habitual, mais acabrunhada e arredia, com medo de haver perdido Ross para sempre.
  Marianne se despediu da me e desceu as escadas de mos dadas com o primo, saindo com ele para a rua. Logo ao darem o primeiro passo na calada, tiveram desagradvel 
surpresa. Lilian estava parada no porto de casa, pronta para sair.
          Bom dia, Marianne  cumprimentou ela secamente.
          Aonde voc vai?  retrucou a menina, ignorando o cumprimento da outra.
          Vou acompanh-los at a escola.
          No precisa, Lilian  cortou Ross.
          Dona Lilian  corrigiu ela.  Respeito  sempre bom, Ross. No se esquea disso.
  Marianne sentiu o sangue ferver. Se aquela bruxa pensava que iria mandar nela e em Ross como se fosse sua me, estava muito enganada. Olhou-a com ar de desdm 
e foi tomando a dianteira, puxando Ross pela mo. At que ouviu a voz de Lilian mais atrs:
          Mais devagar, crianas. No  preciso correr tanto.
  Sem lhe dar ateno, Marianne apertou a mo de Ross e disparou pela calada, puxando-o com toda fora. O menino, assustado, a princpio fez fora para parar, mas 
depois, ouvindo os gritos histricos de Lilian, achou graa e correu com ela. Em poucos segundos, sumiram no fim da rua. Ross deixou Marianne na porta da escola, 
e a menina subiu ofegante. Em seguida, tomou a direo de seu colgio e partiu desabalado, no dando a Lilian tempo de alcan-lo nem de v-lo desaparecer.
  No comeo da tarde, quando Marianne e Ross voltaram para casa, encontraram Lilian sentada  mesa da cozinha de Kate. As crianas hesitaram ao v-la, mas, ante 
o olhar severo e nada satisfeito de Kate, tiveram que entrar.
   Muito bem, Marianne  comeou a dizer.  Lilian est aqui para fazer queixa de voc.
          De Marianne?  indignou-se Ross.  Por qu? Ela no fez nada.
          No adianta tentar defend-la  repreendeu Lilian.  Sei que foi ela que o puxou hoje cedo. Estou aqui para exigir de Kate uma atitude. O que ela fez 
foi uma falta de respeito.
  Kate sentia ganas de estrangular aquela esnobe. Ela era metida e arrogante, mas Marianne a havia afrontado, e ela no podia permitir que sua filha faltasse com 
o respeito aos mais velhos. No fora essa a educao que lhe dera.
   Por que fez isso?  perguntou Kate, dirigindo-se  filha.
  Com um sorriso maroto nos lbios, Marianne deu de ombros e no respondeu, irritando ainda mais Lilian, que retrucou furiosa:
   Sua me lhe fez uma pergunta, menina! Responda!
   Por favor, Lilian  interrompeu Kate de m vontade.  Deixe que eu mesma cuidarei disso.
   Essa menina  impossvel.
          Lilian...  cortou Ross.
   Dona Lilian, j falei.
          Dona Lilian, Marianne no fez nada. Fui eu que a puxei.
          Muito louvvel essa sua atitude de defend-la  tornou Lilian entre os dentes  Mas no me convence. Eu vi!
  Ainda com ar de deboche, Marianne revidou:
          Voc anda vendo demais.
          Voc no  recriminou Lilian.  A senhora.
  Kate estava abismada. Aquela mulher era insuportvel. No entendia o que dera no cunhado para casar-se com ela. Nathan sempre fora um homem simples e gentil, e 
no tinha nada a ver com aquela metida.
          Escute aqui, dona Lilian  falou Kate com ironia , j estou farta das suas sugestes de como devo educar meus filhos. Se Marianne fez alguma coisa errada, 
deixe que eu mesma tratarei de castig-la.
          S estava tentando ajudar  respondeu Lilian, rubra de vergonha.
          No preciso de sua ajuda. E agora, se no se importa, est na hora do almoo  e, virando-se para a filha:  Marianne, suba e v se lavar.
  Marianne obedeceu. Quando voltou, Lilian e Ross j no estavam mais ali. Ela olhou em todos os cantos da cozinha, mas no o avistou. A me j estava sentada  
mesa, onde apenas dois pratos haviam sido colocados, e comeou a servi-la assim que ela entrou.
          Onde est o Ross?
          Foi com Lilian.
  De forma abrupta e inesperada, Marianne virou a toalha da mesa, jogando pratos e copos para longe. Assustada, Kate deu um salto e levou a mo ao corao, instintivamente 
olhando pela porta da sala, onde os outros filhos brincavam no tapete.
  Marianne, descontrolada, atirava longe tudo o que via. Talheres, panelas, tigelas. Olhar vidrado, parecia no ouvir os gritos aflitos da me:
  -  Pare com isso! Pare! Marianne, por Deus!
  A menina estava enlouquecida. Em sua fria descontrolada, continuava a atirar longe tudo o que lhe aparecia na frente. Kate acercou-se dela e, pelas costas, tentou 
cont-la, segurando-lhe os braos com fora. Vencida pela superioridade fsica da me, ela comeou a gritar e a espernear, atirando as pernas para a frente e dando 
pinotes no ar.
  Kate estava apavorada. Jamais havia visto algo semelhante. A muito custo, conseguiu virar Marianne de frente para ela e deu-lhe uma bofetada no rosto. A menina 
respondeu com selvageria e ps-se a arranhar os braos da me, Kate, cada vez mais aterrada, deu-lhe nova bofetada, e outra, e mais outra, at que Marianne, vencida 
pelo cansao, desabou no cho e foi rastejando at a parede.
  Seus olhos corriam de um lado a outro, como se visse algum percorrendo a cozinha. No havia ningum. Ningum que Kate pudesse ver. Mas Marianne via. Caminhando 
a passos largos, um esprito ria, com as mos apoiadas nas cadeiras. Era uma mulher. Vestia uma roupa estranha, muito antiga, e trazia na cabea uma espcie de touquinha 
de l.
  Ao ouvir a me dizer que Ross havia partido com Lilian, Marianne quase desesperou. O dio que sentiu foi to grande que, imediatamente, atraiu para junto de si 
o esprito que acompanhava a madrasta de Ross. Era uma mulher vingativa, que queria desesperadamente prejudicar Lilian e descobrira em Marianne o instrumento perfeito. 
A menina era extremamente sensvel. Muito mais do que qualquer outro que j vira fora dos hospcios. Aliada a essa sensibilidade, a raiva que nutria por Lilian serviu 
de excelente condutor para os fluidos de dio e vingana do esprito.
  Marianne gostava de Ross. Por ele, seria capaz de odiar, com todas as foras, qualquer um que se interpusesse em seu caminho. E Lilian se interpusera. Ela era 
mesmo autoritria e pedante, mas tudo poderia ter sido contornado se o esprito no tivesse incutido na mente da menina a imagem da bruxa em que Lilian havia se 
transformado. Marianne estava certa de que a mulher era mesmo uma bruxa. Via-a com cara de bruxa, roupas de bruxa, chapu de bruxa. Tudo obra daquele esprito que 
pretendia usar Marianne em sua vingana.
   Sou Margot  disse ela ao ouvido da menina.  Guarde bem o meu rosto e o meu nome. Vamos nos ver muitas e muitas vezes.
  Soltou uma gargalhada histrica e sumiu, e Marianne encarou a me, que, sentada na cadeira, rosto afundado entre as mos, s fazia chorar.
  
  9
  A partir da, tudo se desenvolveu rapidamente. No havia um s lugar em que Marianne no visse espritos ao seu redor. Falava com eles como se fossem encarnados, 
sem se dar conta de que j no pertenciam mais a esse mundo. Vivos e mortos, para ela eram todos iguais.
  Para piorar, a j difcil convivncia com Lilian foi-se tornando insuportvel. A pedido de Nathan, Ross continuava indo e voltando da escola com Marianne, mas, 
depois disso, s se viam vez ou outra, antes do jantar. Nos fins de semana, Lilian sempre arranjava um jeito de impedir que ficassem juntos. Ou Ross tinha que estudar, 
ou iam sair e Marianne no podia acompanh-los.
  Certo dia, quando Marianne chegou da escola, trazia nas mos uma carta lacrada, com o timbre da escola, endereada ao pai. Entregou a carta  me displicentemente 
e foi para o quarto se trocar. Quando voltou, Kate estava sentada  mesa, olhando-a com cara de poucos amigos.
          O que significa isso?  indagou Kate zangada.
          O qu?
          Esta carta. Marianne pegou e desdobrou a carta que ela lhe estendeu. Passou os olhos pelas letras e encarou a me, desanimada.
          Leia  foi a ordem seca.
  Os olhos de Marianne encheram-se de lgrimas, e Kate arrancou a carta das suas mos com raiva.
          Voc no pode ler, no , Marianne? No pode porque no sabe! Como fomos estpidos, seu pai e eu. Pensamos que voc havia se emendado. No ano passado, 
quando tirou aquele dez, achamos que voc no era burra e que estava aprendendo. Mas agora vejo que no aprendeu nada!
          Me...
          No! Deixe-me terminar. O que foi que aconteceu? Voc no estava aprendendo a ler? Por que no desenvolveu a leitura? Por que no consegue acompanhar 
a turma? Seu professor diz que voc continua alheia e agressiva. Disse que nem pode falar com voc. Que voc responde mal. Que implica com as outras meninas.
          No  verdade! Elas  que implicam comigo! Vivem me chamando de esquisita.
          E do que voc quer que a chamem? Voc no aprende, no se relaciona com ningum. Nunca convidou uma amiguinha para vir brincar com voc. Eu  que as convido, 
ou melhor, imploro, para que venham aos seus aniversrios. Pois agora acabou! No tem mais festa, ouviu?
  Marianne deu de ombros. De que lhe importavam as festas? Quem gostava de festas era a me, no ela. Deu as costas a Kate e foi para a porta da cozinha. Desceu 
dois degraus e espiou para o quintal vizinho, na esperana de avistar Ross, enquanto a me continuava a repreend-la. Marianne, contudo, j no ouvia mais. Desinteressada 
daquele assunto, desceu as escadas e se aproximou da cerca que separava os quintais das duas casas, enquanto a me esbravejava:
   Volte aqui imediatamente! Ainda no terminei!
A voz de Kate caiu no vazio, porque Marianne j havia deslocado a tbua da cerca que servia de passagem entre as duas casas e entrara no quintal da casa de Ross. 
Em silncio, corao aos pulos, foi-se aproximando da porta da cozinha. Ross estava sentado de costas, comendo, e a bruxa estava no outro canto, mexendo uma panela 
no fogo. A seu lado, Margot a viu e sorriu para ela, passando a mo de leve sobre a testa de Lilian.
   Ross...  Marianne chamou baixinho.
  O menino se virou ao mesmo tempo em que a madrasta. Vendo Marianne ali parada, Lilian no se conteve. Com a colher de pau ainda na mo, aproximou-se dela.
   O que est fazendo aqui? indagou com raiva. Ela fitou a mulher e respondeu com mal contida fria:
   Preciso falar com Ross.
  Na mesma hora, o menino se levantou, mas foi impedido de se aproximar pela voz histrica da madrasta:
          Fique onde est, Ross! Voc ainda no terminou de almoar.
          J acabei sim, dona Lilian.
          Ento, est na hora de estudar.
  Calmamente, Ross olhou para ela e, sem alterar o tom de voz, respondeu mansamente:
   Agora no posso. Marianne precisa falar comigo.
  Virou-se para Marianne e sorriu, e ela sorriu de volta, agradecida.
          Estou lhe avisando  gritou Lilian.  Se no me obedecer, vai ficar de castigo!
          Lamento, dona Lilian. Mas a senhora no  minha me.
   Ora, seu...

  De forma mecnica, Lilian desceu a colher de pau sobre a boca de Ross, com fora, e esta imediatamente se avermelhou. O menino soltou um grito de dor e levou a 
mo amos lbios, que j comearam a inchar.
  Ao lado de Lilian, Margot balanava a cabea e dizia com voz de malcia:
  - Ora, ora, ora... Vai deixar isso ficar assim, Marianne? Vamos, ataque a bruxa!
  No precisou de mais nada. Marianne partiu furiosa para cima de Lilian e mordeu-a na barriga, apertando bem os dentes e causando-lhe imensa dor. Lilian soltou 
um grito agudo e olhou para baixo. Marianne estava grudada  sua barriga, apertando-a com os dentes, sem soltar. Tentou empurrar a menina, mas ela se colara a seu 
ventre feito um parasita.
  Imediatamente, ps-se a gritar, e gritou tanto, que Kate, do outro lado ouviu a berraria e apareceu esbaforida. Vira a filha atravessar a cerca, mas teve que dar 
a volta pela frente. Diante daquela cena horrorosa, o sangue de Lilian j se espalhando pela blusa branca, Kate comeou a berrar:
  - Solte-a! Por Deus, Marianne, solte!
  Marianne no soltava. Margot, encostada  parede, dava gargalhadas enquanto Ross, atnito, esquecera-se at de sua boca machucada.
  Kate tentava pux-la por trs, mas quanto mais puxava, mais ela apertava os dentes em volta da carne de Lilian que ia se abrindo numa enorme ferida. Desesperada, 
Kate comeou a bater-lhe, sem sucesso, contudo. No auge do desespero, implorou ao sobrinho: 
          Pelo amor de Deus, ajude-me!
  Ross saiu de seu torpor e aproximou-se de Marianne. Colocou a mo em seu rosto e pediu com ternura:
          Por favor, Marianne, solte dona Lilian.
  Ela no soltou, embora parasse de apertar. Sentindo as mos do primo em sua face, aos pouquinhos foi-se acalmando, at que afrouxou a boca e Lilian tirou o corpo, 
correndo para o outro lado da cozinha e gritando:
          Tirem essa louca daqui! Essa menina  uma selvagem! Maluca! Doida!
  Margot ficou furiosa e tentou investir contra Ross, sendo detida por Marianne:
          Se voc fizer alguma coisa a ele, vai se arrepender! Mordo voc tambm.
  O amor da menina pelo garoto assustou o esprito, que se afastou temeroso.
          Com quem est falando?  indagou Kate.
          Com Margot. Ela quis bater no Ross.
          Saia!  a voz esganiada de Lilian as interrompeu.  Leve essa fera daqui!
  Kate estava aturdida. To aturdida que no sabia o que fazer. No sabia se ralhava com Marianne ou se a levava a um mdico. Decididamente, Marianne no estava 
bem. Sua agressividade estava passando dos limites. Parecia mesmo uma louca.
          Sinto muito, Lilian...  balbuciou Kate.
          Saia daqui! E leve esse monstrinho com voc! Ela j ia saindo quando ouviu a voz de splica do sobrinho:
          Por favor, tia Kate, deixe-me ficar com Marianne.
          Depois.
  Saiu puxando Marianne pelo brao, que se deixou conduzir passivamente para casa. Assim que entraram, escutaram choro de criana, e Kate subiu para o quarto. Deixara 
os filhos dormindo, e Kevin acordara e chamava pela me. Ela retirou o menino do bero, embalou-o e colocou-o de volta, distraindo-o com alguns bichinhos de pelcia. 
Depois que ele sossegou, saiu  procura de Marianne.
  Ela estava onde a havia deixado, sentada no sof da sala, sem expressar qualquer reao. Com um certo receio, Kate aproximou-se e sentou-se diante dela, perguntando 
com voz sofrida:
          Por que voc fez isso?
  Ao final de alguns segundos, Marianne respondeu impassvel:
          Isso o qu?
          Por que mordeu Lilian? Voc quase arrancou um pedao da barriga dela.
  Marianne deu de ombros e, fazendo beicinho, respondeu com simplicidade:
          Margot me mandou atac-la.
          Margot?
          . Ela estava l e me mandou atacar Lilian. Ela bateu em Ross. E depois, Margot quis bater nele tambm...
          Basta!  exaltou-se.  Deixe de inventar histrias! No havia ningum l alm de ns.
          Havia sim! Margot estava l.
  Kate respirou fundo e acrescentou:
          Sei que voc no gosta de Lilian. Eu tambm no gosto. Mas no foi nada bonito mord-la. E tambm no  bonito ficar inventando coisas.
          No estou inventando nada. Margot estava l...
          Se no parar com essa mentira agora mesmo, serei obrigada a tomar uma medida mais drstica!
  Pronto. L vinha a me com suas palavras difceis. Marianne no sabia o que era uma medida, muito menos drstica.
          No estou mentindo. A culpa toda foi de Margot...
  Kate j estava cansada daquelas histrias insanas. Levantou-se furiosa e segurou Marianne pelo brao, dando-lhe forte belisco. A menina no gritou, limitando-se 
a olhar para a me sem entender. Kate puxou-a furiosamente, e foi s ento que Marianne reagiu. Comeou a espernear e a gritar, dando socos e chutes, tentando morder 
as mos da me.
   Pare!  gritou Kate.
  Marianne no parava. Parecia totalmente fora de si, tomada por um descontrole sobrenatural. Kate tentou cont-la o quanto pode, mas ela estava ficando incontrolvel. 
No viu outra sada, seno prender os braos dela e imobiliz-la. Assim tolhida, Kate conseguiu subir com ela.
  Com tanta gritaria, era natural que as crianas acordassem, dando incio a um berreiro sem fim. O choro das crianas fez crescer o desespero de Kate, que queria 
conter a filha e atender aos demais. Marianne era uma criana, contudo, os outros eram praticamente bebs. Kate queria que ela parasse, mas a menina atirava as pernas 
a esmo, espumando de um dio assustador. No podia entrar com ela no quarto dos outros filhos, que se apavorariam vendo a irm naquele estado de aparente demncia.
  Sem perder tempo, abriu a porta do quarto com o p e atirou Marianne l dentro. Rapidamente, retirou a chave da fechadura e bateu a porta, trancando-a pelo lado 
de fora. A menina, descontrolada, dava investidas contra a porta, gritando para que a me a soltasse:
   Solte-me! Deixe-me sair!
  Tomada pela exausto, com o corpo dolorido e roxo, Marianne deixou-se cair rente  porta e ps-se a chorar. Nunca se sentira to s em toda a sua vida. Daria um 
brao ou uma perna para ter Ross ali junto dela. A me no entendia, a bruxa a odiava. E Margot? Enganara-se ao pensar que Margot era sua amiga. Se fosse, no teria 
mandado que ela atacasse a bruxa na hora em que sua me vinha chegando. E ainda tentara agredir Ross.
  No podia se iludir. Estava sozinha.


  10
  - No quero mais essa menina aqui!  esbravejava Lilian.  Ela  uma selvagem, um animal!
          Marianne  apenas uma criana  Nathan tentava defender.
          No interessa! Veja s o que ela fez!  levantou a camisola e exibiu o curativo na barriga, ainda sujo de sangue.  Ela  uma doida, isso sim!
  Nathan levou a mo  testa, desanimado. Lilian, no fundo, tinha razo. Marianne estava se tornando uma menina difcil de se controlar, o gnio irascvel aumentava 
cada dia mais. No entanto, tinha uma dvida de favor para com Kate e no podia, simplesmente, ignor-la.
          Talvez seja melhor deixar Ross l com eles sugeriu Nathan.
  Lilian considerou durante alguns segundos, e uma nova ideia se delineou em sua mente. O menino no era seu filho, e ela j estava se enchendo de tantos transtornos. 
Sem contar que a situao agora havia mudado e no lhe interessava mais ocupar-se com o garoto. Olhou para o marido com ar de dvida e indagou:
          Voc quer dizer, morando l?
          No exatamente. Ross  meu filho, e eu prometi  me dele que jamais nos separaramos. Mas podemos deixar tudo como estava antes. Aposto como Marianne 
iria at melhorar.
   No sei. No me agrada a ideia de que seu filho, meu enteado, fique indo e vindo daquela casa. Ou vai de vez, ou no vai.
          Isso  um absurdo. Est sugerindo que eu me desfaa de meu filho? Que abra mo dele de vez? No foi isso o que voc me disse quando nos casamos. Prometeu 
cuidar dele.
  Ela abaixou os olhos, visivelmente confusa e arrependida.  claro que prometera tomar conta do menino. S no levou em conta que, de quebra, teria que enfrentar 
uma garota louca e mal-educada. Alm do mais, no pensou que as coisas mudariam to de repente.
          No  isso  desculpou-se.   que voc no tem ideia do que passei hoje, com aquela menina grudada na minha barriga e me mordendo feito uma fera.
Lilian jogou-se na cama, chorando nervosamente, at que Nathan a abraou e tentou consol-la:
          Eu sei, querida, posso imaginar. Mas Marianne  uma criana... no tem noo do que faz.
          Diz isso porque no a viu. Ela estava transtornada, enlouquecida... No sei no. Se eu fosse Kate, levaria aquela menina a um mdico de doidos. Ela tem 
alguma coisa de loucura... pode-se ver pelo seu olhar. E depois, as coisas que faz... Que criana daquela idade voc conhece que agride os outros com tanta fria?
          Sei que tem razo, querida. Mas Kate tem sido to boa para mim e para Ross...
          O fato de voc ser-lhe grato no significa que tenha que se sujeitar a tudo. Ela o ajudou? timo. Agradea-lhe. Ns, no entanto, no podemos continuar 
vivendo assim. Essa menina ainda vai acabar estragando o nosso casamento.
   Voc est exagerando.
   No estou no. At quando acha que irei suportar? Ela no  minha filha. No tenho obrigao de tolerar os seus ataques.
   O que quer que eu faa? Que proba Ross de v-la? Isso seria muito pior.
   Pior para quem?
  Durante alguns minutos, Nathan permaneceu em silncio, tentando imaginar algo para dizer. Sabia, contudo, que qualquer coisa que dissesse no faria Lilian mudar 
de opinio. A mulher, por sua vez, regozijava-se. Aquela era a chance de dar incio ao novo plano que idealizara. Aproveitando-se da situao, adoou a voz e considerou:
   Voc est certo. Afastar Ross de Marianne s serviria para piorar as coisas. Eu, todavia, no estou mais disposta a tolerar as suas sandices. Por isso, vamos 
nos mudar...
   Mudar? Para onde? E o meu trabalho?
   Vamos para outro bairro, um bairro melhor, mais elegante.
   No vejo nada de errado com este.  um lugar muito bom de se viver.
   No est sendo bom para ns.
   Ross no vai querer.
   Ele no tem querer.  criana, e crianas no tm vontade. Tm que obedecer.
   Marianne vai fazer um escndalo. Vai dificultar as coisas.
   Ela no precisa saber. Nem ela, nem ningum. Por enquanto, vamos deixar as coisas como esto. Deixemos que Ross volte a conviver com Marianne como antes. Eu 
no vou interferir nem vou querer saber de nada. Ele que fique por l o quanto quiser. Enquanto isso, vamos procurando uma outra casa. Quem sabe at no podemos 
comprar uma, ao invs de alugar? Voc agora no est ganhando mal.
  Nathan ficou em dvida. No lhe agradava fazer as coisas s escondidas. Sabia o quanto Ross e Marianne iam sofrer, e at Kate, que criara o menino como se fosse 
seu prprio filho. Lilian, porm, estava certa. No tinha que se sujeitar s humilhaes de Marianne. Soltou um suspiro prolongado e retrucou vencido:
          Est certo. Convenceu-me. Acho mesmo que tem razo. J est na hora de vivermos a nossa prpria vida. Kate e David vo entender.
          E Ross far novos amigos. Com o tempo, nem se lembrar mais de Marianne.
  Lilian queria subir na vida, e aquele bairro no estava  sua altura nem condizia com a nova condio social que pretendia adquirir. Graas a ela, Nathan agora 
ganhava bem. Podia comprar uma casa num bairro mais elegante. E Marianne acabara se tornando um timo pretexto para convenc-lo a se mudar.
  No disseram nada a Kate ou a David, muito menos s crianas. Fariam tudo s escondidas. Quando a casa estivesse comprada e a mudana acertada, Nathan participaria 
ao irmo e  cunhada, e pediria que sassem com Marianne por um tempo. Se ela no visse nada, no sofreria tanto nem faria escndalos desnecessrios. E, quando soubesse, 
seria tarde demais.
  Naquela noite, Lilian foi dormir mais tranquila, sem desconfiar de que, a seu lado, o esprito de Margot a acompanhava furiosa. No era possvel que Lilian se 
livrasse da menina e estragasse seus planos de vingana. Lilian pensava que ficaria livre, mas estava enganada. Ela iria contar tudo a Marianne.
  J ia saindo quando deu de cara com outro esprito, parado na porta a olh-la com ar aterrador:
          Eu no faria isso se fosse voc  falou ele, em tom assustadoramente ameaador.
  Margot levou um susto e parou no meio do quarto, com a boca aberta, tentando adivinhar de onde havia         surgido aquele desencarnado.        
  Quem  voc?  indagou receosa, com medo de que algum o houvesse mandado para lev-la dali.        
   No sou nenhum mensageiro de luz, se  o que pensa  respondeu ele, lendo-lhe os pensamentos.  Acha mesmo que me pareo com um?        
  Margot olhou para ele, para seus trajes negros e seus olhos vtreos, e respondeu um pouco mais tranquila:        
  - No. Ao contrrio.        
  Luther soltou uma gargalhada e se aproximou da cama, onde o casal dormia despreocupadamente:        
  - No deve se meter com Marianne, Margot.        
  - Voc me conhece?  tornou ela surpresa, j que nunca o havia visto por ali.        
  - Digamos que eu sei das coisas.        
  - Sabe?        
  - Sei muito a seu respeito. Sei que voc fugiu h muitos anos e vem acompanhando Lilian desde a encarnao passada.        
  - Voc no sabe o que ela me fez.        
  - J disse que sei muito sobre voc, logo, sei o que ela lhe fez. Por causa dela, voc foi presa, acusada de bruxaria, e a ignorncia do povo a colocou sob uma 
placa de madeira, cobrindo-a com pedras at que seu pulmo estourasse e voc morresse, afogada em seu prprio sangue. No  verdade?        
  Margot comeou a chorar e retrucou:        
  - Voc no imagina o que ela me fez passar. E para qu? Para ficar com o meu homem! E ainda se dizia minha amiga.        
  - Para voc ver. No podemos confiar em ningum hoje em dia, no  mesmo?  ela no respondeu, limitando-se a encar-lo com um certo temor.  Mas eu tenho uma 
amiguinha, sabia? Uma amiga de         verdade. O nome dela  Marianne.        
   Marianne?
   Exatamente. A mesma que voc est querendo utilizar na sua vingana.
   E da? No v me dizer que quer proteg-la.
   Sim e no. Marianne  minha, caso no saiba.
   Nunca o vi ao lado dela.
   Estou afastado por razes que no lhe dizem respeito. Mas no a abandonei. Sei de tudo o que se passa com ela. Sei at de voc, como pode perceber.
  Margot escutava aquele esprito das sombras que lhe parecia extremamente poderoso, dono de um ar de superioridade e uma imponncia que a assustavam, como se ele 
fosse um imperador ou coisa parecida.
  - Quem  voc?  quis saber ela, algo confusa.
   Meu nome  Luther.
   De onde vem?
   Das profundezas do inferno  disse em tom maroto, soltando uma gargalhada cnica.  Estou brincando. Sou o dirigente de uma pequena cidade do astral inferior 
 ante o seu olhar de espanto, ele acrescentou:  Voc deve estar se perguntando o que uma pessoa to importante como eu faz por aqui, no  mesmo? Pois vou lhe 
dizer. Marianne  especial. H muitos anos, ela fugiu de mim, levando muitos outros com ela. Passei um longo perodo sem v-la, at que a encontrei nesse estado. 
Caso voc no tenha percebido, ela  o que se pode chamar de maluca. Ela ainda no sabe, mas est enlouquecendo.
          O que voc pretende com ela? Vingana?
          De uma certa forma, sim. Ela foi uma peste e, apesar disso, no posso traz-la para o lado de c. Seus amigos so poderosos, bem mais do que eu. S que 
esse amigos esto do lado de l, voc entende?
          Quer dizer, do lado da luz?
          Isso mesmo.
          Ento, por que no aparecem para livr-la de sua loucura?
   Como voc  tolinha, Margot. Se eles montassem guarda  cabeceira dela, de que adiantaria ser louca? Alis, ela seria tudo, menos louca. S que ela quis ser 
doida, pediu, implorou para ser doida varrida. Esse pedido j demonstra que no  normal. Pedi e obtereis2  ironizou.  No  assim?
          No compreendo...
          Ser que voc  to estpida quanto ela? Marianne escolheu ser louca, ou melhor, ter uma sensibilidade muito acima do normal.  como se ela no tivesse 
qualquer barreira separando o mundo visvel do invisvel. D para imaginar? Ela pode ver e ouvir todo tipo de espritos. Ser que voc no percebeu?
          Percebi.
          S que h seres iluminados que a vigiam o tempo todo, interessados em assegurar que se cumpra o que tem de ser, ou seja, que ela fique, literalmente, 
louca.
  Margot sentiu uma pontada de tristeza. Afinal, no era ruim. Queria se vingar de Lilian porque ela fora m, enganara-a para tomar-lhe o homem amado e ainda a levara 
quela morte horrenda. Marianne, contudo, era apenas uma menina e no lhe fizera nenhum mal.
          Ela no tem como evitar essa triste sina?
          Talvez, se tivesse escolhido pais mais esclarecidos e amorosos. Mas, c entre ns, eles so umas pestes tambm, e isso  timo para ns. Facilita o nosso 
acesso.
          Pobre Marianne...
          No pense assim. Ela sempre soube que seria muito provvel me reencontrar. Somos amigos de
  2. Trata-se de uma ironia ao captulo XXVII do Evangelho Segundo o Espiritismo, que os espritos das trevas consideram contrrio aos seus interesses (N.A.).
longa data. Gostaria muito de traz-la para o meu lado, mas no posso. Como lhe disse, ela tem amigos muito mais poderosos do que eu, contra os quais no tenho foras 
para lutar. Quando ela desencarnar, eles correro para busc-la, e eu no terei a menor chance. A no ser que ela se suicide... Mas no, acho que no...
   No estou entendendo.  
   O tempo de que disponho  muito curto, e quero aproveit-lo ao mximo. Marianne precisa enlouquecer, e sou eu que vou ajud-la nesse processo. Para isso, no 
vou aceitar nenhum tipo de intromisso.
   Quem  que est se intrometendo?
   Voc. No a quero interferindo em meus planos.
   Eu? No vou fazer isso. No quero nada com Marianne. Meu negcio  com Lilian.              com esta aqui que tenho contas a acertar.
   E para isso, usa Marianne?
   Sim, mas no pretendo fazer-lhe mal.
   Sei que no. S que os seus planos esbarraram nos meus.
   Como assim?
   Vou ser claro com voc, Margot. No  de meu interesse que Marianne saiba a respeito da mudana de Ross. Quero que tudo saia conforme eles planejaram. Por isso, 
vou dar-lhe um aviso. Faa com Marianne o que quiser. Use-a em sua vingana enquanto puder. Faa com que ela agrida Lilian, que a morda e a arranhe. Mas jamais lhe 
diga que Ross vai se mudar. Nem de longe sugira isso. Sequer a deixe desconfiar ou imaginar uma coisa dessas. Se o fizer, vai ter que se entender comigo depois. 
Compreendeu?
  A superioridade dele era patente, e Margot simplesmente assentiu, com medo de despertar-lhe a fria.
   No ousaria desobedecer-lhe  tornou com reverncia.  Mas posso perguntar por que  to importante essa mudana?
   Pense, Margot, pense. Quem  o queridinho de Marianne? No  o bobalho do      Ross, com sua vozinha de pederasta e seus gestos de bom moo?  ela assentiu. 
 Pois ento, como acha que ela vai ficar quando ele, de repente, desaparecer?
   Maluca?
   Quase. Esse  o estopim que ir acender a bomba da loucura plantada na cabea dela.
  Margot ficou abismada. Aquele Luther era mesmo infernal. Contudo, por mais piedade que sentisse de Marianne, no tinha nada com isso. A menina no era problema 
seu. S podia lamentar. Ela era um instrumento muito bom, mas Margot no ousaria contrariar as ordens de Luther. No queria, ela tambm, integrar as suas hordas.

  11
  A noite caiu, e Kate terminou de colocar as crianas na cama, para s depois ir para seu quarto, passando antes pelo de Marianne. A menina passara o dia todo ali 
e mal se alimentara. Embora Kate no julgasse aquela a melhor soluo, no via outra sada. Marianne passara dos limites.
  A filha havia adormecido encostada  porta, de forma que foi preciso empurr-la. Marianne, todavia, no despertou. Permaneceu deitada na mesma posio em que estava, 
e Kate abaixou-se ao lado dela. Alisou seus cabelos e engoliu um soluo. Cuidadosamente, apanhou-a no colo e deitou-a na cama, cobrindo-a com o cobertor.
  Fechou a porta com cuidado, deixando-a destrancada. J em seu quarto, conferiu se Suzie dormia e, retirando o robe, deitou-se ao lado de David.
          No sei mais o que fazer com Marianne  comentou ela aps alguns minutos.  Ela hoje se superou.
          Como assim?
          Ela mordeu a Lilian.
          Como  que ?
          Voc ouviu. Marianne mordeu Lilian hoje cedo, em sua casa.
   Por que no me disse antes?
   No queria que as outras crianas ouvissem.
          Por isso ela no desceu para o jantar?
  Ela assentiu e enxugou as lgrimas, que no conseguiu evitar que cassem.
   Eu a deixei trancada no quarto. Levei comida para ela, mas ela no quis...
   Isso  muito grave.
   No sei mais o que fazer. Marianne no  como as outras crianas. Nunca foi muito socivel, mas agora est se tornando exageradamente agressiva. Bate nos irmos, 
j me bateu tambm, e agora, mais essa com a Lilian. Imagine s o que ela deve estar falando nesse momento.
  David virou o rosto para a janela, acabrunhado. No sabia que as coisas estavam ficando to srias assim.
   E isso no  tudo  continuou Kate.  Hoje veio outra carta da escola. O professor reclama que ela no aprende. Voltou a ficar alheada e a no prestar ateno 
s aulas. Est tendo dificuldades com a leitura e no se interessa em aprender.
   Como pode ser isso, se no ano passado ela tirou at uma nota dez?
   Para voc ver. Foi s daquela vez. Depois, voltou a ser a mesma estpida de sempre.     O professor acha que ela no vai passar de ano. As amiguinhas j esto 
lendo tudo, e ela no consegue sair das primeiras letras.
  David levou a mo ao rosto e desabafou angustiado:
   Oh! Deus! Por que tivemos que ter uma filha assim? Logo ns, que nunca fizemos mal a ningum.
   Tambm j me fiz essa pergunta. Mas Marianne  nossa filha, e precisamos cuidar dela. Isso no pode continuar assim.
   O que faremos?
   No sei. Jane disse...
   O que Jane disse no interessa  rebateu ele, sem muita convico, mais para impressionar a mulher do que para expressar o que realmente sentia.  Ela tem aquelas 
idias extravagantes sobre psiquiatras, psiclogos ou seja l como se chamam.
   Pense bem, David. Talvez ela tenha razo. Marianne anda mesmo muito esquisita. Faz coisas que ningum normal faz. Ser que um psiquiatra no resolveria o problema?
   No sei.
   Marianne no  mais um beb, j deveria ter ultrapassado essa fase de morder. E ela mordeu por raiva, com fora, tirou muito sangue de Lilian. No sei mais o 
que fazer com ela.
  H muito David sentia vontade de levar Marianne ao psiquiatra, todavia, algo dentro dele o fazia relutar. No era o medo da reao de Kate, e sim um certo incmodo, 
uma sensao de estar fazendo algo errado. Queria lev-la, mas que a ideia partisse de Kate, para que ele no tivesse que assumir aquela responsabilidade. Como, 
porm, a mulher no se resolvia, talvez coubesse a ele o dever de dar-lhe um pequeno incentivo.
   Talvez devssemos mesmo consultar o tal psiquiatra  disse ele com cautela.
  Na mesma hora, Kate reconsiderou. Falara aquilo por falar, para desabafar, mas no estava pensando seriamente em lev-la ao mdico.
   No vamos nos precipitar  tornou insegura.  Acho que devemos esperar um pouco mais. Talvez voc deva falar com Nathan e Lilian, desculpar-se e pedir para que 
Ross venha visit-la. Quem sabe ela no melhora?
  Mesmo no lhe agradando, David fez como Kate sugeriu e, no domingo seguinte, foi novamente bater  porta da casa do irmo.
   Tio David!  exclamou Ross, que abrira a porta.  Vamos entrando.
   Seu pai est?
  Antes que o menino lhe respondesse, Nathan veio de l de dentro, estendendo a mo para o irmo.
   Ol, David. O que veio fazer aqui?
  David passou para o lado de dentro meio sem jeito. No sabia ao certo o que dizer e comeou a falar baixinho:
   Voc  meu irmo... no gostaria que nos desentendssemos.
   Quem falou em desentendimentos?
   No gostaria que a atitude de Marianne abalasse a nossa amizade. Tente compreender.
   Ento  isso? Est preocupado com o que Marianne fez? Ora, vamos, isso  coisa de criana. Deixe para l, j passou.
   Quer dizer que voc no est aborrecido?
   De jeito nenhum! Lilian me contou tudo. Marianne a atacou,  verdade, s que Lilian no ficou zangada.
   Mas...
    claro que, na hora, ela ficou com raiva. Afinal, ningum gosta de ser mordido, no  mesmo? Mas depois, at que achou graa.
   Achou?
   Claro! Quem pode se zangar com as diabruras de uma criana? Para falar a verdade, esse episdio serviu para nos mostrar o quanto estvamos sendo injustos com 
Marianne e Ross.
   O que quer dizer?
   Lilian e eu concordamos que no vimos agindo direito com os dois. Afinal, so primos, foram acostumados juntos desde pequeninos.
    verdade...
   Por isso, achamos que no devemos mais interferir.
  - Como assim?
          Bem, Ross pode ir ver Marianne quando quiser.
   Eu posso?  pulou Ross de seu canto, onde permanecera quieto, sem ser notado, s prestando ateno  conversa do pai e do tio.
  Nathan se assustou. Nem se dera conta de que o filho estava ali e respondeu com uma certa irritao:
    feio ficar escutando a conversa dos mais velhos, Ross.
   Eu vim apenas abrir a porta para o tio David...
   No brigue com o menino, Nathan. Afinal, ningum o mandou sair.
   Hum... est bem. Voc tem razo. Ross sempre foi um menino muito gentil e educado.
   Posso ir ver Marianne?  era o garoto, transbordando de ansiedade.
   Pode...  titubeou o pai.
   Oba! Vou l agora mesmo!
  David notou o ar de contrariedade de Nathan, que parecia pensar o contrrio do que dizia.
   Tem certeza?  indagou ele, e o irmo assentiu.  E Lilian? No vai se zangar?
   Como lhe disse, Lilian concordou que seria o melhor. Fique sossegado, ela no vai se importar.
   Gostaria de falar com ela primeiro. Pedir-lhe desculpas.
   No precisa. Lilian no est aborrecida. Realmente. E depois, est descansando. Acha mesmo que deveramos importun-la por to pouco?
  David meneou a cabea e despediu-se, voltando para casa com o sobrinho. Depois que eles se foram, Nathan fechou a porta lentamente e virou-se na direo da cozinha, 
de onde Lilian escutara tudo. Ela apareceu e deu um sorriso de triunfo.
   Ser que estamos agindo corretamente?  indagou Nathan confuso, sentindo que o remorso o corroa.
    claro que sim. Ross vai visitar aquela selvagem. No era isso que todos queriam?
   No  a isso que me refiro, e sim ao fato de estar enganando meu prprio irmo.
   Em que voc o enganou? Voc apenas lhe omitiu certos fatos.
   Isso no  verdade. Disse a ele que voc no estava zangada quando, na verdade, est furiosa. Tambm no  verdade que concordamos que Ross e Marianne voltem 
a se ver. Esta  uma farsa elaborada para encobrir as nossas reais intenes.
   E da? O que voc queria? Abrir-se com David? Dar-lhe a chance de contar tudo a Marianne e de ela vir aqui de novo me afrontar?
   Marianne  apenas uma criana.
   Ela  louca!
   No diga isso.
    verdade. S no v quem no quer. Marianne  louca e devia estar num hospcio.
   Voc est exagerando.
   Ser que estou? Quer arriscar? O que ela fez comigo foi apenas uma pequena amostra do que  capaz. No se iluda, Nathan, se Marianne precisar, vai enfrentar 
qualquer um, inclusive voc e o prprio David.  Ante o desnimo dele, ela afagou os seus cabelos e acrescentou:  No fique triste. Tenha certeza de que voc est 
fazendo o melhor para todos ns. Pense no seu filho. Marianne  possessiva. O que far a Ross quando estiver mocinha? No vai deix-lo um minuto sequer. Vai aterrorizar 
suas namoradas e prejudicar o seu futuro.  isso o que quer?
   No, mas...
   Nada de mas. Voc mesmo falou que eles pensam em se casar.
   Isso  coisa de criana.
    coisa de criana agora. E mais tarde? Marianne vai arruinar a vida dele, vai espantar todos os bons partidos que voc lhe arranjar. E capaz at de nem o deixar 
estudar direito. Imagine-a seguindo-o por toda parte, na universidade, nas festas, nos pubs3. E se ela resolver engravidar?  esse o futuro que espera para o seu 
filho?
          No.
          Ento, deixe de ser tolo e se aquiete. Vai dar tudo certo. Quando comprarmos nossa casa e nos mudarmos daqui, Ross vai ficar livre da influncia perniciosa 
dessa menina.
          Voc se esquece de que Ross tambm gosta dela.
          Porque no tem opo. Ele no sai, no vai a lugar nenhum. Marianne no deixa. Aposto que nem o deixa ter amigos.
  David calou-se. O filho era um menino muito socivel e se dava com todos na escola. Os professores viviam a elogi-lo. Era inteligente, estudioso, interessado. 
Cordial com os colegas e muito educado. A verdade, no entanto, era que preferia a companhia de Marianne.
  A semana que se passara fora pssima para Marianne, sem notcias do primo, que sequer a acompanhara  escola. Sua ausncia fora deixando-a cada vez mais triste 
e acabrunhada. J nem se alimentava direito. Andava to deprimida que os pais nem tiveram coragem de repreend-la pelo fracasso com a leitura.
  David entrou com Ross e subiu direto as escadas, indo bater  porta do quarto da filha. Ela estava sentada na cama, fitando o vazio pela janela aberta, e no se 
interessou pela entrada do pai. Nem levantou os olhos. Apenas ouviu a voz dele, exclamando com euforia:
  3. Pub  espcie de bar no Reino Unido, onde se servem bebidas alcolicas (N.A).
   Adivinhe a surpresa que trouxe para voc!
  Marianne se voltou sem nenhum entusiasmo. David entrou primeiro e chegou para o lado, tornando Ross visvel aos olhos dela. Ela mal podia crer. De um salto, pulou 
da cama e atirou-se ao pescoo dele.
   No acredito!  exultou ela.  E voc mesmo, Ross?
  O menino estreitou-a com carinho e beijou o seu rosto, enquanto David completava:
   Lilian no vai mais impedir que se vejam, Marianne. Por isso, seja boazinha com ela e no a destrate.
  Marianne nem ouviu o que ele disse. Puxou Ross pela mo e desceu correndo as escadas, saindo com ele para o quintal.
   Vamos tomar um sorvete?  sugeriu ele.  Meu pai me deu dinheiro.
  Da porta dos fundos, Kate os observava e consentiu que ela fosse. De mos dadas, os dois ganharam a rua. Sua felicidade era tanta que nem imaginavam o que estava 
por acontecer.
  Da janela da casa vizinha, Lilian os seguia com o olhar. Desde que Ross sara com David, ocultara-se atrs da cortina para esperar a reao de Marianne. Assim 
que eles passaram defronte  sua casa, a caminho da sorveteria, ela sibilou entre os dentes:
   Aproveite enquanto pode, sua pirralha maldita. Seus dias com Ross esto contados.
  Soltou a cortina com fria e foi para dentro, rindo de sua prpria malcia e do destino que esperava por Marianne.

  12
  A vida na casa de Marianne parecia haver retomado a normalidade, e a menina se encontrava bem mais calma na companhia de Ross. Depois de se certificarem de que 
ela j estava melhor, Kate e David chamaram-na novamente para uma conversa a respeito da escola.
          O senhor O'Neill se queixou de voc novamente  falou Kate, sentada em frente a ela no sof. Disse que voc no aprende.
  Marianne olhou para Ross de soslaio e no respondeu, limitando-se a ouvir as queixas dos pais.
          O que h, Marianne?  acrescentou o pai. Pensei que pudssemos confiar em voc.
          Isso no se faz  prosseguiu a me.  Como foi que esqueceu tudo o que Ross lhe ensinou? E por que no presta ateno s aulas?
          Ser que as aulas so muito aborrecidas? O professor O'Neill no  bom o bastante?
  - Pelo visto, vai perder o ano. O que faremos se voc for reprovada?
          Se isso acontecer, serei obrigado a mand-la para aquela escola de Newcastle, da qual j lhe falei.  isso que quer?
    claro que no, no  mesmo? Ainda mais agora, que conseguimos trazer Ross de volta.
   Contudo, no terei outra alternativa. Se voc no passar de ano, serei mesmo obrigado a envi-la para l.
  Marianne estava confusa. Os pais falavam sem parar e nem lhe davam tempo de pensar. De tudo o que diziam, pouco ela apreendia. Apenas uma coisa conseguira entender: 
eles a ameaavam com uma escola distante. Por qu? Seria um castigo pelo que havia feito  bruxa? Mas a culpa no era dela. Tudo o que fizera fora seguir as ordens 
de Margot.
  Ross tambm no dizia nada. Olhava para Marianne, tentando adivinhar no que estaria pensando, certo de que estava confusa. Ela sempre ficava.
   Estamos entendidos, Marianne?
  Era a voz do pai, dando por encerrado o sermo. Marianne, no entanto, no se lembrava mais do que ele dissera no comeo. Para no levar bronca nem apanhar, balanou 
a cabea afirmativamente e tornou a olhar para Ross, que piscou um olho e sorriu.
   No se esquea  disse a me, aproximando-se dela, depois que o pai saiu:  estamos confiando em voc.
   Pode deixar, tia Kate  intercedeu Ross.  Eu lhe ensinarei de novo.
  Kate fitou o menino com emoo, grata por ele gostar tanto de Marianne. Apenas Ross sabia lidar com ela e tinha o poder de acalm-la. J nem sabia mais como lhe 
agradecer as horas roubadas da infncia, cuidando de sua filha. Era um menino to jovem e inteligente e, ao mesmo tempo, abnegado de sua prpria vida e dedicado 
 prima.
  As coisas sucediam conforme o planejado. Todos os dias, Ross se dedicava  difcil tarefa de ensinar Marianne. Cada vez mais, ela parecia desinteressada da lio, 
deixando o menino apavorado.
   Voc no quer ir morar em Newcastle, quer?  dizia ele, tentando assust-la para que prestasse ateno aos estudos.
   No.
          Ento, tem que se esforar.
  Marianne olhava do papel para Ross, tentando entender por que aquilo era to importante.   No compreendia.
  Em certa ocasio, apanhou o lpis da mo dele e aproximou-o do caderno. Ross suspirou aliviado, pensando que ela ia, finalmente, copiar as frases que ele escrevera. 
Ao invs disso, Marianne desenhou um corao e escreveu dentro dele as letras R e M. Apesar de emocionado, Ross sentiu o desespero tomar conta dele e, com os olhos 
cheios de lgrimas, suplicou:
   Ser que voc no entende? Tio David no est brincando. Se voc no passar de ano, ele vai mandar voc para bem longe daqui. Voc quer ir para o internato e 
me deixar?   Ela meneou a cabea e ele prosseguiu:  Ento tente. Sei que pode. Voc j aprendeu a ler uma vez, no pode ter esquecido. J tirou at um dez. Lembra-se 
do dez, Marianne?
          Lembro  respondeu ela com um certo orgulho.
   Ento vamos. Pelo amor de Deus, se voc no ler, no poderemos mais ficar juntos.
  Vendo o desespero dele, Marianne compreendeu como era importante para Ross que ela lesse. Mas o que podia fazer se no gostava e no via utilidade alguma nas letras? 
Ele dizia que ela se esquecera, o que no era verdade. Apenas no se interessava.
  Como Ross ficaria feliz se ela lesse aquelas linhas, foi o que fez. Afagou o rosto do menino e apanhou o caderno, onde ele havia escrito as frases que ela deveria 
copiar. Com voz pausada e sonora, foi lendo:
          Mame vai s compras no mercado; Papai saiu para o trabalho; O gato do vizinho subiu na rvore...
  Ross sentiu a pele se arrepiar e suspirou aliviado. Ela estava lendo! Marianne sabia ler. No se esquecera. Estava atrasada na escola porque queria. Sua teimosia, 
contudo, acabaria lhe custando o ano letivo. Tentou expor-lhe o problema:
    claro que voc sabe ler. Por que no acompanha o resto da turma? O senhor O'Neill est muito zangado com voc.
  Ela deu de ombros e respondeu com desinteresse:
   No gosto de ler. No acho que seja importante.
   Como no  importante? Se voc no aprender a ler, vai ficar ignorante para sempre e perder muitas coisas boas na vida. E isso o que voc quer? Ser burra?
  Ela deu de ombros novamente e retrucou:
    importante para voc?
    muito importante para mim. E deveria ser para voc tambm. Se voc no acompanhar a turma, seu pai vai mand-la para o internato em Newcastle.
   No quero ir.
   Sei que no. Nem eu quero que v. Por isso, trate de prestar ateno s aulas e fazer tudo direitinho como o senhor O'Neill mandar. Se ele mandar voc ler, leia. 
Se a mandar escrever, escreva. Se lhe perguntar alguma coisa, responda.
   Est bem. Se  o que voc quer...
  Era ela quem deveria querer, para o seu prprio bem. Mas exigir dela essa conscincia seria irreal e cruel. Por isso Ross contentou-se em ser a causa de seu interesse. 
Desde que ela aprendesse a ler, estava tudo bem.
   Vamos continuar ento  animou-se ele. Copie essas frases.
  Com o lpis na mo, Marianne comeou a copiar cada uma das frases que ele escrevera. Quando chegou na metade, sua pacincia j havia se esgotado, e ela escreveu: 
Marianne ama Ross.
  O menino a encarou com os olhos cheios de gua. No s porque ela criara uma frase sozinha, mas porque lhe fizera uma declarao muito bonita. Beijou-a discretamente 
no rosto, tentando ocultar as lgrimas, e disse baixinho em seu ouvido:
   Ross tambm ama Marianne.
  No dia dos exames, Marianne conseguiu tirar uma boa nota. Embora no fosse outro dez, um oito e meio foi considerado mais do que satisfatrio pelo senhor O'Neill. 
No dia da entrega das provas, o professor acercou-se dela e falou:
   Muito bem, Marianne. Sua nota foi muito boa. Excelente mesmo. Demonstrou que voc no  uma menina estpida. Por que se recusa a aprender?
   Estou aprendendo, senhor O'Neill  respondeu ela friamente.
  A menina na carteira da frente virou-se para trs e fez uma careta, deixando Marianne indignada. Pensou em puxar-lhe as tranas, mas uma outra menina se aproximou 
e falou carinhosamente:
   No ligue no. Ela ainda tem muito que aprender.
  Havia tanta doura na voz daquela menina, que Marianne respondeu, tentando parecer doce tambm.
   Tem razo. Ela no sabe de nada.
   Com quem est falando, Marianne?  era a voz do professor.
   Com essa menina aqui  respondeu, apontando para o lado.  No sei o seu nome.
   Nikita  respondeu a outra com um sorriso.
   Com a Nikita  repetiu Marianne.
  O professor a olhava como se ela fosse louca, assim como as outras meninas, que pareciam meio assustadas.
   Que Nikita ?
   A Nikita, ora. Essa aqui. Fale com eles, Nikita.
   No posso. Eles no podem me ver ou ouvir.
   Por qu?
  Antes que Nikita respondesse, o senhor O'Neill j havia se levantado e se aproximado da menina da carteira da frente, que se chamava Anne.
   Por que est chorando, Anne?  perguntou ele. Em lgrimas, Anne, balbuciou:
   Nikita... Era assim que a chamvamos... Era minha irmzinha... Morreu afogada no vero passado...
   Oh!  fizeram as outras meninas, ao mesmo tempo.
   Acha engraado debochar do sofrimento de sua colega?  zangou-se o professor, batendo com a varinha na carteira de Marianne.
   Eu no fiz isso.
   Quem lhe contou sobre Nikita?
   Ela mesma.
   Voc a conheceu?
   Conheci-a agora. Ela est bem aqui ao meu lado. Anne desatou a chorar convulsivamente, e o senhor O'Neill, cada vez mais indignado, continuou a recriminar:
   Pare j com isso, est me ouvindo? Ou serei obrigado a tomar medidas mais drsticas.
   Marianne  malvada  falou uma outra menina.  S porque Anne lhe fez uma careta...
   No foi!  berrou Marianne, j impaciente. No foi nada disso. Nikita est aqui ao meu lado. S no a v quem no quer!
   No diga mais nada  aconselhou Nikita, penalizada.  Voc  a nica que pode me ver e ouvir.
   Mas...  balbuciou Marianne  ... elas esto me chamando de malvada.
          No ligue. Faa de conta que eu no existo.
   No posso. Voc est aqui. E foi to simptica!
  Ningum nunca  simptico comigo. S o Ross. s vezes, tia Jane tambm .
          No fale mais nada. Pelo seu prprio bem, fique quieta.
  Marianne deu de ombros e acrescentou com voz chorosa:
          Se  o que quer...
  Olhou para a frente novamente. Todos os olhares estavam cravados nela, inclusive os do professor que, de boca aberta, a varinha parada no ar, no sabia o que pensar 
daquele monlogo.
          Seus pais vo saber disso, pode estar certa replicou ele, recuperando o autocontrole   muito feio tripudiar sobre o sofrimento alheio.
  Embora Marianne no entendesse bem o que ele dizia, sabia que seus pais receberiam uma nova carta. Nova carta, nova bronca, nova ameaa. E tudo porque uma menina 
idiota resolvera inventar aquela histria de irm afogada. Ento no percebiam que aquela Nikita no podia ser a irm de Anne?
  Aos pouquinhos, a raiva e a indignao foram tomando conta de Marianne, que via os ombros de Anne sacudidos pelos soluos. Um dio feroz e irracional se apoderou 
dela, fazendo-a perder o domnio de si mesma. Subitamente, deu um salto para a frente e agarrou os cabelos da menina, batendo com a testa dela diversas vezes na 
carteira.
  O professor O'Neill mal acreditava no que estava acontecendo. Ouviu os gritos agoniados de Anne e, mais que depressa, agarrou Marianne pela cintura e lutou com 
ela, forando-a a soltar os cabelos da outra. Gritando feito louca, foi arrastada pela porta, enquanto Anne soluava, um galo crescendo na testa ferida.
  A prpria diretora foi acompanhar Marianne at em casa. Deixou Anne e as demais alunas aos cuidados dos professores e da secretria e saiu com a menina.
  No dava mais para aguentar aquela criana descontrolada e maluca. Era obrigao dos pais cuidarem dela, no sua. Ela dirigia uma escola, no um asilo de loucos.
  Colocada a par da situao, Kate pensou que fosse morrer de vergonha. Ouviu as queixas da diretora em silncio, interrompido apenas por desajeitados pedidos de 
desculpas. Marianne tambm no disse nada. Nem se defendeu. De que adiantaria? Ningum acreditava mesmo nela.
   Que fique bem claro  disse a diretora em tom intimidador   a ltima vez que Marianne apronta na escola. A ltima vez, eu juro. Da prxima, terei de expuls-la.
  Depois que a diretora foi embora, exigindo providncias enrgicas, sob pena de expulso, Kate se virou para a filha com ar ameaador. Estava furiosa. No suportava 
mais tanta vergonha. Agarrou a menina pelos cabelos, desferindo-lhe diversos tapas nas faces, e saiu arrastando-a escada acima. Marianne chorava e esperneava, mas 
Kate no amolecia. Precisava dar-lhe uma lio. Abriu a porta do quarto e atirou-a l dentro, fechando a porta com estrondo.
   Voc vai ver s quando seu pai chegar!  berrou Kate do lado de fora.  Vai levar uma surra da qual jamais ir se esquecer!
  Marianne se jogou na cama e desatou a chorar, sentindo-se em completa solido. Ross nada sabia do ocorrido. O que pensaria quando passasse na escola e no a visse?
  Medo, foi o que ele sentiu. Como Marianne no apareceu, Ross temeu por ela e correu  sua casa o mais rpido que pode.
   Tia Kate, tia Kate!  chamou ele preocupado.  Marianne... Ela sumiu!
   No sumiu no. Est no quarto dela.
   Ela voltou mais cedo? Por qu? Est doente?
   No. Ela passou dos limites. De novo.        
  Brevemente, Kate narrou a Ross o que havia acontecido. A histria no lhe pareceu to fantasiosa como a tia dissera. Ele acreditava em Marianne.
   E se Marianne no estiver mentindo?  sugeriu ele.  Ela pode mesmo ter visto o fantasma da menina.
   No me venha com essa voc tambm. Fantasmas no existem.
  No adiantava argumentar com Kate, nem Ross estava disposto a isso. S queria saber de Marianne.
   Posso v-Ia?  pediu.
   Hoje no. Ela est de castigo. S sai depois que o pai deixar.
  Marianne passou o resto do dia trancada no quarto e no saiu nem para almoar. Depois, veio a hora do ch, e nada. A hora do jantar j estava se aproximando, e 
Kate no aparecia. Ross tambm no. S muito mais tarde foi que a porta se abriu com um estrondo, e o pai entrou, fuzilando de raiva.
   Muito bem, Marianne Landor!  esbravejou. Isso  coisa que se faa? Bater em sua colega?
  - Pai...
  David nem quis escutar. Tirou o cinto, esticando-o pelas pontas, e aproximou-se de Marianne, que se encolheu toda. O primeiro golpe acertou-a no brao, que ela 
erguera para se proteger. Outros dois a atingiram nos flancos e, quando ela se virou, mais um acertou-lhe em cheio as costas. Tudo aconteceu muito rpido. Com apenas 
quatro vergastadas, David abrira enorme ferida no corao de Marianne. Depois que terminou, apontou o dedo para ela, cada no cho com a carne ardida, e vociferou:
   Isso  para voc aprender a no agredir mais suas colegas. Da prxima vez, tenha respeito, se no quiser que eu a mate!
  As palavras de David arderam como ferro em brasa nos ouvidos de Marianne, que ergueu o corpo alquebrado e, olhando bem fundo nos olhos do pai, disparou com toda 
a fora de seu dio:
  - Odeio voc! Voc no  meu pai! Animal, monstro, demnio! Eu o odeio! Odeio! Saia daqui, demnio, saia! Eu o odeio!
  David nunca vira tanto dio nos olhos de uma criana. Tomado de surpresa, rodou nos calcanhares e saiu em desabalada carreira pelas escadas, at onde Kate o aguardava 
em companhia dos outros filhos, que choravam assustados. Abraou a mulher e chorou tambm. No sabia mais o que fazer. Marianne os estava consumindo e, naquele momento, 
ele pensou o quanto seria bom se ela jamais houvesse nascido.

  13
  Marianne voltou  escola acabrunhada. Assim que despontou na soleira da porta, as colegas comearam a cochichar entre si e a dar risadinhas abafadas. Rosto ardendo, 
entrou a passos vagarosos e foi sentar-se no lugar de sempre.  sua frente, Anne mal disfarava a raiva. Acompanhou a entrada da outra e, depois que ela se acomodou, 
falou entre os dentes:
   Isso no vai ficar assim, sua maluca. Minha me disse que voc  uma doida perigosa, e o melhor  manter distncia das suas esquisitices.
   Ela tem razo  rebateu Marianne, mal contendo a raiva.  Se no quiser que eu a morda.
   At parece...
  Marianne chegou o corpo para a frente e mordeu Anne no ombro. Enquanto a menina gritava, as outras, assustadas, fizeram meno de se levantar, mas o professor 
entrou e todas se calaram, com medo.
   Bom dia  cumprimentou ele, carrancudo como sempre.
  Antes que Anne se levantasse para fazer queixa dela, Marianne soprou em seu ouvido:
   Se disser uma palavra, vai se ver comigo. Vou lhe mostrar o quanto sou perigosa.
  Pela primeira vez em sua vida, Marianne ameaou algum. E o mais surpreendente foi o resultado. O tom ameaador de sua voz intimidou no apenas Anne, mas a menina 
do lado e outras que se encontraram prximas. Logo Marianne percebeu que causava medo nas colegas, e essa descoberta representou uma arma poderosa para sua defesa.
  Na sada da escola, contou a Ross sobre o ocorrido e a ameaa que fizera a Anne. Os tios certamente, no aprovariam aquela conduta, mas Ross viu nela uma forma 
de Marianne se manter em segurana. Deixou-a em cs e seguiu mais feliz.
  Ao amanhecer, Ross notou algo estranho no ar. Lilian parecia diferente. Exibia um ar de triunfo que o incomodou.
  - Como est Marianne hoje?  indagou com ironia.
  - Bem  respondeu ele, desconfiado.  Por que?
  -  bom que esteja bem, porque essa alegria vai durar pouco.
  - Por que faz isso, Lilian?  respondeu Nathan.  Deixe Marianne em paz.
  Ross no entendeu nada. Passou por eles e foi para o quarto, enquanto escutava a voz da madrasta:
  - V se lavar. O jantar ser servido em breve. Um dos ltimos...
  - Pare com isso!  tornou Nathan. - Quer estragar tudo?
  Lilian antegozava sua vitria. Depois de quase um ano de buscas, encontrava a casa de seus sonhos. O preo era razovel, e a casa, muito boa; ampla, com quatro 
quartos espaosos e um jardim maravilhoso. Ficava num bairro distante, numa rua muito distinta, onde ela no seria obrigada a conviver com aquela famlia insossa 
e sem modos que o marido lhe arranjara.
  Ao ouvir Ross fechar a porta do quarto, ela se aproximou do marido e falou com euforia:
     A casa  uma beleza. J nos vejo morando l.
   Por que a pressa?
   Voc sabe que no gosto daqui. E depois, voc prometeu.
   Eu sei. Mas eu ainda nem vi a casa.
   Tenho certeza de que vai adorar.  ideal para ns.
   No acha que o preo  um tanto alto?
   No v me dizer que ficou sovina de repente!
   No se trata disso. Temo apenas no poder pagar.
          Deixe de bobagens. J conversei com o proprietrio, e ele sugeriu uma hipoteca. Disse que todo mundo faz assim.
          De qualquer forma, preciso pensar. No posso tomar nenhuma deciso antes de ver a casa.
          Amanh podemos passar l antes de voc ir para o trabalho. O proprietrio vai estar nos esperando. 
  No havia mais meios de dissuadir a mulher daquela ideia de mudana. Nathan protelara o quanto pudera e agora no tinha mais jeito. Podia dizer que no gostara 
da casa, contudo, no suportava mais a presso para se mudarem. E ele no aguentava mais a mulher se queixando de Kate e Marianne. Talvez o melhor mesmo fosse se 
mudarem para longe, um lugar onde encontrasse um pouco de sossego. Sentiria falta do irmo e da famlia, mas tinha que pensar na felicidade da esposa e na sua prpria 
paz.
  A seu lado, invisvel, Margot acompanhava o desenrolar dos acontecimentos.
   Pois   suspirou o esprito.  Vai ser uma pena. J tinha feito planos para voc, Lilian, mas com Marianne longe, vai ficar difcil. Quem mais vou encontrar 
com a sensibilidade dela?
  Margot saiu desanimada e foi at a casa de Marianne. A menina e os irmos estavam brincando no cho da sala, embora ela mantivesse uma brincadeira isolada com 
sua boneca.
   Ol, Marianne  cumprimentou ela, sentando-se a seu lado, e Marianne respondeu com um aceno de cabea.  Gosta de bonecas?
  Marianne deu de ombros e respondeu sem muito interesse:
   Gosto. Pelo menos elas no falam.
   Entendo o que quer dizer. As pessoas s vezes so bem chatas, no so?
   So sim.
   Com quem est falando, Marianne?  interrompeu Roger, olhando para os lados.
   Com Margot.
   Onde ela est?
   Bem aqui ao meu lado.
   No vejo ningum.
   Isso  porque voc  um menino muito tolo.
   Mas...
  Irritada, Marianne deu-lhe um tapa na mo, e Roger comeou a choramingar, voltando sua ateno para o cavalinho de pau que tinha a seus ps.
   Vou contar para a mame  queixou-se ele.
   Se contar, vai apanhar!
  O tom incisivo de Marianne, mais uma vez, intimidou o interlocutor e, a exemplo do que ocorrera na escola, Roger tambm no disse nada. Margot, j impaciente com 
a intromisso do menino, aproveitou que ele havia se calado e continuou:
   Veja Lilian, por exemplo.
  Marianne desviou a ateno do irmo e retrucou friamente:
   O que tem ela?
    uma verdadeira bruxa.
   Engraado... at que ela no tem implicado comigo.
  **  Sabe por qu?
          No.
  No fosse a lembrana da figura aterradora de Luther, Margot lhe teria contado sobre a mudana.
          Lilian  uma fingida  acrescentou ela.  Finge-se de amiga de Ross, mas no gosta dele nem um pouquinho.
          Ela tem nos deixado em paz.
          No se iluda. Ela est lhe aprontando uma falseta.
          Como assim?
          Est preparando um novo bote.
          No entendo. O que voc diz no faz sentindo algum.
          Agora mesmo, Lilian est l na casa dela implicando com Ross. Por que no vai l ver?
  Marianne estava em dvida. A me mandara que ela olhasse os irmos enquanto preparava o jantar.
          No posso ir l  protestou hesitante.  Minha me pode no gostar.
          Desde quando voc tem medo de sua me? Pensei que fosse mais esperta.
  Roger a olhava pelo canto do olho, intrigado com aquela conversa com o invisvel e temeroso em fazer perguntas.
          No posso ir  insistiu Marianne.  Minha me vai me bater.
          Se ela quiser bater em voc, prometo ajud-la.
          Como?
          Voc vai ver  como a menina hesitava, Margot praticamente implorou:  Por favor, Marianne, s dessa vez.
          Mentirosa! Como  que vai me ajudar se minha me nem consegue ver voc?
          Confie em mim. Prometo que nada vai lhe acontecer. Agora, quanto a Ross...
  Uma suposta ameaa a Ross era algo muito srio, e Marianne resolveu verificar o que estava acontecendo. Soltou a boneca no sof e saiu pela porta da frente, a 
fim de que a me no a visse. Deu a volta na casa at a tbua na cerca e passou para o quintal vizinho.
  Ross jantava em companhia do pai e da madrasta quando ouviram batidas na porta da cozinha.
   Quem poder ser?  indagou Lilian surpresa.
   Deve ser Marianne  respondeu Nathan.  Ela sempre vem pelos fundos.
  Ante aquela possibilidade, Ross correu a abrir a porta antes que Lilian pensasse em impedi-lo. A prima estava ali parada, com Margot, invisvel a seu lado, soprando-lhe 
coisas ao ouvido.
   Est tudo bem, Marianne?  indagou Ross, aps efusivo abrao.
   Est  respondeu ela, espichando o pescoo para espiar do lado de dentro.  Vim apenas ver como voc est passando.
   Que bobagem  essa agora?  cortou Lilian, que surgira atrs do menino.
   Por que voc est implicando com ele?  redarguiu Marianne, encarando Lilian com ar glido.
   Em primeiro lugar, no  voc,  senhora. Em segundo lugar, no tenho tempo para ficar de implicncia com crianas.
   Mas estava. No estava, Ross?
  Sem saber o que dizer, ele deu de ombros e no respondeu.
   Venha terminar o seu jantar, Ross  ordenou Lilian.
   Entre, Marianne  convidou o menino.
   Ah! isso  que no! Essa selvagem no entra mais em minha casa!
Lilian colocou a mo na frente de Marianne, impedindo sua passagem, e Nathan interveio:
  - V com calma, Lilian. Ela no est fazendo nada.
  Embora contrariada, Lilian saiu da frente e Marianne entrou, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado de Ross.
   J jantou?  indagou o tio.
   Ainda no.
   Quer jantar?
   No, obrigado  ela se esforava ao mximo para parecer educada.  Minha me est preparando minha comida.
   timo!  cortou Lilian.  Por que no vai logo para casa?
   Est vendo s?  instigou Margot, parada ao lado de Marianne.  Ela quer que voc v embora s para continuar a maltratar o seu primo. No gosta dele. At a 
ouvi dizer que vai fazer uma poo mgica para transform-lo em sapo.
   Que horror!  indignou-se Marianne, acreditando integralmente nas palavras de Margot.  No vou deixar!
   O que houve?  perguntou Nathan.
   Tio... Essa mulher  apontou para Lilian   uma bruxa. Quer enfeitiar Ross, transform-lo num sapo.
   Ora, sua atrevida...  rebateu Lilian furiosa, levantando a mo para bater nela.
   Quem lhe disse isso?  interrompeu Nathan, segurando a mo da esposa.
   Foi a Margot.
   Quem  Margot?
   Ela.
  Apontou para o esprito, que ficou indeciso. Percebendo o rumo que a conversa tomava, Ross soltou a colher no prato, levantou-se correndo e tomou a mo de Marianne, 
puxando-a em direo  porta.
   Venha, Marianne, vamos embora. Sua me deve estar preocupada.
   Voc ainda no respondeu  insistiu Nathan.         Quem  Margot?
    uma colega da escola de Marianne  intercedeu Ross.  Vive fantasiando e inventando coisas.
  Marianne nem teve tempo de protestar, pois Ross j corria com ela pelo quintal. Ao mesmo tempo, em sua casa, Kate ajeitava as crianas  mesa, enquanto perguntava 
a si mesma:
   Aonde ser que foi essa menina? Mandei que tomasse conta dos irmos.
   Acho que ela saiu com Margot...  contou Roger de forma inocente.
  Kate fez cara de espanto. Ser que o filho tambm estava dando para ver coisas? J ia perguntar quando Ross entrou correndo na cozinha, trazendo Marianne pela 
mo.
   Onde foi que voc se meteu?  indagou o pai com aborrecimento.  Sua me no lhe mandou olhar seus irmos?
   No briguem com ela, por favor  pediu Ross.
   Fui eu que pedi a Marianne para ir levar-me um livro.
  Obviamente, nem Kate, nem David acreditaram, contudo, preferiram no fazer perguntas. Era at bonito o esforo de Ross para proteger Marianne. Ela passou pelos 
pais e sentou-se em seu lugar, lanando ao primo um sorriso de cumplicidade, que ele devolveu com outro, carregado de amor.

  14
  Os dias transcorriam normalmente. Marianne se encontrava bem mais calma, livre, inclusive, da influncia de Margot, que no conseguia mais atingir Lilian por seu 
intermdio. Por mais que tentasse, no tinha sucesso, j que Ross estava sempre por perto e impedia. E a prpria Marianne perdera muito de seu interesse em Lilian, 
desde que o primo voltara ao convvio de sua casa.
  Lilian, por sua vez, s pensava na casa nova. Finalmente encontrara uma que era exatamente o que procurava e combinou de passar pela fbrica e pegar o marido, 
para irem v-la juntos. Terminado o almoo, Nathan foi falar com o senhor Bradley, que, com excessiva simpatia, autorizou-o a sair.
  Dentro de cinco minutos, Lilian apareceu eufrica, passando as luvas de uma mo  outra. Recebeu o beijo discreto do marido e foi com ele descendo a rua.
   E agora?  indagou ele.  Para onde vamos?
   Vamos tomar o metr  respondeu ela bem-humorada.
  Sem que Nathan percebesse, o senhor Bradley os acompanhava com olhar enigmtico, at que eles sumiram de vista. Em breve chegaram  casa, e um senhor idoso veio 
atender.
   Bom dia, senhora Landor  cumprimentou ele polidamente.
   Bom dia, senhor Carlson  respondeu ela, acenando com gestos aristocrticos.  Este  meu marido, Nathan Landor.
   Muito prazer  acrescentou o homem, estendendo a mo para Nathan, que a apertou indeciso.  Entrem e fiquem  vontade.
  Lilian tomou o brao do marido e seguiu com ele para o interior da casa, com o proprietrio logo atrs.
   A casa  muito bonita, toda em estilo vitoriano. Apesar de ser uma construo de quase cinquenta anos, est muito bem conservada, como pode ver.
  Nathan, olhar crtico, balanou a cabea afirmativamente e encarou a mulher, que sorria encantada, mal conseguindo ocultar o entusiasmo.
   E ento, meu bem?  tornou eufrica.  O que me diz?
  O olhar discreto de Nathan fez o senhor Carlson perceber que o casal precisava conversar a ss, e ele disse polidamente.
   Podem ficar  vontade. Se precisarem, estarei l embaixo.
  Assim que ele saiu, Nathan foi logo falando para a mulher:
   Esta casa est muito acima de nossas possibilidades.
   Mas ela  to bonita! No podemos pensar na hipoteca?
   No sei. Tenho medo de no conseguir pagar.
   Acho que est com medo  toa. Nem  to cara assim. Tenho certeza de que, com esforo e economia, conseguiremos resgatar a hipoteca em pouco tempo. Pense em 
Ross. Ele est crescendo. No acha que merece viver num lugar melhor? A vizinhana aqui  muito seleta.
   Por Ross, continuaramos em nossa casa, tenho certeza.
   Mas aquela casa no  nossa!  alugada.
   Que diferena faz? Quase todo mundo vive de aluguel, no  nada de mais. No somos felizes ali?
  Lilian colocou as mos na cintura e, batendo o p no cho, retrucou em tom de zanga:
   Mas que falta de ambio! Como pode se contentar em viver num imvel que no lhe pertence, quando pode ter a sua prpria casa?
   No sou ganancioso e estou preocupado com meu filho. No quero que ele sofra.
   Voc est  preocupado com aquela maluca da Marianne!
   No  bem assim.
    assim, sim. Voc prometeu que iramos nos mudar e agora est querendo mudar de ideia. Tudo por causa daquela doida!
   Talvez devssemos esperar um pouco mais. Procurar algo mais em conta, talvez.
   Nada disso. Sei muito bem que voc tem condies de pagar essa hipoteca. Ou est com medo de Kate?
   No  isso...
    isso mesmo. Ser que se tornou um covarde de repente? Com medo da cunhada? Ou voc hesita em deix-la porque se apaixonou por ela?  isso, Nathan? Voc ama 
a mulher de seu irmo?
   No me venha com esses disparates!  indignou-se.  Voc sabe que no  nada disso.
   Pois ento, qual o problema?
  Nathan no sabia o que dizer. Se pudesse, daria o que tinha para voltar atrs na promessa que lhe fizera, contudo, no podia. Ainda mais porque no queria que 
Lilian fizesse mau juzo de Kate. Ele gostava muito da cunhada, mas jamais pensara nela como mulher. Ela era a esposa de seu irmo.
   Est certo  sussurrou vencido.  Seja como voc quiser. Vamos chamar o senhor Carlson e acertar tudo.
  Como Nathan no encontrou dificuldade em conseguir a hipoteca, marcaram para breve a data da assinatura da escritura. Apesar da tristeza em deixar a famlia, agradava-o 
a euforia da mulher. Lilian no era tola. Percebia nitidamente a contrariedade do marido. Sabia, porm, que a propositada suspeita sobre sua paixo por Kate seria 
motivo mais do que suficiente para ele manter a promessa.
   No fique triste  falou ela com voz melflua. Estamos fazendo o melhor. E Ross poder vir visitar Marianne quando quiser.
   Ser que no  melhor contarmos a Kate e David? Para irem preparando o esprito de Marianne?
   Se contar, ela vai estragar tudo.
   Mas a casa j est praticamente comprada. Pense em Marianne. Ela  uma criana...
   Uma criana mal-educada e atrevida. Vai ser bem feito para ela.
  Ao lado de Lilian, o esprito de Margot se remoa de raiva. Como gostaria de contar tudo a Marianne! No apenas para insuflar a menina contra Lilian, mas porque, 
inesperadamente, acabara se afeioando a ela e no queria que sofresse. No entanto, a s lembrana de Luther a paralisava.
  Com um suspiro doloroso, saiu pela parede e foi ao encontro de Marianne. Ela estava deitada em sua cama, pronta para dormir, quando Margot entrou.
   Ol, Marianne  cumprimentou com um sorriso amargo.
   Como vai?  respondeu Marianne, sonolenta.  O que foi que houve? Est triste?
  Margot se sentou na beira da cama e respondeu quase num lamento:
   Deu para perceber?
    claro. O que foi que aconteceu?
   No gosto de Lilian...
   Nem eu. No gosto de Lilian porque ela vive implicando comigo e tentando me afastar de Ross. E voc? Por que no gosta dela? O que foi que ela lhe fez?
   Digamos que ela destruiu a minha vida.
   Como?
   Roubando-me o homem amado.
  As duas se entendiam muito bem, e Marianne comentou como se falasse a uma amiga:
   Quase ningum fala comigo do jeito como voc fala. As pessoas, em geral, no gostam de mim e procuram se afastar. Mas voc no. Conversa comigo normalmente, 
entra em minha casa como se fosse da famlia. Por qu?
   Gosto de voc  respondeu com cautela.
   Deve ser a nica, alm de Ross.
   Seus pais no a amam?
  Ela chegou o rosto para a frente e falou bem baixinho:
   Vou lhe confessar uma coisa.
   O qu?
   Eles no so meus pais.
   No?!
   Eles dizem que so, mas sei que no so.
   Como assim?
   Fui deixada aqui na casa deles, mas eles no so meus pais.
   Onde esto seus pais verdadeiros?
  Marianne fez um gesto de dvida, e Margot compreendeu tudo. Em sua confuso mental, ela ainda retinha na memria a lembrana de seus pais na ltima encarnao, 
que no eram os mesmos da atual. Por isso no os reconhecia.
  Ela olhou de soslaio para a porta e acrescentou:
   Procuro no falar nada. Eles ficam zangados  toa, e eu tenho medo.
   Eles a maltratam?
   s vezes. Minha me me bate e me tranca no quarto, sem comida. Meu pai tambm me bate. S que com mais fora.
   Ora, vamos, eles no so assim to ruins. Sei que foi seu pai quem convenceu seu tio Nathan a permitir que Ross voltasse a frequentar sua casa.
   Isso s vezes acontece.
   E voc no gosta deles?
   No sei. Eles so estranhos. No veem as pessoas ao seu redor. No entendo como pode.
   Como assim?
   Ora, eles nem conseguem ver voc! No compreendo isso. Por que existem pessoas que ningum v?
  Margot sentiu imensa tristeza. Marianne no desconfiava que falava com espritos e, para completar, havia aquela coisa em seu crebro, invisvel aos olhos humanos, 
mas que, energeticamente, lhe tolhia a razo.
   Luther me disse que eu posso falar com os mortos  acrescentou ela, para surpresa de Margot.
   Conhece Luther?
   Esteve aqui algumas vezes. Mas no sei se acredito nele. Ningum parece morto. Voc est morta, Margot?
  Cada vez mais compadecida de Marianne, Margot abaixou a cabea e no respondeu. Se, por um lado, tinha vontade de esclarec-la, por outro, no pretendia assust-la. 
Apesar de movida pela vingana, Margot no era m, e em seu corao brotou uma compaixo genuna e uma ternura sincera.
  Tal rompante de lucidez e de sentimentos nobres desanuviou o corao do esprito, permitindo a proximidade de seres sbios e iluminados. Sem que ela percebesse, 
os amigos invisveis irradiavam sobre sua mente a luz da sensatez, de forma que ela comeou a refletir sobre a prpria vida, espelhado-se em Marianne.
  Se estava naquela situao, no era por culpa de ningum, e sim por escolha dela mesma, que se recusava a tomar outros rumos e preferia permanecer na crosta terrestre, 
como se dela ainda fizesse parte. Marianne, por sua vez, no tinha escolha. Por mais que houvesse um plano divino por trs de tanto sofrimento, naquele instante, 
quem sofria era a menina que desconhecia os comprometimentos da prpria alma.
  A comparao lhe pareceu injusta, e sua ao sobre Marianne tomou ares de crueldade. Ser que tinha o direito de utilizar-se da sensibilidade da criana s para 
empreender sua vingana pessoal? Pensando melhor, no lhe parecia correto debruar-se sobre o fardo de Marianne para acrescentar-lhe mais peso. A garota no tinha 
escolha. Ela, sim.
  E havia algo que Margot reconhecia em Marianne e que ela jamais possura: coragem. No devia ter sido fcil aceitar aquela reencarnao de loucura, porm, Marianne 
a enfrentava com persistncia. Mesmo que a mente consciente estivesse distante daquela verdade, a alma da menina resistia ao aparente infortnio, quando bem podia 
desistir e desencarnar.
  Marianne era realmente corajosa. E ela? Tinha coragem para qu? Vingar-se? No era preciso coragem para se vingar. Qualquer um podia fazer o que ela fazia. Difcil 
mesmo era perdoar, desistir da vingana e olhar para dentro de si, reconhecendo que a causa da dor estava em si mesma.
  Constatar a verdade foi um choque para Margot. De repente percebeu no apenas que no tinha o direito de usar Marianne, mas tambm que Lilian no era responsvel 
pelo seu sofrimento. A rival estava numa situao melhor que a dela, de volta  vida e casada com outro homem. E ela? De que valia o seu cime se Lilian no se lembrava 
do passado nem de quem era ela? No teria sido melhor, ao invs de persegui-la pelos sculos, tomar coragem e reencarnar junto dela para buscarem um entendimento?
  Mas havia o outro lado. Margot fora condenada quela morte horrenda em virtude da acusao infundada de Lilian. S que havia se esquecido, e agora se lembrava, 
de que, numa existncia ainda anterior, havia lhe tirado tudo, inclusive a vida, s para ficar com o marido dela. Ento, no devia ter-se queixado quando Lilian 
lhe dera o troco.
  E era por isso que ela agora se vingava. Porque Lilian se vingara por algo que ela fizera, e talvez, numa prxima encarnao, viesse a vingar-se de novo, por causa 
do que ela agora fazia. Ento, ela se vingaria outra vez, e Lilian novamente... E quando  que aquela vingana ia acabar? A ideia de uma vingana eterna a incomodou, 
provocando o questionamento sobre a utilidade da tudo aquilo. A concluso a que chegou foi de que, quanto mais se vingassem, mais estariam presas uma  outra.
  Lilian, apesar de tudo, no parecia mais presa a ela. Era ela que se prendia a Lilian. A outra nem ao menos sabia da sua existncia, no lhe registrava a presena 
e, no fosse por Marianne, continuaria em seu mundinho de iluses e futilidades.
  Iluses... Ela tambm alimentava uma iluso, s que muito pior. Iludia a alma com a satisfao da vingana. Mas que alma se deixa iludir para sempre, quando a 
verdade eterna no  um sentimento mesquinho e fugaz, incapaz de gerar felicidade? Vive para sempre o amor que floresce no corao. E que amor Margot havia plantado 
no seu?
  Margot sentiu-se mais sozinha do que nunca. Olhando ao redor, no viu ningum a quem pudesse chamar de amigo, j que o esprito de luz continuava invisvel. S 
havia Marianne, pequenina e indefesa ante o poderoso ser das sombras. Por um momento, Margot esqueceu-se de si mesma e fitou a menina, cujas plpebras pesadas iniciavam 
o processo de adormecimento.
   Voc no est morta  afirmou Marianne, praticamente adormecida.  No pode estar...
  Os olhos de Marianne se fecharam lentamente, liberando seu corpo fludico, igualmente adormecido, no espao invisvel do quarto. Margot deu um suspiro de alvio, 
sem saber que o ser de luz que a acompanhava interferira no sono de Marianne, para que as duas no se encontrassem no astral. Podia ir embora tranquilamente, sem 
se ver obrigada a mentir ou a lhe contar uma dolorosa verdade.

  15
  O tempo foi passando, e com a chegada do vero e das frias, as duas crianas se aproximaram ainda mais e passavam o dia todo juntas, conversando ou brincando. 
Ross ainda no sabia da casa nova, j que Lilian atrasara um pouco a mudana por causa das muitas reformas que planejara. 
  Tudo era feito em absoluto sigilo. Lilian cuidava pessoalmente das obras, deixando Ross aos cuidados de Kate. Nos finais de semana, Nathan a acompanhava, abismado 
com a grande soma de dinheiro que ela gastava no que ele considerava futilidades e caprichos.
   No acha que est exagerando?  indagou ele preocupado.  Como pensa que vou pagar por tudo isso?
   No seja mesquinho  rebateu ela com azedume.  Voc agora est ganhando muito bem. 
  Era verdade. Logo aps a promoo, o chefe de Nathan lhe oferecera o cargo de gerente, pois o anterior falecera num acidente de trem, deixando o lugar vago de 
uma hora para outra.
   Tem razo  concordou ele, pensando em sua imensa sorte , embora ache tudo muito estranho. Foi muita coincidncia e muito azar para o Clayton.
  Era to jovem! Perder a vida num acidente de trem foi uma fatalidade terrvel.
  Na segunda-feira, como sempre, Lilian saiu para a casa nova logo depois do almoo. Cuidou pessoalmente de cada detalhe, deu ordens e sugestes e, cerca de uma 
hora depois, tornou a sair. Foi caminhando pela rua, nariz empinado, com ares de grande dama, at que alcanou um automvel estacionado bem perto da esquina.
  A porta do carro se abriu e ela entrou, orgulhosa por poder andar num carro moderno e luxuoso feito aquele. Sentou-se toda coquete e encarou o homem que a esperava 
e, sorrindo, falou com paixo:
   Ol, Richard. Demorei muito?
  Ele a tomou nos braos e deu-lhe um beijo prolongado.
   Sua espera  sempre demorada disse com voz melosa, pondo o carro em movimento.  Voc sabe que sinto saudades.
   E Nathan?  sondou ela.
   Trabalhando, como sempre.
   O idiota...  desdenhou.  No desconfia de nada.
   No entendo por que se casou com ele. Eu no havia lhe prometido uma casa, roupas, joias, dinheiro...?
   Prometeu-me tudo, menos o que eu mais queria, que era o casamento.
   Voc sabe que no posso. Sou casado...
   Por isso acabou me deixando, e eu tive que arranjar a minha vida. Nathan apareceu e, com a promoo, surgiu uma boa oportunidade.
   Ainda assim, no precisava ter feito isso.
   Queria que eu ficasse  sua espera a vida inteira? Voc mesmo me disse que jamais deixaria sua esposa.
   O que tivemos foi apenas uma briguinha sem importncia. Devia saber que logo acabaramos voltando. No precisava ter-se casado por isso.
   Precisava sim. Era a nica maneira de salvar a minha reputao e o meu futuro. Nathan no  to mau partido assim.
   Ainda mais agora que, providencialmente, inventei um acidente para o Clayton e o despedi, deixando o lugar vago para ele.
    o mnimo que pode fazer por mim. Se me quer a seu lado, no v esperando que me contente com migalhas. Trate de gratificar muito bem o meu marido, para que 
eu possa ter tudo do bom e do melhor. Se no, pode voltar para sua mulherzinha.
  Richard apertou o volante, mordeu os lbios com fora e retrucou:
   Eu amo voc, Lilian...
   Ento, continue pagando um bom salrio a Nathan.  a nica forma de me compensar por tudo a que tenho que me sujeitar para estar com voc.
   No me agrada que voc tenha que dormir com outro  reclamou acabrunhado.
   E voc? Tambm no dorme com outra?
   Sara  minha mulher.
   E Nathan  meu marido. Pronto.
   Mas  diferente. Sou homem...
   No  diferente nada. E voc devia se dar por satisfeito por eu ainda continuar com voc.
   Voc no me deixaria. Sou eu quem sustenta seus caprichos.
  Lilian apertou o brao do amante e deu-lhe um beijo na face, enquanto o automvel continuava seguindo em direo ao pequeno apartamento que ele comprara s para 
se encontrar com ela.
   Detesto esse lugar  falou Lilian, j dentro do quarto.  No tem o mnimo de conforto e classe.
   Ao menos aqui no corremos o risco de que algum nos veja.
   No vejo a hora de poder encontr-lo em minha prpria casa.
   Ficou louca? Quer que Nathan descubra?
   Nathan  um idiota e no vai descobrir nada.
   E o menino? E se ele falar alguma coisa?
   Estou arranjando isso tambm. Mais um pouco e conveno Nathan a deixar Ross com a tia Kate e a priminha maluca.
   No sei, no. As pessoas comentam...
   Ningum vai ver. E voc  o chefe de Nathan. No  difcil encontrar uma desculpa convincente para ir  minha casa.
  Ele fez um muxoxo e retorquiu:
   No sei qual  o problema com esse apartamento...
   No  um apartamento!  um buraco sujo, feio e sombrio. Francamente, Richard, pensei que merecesse coisa melhor.
   Ao menos, no levanta suspeitas. Ningum de minhas relaes frequenta esse bairro.        
   As pessoas de suas relaes so finas e elegantes, assim como eu. No mereo esse apartamento. 
  Lilian encerrou o assunto com um beijo, e ambos entregaram-se ao sexo. Ao mesmo tempo, na fbrica, Nathan no sabia o que pensar. Ficara muito penalizado com a 
morte de Clayton, ainda mais porque tudo acontecera de repente, e ningum fora nem avisado do enterro. O mais estranho, contudo, eram os olhares que o seguiam. Todo 
mundo o encarava
como se ele fosse culpado pela morte do outro.
  Apenas os mais prximos sabiam que Clayton havia sido despedido, e ningum entendia por que o patro tivera que inventar aquela histria s para colocar Nathan 
no lugar dele, ameaando dispensar o primeiro que desse com a lngua nos dentes. Como ningum queria ou podia perder o emprego, seguiram-se o silncio e os olhares 
indagadores. E Nathan, que nunca recebia uma promoo, de repente se vira agraciado com duas sucessivas, e em to curto espao de tempo.
   noite, Lilian preparava o jantar e recebeu-o com o beijo frio de sempre, a mente ocupada com projetos mesquinhos. Havia muitos planos a executar, mas a prioridade 
agora era Ross. Logo aps o casamento, ainda brigada com Richard, Lilian quisera afastar o menino daqueles vizinhos horrorosos. Reatado o antigo caso com o amante, 
a situao mudou, passando Ross a representar um empecilho e um perigo para ela e Richard. Agora, o que precisava era dar um jeito de Nathan deixar o filho em casa 
do irmo.
   Como est Ross?  perguntou ela ao marido, logo aps servi-lo de um prato de sopa.
   Bem.
   Ele quase no para mais em casa. Passa o tempo todo em companhia de Marianne. Nem vem mais para jantar.
   No vamos retomar esse assunto, por favor. Sabemos que ele est em casa de David.
   Eu sei. E  por isso que estou comentando. S agora, com a convivncia,  que estou me convencendo de que Ross e Marianne sofreriam muito se fossem afastados.
   Agora  um pouco tarde. Gastei quase todo o meu dinheiro com a casa e a reforma. Sem contar que j comuniquei a mudana ao senhorio.
   No pense que desisti de me mudar. Vai ser o melhor para ns. S no sei se ser o melhor para Ross. Ele vai sentir muita falta de Marianne, e ela dele. Nathan 
fitou-a incrdulo e tornou desconfiado:
   Pensei que no gostasse de Marianne.
   E no gosto. Mas no sou nenhum carrasco. Posso ver o sofrimento da menina.
   Hum...?
   Estive pensando. Talvez seja melhor que Ross v morar com Kate.
   Em absoluto! Voc sabe que no abro mo de meu filho. Kate tem sido muito boa para ele, e Marianne  como sua irm, mas no posso viver sem Ross. Prometi  minha 
querida esposa Evelyn...
  Lilian mordeu os lbios e virou-lhe as costas, para que ele no visse sua careta de raiva.
   Voc  quem sabe  tornou entre os dentes.  S falei porque me preocupo. Estou pensando no melhor para Ross.
   O melhor para ele seria que no sassemos daqui.
   Voc mesmo sabe que agora no tem mais jeito. Mas ainda  tempo de poupar o menino dessa tristeza. Ross no precisa ir, se no quiser.
   J disse que Ross fica comigo. No vou quebrar minha promessa.
   Voc fala em promessas feitas a uma morta. Faz parecer que voc mesmo no se importa com seu filho.  isso, Nathan? Por voc, ele ficaria com Kate?
   No. Por Evelyn e por mim, ele vai conosco.
  Os argumentos haviam se esgotado, e Lilian teve que engolir a derrota. Se pudesse, gritaria com o marido para impor sua vontade, contudo, tinha medo de que ele 
desconfiasse de alguma coisa e acabasse descobrindo seu caso com Richard. Por isso, achou melhor silenciar e buscar outro meio de se livrar do garoto.

  16
  No final de agosto, tudo estava pronto para a mudana. Na vspera, Lilian embrulhava, com um entusiasmo irritante, louas, cristais e porcelanas. Sem saber o que 
se passava, Ross ficou zanzando pela casa, tentando descobrir o significado de tudo aquilo. Por fim, no aguentou mais a curiosidade e resolveu descobrir:
   O que est fazendo, Li...  ela o repreendeu com o olhar, e ele corrigiu-se:  dona Lilian? Vai vender nossas coisas? As coisas de minha me? Lilian fuzilou-o, 
mas conseguiu conter a raiva e respondeu com fingida cordialidade:
   No  nada disso. Estou apenas tirando as coisas dos armrios. Amanh vamos comear a pintar a casa e no queremos que nada se quebre, no  mesmo?
   A casa vai ser pintada?
   O proprietrio achou que j estava na hora.
   Mas papai no disse nada...
   Seu pai  muito esquecido. Pensei que soubesse.
   No.
   No tem importncia. Agora suba para seu quarto e v se deitar. Amanh cedo eles estaro aqui. Ah! j ia me esquecendo. Coloquei as suas coisas na mala. Os homens 
precisaro arrastar os mveis, e as roupas pesam muito.
  Apesar da sombria desconfiana, Ross no contestou. Por mais que sentisse algo estranho no ar, no sabia definir do que se tratava e s imaginava que Lilian, maldosamente, 
pretendia livrar-se das coisas que haviam pertencido a sua me.
  Propositadamente, Nathan chegou mais tarde do trabalho naquela noite, evitando, assim, encontrar-se com Ross, que j estava dormindo. Jantou sozinho e dirigiu-se 
 casa do irmo. David atendeu, j de roupo, e indagou alarmado:
   O que faz aqui a uma hora dessas? Aconteceu alguma coisa?
  Nathan entrou com uma expresso dolorosa. Passados alguns segundos, Kate desceu as escadas, tambm assustada com a presena do cunhado.
   O que foi que houve?  perguntou surpresa.  Alguma coisa com Ross?
   No. Ross est bem. Vim aqui porque preciso conversar com vocs.
   Muito bem  falou David.  Venha sentar-se.
  Sentado no sof, Nathan permanecia de olhos vidrados no cho, sem coragem de encar-los. Olhava do irmo para a cunhada, sem coragem de iniciar uma conversa que 
lhes revelaria um ato de traio.
   Estamos esperando, Nathan  encorajou Kate. Ele olhou para a cunhada e o irmo e, finalmente, venceu o constrangimento e iniciou a conversa:
   O motivo que me traz aqui no  dos mais agradveis. Como vocs sabem, Lilian no se adaptou bem aqui e...
  Parou de falar, a voz embargada denunciando o nervosismo.
   E o qu?  incentivou Kate.
   Pelo amor de Deus, homem!  exclamou David, j irritado.  Diga de uma vez. O que foi que houve com Lilian?
  Nathan sentia o embarao como uma navalha cortando sua garganta e afogando suas palavras. Apertando as mos nervosamente, continuou:
   Lilian no se adaptou aqui. Sabem como , foi criada no centro de Londres e est acostumada a outros ares.
   No sei que ares  ironizou Kate.  At parece que  uma dama da alta sociedade.
  David lanou-lhe um olhar de reprovao, e ela se calou. Nathan tossiu de leve, cada vez menos  vontade, e prosseguiu:
   Na verdade, no foi por causa de Lilian que vim at aqui. O assunto  grave e envolve as nossas famlias. A minha e a de vocs.
   As nossas famlias? A minha e a de vocs?  repetiu David, agora prevendo um desfecho desagradvel para aquela conversa.  Pensei que fssemos todos parte de 
uma famlia s.
   No foi isso que quis dizer  contestou Nathan com rubor.  E claro que somos parte da mesma famlia. Mas  que agora estou casado, e  natural que Lilian queira 
constituir sua prpria famlia.
   Isso no significa que tenha que nos excluir da sua vida  acrescentou Kate com frieza.
   No os estou excluindo.  s que... como disse, Lilian no se adaptou, e ns estivemos pensando... Talvez seja melhor morarmos em outro lugar e...
   Est tentando nos dizer que pretendem se mudar?  interrompeu Kate perplexa.   isso?
   .
  Kate balanou a cabea, j sentindo as lgrimas forarem seus olhos, enquanto David se esforava para conseguir entender.
   Quando  que isso vai acontecer?  questionou ele, lutando para no demonstrar a decepo.
  Nathan engoliu em seco e retrucou em tom quase inaudvel:
   Amanh...
   O qu?  explodiu Kate, dando um salto da poltrona.  Como assim, amanh?
   Amanh. Amanh nos mudaremos para outro bairro
   Voc quer dizer, no dia seguinte a esta noite?
   Exatamente.
   Mas como? Assim, de repente?
   No foi de repente.
   Para onde vo? Sua casa  aqui!
   Essa casa nunca foi minha.
   Como no?  o seu lar. Sempre foi!
   Agora no  mais. Comprei uma outra casa para mim, para Lilian e para Ross.
   Voc comprou uma casa e no nos disse nada?
   Estou dizendo agora.
   Planejou tudo isso pelas nossas costas?  acrescentou David com raiva.
   Por qu?  exasperou-se Kate.  Pensei que fssemos amigos.
   Ns somos. Vocs sabem o quanto so importantes para mim...
   E Ross, o que diz disso?  questionou David.
   Ele tambm no sabe.
   Est se mudando sem o conhecimento do seu filho?
  Compreendam...  retrucou Nathan, sentindo o rosto arder  No quis prejudicar ningum.
   Oh! no  concordou Kate em tom mordaz.  Voc apenas quis nos poupar dos dissabores que sua partida traria a nossas vidas...
   E isso mesmo. No queria preocup-los  toa.
   Agradeo a considerao.
   Por favor, Kate, sem sarcasmos. No sabe o quanto est sendo difcil para mim...
   O que est sendo difcil para voc?  enfureceu-se ela.  Assumir que nos traiu, que no confiou em ns e que no tem um pingo de gratido pelo que fizemos a 
voc e ao seu filho?
   No  nada disso. Eu no queria... Mas Lilian insistiu.
   Lilian, sempre Lilian. Por que permite que ela mande na sua vida?
   No se trata de mandar.
   No. Trata-se de desprezo e indiferena, que  o que voc sente por ns.
   No coloque as coisas dessa forma. No  justo...
   No pense que achamos que esteja preso a ns s porque Kate cuidou de Ross a vida inteira  contemporizou David.
    claro que no  concordou Kate.  Voc  livre para fazer o que quiser de sua vida. S achei que merecamos um pouco mais de considerao, e o mnimo que voc 
devia ter feito seria nos contar o que pretendia fazer.
   Eu no podia. Lilian me pediu...
   Por qu?  rebateu David.  Que mal poderia haver?
   J sei  adivinhou Kate.  Lilian tem medo de que Marianne atrapalhe, no ?
   Marianne...  repetiu David, agora compreendendo tudo.  Tem razo. Marianne no vai aceitar essa separao.
   Foi por isso que no quis nos contar, no foi, Nathan?  ele permaneceu calado, sem coragem de encar-los.  Para que Marianne no faa uma cena e torne tudo 
mais difcil, no  mesmo?
  Sem poder suportar a presso, Nathan acabou confessando:
   Foi pelo bem da menina. Marianne  um pouco nervosa. J imaginaram o que poderia fazer?
   Estavam com medo de uma criana?  indignou-se Kate.  O que Marianne poderia fazer de to horrvel? Tocar fogo na casa?
   No duvidaria nada  defendeu-se Nathan. Bem sabem que ela  capaz de tudo.
   Pelo amor de Deus, Nathan!  exasperou-se David.  O que pensa que Marianne ? Alguma selvagem? Ela  uma criana!
   Uma criana louca... totalmente desequilibrada.
  Chamar sua filha de louca j era demais, e Kate, olhos chispando fogo, deu uma bofetada na face do cunhado e rugiu colrica:
   Saia daqui! Nunca mais quero tornar a v-lo! Podia aceitar isso de qualquer um, menos de voc! De voc, no! Voc viu Marianne nascer, sabe o que temos passado. 
Ela  sua sobrinha!
  Tomado pela surpresa, Nathan no reagiu, mas sentiu o peso da humilhao. Levantou-se magoado e olhou para a cunhada e o irmo, que permaneciam sentados, paralisados 
pela indignao.
   Lamento que tenham entendido tudo errado atalhou ele com frieza.  Ainda assim, vou lhes dar um conselho: tirem Marianne daqui amanh. Levem-na para passear 
e s voltem ao cair da noite. Ser menos doloroso do que ver o primo partir.
  Saiu apressado, batendo a porta, e Kate desabou nos braos do marido:
   Oh! David, o que ser de Marianne?
   Ela vai ficar arrasada. S Deus sabe qual ser sua reao.
   Como faremos para lhe dar essa notcia?
   No sei, mas concordo com Nathan. No podemos deix-la presenciar a partida de Ross. Ser muito doloroso para ambos.  melhor sairmos pela manh e s voltarmos 
 noite.
   Para onde iremos?
   Vamos visitar sua irm.
  Combinavam tudo e oram arrumar algumas coisas para o dia seguinte. Prepararam uma bolsa com roupas para as crianas e alguns brinquedos. Naquela noite, nenhum 
dos dois conseguiu conciliar o sono, at que Kate se levantou e foi at o quarto da filha. Marianne dormia tranquilamente. Vendo o sono inocente da filha, Kate ajoelhou-se 
a seu lado e, sufocando o pranto, sussurrou sentida:
   Perdoe-nos pelo que vamos fazer, Marianne. Por favor...
  Alisou os cabelos da filha, engoliu as lgrimas e saiu do quarto dela, desejando nunca ter tido filhos.

  17  
  O dia mal acabara de nascer, e todos j estavam prontos para a partida. As crianas se mostravam eufricas, principalmente porque a tia Jane morava longe e era 
necessrio cruzar boa parte da cidade, o que transformava o passeio numa pequena viagem.
  Somente Marianne no demonstrava tanto entusiasmo. Gostava da tia e de passear, todavia, separar-se de Ross era sempre um problema.
   No podemos levar Ross, papai?  indagou ela, os olhos voltados para a casa do primo.
   Infelizmente, no  respondeu David penalizado.  Seu tio tem outros planos para ele.
  Marianne queria perguntar que planos seriam aqueles, mas a me a chamou para ajudar a descer as bolsas. Terminou rapidamente a tarefa e, sem que ningum percebesse, 
passou pela cerca e correu  casa de Ross, com tempo apenas de enfiar um pedao de papel por debaixo da porta e voar de volta.
  Da casa vizinha, Nathan observava a movimentao com olhar sentido. Desde a vspera, no conseguia conciliar o sono, lamentando o futuro do filho e da sobrinha. 
Sentia-se um covarde, contudo, no se atrevia a contrariar a mulher, que dormia despreocupada.
  Quando Lilian acordou, lanou um olhar significativo para Nathan, que respondeu com um aceno de cabea, sem nimo para encar-la. Ela aquiesceu com arrogncia 
e desceu para fazer o caf. Sua vitria era quase completa. Mais um pouco e, com certeza, convenceria o marido a deixar o filho com a tia perfeita.
  Pouco depois, Nathan acordava o menino. Ross abriu um olho, depois outro, espreguiou-se e, bocejando, indagou:
   Por que me acordou to cedo? Estou de frias...
   Levante-se  cortou Nathan, de m vontade.  Vista-se depressa e desa. Precisamos sair.
   Aonde vamos?  retrucou sonolento.
   Voc vai ver.
  Sem nada entender, Ross espreguiou-se e foi-se aprontar. Na cozinha, Lilian arrumava a mesa, e ele a cumprimentou sem muito interesse:
   Bom dia, dona Lilian.
  Ela sorriu exultante. O menino estava aprendendo a respeit-la.
   Bom dia. Sente-se e tome seu caf.
  Nathan j estava sentado, tendo nas mos uma xcara de caf fumegante, e evitava olhar para ele. Ross deu a volta na mesa para ocupar seu lugar habitual. Puxou 
a cadeira pelo encosto e j ia se sentar quando percebeu um papelzinho branco enfiado por debaixo da porta. Abaixou-se e o apanhou, reconhecendo a letrinha mida 
e indecisa de Marianne.
   O que  isso?  perguntou Lilian, curiosa.
    para mim  respondeu Ross, de forma inocente.  De Marianne.
  Lilian e Nathan se entreolharam preocupados, mas no tiveram tempo de retirar o papel das mos do menino, que j o havia desdobrado e comeara a ler:
  Querido Ross,
  Fui com papai e mame visitar tia Jane. Volto de noite.
  Nada mais. No estava nem assinado. Aquele bilhete deveria ter exigido muito esforo de   Marianne, e Ross sentiu imenso orgulho dela.
   Aconteceu alguma coisa?  indagou Nathan, tentando aparentar um ar casual.
   Marianne foi visitar tia Jane.
   Tia Jane?  surpreendeu-se Lilian, mal-humorada.
   Jane  irm de Kate  esclareceu Nathan.
   Ento no  sua tia  objetou ela, fuzilando Ross com o olhar.
    como se fosse  protestou o menino aborrecido.
   Ross sempre a chamou de tia  explicou Nathan em tom de desculpa.
   Pois no devia  zangou-se ela.  No quero mais isso. Essa tal de Jane no  tia de Ross.
   Pelo amor de Deus, Lilian!  exasperou-se Nathan, j bastante agastado.  No tem nada de mais. Deixe de implicar com o menino e vamos logo com isso.
  Lilian fez beicinho e no respondeu, enquanto Ross a fitava com ar de vitria. No estivesse to atenta aos rudos externos, teria lhe dado um tapa. Um barulho 
de motor veio se aproximando da frente da casa, e ela correu pela sala bagunada, para anunciar eufrica:
   So eles! Finalmente!
  Nathan limpou a boca com o guardanapo e se levantou, seguido de Ross, que subitamente se lembrara de que Lilian lhe havia dito que iriam pintar a casa.
   So os pintores?  indagou, ingnuo.
  Ningum respondeu, mas Lilian abriu a porta, dando entrada a trs homens mal-encarados. Do lado de fora, um imenso caminho estacionava junto ao meio-fio, provocando 
uma admirao sem igual no menino.
   Uau!  exclamou Ross.  Um caminho! Nunca havia visto um de to perto.   Posso ir l fora ver?
   Fique quieto  repreendeu Lilian,  No atrapalhe.
  Com um leve cumprimento de cabea, os homens arregaaram as mangas e comearam a arrastar os mveis. Ergueram o sof da sala e saram com ele, depositando-o na 
carroceria aberta. Em seguida, voltaram e saram com a mesa, depois com as cadeiras, e assim por diante.
  Ross assistia a tudo com ar aturdido, tentando imaginar por que era preciso esvaziar a casa s para pint-la. Pensou em perguntar, mas o pai no lhe dava ateno, 
e Lilian nem se lembrava de que ele existia. Quando comearam a descer com as camas e as malas, ele se convenceu de que algo muito errado estava acontecendo.
   Pai...  arriscou timidamente, puxando a barra do casaco de Nathan.  No compreendo... por que esto tirando tudo? Para onde esto levando nossas coisas? E 
onde esto os baldes de tinta?
  No dava mais para engan-lo. Nathan puxou-o para um canto, segurou-o pelos ombros e, olhando fixamente em seus olhos, disparou:
   Acho que voc j tem idade suficiente para compreender as coisas. No vamos pintar a casa. Estamos nos mudando.
   Mudando?  repetiu atnito.
   Exatamente. A partir de hoje, no moramos mais aqui.
   Como no? Esta  a nossa casa!
   No  mais. Vamos para outra, maior e mais bonita.
   No quero ir para outra. Gosto desta aqui.
   Gosta porque nunca conheceu outros lugares. Nossa nova casa fica num bairro elegante, e voc vai fazer novos amigos.
   No quero novos amigos. Aqui tenho a escola e... Marianne.
   Sinto muito. Marianne ter que entender.
   Voc no est falando srio, no ? Vamos apenas pintar a casa, voc falou...
   No  verdade  sussurrou ele, abaixando os olhos, envergonhado.
   Voc mentiu para mim?
   Foi preciso, para que voc e Marianne no criassem problemas.
  Ningum disse nada a Marianne?  ele meneou a cabea.  Foi por isso que ela foi para a casa de tia Jane?
   Achamos que era o melhor.
   O melhor? Pois fique sabendo que eu no vou. Vou esperar tia Kate voltar e vou pedir para morar com ela.
   Isso est fora de cogitao. Voc  meu filho e tem que me acompanhar. Alm do mais, prometi a sua me.
   Por favor, pai, no... Deixe-me ficar aqui...
  O sofrimento de Ross era to real que Nathan sentiu as lgrimas arderem em seus olhos. Como desprezava a si mesmo por aquela covardia! Devia ter sido homem suficiente 
para recusar-se a fazer a vontade de Lilian e mandar aqueles carregadores embora dali, levando consigo o caminho de mudana.
  Num gesto de desespero e arrependimento, Nathan puxou o filho para si e balbuciou sentido:
   Ah! Meu filho, no posso. Quisera eu poder mudar de ideia...
  O menino se agarrou a ele, soluando, e Nathan chorava tambm. Estavam to envolvidos naquele momento de ternura que nem ouviram Lilian se aproximar. Ao ver os 
dois ali abraados, ela se deixou invadir por uma onda de irritao e censurou com desprezo:
   Parem com isso e saiam do caminho. No veem que esto atrapalhando?
  Eles se separaram, e Nathan enxugou as lgrimas discretamente, afagando de leve os cabelos do filho. Ross, contudo, no sentia os afagos do pai. Tomado por um 
dio descomunal de Lilian, ps-se a gritar colrico:
   Megera! Bruxa! Marianne tinha razo: voc no passa de uma bruxa e faria mais bem ao mundo se estivesse morta!
  A surpresa s no foi maior do que a raiva, e Lilian, mordendo os lbios, ergueu a mo e desferiu violenta bofetada no rosto de Ross, que se desequilibrou e teria 
ido ao cho, no fosse o amparo do pai.
   Isso  para voc aprender a me respeitar desafiou ela.
   Por que bateu nele?  retrucou Nathan.
   Ele est ficando muito abusado. E a culpa  sua! Sua e de Kate, que s fazem mim-lo e trat-lo feito um maricas. Aprenda a ser homem, Ross!
   Cale a boca, Lilian!  esbravejou Nathan. Deixe que eu cuido do meu filho.
   Muito bem  tornou ela com desdm.  Mas depois no venha pedir a minha ajuda quando no puder mais control-lo.
  Saiu sem dizer mais nada, fuzilando de dio daquele garoto malcriado.
   No devia ter dito isso, meu filho  ralhou Nathan, sem convico.  Lilian  sua madrasta.
   Eu odeio aquela mulher  rosnou Ross entre os dentes.  E sei que ela me odeia tambm.
          Lilian no o odeia. Quer o melhor para voc.
   Foi o que ela disse?  Nathan no respondeu.
   E voc acreditou? Ela o est enganando. Ser que s voc no percebe?
   Lilian  geniosa e um pouco deslumbrada, mas quer o seu bem.
   Cadela...  balbuciou baixinho.
   O que foi que disse?  revidou Nathan, que no havia ouvido direito.  O que disse de sua madrasta?
  Durante alguns minutos, Ross permaneceu olhando para ele, com medo de repetir o que havia dito. Aos poucos, o medo cedeu lugar  revolta, e ele pensou como seria 
bom agredir e ofender aquela mulher que ele tanto detestava, alm de mostrar ao pai que no era um covarde feito ele. Por isso, Ross empinou o nariz o mais que pde 
e, sem titubear, confessou com arrogncia:
          Disse que ela  uma cadela.
  O tapa veio espontneo e doeu mais do que o recebido por Lilian, porque partira do pai.
          Lilian no devia ter feito o que fez, mas no vou permitir que voc a desrespeite  repreendeu ele.
          Voc  uma criana, e ela  como sua me.
          Ela no  minha me!
  Ross comeou a chorar e levou a mo ao rosto, esfregando-o no local onde a vermelhido comeava a se espalhar.
          Por Deus, Ross, tente compreender  tornou Nathan, mais calmo.  Voc precisa aceitar que Lilian agora  minha esposa.
          Eu aceito. Mas deixe-me ficar com tia Kate.
          No posso. Voc  meu filho. Prometi a sua me cuidar de voc.
          No quero me separar de Marianne.
          Lamento, mas j est decidido. Voc vai comigo e ponto final. Marianne vai acabar aceitando. Enquanto falavam, a casa ia sendo esvaziada, e Lilian dava 
ordens para que no estragassem nada. Desembaraando-se de Nathan, Ross subiu ao seu antigo quarto, agora vazio. Recostou-se na parede em frente  janela e fitou 
o cu, magoado com a bofetada do pai e imaginando o que aconteceria a Marianne quando descobrisse aquela traio. Pensou em escrever-lhe um bilhete, contudo, os 
homens da mudana j haviam levado todos os seus lpis e cadernos.
  No andar de baixo, Lilian exultava. De longe, ouvira praticamente toda a conversa, quase se atirando sobre Ross quando a chamara de cadela. Nathan acompanhava 
a mudana, sem dizer nada, os pensamentos presos ao filho e ao tapa que lhe dera. Nunca, em toda a sua vida, levantara a mo para bater-lhe, e agora perdia a cabea 
por causa de uma mulher.
   Como est Ross?  indagou Lilian, tocando o ombro de Nathan com fingida doura.
  Havia mgoa no olhar de Nathan, e uma acusao muda se insinuou no tom de sua voz:
   Ele vai superar. Tem que superar.
   Voc no devia se sentir culpado. Est fazendo o que  melhor para ele.
   No, Lilian. Estou fazendo o que  melhor para voc.
  Deu-lhe as costas e foi andando pela sala, olhando bem para cada canto vazio, como se quisesse reter nos olhos as lembranas da felicidade que vivera ali.
   No entendo voc  insistiu ela, indo atrs dele com irritao.  Pensei que tivssemos decidido que era o melhor para todos. Voc concordou porque quis. No 
tem o direito de colocar em mim a culpa pela infelicidade do seu filho.
   No estou colocando a culpa em voc.
   Mas  como se estivesse. Ross est infeliz porque vai ser obrigado a se separar daquela maluquinha. E de quem  a culpa por querer dar a ele amizades mais saudveis? 
Minha,  claro.  Como ele no respondesse, ela prosseguiu:   claro que voc podia evitar isso, se quisesse. Bastava deix-lo ficar...
   Chega, Lilian! Sei que  isso que voc quer, mas est fora de cogitao.
  Lilian achou melhor se calar. Apesar da raiva e do arrependimento visveis, no havia mais como voltar atrs. Ela vencera, e Nathan no lhe importava, desde que 
continuasse o cordeirinho de sempre.
  Em pouco tempo, a mudana havia terminado. Quando Nathan bateu a porta, pela ltima vez deu uma olhada na casa em que vivera boa parte de sua vida. Na casa ao 
lado, no havia nenhum movimento. David, na certa, s chegaria tarde da noite, a fim de evitar explicaes dolorosas.
  O caminho partiu, e quando, finalmente, a ltima pea do mobilirio foi instalada na nova residncia, Nathan suspirou aliviado. Lilian caminhava de um lado a 
outro pela casa, mudando os mveis de lugar a toda hora, causando irritao nos homens, cansados de carregar peso.
   No nos leve a mal, dona  queixou-se um deles.  J transportamos tudo. Agora, se a senhora no sabe onde colocar cada coisa...
  Calou-se, ciente da ousadia que poderia lhe custar o emprego. Percebendo o mastar e a iminente exploso de ira de Lilian, Nathan sacou a carteira e, colocando 
o dinheiro na mo do homem, arrematou:
   Pode deixar conosco agora. Esto dispensados, obrigado.
   Por que fez isso?  censurou Lilian.  E agora, quem  que vai ajeitar os mveis?
   - Pelo amor de Deus, Lilian! Ser que voc no percebeu que os homens estavam esgotados?
   E da? No foram pagos para isso?
  Nathan no respondeu. Apanhou o casaco e saiu.
   Aonde voc vai?  questionou ela da porta.
   Comprar umas rosquinhas  respondeu com pesar.  No temos jantar.
  O desgosto era tanto que, se pudesse, Nathan sumiria dali com Ross. Toda a esperana do casamento, os sonhos, os planos com Lilian se esvaam aos poucos,  medida 
que ela ia revelando seu temperamento ftil e arrogante. Quanta decepo! No era  toa que o filho no gostava dela, e era bvio que tampouco Lilian gostava dele.
  Como se no bastasse a decepo do menino, Lilian ainda o punira por seu atrevimento, colocando-o de castigo no quarto. Na hora, Nathan pensou em contestar. Quem 
lhe dera autoridade para colocar seu filho de castigo? No entanto, no se sentia com nimo para enfrentar a discusso que a contrariedade causaria na mulher.
  Queria sair dali, fugir daquele lugar, fugir daquela vida. Uma vida que no era a sua. Jamais seria.

  18
  Alheia ao drama de Ross e Nathan, Marianne seguia no txi acompanhando as rvores que passavam apressadas pela janela. Apesar da falta que sentiria de Ross, uma 
mudana de ares at que a animou, e ela continuava, sonhadora, imaginando o dia em que ela e Ross poderiam viver a sua liberdade.
  Chegaram  casa da tia, e Marianne acompanhou os pais e os irmos sem expressar qualquer emoo. Bateram  porta, e Jane levou um susto ao v-los ali.
   Kate!  exclamou ela.  O que foi que houve? Est tudo bem?
  Meio sem graa, Kate encarou a irm e falou com hesitao:
   Perdoe-nos por vir sem avisar. No tivemos tempo... Precisamos de sua ajuda. Ser que podemos passar o dia com voc?
  O olhar de splica de Kate denunciava a gravidade da situao, e Jane, cheia de compreenso, apanhou Suzie no colo, deu a mo a Kevin e fez com que todos entrassem. 
David no os acompanhou. Ficou parado na porta e disse para a mulher:
   Preciso ir trabalhar. Volto no final do dia para busc-los.  E, com ar de gratido, arrematou: Obrigado, Jane.
  Logo que a porta da sala se fechou, Jane levou a irm e os sobrinhos para uma enorme varanda que ficava na parte de trs da casa. Colocou Suzie no cho e foi buscar 
uma cesta de palha, onde guardava alguns brinquedos antigos de seus filhos.
  As crianas sentaram-se  volta dos brinquedos e puseram-se a desvendar a misteriosa cesta. Inclusive Marianne, que parecia encantada com tantas coisas diferentes 
e fantsticas. Certificando-se de que os filhos no lhe prestavam ateno, Kate fez sinal a Jane, e ambas foram se sentar num banco mais afastado, de onde podiam 
vigi-los.
   Muito bem  iniciou Jane, preocupada.  O que foi que aconteceu para voc vir  minha casa em plena segunda-feira pela manh?
   Onde esto os meninos?  perguntou Kate, procurando pelos sobrinhos.
   Ainda esto dormindo. E Bill est no trabalho. No se preocupe, ningum ir nos incomodar.
  Com um suspiro doloroso, Kate desviou os olhos para as crianas, demorando-se um pouco mais em Marianne. Engoliu em seco e comeou a chorar baixinho.
   Estou apavorada...  calou-se, a voz embargada, e fixou-se em Marianne outra vez.
    algo com Marianne, no ?
   Sim  hesitou por uns instantes, at que revelou com sofrimento:  Ah! Jane, voc nem imagina. Nathan foi a nossa casa ontem  noite nos avisar que hoje iriam 
se mudar...
   Mudar? Voc quer dizer, para outra casa?
   Exatamente. E o pior foi que fez isso s escondidas. Tramou tudo pelas nossas costas e nos fez tirar Marianne de casa, para que no os visse partir.
   Marianne no sabe?
   No tivemos coragem de lhe contar. Voc j imaginou como ela vai reagir?
   Nem quero pensar! Vai ser doloroso, e voc sabe como Marianne reage  dor.
    isso que nos preocupa, a David e a mim  ela olhou para a irm com os olhos rasos de gua e desabafou:  Nathan no podia ter feito isso. Foi uma traio. 
Preparar a mudana sem nos dizer nada! Se nos tivesse dito antes, teramos arranjado um jeito de ir preparando o esprito de Marianne. Mas agora, confesso-me perdida. 
No sei o que fazer. E Marianne anda to calma! Passou de ano na escola, est feliz ao lado de Ross. Quando souber que no vo mais se ver, vai se descontrolar.
  Jane pensou durante alguns minutos e retrucou:
   Sei que  horrvel, mas uma mudana no  o fim do mundo. Marianne vai sofrer, mas acabar se acostumando. O principal agora  encontrarmos um meio de lhe contar 
sem provocar uma crise.
   Mas ns nem sabemos para onde eles foram! Nathan no nos contou. Acho que no quer mais que as crianas se vejam.
   Ele no lhes deu o novo endereo?
   No. Tudo por culpa de Lilian. Foi ela quem influenciou Nathan para nos deixar.
   Espere um pouco, Kate, voc no sabe disso.
   Tenho certeza. Ele mesmo falou. Lilian no gosta de Marianne e quer afast-los a qualquer custo. Voc se lembra do que aconteceu quando ela proibiu Ross de ir 
l em casa, no se lembra?
   Vagamente. Na poca, voc no quis se abrir comigo.
   Eu tinha vergonha. Desculpe-me se deixei de procur-la, mas  que David ficou to zangado com a histria do tal psiquiatra!
   Sugeri um psiclogo. Ele poderia ajud-los.
   David no acredita. Acha que o nico remdio para a loucura  o hospcio.
   Eu nunca disse que Marianne  louca.
   Tambm eu gostaria de acreditar que no . Deus sabe o quanto fingi que no h nada de errado com a cabea de Marianne. Mas todos ns sabemos que ela no  normal.
   Isso no significa que tenha que ser internada.
   Tenho medo de David  confidenciou Kate. Se ele se convencer de que Marianne  louca, tenho certeza de que ir coloc-la num hospcio.
   Que horror! Hospcio no  a soluo. E no pense que sua filha  louca. Ela tem problemas que talvez possam ser sanados no consultrio de um moderno psiclogo.
   No sei, Jane. Tenho medo. David no vai concordar. E se insistir na internao?
   Por que fica to submissa a David? No  porque ele  seu marido que pode mandar em voc. Marianne  sua filha. No permita que ele faa com ela o que quiser> 
passando por cima da sua vontade.
   E fcil falar... Mas David no  homem de se deixar contrariar. E no  culpa dele. No  por culpa de David que Marianne est assim.  por causa daquela sirigaita 
esnobe e metida a grande dama.
   Acha mesmo que Lilian  a culpada?
   No tenho dvidas! At ela aparecer em nossas vidas, estvamos muito bem.
   Isso no  verdade. Marianne j tinha problemas muito antes de Lilian se casar com Nathan.
   Mas ns a controlvamos. Sempre dvamos um jeito de remediar a situao. Agora que Lilian levou Ross embora, no sei o que ser de Marianne.
   No  justo culp-la. Afinal, por que Nathan permite que ela faa o que quer?
   Porque ele  um frouxo. Nunca teve fibra, nem quando a mulher morreu. Ficou desesperado, sem rumo, pensando no que fazer para criar sozinho uma criana. No 
fosse por mim, sabe-se l o que teria acontecido.
  Jane fitou Marianne, que brincava com uns soldadinhos de chumbo velhos, e sentiu um aperto no corao.
   Pobre Marianne...  lamentou.  E pobre Ross tambm. So os dois que mais iro sofrer com essa mudana.
   Tudo por causa daquela mulher. Nathan foi muito ingrato. No quero mais relaes com ele.
  Em silncio, Jane tornou a olhar para a sobrinha. Ela era to jovem, to inocente. Ser que merecia aquele sofrimento? Tentando segurar o pranto, acrescentou com 
voz sentida:
   Sei que no h muito que eu possa fazer, mas pode contar comigo para o que precisar. Gosto de Marianne e farei o que estiver ao meu alcance para ajudar. Seja 
o que for, pode pedir.
  Kate apertou as mos da irm emocionada, sentindo-se reconfortada por no estarto s naquela batalha. Durante o resto do dia, no tocaram mais no assunto da mudana. 
Aproveitaram para passear e levar as crianas ao parque. S voltaram ao final da tarde, exaustas e felizes. Tomaram banho, vestiram roupas limpas e desceram para 
esperar o jantar.
  Quando o marido de Jane chegou, ficou deveras surpreso com a presena da cunhada e dos sobrinhos. Colocado a par da situao, no disse nada. Bill era um homem 
compreensivo e generoso, e muitas foram as conversas que havia tido com a mulher sobre a esquisitice de Marianne, concordando que a melhor soluo seria lev-la 
ao psiclogo.
   Podemos ir  disse David a Kate, logo aps o jantar.  Passei por l antes de vir para c, e eles j foram.
   No acha melhor contar a Marianne antes? sugeriu Bill.
   No  contestou David, mais que depressa. No saberia o que lhe dizer.
   A verdade. Ser melhor do que a surpresa.
   No sei... Acho que a surpresa ser menos dolorosa. Ao menos no precisaremos nos confundir com desculpas esfarrapadas. O vazio da casa lhe dir tudo.
   Ser menos dolorosa para quem?  tornou Bill perplexo.  Para vocs ou para ela?
  D David engoliu em seco e, olhos pregados no cho, acabou por confessar:
   Para mim, Bill. No tenho coragem de lhe dizer.
   Quer que eu conte?  ofereceu-se Jane.
   No. Agradeo, mas no creio que seja o mais conveniente.
  Kate suspirou e foi buscar os filhos. Suzie e Kevin j estavam dormindo, e Roger, sonolento, comeou a choramingar. Apenas Marianne estava desperta. Passara o 
dia todo longe de Ross e mal podia esperar a hora de v-lo.
   Ross j deve estar dormindo  avisou David.  Amanh poder v-lo.
  A mentira desagradou Kate, que olhou para o marido com ar de repreenso. J bastava a falseta que lhes haviam aprontado. No era necessrio inventar mentiras que, 
muito em breve, seriam desmascaradas, e da forma mais traumtica possvel.

  19
  Logo que o sol nasceu, Marianne deu um pulo da cama e desceu correndo as escadas. Passou pela me feito uma bala, sem dar ouvidos aos seus chamados angustiados. 
Atravessou a cerca s pressas e correu para a entrada da cozinha da casa de Ross. A porta ainda estava fechada, e ela bateu eufrica. Nada. Nem um som ou movimento. 
Bateu novamente, mas ningum veio atender. Tornou a bater, sem sucesso, porm.
  Desceu os degraus e afastou-se um pouco da casa, olhando para o alto contra o sol, na esperana de avistar Ross na janela de seu quarto. O vidro da janela estava 
fechado, e a cortina, imvel. Reparando melhor, percebeu que todas as cortinas permaneciam paradas, algumas cerradas, outras abertas, mas, invariavelmente, imveis, 
porque todas as janelas, estranhamente, estavam fechadas.
  Apesar de assustada, no lhe passou pela cabea que Ross tivesse se mudado. Nem sabia o que era uma mudana. Nunca se mudara, nem ningum que conhecesse. Correu 
para a varanda da frente. O tapete havia sido retirado, e as plantas que guarneciam o alpendre j no estavam mais l.
  A porta estava trancada, de forma que ela no teve sorte com a maaneta. Bateu repetidas vezes sem obter sucesso. A porta nem se mexia. Comeou a sentir um pnico 
desmedido, um medo atroz de que algo terrvel tivesse acontecido a Ross, como um feitio que o houvesse aprisionado para sempre. Apavorada ante a ideia, correu para 
a lateral da casa, em busca de uma janela aberta. Encontrou uma, com as venezianas encostadas na parede, fechada apenas com o vidro. Na ponta dos ps, espiou para 
dentro, passando os olhos pala sala desocupada. Todos os mveis haviam sido retirados.
  O vazio da casa a sobressaltou de tal forma que ela rodou nos calcanhares e correu, gritando espavorida:
   Mame! Mame! Aconteceu alguma coisa com Ross! Roubaram tudo da casa dele!
  Parada no meio da cozinha, Kate esperava a volta da filha, sem coragem de ir atrs dela. Estava sozinha, pois David sara cedo para o trabalho, para no ter que 
presenciar a confuso. Agora cabia a ela, somente a ela, a tarefa de colocar Marianne a par do acontecido.
  Vendo Kate paralisada, olhos rasos de gua, Marianne teve certeza de que algo muito grave havia acontecido a Ross e comeou a chorar e a gritar feito louca:
   Ele morreu! Ross est morto! Voc sabe! Foi a bruxa! Ela o matou e o comeu! Cad o meu Ross? Quero o meu Ross!
  Era o incio de uma crise violenta. Kate teve vontade de virar as costas  filha e correr, para no ser obrigada a acompanhar seu desespero. No podia. Era me. 
Era dela a tarefa mais dolorosa. Dela e de mais ningum.
   Marianne  chamou com voz incisiva, provocando um susto na filha, que parou de gritar e a fitou.  Voc precisa ser forte. Ross no morreu. Foi embora. Mudou-se. 
Seu tio Nathan e Lilian o levaram. Ele no vai mais voltar.
  A notcia foi rpida como um furaco, to rpida que a mente de Marianne no a acompanhou.
   No compreendo...  gemeu ela, confusa.  O que est dizendo?
   Exatamente o que voc ouviu. Ross se foi e...
   ela engoliu em seco e teve dificuldade em repetir a ltima frase:  no vai mais voltar.
   No pode ser. Voc est enganada. Ross no faria isso. Ele me ama. Ns vamos nos casar...
   No crie iluses desnecessrias  cortou Kate com angstia.  Seu pai e seu tio brigaram. No esto se falando mais. Por isso, foram embora e levaram seu primo.
   Se eles brigaram, o que Ross e eu temos a ver com isso?
   Estou lhe dizendo que ele foi embora. Acredite em mim.
   Por que est fazendo isso comigo, me? O que foi que eu fiz?
   No fez nada. Quero apenas que voc entenda.
   O qu?
   Voc foi l, no foi?  ela assentiu.  E o que viu?
A mente confusa de Marianne agora comeava a compreender.
   No vi nada  balbuciou incrdula.
   A casa est vazia. No est?  ela fez que sim.
   Pois ento? No estou mentindo. A casa est vazia porque no h mais ningum morando l. Ross foi embora, mudou-se. Levaram todas as coisas dele. Ross no mora 
mais aqui. No  mais nosso vizinho. A casa est vazia, outras pessoas vo morar l.
   Mas... para onde ele foi?
   No sei. S o que sei  que seu tio se mudou, e Ross no vai mais voltar. Voc precisa aceitar isso, para o seu prprio bem. Ele no vai mais voltar.
  Marianne olhava para a me com estupor, mentalmente repetindo aquela frase estpida. Subitamente, entendeu tudo. Comeou a tremer, a respirao a lhe faltar, a 
cabea a rodar. Seu corpo todo foi tomado por um acesso de fria, e ela balanava a cabea de um lado para outro, repetindo maquinalmente:
   No vai mais voltar... no vai mais voltar... no vai mais voltar...
  A razo parecia haver desaparecido do crebro de Marianne. No via mais nada. A nica coisa em que podia pensar eram naquelas ltimas palavras da me: no vai 
mais voltar, que ela ficava repetindo insistentemente. De repente, tentou fugir. Precisava encontrar Ross o mais rpido possvel, antes que a bruxa o desintegrasse.
  No foi possvel. Com medo do que ela poderia fazer, Kate agarrou-a com fora, impedindo-a de se mover. O jugo a enfureceu de tal forma, que ela comeou a gritar 
e a se debater, aumentando a fora de Kate sobre seus ombros, na tentativa de cont-la a todo custo. Quanto mais Kate apertava, mais recrudescia a fria, at que 
Marianne, na iminncia de ser dominada, lanou mo do nico recurso de que dispunha para tentar se soltar.
  Com gestos estabanados, comeou a morder e arranhar. Kate fez fora, contudo, a dor e o sangue em seus braos fizeram com que ela afrouxasse as mos o suficiente 
para Marianne escapar. Livre, a menina ps-se a correr sem rumo, puxando louas, talheres, panelas, qualquer coisa que estivesse na sua frente e que pudesse atirar 
ao cho.
  No havia nem tempo para pensar. Kate a apanhou por trs e empurrou-a de encontro  parede. Foi pior. Gritando feito um animal, Marianne batia com a cabea na 
parede, levando a me a retroceder e fazer fora, dessa vez para trs, agora lutando para afast-la. No conseguia, pois Marianne, de repente, parecia ter adquirido 
a fora de dez homens. Ela continuava batendo com a testa na parede, ao mesmo tempo em que sussurrava:
   No vai mais voltar... no vai mais voltar... no vai mais voltar...
  Num ltimo e desesperado esforo, Kate conseguiu derrub-la ao cho, imobilizando-a de barriga para cima, e ela direcionou as batidas da cabea para o piso frio.
  Marianne, pelo amor de Deus!  gritou Kate desesperada.  Pare com isso! Pare!
Sem lhe dar ouvidos, Marianne continuava a investir contra os ladrilhos frios da cozinha, at que Kate, num esforo supremo, conseguiu erguer-lhe a cabea e colocar 
a mo sob sua nuca. Foi ento que viu os seus olhos. Havia tanto dio no olhar de Marianne que Kate se sentiu invadida por uma onda maligna que a fez recuar. Assustada, 
soltou um grito e largou Marianne, que se voltou para ela, atacando-a com uma fria impossvel de se imaginar numa criana daquela idade, dando-lhe tapas e unhadas 
ferozes. Kate se defendia como podia, revidando os golpes com outros, que a filha parecia nem sentir.
  Supondo uma possvel e violenta reao de Marianne, Kate deixara os outros filhos no quarto, para sua segurana. Mas as crianas, ouvindo aquela gritaria, assustaram-se 
e comearam a chorar, levando Roger, o mais velho dos trs, a abrir a porta e descer as escadas para ver o que estava acontecendo.
   Mame...  choramingou.
  Ao dar de cara com o menino, Marianne rosnou feito uma fera diante da presa. Sua boca espumava de um dio irracional, e ela correu para ele, indo alcan-lo no 
meio da escada, antes que a me pudesse det-la. Puxou-o pelos cabelos com fora, fazendo-o rolar pelos degraus, sob os gritos apavorados de Kate.
  Por sorte, o tapete lhe amortecera a queda, e o menino se levantou sem um arranho, embora chorando e gritando pela me. Surpreendentemente, Marianne no voltara 
para novo ataque, dando a Kate tempo de pegar o menino e acalmar o seu pranto. Pensava que, com a queda do irmo, Marianne houvesse se assustado e se aquietado. 
Todavia, ao procur-la no alto da escada, no a encontrou mais.
  Prevendo o pior, Kate disparou escada acima, atrs de Marianne, que, a essa altura j havia entrado no quarto dos outros irmos e se dirigia para o bero, onde 
a pequena Suzie tambm chorava, braos estendidos, gritando pela me entre soluos. Marianne estava fora de si. O dio que sentia era tanto que s pensava em destruir. 
Aproximou-se e tentou puxar a irm por cima das grades, mas, como tambm era pequena, no conseguiu, e Suzie, por interveno divina, arriou o corpinho no bero, 
ficando fora de seu alcance.
  Voltou-se para o outro lado e viu Kevin encolhido a um canto, tremendo de pavor. Partiu para cima dele e agarrou seus cabelos com fora. Foi nessa hora que Kate 
chegou. Prendeu Marianne por trs e puxou-a violentamente, fazendo-a recuar, ainda agarrada  cabeleira do irmo.
   Solte-o, Marianne!  gritou Kate desesperada, enquanto a sacudia.  Solte-o!
  Marianne no soltava. Rugia e grunhia feito um animal, deixando Kate apavorada. Kate colocou a mo sobre a da filha e fez fora para abri-la, at que conseguiu 
levantar-lhe os dedos e soltar Kevin. Saiu arrastando Marianne porta afora, em meio  gritaria das crianas. Ela resistia, aos gritos e tapas, e Kate se viu obrigada 
a esbofete-la para tentar cont-la.
   Tranque a porta, Roger!  berrou.  Tranque a porta!
  O menino, de apenas sete anos, fez como a me ordenara. Rodou a chave na fechadura e trancou a porta, para alvio de Kate, que agora os sentia em segurana.
  Marianne no parava de se debater e de rugir. Kate pensou que jamais havia visto algo semelhante em toda a sua vida. Surpreendendo-a ainda mais, Marianne comeou 
a xing-la com ira:
   Vagabunda! Ordinria! Cachorra! Solte-me, bruxa!
   Pare com isso! Respeite sua me!
   Voc no  minha me! No sou filha de uma porca! De uma cadela! De uma diaba! Solte-me! Solte-me!
  Kate a havia envolvido num abrao paralisante, e Marianne mordia seu brao com toda fora. A despeito da dor, Kate continuou a arrast-la pelo corredor, certa 
de que, se a soltasse, ela acabaria matando uma das crianas.
   Catada, criatura infernal!  esbravejou Kate, coberta de horror.  Voc  que no  minha filha! No posso ter gerado um monstro!  o que voc ! Monstro!
  Tentando ignorar as imprecaes de Marianne, e abstraindo-se da dor de suas mordidas, Kate continuou a empurr-la em direo .ao quarto. Parecia que nunca chegava. 
Por fim, depois de minutos de extrema agonia, conseguiu alcan-lo. Escancarou a porta e tentou empurrar Marianne para dentro. A menina logrou soltar os braos e 
fincou as unhas nos portais, lutando para no entrar, mas Kate a esbofeteou diversas vezes e deu-lhe socos nas mos, quase esmagando seus dedos.
  Mesmo no sentindo dor, os dedos de Marianne foram amolecendo, at Kate conseguir pux-los e solt-los dos portais. Finalmente, atirou Marianne para dentro com 
fora, e ela caiu no cho. Rapidamente, antes que se levantasse, Kate retirou a chave do lado de dentro da fechadura e puxou a porta, ao mesmo tempo em que Marianne 
a segurava pelo outro lado, tentando impedir que se fechasse.
   No vai me prender aqui, megera!
  No auge do desespero, Kate enfiou o p na altura do estmago de Marianne, jogando-a ao cho novamente. Puxou a porta com violncia, enfiou a chave com mos trmulas 
e conseguiu tranc-la, enquanto Marianne a esmurrava pelo lado de dentro, forando a maaneta, que j no cedia mais.
   Deixe-me sair!  gritava enfurecida.  Cadela! Vagabunda! Vaca! Deixe-me sair!
  Kate no ficou para escutar suas imprecaes. Guardou a chave no bolso do avental e correu para o outro quarto, batendo na porta com ansiedade.
   Roger! Abra, meu filho.  a mame!
  O menino entreabriu a porta devagarzinho. Vendo a me parada do lado de fora, chorando copiosamente, escancarou-a de vez e Kate entrou, abraando-o com fervor. 
Kevin imediatamente acercou-se dela, abraando-a tambm. Agarrada aos filhos, ela correu para o bero e ergueu Suzie, que soluava sentida.
  Abraada aos trs, Kate permaneceu ali, chorando a sua dor e a sua frustrao. Lutara com Marianne como se ela fosse um demnio forte e poderoso, e no uma menina 
de apenas nove anos. Ela estava louca. Se chegara a ter dvidas, agora tinha certeza de uma loucura visvel, amaldioada e, acima de tudo, perigosa.
  O que poderia fazer? Marianne era sua filha, mas no podia esquecer que tinha ainda outros trs, que nada sabiam das loucuras dela. Quanto mais pensava nisso, 
mais se angustiava. Estreitando as crianas cada vez mais de encontro ao peito, deu vazo a toda sua angstia, confundindo com o dos filhos o seu pranto de desiluso.

  20
    Ao entrar em casa naquela noite, David encontrou a mulher sentada no sof, com Roger, Kevin e Suzie a seu lado. Da cozinha, um cheiro de carne refogada recendia 
no ar, atingindo-lhe em cheio as narinas, e ele comentou num gracejo:
   Hum... que cheirinho bom. At abre o apetite.
  Por uns breves segundos, o aroma do assado desviara sua ateno do problema do qual fugira pela manh, mas que agora, inevitavelmente, teria que enfrentar. O olhar 
sofrido e acusador de Kate, por si s, j dizia tudo. As crianas tinham um ar assustado e mudo, e Marianne no estava entre eles.
   Est tudo bem?  foi s o que conseguiu perguntar.
   Onde esteve o dia inteiro?  redarguiu ela, os lbios trmulos de revolta.  Por que no ficou aqui para me ajudar?
   Tive que trabalhar...
   Muito conveniente para esconder a sua covardia. Preferiu fugir a enfrentar sua filha. Marianne  sua filha tambm. Era seu dever estar ao meu lado, apoiar-me 
e transmitir-lhe segurana. Mas o que voc preferiu? Fugir feito um fraco.
  David engoliu em seco e perguntou baixinho:
   O que aconteceu?
   Ser que voc no pode imaginar? No  capaz de adivinhar a reao de Marianne ao constatar que Ross no est mais aqui?
  Ela apertou os lbios, tentando conter as lgrimas, e estreitou Suzie contra o corpo, lembrando-se do episdio da manh.
   Lamento...  murmurou.
   Lamenta?  s o que voc tem a dizer? Faz ideia do que eu passei com aquela menina? Do que fui obrigada a fazer para proteger os nossos filhos? Como se Marianne 
no fosse nossa filha tambm?
  Consciente de sua covardia, David abaixou os olhos e exprimiu com dor:
   Conte-me o que aconteceu.
   Marianne tentou nos matar  revelou Kevin em sua simplicidade infantil, e os trs comearam a chorar.
  David no conseguiu articular nenhum som. O pouco que lhe disseram, aliado ao visvel estado de exausto e medo da mulher e dos filhos, era mais significativo 
do que todas as palavras juntas. Ainda assim, Kate juntou as foras que ainda lhe restavam e contou tudo ao marido, sem omitir ou suavizar qualquer detalhe. Ao final 
da narrativa, ele estava com os olhos midos, sentindo desprezo por si mesmo, pela sua covardia, pela escolha da sada mais fcil.
   Perdoe-me, Kate  conseguiu balbuciar. Perdoe a minha covardia, minha fraqueza...
   Nem voc, nem ningum jamais poder imaginar o        que passamos aqui. Marianne parecia outra pessoa. No sei onde conseguiu tanta fora. E as imprecaes 
ento? Pergunto-me onde aprendeu tantos palavres. Uma menina de nove anos! Minha filha... Tive que esmurrar e chutar minha prpria filha. Como poderei me perdoar 
por isso...?
  Kate comeou a chorar descontrolada, e David, sem saber o que fazer, tomou a nica atitude que lhe pareceu possvel no momento, abraando-a com fora e chorando 
junto com ela. As crianas nada diziam, ainda assustadas e traumatizadas com a violncia da irm. Suzie, muito pequenina, adormecera no sof, e apenas Roger e Kevin 
acompanhavam o sofrimento da me.
   No se culpe  ele tentou confortar.  Voc fez o        que era certo.
   Ser que fiz? Meti o p em minha prpria filha! Sabe o que  isso? Sabe o que , para uma me, lutar com sua filha? Uma criana! Mas eu tinha que proteger os 
outros. No podia deixar que Marianne os machucasse.
   Voc no teve escolha. Oh! Deus, como me arrependo de minha covardia! Mas tive medo... medo de que nossa filha fosse louca. O que faremos se ela for louca?
  Uma fumaa cheirando a queimado elevou-se da cozinha, e Roger comentou sonolento:
   Estou com fome...
  Kate enxugou os olhos, afagou a cabea dos meninos e falou sem entusiasmo:
   Preciso ir ver a carne. Deve estar queimando.
  David ficou olhando a mulher ir para a cozinha e abrir a porta do forno para espiar o assado. Fazia aquilo mecanicamente, e ele sentiu o peso da culpa e da traio 
por t-la abandonado naquela hora to difcil. Fora trabalhar, deixando em casa seus problemas para serem solucionados por Kate.
  Os meninos saram do sof e foram sentar-se  mesa da cozinha, para esperar a comida. De onde estava, David continuava observando-a e sentiu imenso orgulho dela. 
Ela, sim, era uma mulher de fibra, uma mulher de verdade, no uma fraca feito ele.
  Devia-lhe, ao menos, uma reparao pelo que a fizera sofrer. Enquanto ela cozinhava, daria um jeito de minorar o seu sofrimento. Levantou-se lentamente, e ela, 
percebendo o seu movimento, indagou da cozinha:
   Aonde vai?
   Vou ver Marianne.
  Kate nada disse, e o seu silncio levou at ele a splica de compreenso. David entendeu seu pedido mudo, balanou a cabea e se virou, subindo as escadas vagarosamente. 
Queria chegar e no queria.

  21        
  Em seu quarto, Marianne permanecia sentada no cho, corpo encostado na parede, exausta de tanto gritar. Durante muito tempo, ficara esmurrando a porta, na tentativa 
de se soltar. Seus msculos pareciam no se importar com os movimentos repetitivos, e ela permaneceu horas a fio dando socos na madeira, sempre com o mesmo gesto 
mecnico. No fim, aps imenso esgotamento emocional, foi preciso parar.
  A crise passara. Ela estava agora mais calma e mais lcida. Em sua confuso mental, lembrava-se de que brigara com a me por causa de Ross. Aquela bruxa da Lilian 
o havia levado embora, e ela agora no podia mais v-lo. Recordava-se vagamente de haver agredido a me e gritado com ela, assim como de ter tentado atacar os irmos.
  No entendia direito por que havia feito aquilo. Queria parar, mas no conseguia. As vozes... de repente, sussurros invencveis comearam a ecoar em sua cabea, 
mandando que ela fizesse aquelas coisas. Deixara-se envolver e dominar pelo seu comando, e logo estava fazendo exatamente o que lhe diziam.
  No fosse por essas vozes, teria gritado e esperneado, talvez at batido com a cabea no cho, unhado e mordido a me. At ento, estava sozinha. Todavia, ao ver 
o irmo descendo as escadas, algo despertou dentro dela. As vozes comearam a soar, a princpio baixinho, depois recrudesceram at se tornarem gritos ecoando dentro 
da sua cabea. E lhe diziam apenas uma coisa: Acabe com eles. D o troco nessa intrometida.
  As vozes pareciam annimas e sinistras, uma fora surgida do lado oculto, sobre a qual ela no tinha conhecimento nem domnio. Eram conscincias externas  de 
Marianne, seres do invisvel atrados pela fora dos sentimentos inferiores. Espritos envolvidos pelas brumas do medo, da inveja, do dio e da vingana. Criaturas 
relacionadas ao passado de Marianne e outras, atradas pela desordem das vibraes de me e filha. Antigos inimigos de Kate, que se aproveitaram da oportunidade 
para atingi-la tambm.
  Em seu estado de confuso, Marianne via sombras ao seu redor, sem saber que eram espritos. As sombras-espritos falavam, e as vozes eram nitidamente audveis, 
impositivas e imperativas, retirando de Marianne a fora de vontade para resistir. Terminada a luta, o silncio foi se insinuando em seus pensamentos. Aos poucos, 
as vozes foram-se afastando e diminuindo, tornando-se esparsas at silenciarem por completo, deixando-a s com seus pensamentos, os nicos que ainda ouvia naquele 
oceano de ecos distantes.
  A solido do quarto a envolvia num calor sufocante. Ela agora chorava de mansinho, como se as lgrimas, conspirando contra ela, fizessem meno de abandon-la 
tambm. Pensou que poderia morrer sozinha com sua dor. O pensamento da morte era sedutor, uma fuga daquele mundo de pessoas estranhas e incompreensivas, pessoas 
que pareciam viver na fantasia das regras e da perfeio.        
  A janela, com suas cortinas esvoaantes, pareceu-lhe tentadora, uma passagem para a dimenso sem dor. Sentado no parapeito, propositadamente oculto aos olhos de 
Marianne, Luther comandava sua horda de assassinos e suicidas astrais, que tentavam transmitir a ela idias fascinantes de morte.
  O assdio quase surtiu efeito. Em dado momento, contudo, algo aconteceu. Uma pequenina luz comeou a brilhar acima da cabea de Marianne, que a percebeu de forma 
indistinta. Seu corpo fludico fora to embebido em vibraes malficas que ela no conseguia divisar com clareza a transparncia do astral superior.
  Apesar de o caminho da loucura ter provocado um rompimento parcial com o mundo sutil mais depurado, o fato  que Marianne tinha amigos entre os seres iluminados. 
No estava sozinha. Espritos esclarecidos a acompanhavam dia e noite, embora sem intervir, cuidando para que ela no se tornasse presa dos inimigos das sombras.
  Foi assim que neutralizaram os pensamentos de suicdio e espargiram no ambiente partculas minsculas de uma luminosidade suave e refrescante. Aos poucos, Marianne 
foi sendo envolvida por aquela luz de calma, at suas plpebras pesarem e buscarem o sono. A exausto fsica, finalmente, se abateu sobre ela, trazendo a bno 
do repouso.
  Despertou muito mais tarde, com o rudo de chave girando na fechadura. Algum abria a porta do seu quarto. De olhos parcialmente descerrados, viu um vulto que 
se esgueirou para dentro, indiscernvel contra a luz do corredor. Julgando tratar-se de novos espectros assustadores, Marianne se ps de quatro e engatinhou pelo 
cho, at a parede do outro lado.
  Sentou-se, toda encolhida, e quando a luz do quarto se acendeu, pde enfim distinguir a silhueta austera do pai. Um arrepio explorou cada canto da sua pele, derramando 
em sua mente o pavor de uma nova surra. O rosto de David defrontava o seu, indecifrvel. Ele se aproximou e parou em frente a ela, a sombra aumentada pela projeo 
da luz que vinha por trs. Quando a sombra do pai encobriu-lhe o corpo, ela chorou baixinho.
  Para sua surpresa, o pai se ajoelhou ao seu lado e passou a mo sobre os seus cabelos, dizendo com uma ternura cuidadosamente calculada:
   Venha, Marianne, vamos jantar.
  Os olhinhos dela brilharam, e Marianne esboou um sorriso. De repente, descobriu que estava com fome. O estmago, subitamente, comeou a doer. No havia comido 
nada o dia todo e, at agora, no tivera apetite algum. Feita a limpeza espiritual, inclusive no campo energtico de David, o corpo de Marianne comeou a responder, 
e logo veio o significativo e salutar sinal da fome. Comer, contudo, no era o mais importante. Principal mesmo era que o pai fora gentil e no ia bater nela. Sem 
nem se dar conta, David tambm fora envolvido pelos fluidos iluminados deixados no ambiente, que o faziam ver em Marianne apenas a menina assustada e vulnervel 
que era sua filha.
  Marianne aceitou a mo dele com uma felicidade desconhecida. Nunca o pai fora carinhoso com ela, e era preciso aproveitar bem aquele momento. David ajudou-a a 
levantar-se, e ela deixou escapar um gemido descuidado, que imediatamente tratou de reprimir, com medo de que o pai percebesse o seu corpo dolorido e se afastasse 
dela.
  De mos dadas, pai e filha saram do quarto e desceram as escadas. Na cozinha, as crianas j haviam comeado a jantar, e Kate dava de comer a Suzie. Quando viu 
David e Marianne entrarem juntos, seu corao de me se confrangeu. Como gostaria que fosse sempre assim! Com os olhos rasos de gua, soltou por instantes a colher 
com que alimentava a filha e puxou uma cadeira para Marianne.
  Era impossvel no perceber que os irmos haviam se encolhido e endereado  me um pedido de socorro. Tinham medo de que Marianne os machucasse novamente. O olhar 
confortador de Kate, entretanto, deu-lhes segurana, e eles continuaram a comer, embora com uma certa apreenso.
  Sem dizer nada, Kate serviu a filha e o marido, voltando para junto de Suzie, que espalhava a comida pelo cho, tentando comer sozinha. Marianne encarou a me 
com olhos expressivos, e Kate lhe retribuiu com um sorriso afvel. Com voz carinhosa, recomendou:
   Coma, Marianne, vai lhe fazer bem.
  A menina segurou o garfo e comeou a comer. A cada vez que engolia, o estmago, ferido pelo golpe do pontap, se contraa todo, mas ela se forou e conseguiu comer 
quase tudo. A comida estava gostosa, e ela estava com fome. Quando terminou, levantou-se em silncio e foi ajudar a me a recolher os pratos. Era sua maneira de 
pedir desculpas. Esperou at que a me lavasse a loua, apanhou um pano e ps-se a enxug-la, colocando-a cuidadosamente sobre a mesa, para que Kate a guardasse 
depois.
  Sem saber o que fazer ou dizer, Kate aceitou sua ajuda, permanecendo calada enquanto trabalhavam. O mutismo da me no foi bem recebido por Marianne, que esperava 
um sinal, por menor que fosse, de que ela a amava e no estava zangada. Sendo ainda to pequena, no compreendia o significado do silncio, que lhe soou como indiferena.
  Tudo terminado, Marianne abaixou os olhos e deixou a cozinha. Os irmos, sentados na sala em companhia do pai, olhavam-na desconfiados, torcendo para que ela no 
se aproximasse. Ela no se aproximou. Tomou a direo das escadas e subiu para o quarto. No meio do caminho, ouviu a voz da me.
  - Boa noite, Marianne.
  Parou para ouvir o que a me dissera, na esperana de que fossem palavras de carinho. Como estas no vieram, galgou os degraus sem se voltar. L em cima, correu 
para o banheiro, trancou a porta e vomitou. No quarto, atirou-se na cama sem nem mesmo trocar de roupa e, em instantes, adormeceu.
  Depois que ela subiu. Kate apanhou os outros filhos e, ajudada por David, levou-os para o quarto. Suzie agora dormia com os meninos, pois era impossvel acomod-la 
com Marianne. Depois que eles adormeceram, ela encostou a porta do quarto e foi ver a outra filha.
  Encontrou-a adormecida e sentiu, forte em seu corao, um misto de repulsa, compaixo e amor. Quase a matara, mas ela estava doente e era sua filha. Andando na 
ponta dos ps, retirou uma camisola do armrio e trocou Marianne que, de to cansada, nem percebeu a presena da me. Ajeitou-a cuidadosamente sobre o travesseiro, 
cobriu-a com a manta, acariciou seus cabelos e saiu.
  Em seu quarto, David a aguardava.
  - Como est Marianne?  perguntou interessado.
  - Est dormindo.
  - Trancou a porta do quarto dela?
  - Acha necessrio?
  - No sei se  seguro deix-la solta por a. E se ela tiver outra crise e atacar os irmos?
  - Isso no vai acontecer.
  - Como  que voc sabe?
  - Marianne s age por impulso, quando provocada.
  - Voc no pode ter essa certeza. E o que a provoca?
  Kate fez ar de dvida, e ele mesmo respondeu:  Tudo. Qualquer coisa  capaz de provoc-la.
  Kate deitou-se na cama e apagou o abajur. Com o rosto voltado para a parede, considerou:
   Ela est doente.
   Fico me perguntando se j no  hora de a levarmos ao psiquiatra. No me agrada essa ideia, mas que outra sada temos?
  Embora Kate soubesse que era o que tinham que fazer, ainda se mostrava resistente.      Esfregou a testa, empertigou o corpo e, mudando de postura, respondeu incisiva:
   Ainda no. Vamos esperar para ver o que acontece. Quem sabe ela melhora?
   Sem o Ross? Acho difcil.
   Vamos dar tempo ao tempo. O tempo cura todas as feridas. H de curar tambm as de Marianne.
   Voc mesma disse que temia pelas crianas. Se esperarmos mais, no estaremos pondo em risco a segurana delas?
   Posso controlar Marianne, sei que posso. Ela  uma criana, minha filha. Tenho que manter o domnio sobre ela.
   No sei se as coisas so bem assim.
   No posso fazer isso com minha filha. Tenho medo de que o psiquiatra recomende a internao. Como irei suportar?
   Sei que isso no agrada ningum, mas ser que no seria melhor?
   Nunca!
  Na mesma hora, David se arrependeu do que dissera, imaginando que males um hospcio seria capaz de produzir na mente de uma criana. Todavia, a insanidade de Marianne 
precisava ser considerada. Se ela era mesmo louca, talvez o sanatrio fosse o lugar certo para ela. Havia, contudo, a resistncia de Kate. Como me, no seria fcil 
tomar uma deciso como aquela.
  Ento, se ficasse provado que Marianne era mesmo louca, caberia a ele, no papel de pai e chefe de famlia, cuidar da mulher e dos demais filhos, protegendo-os 
de agresses externas. Naquele momento, tendo j se dissipado as vibraes que captara no quarto de Marianne, David voltava a raciocinar sob a influncia de seres 
malignos, que se aproveitavam de sua repulsa  loucura para incutir nos pensamentos dele o nico destino possvel para Marianne.

  22
  Quando Nathan chegou a Lilian estava em seu quarto, sentada em frente ao toucador, penteando os cabelos. Olhou para o marido pelo espelho, sorriu e, sem se voltar, 
cumprimentou:
   - Ol, querido. Como foi o seu dia?
   Bom...
  Ele pousou o chapu em cima da poltrona, sentou-se na cama e ficou olhando-a pelo espelho. Ela terminou a maquiagem e tornou a olhar para ele.
   Aconteceu alguma coisa? - Fitando-a com ar enigmtico, ele respondeu:
          Fui promovido.
  Lilian soltou o vidro de perfume que espargia pelo colo e virou-se abruptamente:
   Promovido? Isso  maravilhoso!
  Nathan se sentia pouco  vontade. No entendia por que, de uma hora para outra, recebera tantas e sucessivas promoes. No comeo, pensou que fosse um acaso da 
sorte ou do destino. Agora, porm, no tinha tanta certeza. Os olhares dos antigos companheiros o incomodavam, como se o acusassem de deslealdade e oportunismo.
   Eles esto com inveja  disse Lilian.  No ligue. Voc no precisa mais deles.
  Mas ele ligava, e as justificativas dela no o convenciam. Conhecia aquela gente desde sua admisso na fbrica, havia quase quinze anos. Sempre foram amigos at 
que, de uma hora para outra, todos passaram a ignor-lo e se calavam toda vez que ele se aproximava, como se ele fosse um traidor ou espio.
  Revendo seus passos na fbrica, lembrou-se que todos acharam justa sua promoo a chefe de produo, Era um empregado antigo, muito responsvel e conhecia o servio 
como ningum. Logo depois, quando fora chamado a ocupar o cargo de gerente, a reao foi de desconfiana. Mas ele no era culpado pela morte de Clayton, o gerente 
anterior, e no pode recusar a promoo. Ningum recusaria.
  E agora, passados poucos meses desde a ltima vez em que fora promovido, o chefe o chamara e lhe oferecera o cargo de diretor de vendas. Trocara-o de setor. J 
no trabalharia mais na produo, e sim nas vendas. Seria encarregado de contatar os clientes, oferecer seus produtos, discutir preos e elaborar clusulas de contratos 
favorveis  fbrica. Coisas com as quais Nathan, absolutamente, no estava familiarizado. 
  A nica coisa de que entendia era de produo. A indstria txtil havia crescido muito nos ltimos anos, e Nathan se tornara um especialista em tecelagem. No 
compreendia por que tinha que ser desviado para um setor burocrtico para o qual nem se achava preparado.
  Alm do mais, o senhor Jack White, antigo diretor de vendas, estava no cargo havia muitos anos, e sua aposentadoria fora motivo de estranheza. Ele sempre dissera 
que gostava do seu trabalho e queria morrer trabalhando. E ento, de uma hora para outra, resolvera se aposentar. 
  O       pior de tudo era que ele estaria obrigado a constantes viagens. A fbrica do senhor Bradley era muito grande e prspera, e seus tecidos eram comercializados 
por todo o pas e at no exterior. Ele lhe dissera que teria que viajar muito, inclusive para a Amrica, onde as vendas comeavam a disparar.
  Nada daquilo o agradou. No queria se afastar da famlia e no estava  altura do cargo que lhe ofereciam. Tentou dizer isso ao patro, mas ele no aceitou suas 
desculpas.
   Nem pense nisso!  dissera.  Voc  meu homem de confiana. Conhece a fbrica como ningum.
   Mas senhor Bradley  rebateu Nathan, confuso , tenho famlia. No poso me ausentar. E depois, no entendo nada de vendas.
   Isso no  problema.  claro que no vou atir-lo aos lees sem qualquer defesa. Voc vai se preparar adequadamente, aprender a funo. Vou lhe mostrar tudo 
e, em breve, voc ser um excelente diretor.
   Mas...
   Nada de mas, Nathan. E depois, o salrio  excelente.
   Sei disso e no quero que pense que sou mal-agradecido. Mas  que, como disse, a minha famlia... 
  - Que eu saiba, sua esposa  uma mulher jovem e saudvel, que, inclusive, j trabalhou aqui. E seu filho j  um rapazinho.
   Eles precisam de mim.  Precisam. E de dinheiro tambm. Pense em tudo que poder lhes proporcionar com o salrio que estou lhe oferecendo. Voc comprou uma casa 
nova, no 'oi?  ele assentiu.  E num bairro elegante, no ?
   Sim. Mas est hipotecada...
   Mais um motivo para aceitar, pois o novo salrio lhe assegurar o pagamento da hipoteca. Vamos, homem, deixe de sentimentalismos.  uma proposta irrecusvel, 
e voc vai se surpreender com a realidade de que todos podem passar muito bem sem voc.
  Pensando no quanto Lilian ficaria furiosa se ele recusasse o novo cargo, Nathan se deu por vencido:
   O senhor tem razo. Sua proposta  mesmo irrecusvel.
  - Quer dizer ento que aceita?
   Aceito.
   Excelente!  exclamou exultante.  E no pense que est me fazendo um favor. Voc mereceu essa promoo. Esteja certo de que no vai se arrepender.
  J estava arrependido. Agora, fitando a mulher, envolta em rendas e fitas, imaginou se havia mesmo agido corretamente. Ela era ambiciosa e no ligava a mnima 
para ele ou para seu filho. S pensava em roupas e joias, que ele vinha comprando com sacrifcio. E de uma hora para outra, milagrosamente, tinha condies de satisfazer 
seus caprichos mais extravagantes.
   Agora sim, serei uma dama de verdade  comentou ela, sonhadora.  Para comear, podemos dar uma festa. Toda a alta sociedade londrina estar presente.
   Devagar, Lilian. S fui promovido. No fiquei rico.
   Como no? Voc agora vai ganhar bem. No  mais um operrio.  diretor, est ingressando na elite industrial...
   Vou ter que viajar  cortou ele.
  - Viajar? Para onde?
   No sei. Pelo pas e pelo exterior.
  Um brilho de vitria despontou no rosto de Lilian, e ela sorriu intimamente. Enquanto ele viajasse a negcios, ela e Richard estariam livres para se encontrar 
e, quem sabe, viajar tambm. Fora uma grande prova de amor. Por que outro motivo Richard teria obrigado Jack White a requerer a aposentadoria, sob pena de despedi-lo, 
para dar o cargo a Nathan? Por ela. Pensando nisso, sorriu maliciosamente e elogiou com disfarado fingimento:
   Ah! Nathan, fico muito feliz por voc. Foi merecido.
   No est aborrecida por eu ter que viajar?
    claro que no!
  Pensei que sentiria minha falta.
  Ela tossiu levemente e se aproximou dele, segurando suas mos com fingida ternura:
    claro que sentirei a sua falta, mas ser um sacrifcio que terei que fazer em benefcio do seu sucesso.
   Tem certeza?
  - Absoluta. Prometa-me apenas que no ir me trair com nenhuma americana. Ouvi dizer que elas tm modos muito despojados.
  Se lhe dar tempo de contestar, comeou a morder seu pescoo, deixando-o louco de desejo. Lilian sabia como dobr-lo. Conhecia seus abraou-o e pontos fracos e 
aqueles que lhe davam mais prazer.
  Na hora do jantar, Nathan estranhou a mesa posta para dois e indagou preocupado:
   Onde est Ross?
   Trancado no quarto  respondeu ela secamente.   No quis sair nem para almoar.
   E voc deixou?
   O que queria que fizesse? Que o arrancasse de l  fora e o arrastasse at aqui?  Como ele fizesse meno de sair, ela segurou sua mo e falou com voz melflua: 
 Deixe-o. Ele ainda est chateado por causa da mudana. Depois passa.
   Ross  uma criana e precisa se alimentar.
   Vou mandar Nora levar-lhe algo para comer. Tocou a sineta e a empregada apareceu. Deu-lhe ordens para que fizesse um prato e o levasse ao quarto de Ross. A criada 
obedeceu e preparou a refeio. Bateu de leve na porta, mas o menino no escutou, perdido que estava olhando pela janela, o corao oprimido pela saudade de Marianne. 
Como ele no atendia, Nora abriu a porta e entrou.
   O que quer?  indagou ele de m vontade, ao v-la com a bandeja na mo.
   Sua me mandou trazer-lhe a refeio.
   Ela no  minha me!  esbravejou.  E leve isso daqui. No estou com fome.
  A criada pousou a bandeja na mesa e saiu devagarinho. Assim que chegou de volta  sala, Nathan indagou ansioso:
   Ele comeu?
   No, senhor. Deixei a bandeja l, mas ele nem olhou para ela.
  Nathan balanou a cabea e dispensou-a. No estava acostumado  presena de estranhos s refeies e queria ficar a ss com Lilian.
   No sei o que fazer com Ross  desabafou ele, levando o copo de vinho aos lbios. - Ele est ficando rebelde.
   Influncia de Marianne. Aquela menina  uma praga.
   Ela  prima dele... Ross sente a falta dela.
  -  Quanto a isso, no h nada que possamos fazer.
   Talvez eu deva ir falar com David. Somos irmos e nunca havamos brigado antes.
   Para dizer-lhe o qu? Que est arrependido?
   Poderia pedir-lhe desculpas, para comear.
   Vai se desculpar por ele ter uma filha doida varrida?
   No se trata disso. Preocupo-me com meu filho. Marianne e Ross foram criados juntos. A separao est sendo difcil para ambos.
  Lilian enxugou os lbios com o guardanapo e rebateu friamente:
   E voc pretende reaproximar os dois.
   Acho que no seria m ideia.
   Faa isso e transforme nossa casa num hospcio.
   Voc est exagerando. Marianne  dcil quando bem tratada.
   Est querendo dizer que eu a trato mal?
   No  isso...
    isso sim. Pois deixe que lhe diga: no gosto de Marianne e no a quero entre ns. No vou tolerar a presena de uma doida nesta casa.
  Nathan ficou alguns minutos pensativos, at que sugeriu:
   Talvez Ross  que possa ir visit-la.
   Se consentir nisso, ele vai perder de vez o respeito por mim.
   No creio...
   J se esqueceu das imprecaes que ele falou de mim?
   Ele estava com raiva, perdeu a cabea.
   E vai perder de novo se continuar a se encontrar com aquela pirralha maluca. Ela  uma pssima influncia para ele.
   Voc est se dando muita importncia. Marianne s quer saber de Ross. Se os deixarmos em paz, ela nem se lembrar da sua existncia.
   Tem razo, precisamos deix-los em paz. E  por isso que insisto que o melhor para ele seria morar de vez com a adorada priminha.
   Por favor, Lilian, no recomece com isso. Voc sabe que eu no vou permitir.
   Ross gosta mesmo  de Kate e de Marianne. No gosta de mim. Por que no satisfazer a sua vontade?
   Est enganada. Conheo o amor do meu filho por mim. E eu o amo tambm.
   Chama isso de amor? Veja como ele est! Trancado no quarto feito um bicho do mato.
   No compreendo voc. No quer permitir que ele v visitar Marianne, mas sugere que eu o deixe morar com ela. No vai nisso uma grande contradio?
   De jeito nenhum! Se permitirmos que ele a visite, corremos o risco de chegar a casa um dia e termos a desagradvel surpresa de encontrar Marianne aqui. Agora, 
se ele for morar com ela, no ter motivos para traz-la a nossa casa, voc no acha?
   O que acho  que voc est tentando me afastar do meu filho, mas no vou permitir. Probo-a de tocar novamente nesse assunto. J est decidido: Ross fica comigo 
e pronto.
  A discusso tirou o apetite de Nathan, que se levantou aborrecido e saiu para a rua. A presso de Lilian estava se tornando insuportvel. Agora percebia tudo. 
Como fora idiota! Lilian queria se livrar de Ross a todo custo. No gostava dele, talvez no gostasse de ningum alm de si mesma. Interessava-se apenas pelas futilidades 
que o dinheiro podia comprar.
  O pior no era ela. Era ele. Lilian era interesseira e ftil, provavelmente sempre fora assim. Kate tentara avis-lo, no entanto, no lhe dera ouvidos, surdo pelas 
falsas palavras de amor com que Lilian o enfeitiara. Jamais devia ter-se afastado da famlia por causa de mulher alguma. Como fazer agora para voltar atrs?
  Nathan chutou uma pedra e atravessou a rua, admirando a casa grande e bonita pela qual se endividara tanto. Tudo para satisfazer os desejos e os gostos de Lilian. 
Ela estava satisfeita em sua vaidade, e para isso, tanto ele quanto o filho tinham que ser infelizes. Era preciso reagir e impor a sua vontade. Mas como, se no 
tinha coragem de contrari-la? Perguntava-se por que era to covarde e no encontrava a resposta.
  Deu uma ltima olhada para a casa e soltou um suspiro profundo, descendo a rua a passos lentos. Uma mulher passou ao seu lado, e ele se deteve impressionado. Seria 
mesmo Kate? No podia ser. Ela estava muito longe, feliz com o amor de sua famlia.
  Instintivamente, voltou-se e viu a mulher se afastar. To diferente e, ao mesmo tempo, to semelhante  cunhada. Kate era uma mulher bonita. Ser que tinha conscincia 
de sua beleza? Provavelmente no, sufocada pelos afazeres domsticos e os cuidados com os filhos, principalmente com Marianne e seu enorme problema.
  Como gostaria de, naquele momento, estar ao lado de Kate! S ela saberia compreend-lo e confortar o sobrinho, a quem criara como filho. Sim, para Ross, ela sempre 
fora sua verdadeira me. E para ele, o que ela realmente seria?

  23
  Foi na noite imediata ao acesso de loucura de Marianne que Luther deu um ultimato aos espritos das trevas. Reunidos nas profundezas do astral inferior, ouviam 
com revolta as imprecaes e ordens do esprito, que caminhava de um lado a outro com visvel impacincia.
   Seus incompetentes!  vociferou.  Deixei-a aos cuidados de vocs, e o que fizeram? Divertiram-se e aproveitaram bastante, mas nada de traz-la para c. Ser 
que  to difcil assim levar uma louca ao suicdio? Agora chega. Ningum mais mexe com ela. Cuidarei de Marianne pessoalmente, que era o que deveria ter feito desde 
o incio.
   Mas Luther  tentou protestar um esprito , isso no  justo. Voc no tem o direito de impedir nossa vingana.
   E voc no tem o direito de impedir a minha. J no tiveram sua chance? Agora  a minha vez, seus inteis.
  Um dos espritos, de rosto cadavrico e olhar assustador, encarou Luther com raiva e disse entre os dentes:
   E se ns no obedecermos?
   Vocs  que sabem. Mas depois, no digam que no avisei.
  - Quem  voc para nos ameaar? Vociferou outro.
  Luther lanou-lhe um olhar sarcstico, acercou-se dele e segurou-o pelo colarinho, cravando as garras em seu pescoo:
   Eu sou aquele que manda e que voc no gostaria de enfrentar  rosnou com ar aterrador.
  O outro, sentindo o poder de Luther, engoliu em seco e tentou retirar as mos de seu pescoo. Luther apertou um pouco mais e, em seguida, empurrou-o com violncia 
de encontro  parede.
   Ser que preciso lembrar a todos que eu sou o chefe aqui? Conquistei esse posto por mrito, graas a muita dedicao e pacincia. Aprendi a me defender e, principalmente, 
a saber o momento certo de atacar. Quem quiser me contestar, vai ter que me enfrentar e provar que  mais forte e mais poderoso do que eu. Algum quer experimentar? 
 Ningum se atreveu, e Luther prosseguiu:  Muito bem. Assim est melhor.
   Por que a defende?  arriscou uma mulher toda rota.
   Defendo a minha presa e, consequentemente, a mim mesmo e os meus interesses.
   Por qu?
   Isso, s a mim diz respeito.
   Voc tem contas a acertar com ela  aventou uma velha desgrenhada.  Assim como ns.
   Muito justo. Todavia, como disse, vocs tiveram a sua chance e a desperdiaram.
   Achei bonito o seu pequeno discurso de poder  desdenhou um esprito grandalho e com cara de mau, que no era dali.  Todavia, no me convenceu. Voc  um s, 
e ns somos muitos. O que nos impede de atac-lo e tomar o seu posto?
   Bem se v que voc  um estranho nas minhas terras  retrucou Luther com frieza.  E  s por isso que no vou destru-lo.
  O outro soltou uma gargalhada tenebrosa e, de forma inopinada, avanou em cima de Luther com uma adaga, derrubando-o ao cho e montando em cima dele, com a faca 
encostada em seu pescoo.
  - Quem vai destruir quem agora?
  Luther no se deixou intimidar. Permitiu que o outro o ameaasse por alguns instantes, at que, segurando a mo da faca, atirou para longe a criatura que o dominava, 
sem qualquer esforo. Os outros, impressionados, quedaram-se boquiabertos, incapazes de emitir qualquer som. Como se nada houvesse acontecido, Luther levantou-se, 
espanou a poeira astral e continuou a falar, alheio ao estado de quase demncia em que deixara seu agressor:
   Lembrem-se de que s esto aqui porque eu consenti. Muitos de vocs j me conhecem e at trabalham para mim. Para aqueles que so novos e nunca ouviram falar 
de mim, como nosso amigo ali  apontou, sem emoo, para o esprito cado , saibam que toda essa regio est sob o meu domnio, e tenho um exrcito ao meu dispor. 
Quem quiser tomar o meu lugar, vai ter que lutar por ele, assim como eu lutei para estar aqui. S que, ao contrrio do meu antecessor, no estou enfraquecido pelo 
deslumbramento de uma dissimulada iluminao. No acredito no poder da luz. Creio na potncia das trevas, na soberania da fora e na propagao do medo para a conquista 
e a imposio do poder absoluto. O poder  tudo que importa.
  O episdio era mais do que suficiente para provar a todos a superioridade de Luther. Os espritos no ousaram mais enfrent-lo nem com palavras, nem com gestos, 
e limitaram-se a olh-lo com ar resignado. O silncio era total, at que, por fim, uma mulher levantou um dedo hesitante e, aps o consentimento de Luther, perguntou 
com timidez:
   No poderemos fazer nada?
  Luther fez um ar de mistrio e retrucou bem-humorado:
   Vamos ver. Aqueles de vocs que quiserem me seguir e obedecer podero me auxiliar... E, auxiliando-me, tero novas oportunidades.
   Voc quer nos escravizar?  perguntou, perplexo, o esprito de rosto cadavrico, procurando ficar fora do alcance de Luther, temendo que lhe acontecesse o mesmo 
que acontecera ao companheiro atacado.
  Luther fitou-o com desdm e respondeu entre os dentes:
   No gosto de voc, animal. Mesmo assim, vou responder a sua pergunta. No tenho necessidade de escravizar ningum. S se tornam meus escravos aqueles que me 
devem alguma coisa  disse isso olhando bem fundo nos olhos do outro, que se encolheu assustado.  Aos demais, dou a oportunidade de me servirem. Se quiserem, podero 
conseguir sua vingana pessoal, desde que executem minhas ordens. Se no quiserem, podem partir e buscar outra vtima.
   No queremos outra!  protestou algum.  Temos contas a ajustar com Marianne.
   Pois ento, pensem bem. Se quiserem chegar at Marianne, eu sou o caminho. Se no forem a ela atravs de mim, desistam. Ela se tornou inacessvel a vocs. A 
deciso  sua  Luther nem lhes deu tempo de responder.  E agora, vo dando o fora. S quero aqui os que me so fiis. 
  Alguns espritos, atrados pelas vibraes de dio, de vingana, de medo e de desarmonia, mas que no estavam ligados energeticamente a Marianne, foram saindo 
de fininho, sem dizer nada. Queriam apenas se alimentar daqueles fluidos sem se prender a ningum. Muitos, contudo, permaneceram. Espritos presos a ela por vidas 
passadas, e ainda outros ligados a Kate e David, cujo propsito era atingi-los atravs da menina. Todos em busca de algum tipo de vingana.
  As criaturas ligadas a Kate e David guardavam ressentimentos e dios amealhados em sua ltima encarnao. Marido e mulher, na outra vida, foram homens, irmos 
e mdicos de loucos. O exerccio da medicina nos sculos passados constitua uma tarefa rdua, e a loucura, em especial, era vista com muito mais medo e preconceito 
do que na poca de Marianne.
  Kate e David no fugiam  regra da ignorncia. Loucura era sinnimo de vergonha para as famlias, e sempre que um paciente com problemas mentais ou simples ideias 
extravagantes lhes era apresentado, aconselhavam os familiares a intern-lo no hospcio e esquecer-se dele. Que nem fossem visit-lo. Deixassem-no entregue  disciplina 
dos hospitais, com suas pancadas, grilhes e torturas.
  Loucos no tinham sentimentos, inteligncia ou vontade. Por isso, no era preciso dispensar-lhes considerao. Sempre que algum pai mais zeloso os contradizia, 
argumentando com a desculpa do amor, eles o criticavam e acusavam de impedir o tratamento, insistindo na perpetuao de uma doena incurvel e altamente perniciosa, 
no apenas ao enfermo, mas a toda a famlia e  sociedade.
  Com o diagnstico precipitado da loucura, muitos doentes foram atirados aos hospcios e l esquecidos, levando uma vida de maus tratos, de sujeira, de humilhaes 
e falta de amor. Desencarnados, muitos seguiram com enfermeiros do espao, para serem tratados no astral e recompostos no equilbrio da mente.
  Outros, contudo, principalmente os que no eram realmente loucos, encheram-se de tanto dio que a morte lhes surgiu como oportunidade de vingana. Invisveis, 
podiam perseguir seus algozes sem qualquer tipo de empecilho ou controle. Os mdicos estavam  merc de sua sanha, indefesos ante os ataques obsessivos.
  Quando Kate e David desencarnaram, viram-se diante de muitos cobradores, que exigiam reparao pelos anos de tortura nos hospcios. Foi difcil a priso no astral 
inferior, sob o ataque constante de espritos dementados. Por fim, lembraram-se da existncia de Deus e, sinceramente arrependidos, buscaram auxlio.
  Uma nova chance lhes foi concedida, dessa vez para reencarnarem em sexos diferentes e, casados, receberem como filha um esprito mentalmente desequilibrado e facilmente 
sugestionvel pela influenciao do invisvel. Com o crebro assim predisposto e impressionvel, Marianne retornou ao mundo da matria, carregando consigo o espinho 
cerebral que a impediria, por toda a vida, de raciocinar com clareza e controlar suas emoes, dificultando, com isso, sua interao com o mundo fsico.
  Logo nos primeiros anos de vida, nada de anormal podia ser notado no comportamento de Marianne. As leses cerebrais de que era portadora no eram visveis aos 
encarnados, j que situadas para alm da matria densa. Tratando-se de uma desordem do veculo mental, incapaz de controlar a dilatao destemperada do emocional, 
gravitavam mais em torno desses corpos, inacessveis  razo humana de ento.
  Desorganizadas as emoes, com intensa vibrao e alargamento do condutor astral, ficou mais fcil para os espritos, soltos e  vontade em seu prprio mundo
captarem-lhe a confuso e, aliando tudo isso a uma mediunidade sem controle e sem limites, puderam facilmente aumentar-lhe o distrbio da mente.
  4 O mundo astral tambm  o das emoes e  onde se situa a mediunidade. E acessvel pela morte, sonho ou qualquer estado de transe. Como os desencarnados vivem 
e se locomovem nesse mundo,  muito mais fcil para eles perceberem as vibraes emocionais dos encarnados, visto que esto, eles mesmos, vivenciando intensamente 
suas prprias emoes (N.A.).
  Ao final do terceiro ano, Marianne foi-se modificando. De um temperamento gracioso e alegre, passou a se tornar desconfiada e arredia, falando e agindo de forma 
estranha e pouco comum a crianas da sua idade. No raras eram as vezes em que via seres imaginrios ao seu redor, a princpio, fadas e duendes, depois pessoas nada 
amistosas.
  Elementais5 e espritos pouco a pouco foram se tornando recorrentes e indistinguveis, partes inseparveis da realidade de Marianne, que no discernia entre o 
corpreo e o no corpreo. At os sete anos, sob a proteo de espritos amigos, conseguiu manter a lucidez, apesar das esquisitices. Aps essa idade, iniciada a 
individualizao de seu ser, reuniu condies para enfrentar o prprio destino, seguindo sozinha em sua caminhada terrena.
  Na verdade, Marianne no estava sozinha de todo. Embora no tivesse qualquer relao pretrita com seus pais, contava com a companhia de Ross, o nico que se dispusera 
a acompanh-la, movido pelo amor genuno. Todos os que a ela se haviam ligado em outras vidas no necessitavam passar por aquela experincia, de forma que Marianne 
foi entregue aos cuidados de pais totalmente estranhos a ela. Foi uma combinao de necessidades entre ela, Kate e David. Se, por um lado, Marianne precisava vivenciar 
a loucura, por outro, seus pais tinham que aprender a lidar com a doena de forma amorosa e compreensiva. Com uma diferena fundamental: o germe da insanidade estava 
instalado em Marianne, no em seus pais, que, alm disso, no possuam nenhum dom medinico extraordinrio, alm do normal humano. Nem todos os espritos eram amigos 
de Marianne.
        
  5. Elementais so seres da natureza que habitam o mundo astral, como duendes, silfos, ondinas e salamandras (N.A.).
  Assim como havia aqueles interessadas em seu progresso e na vitria sobre seu passado, outros clamavam por vingana. E no foram poucos os inimigos que Marianne 
conquistara em suas outras vidas. A exemplo de Luther, muitos outros aguardavam o momento de empreender a cobrana que tanto desejavam. E ela ia lutando, consigo 
mesma e com seus demnios, para sobreviver em seu universo selvagem.
  Como seu maior e mais feroz inimigo, Luther conhecia todas essas histrias. Mesmo porque Marianne, um dia, fizera parte de seu squito. Ele a mantivera presa por 
muito tempo, porque ela muito lhe devia. Todos os que lhe deviam eram cobrados, e o pagamento era a escravido, servindo em suas hordas de assassinos astrais.
  S que Marianne lhe dera um golpe. As escondidas, sem que ele percebesse ou sequer desconfiasse, conseguira ludibri-lo e se bandear para o lado inimigo das sombras. 
Como Luther se enfurecera ao descobrir que ela o deixara! Urrara e se debatera em fria, mas em vo. Inexplicavelmente, ela escapara e fora recolhida em algum dos 
muitos centros de reabilitao espalhados por ali, lugares protegidos aos quais ele no tinha acesso. Dali para algum posto de socorro acima da crosta terrestre 
no era difcil. As vibraes luminosas da esquadrilha do bem era salvo-conduto mais do que suficiente para conduzir as almas at paragens mais lmpidas.
  Assim, ele a perdera, mas no inteiramente. Ainda podia sentir os fluidos de medo que partiam dela. Ficou  espera. No foi difcil perceber o seu retorno nem 
localiz-la no meio de pessoas estranhas. Ao contrrio, tudo ficou mais fcil. A famlia no a amava, e a falta de amor lhe facilitava as investidas. Alm disso, 
seus pais tinham l os seus comprometimentos e no eram dados a oraes nem coisas do gnero, facilitando ainda mais o seu acesso a Marianne.
  E agora, ele se encontrava ali, na iminncia de efetivar sua vingana. No havia mais espritos bonzinhos nem a boa vontade da mame. O nico e possvel obstculo 
era o garoto intrometido, que agora estava fora. Luther estava praticamente sozinho, sem nada que lhe dificultasse os planos.
  Ento agora, era s concretiz-los.

  24
  No foi possvel para as crianas tornarem a se ver. Durante um bom tempo, permaneceram afastadas, cada qual em sua casa, imersas na saudade e na dor. No passava 
um dia em que ambos no pensassem numa maneira de fugir e se ver. Todavia, a vigilncia era constante e, principalmente para Marianne, tudo era muito mais difcil, 
no apenas pela pouqussima idade, como tambm pela dificuldade de tomar decises e cuidar de si mesma.
  Marianne mal se alimentava. Passava os dias  janela, sonhando com Ross, imaginando sua chegada em um cavalo branco, tal qual os prncipes dos contos de fadas 
que ele costumava ler para ela. Nada do que os pais faziam para anim-la surtia efeito, o que tambm no era muita coisa. Marianne no tinha amigos, e, desde sua 
ltima crise, os irmos a evitavam, com medo. Nem Margot a visitava mais. Apenas de vez em quando, via um elemental ou outro subindo pelas rvores, mas eles nunca 
falavam com ela. Estava mais s do que nunca.
  O vero passou correndo, anunciando o fim das frias, e os ventos gelados do outono trouxeram  Marianne um novo nimo. As aulas iam comear, e ela encheu-se de 
esperana de que Ross viria busc-la para irem  escola juntos.
  Naquela tarde escura de domingo, Marianne esperava ansiosa pelo dia seguinte, quando, finalmente, encontraria Ross. Desconhecia a surpresa que a aguardava. Logo 
ao amanhecer do dia, saltou da cama, exibindo uma animao comedida, e esmerou-se no penteado, colocando, inclusive, uma fita cor-de-rosa no cabelo. Tudo para agradar 
Ross.
  Depois de pronta e perfumada, apresentou-se para o caf, a toda hora olhando pela janela da cozinha. Kate e David se entreolhavam preocupados. Ao matricular Roger, 
que, naquele ano, iniciaria os estudos, ficaram sabendo que Ross no renovara a matrcula. Deviam ter contado logo a Marianne, todavia, foram adiando a notcia, 
a fim de evitar-lhe maiores sofrimentos.
  Na hora de sair, Marianne ainda no se convencera de que o primo no iria aparecer. Enquanto Kate ajeitava a fita em seu cabelo, perguntou:
   E o Ross, mame? Cad ele?
  David havia acabado de sair, como sempre antes das tempestades, de forma que caberia a ela, mais uma vez, cuidar daquele assunto sozinha.
   No sei de Ross  respondeu sem encar-la.
  -   Ele no vem me buscar?
   Ele no mora mais aqui.
 - Mas a escola dele fica perto da minha! Pensei que fssemos juntos...
  A hora de contar era aquela, contudo, Kate no conseguia. Roger, a seu lado, demonstrava toda a ansiedade do primeiro dia de aula, e ela no queria desapont-lo. 
Aquela, decididamente, no era a hora mais apropriada para uma cena. Talvez mais tarde, quando estivessem de volta, ela levasse a filha para o quarto e, sozinha 
com ela, lhe contasse tudo.
   Ross deve ter ido direto de sua casa - mentiu.  Vai encontr-lo depois.
  Marianne no disse nada, embora no conseguisse ocultar a decepo. Saiu com a me e os irmos, inclusive os pequenos, que no tinham com quem ficar. Naquele momento, 
Kate no podia prestar muita ateno a Marianne, ocupada com a euforia de Roger e em cuidar dos menores. Com Kevin em uma mo e        Suzie no colo, Roger ia ao 
seu lado tagarelando, enquanto Marianne seguia mais  frente, alheia  conversa deles, embora sob o olhar atento da me.
  Na escola, Kate se despediu dela com um beijo e seguiu apressada para a de Roger, que tambm fora a de Ross. Marianne demorou-se um pouco mais, vendo a me e os 
irmos se afastarem, sobressaltando-se a cada automvel que parava por perto. Todos os meninos se pareciam com Ross, e quando ela estava prestes a gritar o nome 
dele, confundindo-o com outro garoto que passava, ouviu uma voz familiar atrs de si:
   Pode entrar que ele no vem.
  Virou-se bruscamente, mas no viu ningum. A despeito de conhecer aquela voz, deu de ombros e procurou o garoto, que agora ia longe, e escutou novamente:
   Est perdendo seu tempo. J disse que ele no vem.
  Dessa vez, ao se voltar, enxergou o esprito atrs dela, sentado no corrimo de pedras da escada.
   Como  que voc sabe?  rebateu de m vontade.
   Simplesmente sei.
  - Quem lhe disse?
   Ningum precisa me dizer nada, pois sei de muitas coisas.
   Sabe onde ele est?  animou-se.
  O esprito no respondeu e ficou observando duas meninas que passavam. Vendo Marianne parada no alto da escada, falando sozinha, elas no resistiram e        comearam 
a rir.
   Acho que esto rindo de voc  anunciou ele.
  Marianne deu de ombros outra vez e afirmou sem interesse:
   Problema delas. Eu no ligo.
  Impressionadas e assustadas com a atitude de Marianne, foram chamar o professor. O senhor O'Neill foi-se aproximando lentamente e parou no corredor, de onde podia 
avist-la no patamar de cima. Ela parecia mesmo falar com algum, contudo, no havia ningum ao lado dela. Resolveu aproximar-se.
   Bom dia, Marianne  cumprimentou em tom severo.
  A menina se calou e fitou o esprito, que escorregou pelo corrimo. Seguiu-o com o olhar, acompanhada pelo senhor O'Neill, que no via nada nem ningum.
   Algum problema?  continuou ele, tentando chamar sua ateno.
  Ela olhou-o em silncio, abraou a pasta da escola e passou para o lado de dentro, seguida de perto pelo professor. Sem dizer nada, tomou o rumo da sala e entrou. 
Como, porm, uma menina que ela no conhecia ocupava o lugar que costumava ser dela, escolheu outra carteira e sentou-se.
  - Quem lhe deu autorizao para trocar de lugar esse ano, Marianne?  era o senhor O'Neill.
   Tem uma aluna nova no meu lugar  esclareceu ela mal-humorada.
  - Que menina?  retrucou, perplexo, o professor. As outras crianas se entreolharam e comearam a dar risinhos abafados. No viam ningum no lugar de Marianne.
  - Que menina?  repetiu ele.
  O tom de voz do senhor O'Neill lhe causou muito medo, e ela deduziu que levaria uma advertncia. Tudo porque aquela menina estpida resolvera se sentar no seu 
lugar. Quando ia responder que no conhecia aquela aluna nova, a outra se virou para ela com ar zombeteiro e, sem dizer nada, simplesmente esvaneceu no ar.
  Melhor assim. Marianne levantou-se e foi para o seu lugar, e o professor deu incio s lies. Ningum sabia o esforo que ela fazia para aguentar a aula at o 
fim.  hora da sada, como a me ainda no havia chegado, deduziu que Ross  quem iria busc-la, e uma alegria espontnea iluminou o seu rosto. Olhava, impaciente, 
na direo da escola dele, mas nada. Ross no aparecia.
  Cerca de dez minutos depois, Kate surgiu, com Roger e Kevin de um lado, e Suzie no colo. A um olhar seu, Marianne desceu as escadas, segurando a vontade de chorar.
   O Ross no vem?  perguntou.
  Kate no respondeu. Ps-se a caminho de casa com as crianas em seu encalo, ouvindo as novidades que Roger contava e preocupada com a aparncia derrotada de Marianne. 
Como uma criana to jovem podia estampar tanto sofrimento nos olhos? Engoliu em seco e soltou a mo de Kevin, estendendo-a para a filha, que a tomou mecanicamente.
   Segure a mo de seu irmo  disse baixinho, e Marianne obedeceu.
  Seguiram entre a tagarelice de Roger, os risos dos outros dois e o mutismo de Marianne. A medida que iam se aproximando de casa, foram notando uma movimentao 
diferente em frente  casa de Ross. Um caminho de mudanas descarregava mveis e caixas, num vaivm de pessoas que pareceram a Marianne aquelas que ela queria ver. 
Mais que depressa, soltou-se da mo da me e do irmo e disparou pela rua gritando:
  - Ross! Voc voltou! Eu sabia, Ross...
  O nome do menino morreu em seus lbios, na presena de uma mulher jovem que, parada no meio da escada, olhava-a com ar de espanto. O susto de Marianne no foi 
menor, julgando, em sua mente confusa, que a casa do primo havia sido invadida por pessoas estranhas.
  Kate chegou em seguida, com Suzie no colo e os outros dois, de mos dadas, em carreirinha. Soltou os meninos no p da escada e galgou os degraus de par em par, 
chegando  varanda suada e esbaforida, com Suzie ameaando chorar.
   Meu Deus, Marianne!  exclamou arfando, quase sem conseguir respirar.
  A falta de ar era tanta que a moa se preocupou:
  - Est tudo bem, senhora?
   Eu... perdoe-me... Marianne no queria aborrec-la.
   Ora, no foi nada  retrucou a outra com simpatia.
    que o primo morava aqui, e ela ficou muito triste quando foi embora. Pensou que fosse ele. No foi, Marianne?
  A menina no respondeu. Com ar magoado, virou as costas e disparou a correr novamente, passando direto para o quintal, nos fundos de sua casa.
   No se preocupe  sossegou a mulher, notando o embarao de Kate.  Criana  assim mesmo. Eu sou Laura Hyde. Acabamos de nos mudar para c.
   Muito prazer  respondeu Kate, estendendo-lhe a mo livre, que a outra apertou.  Meu nome  Kate Landor, mas pode me chamar de Kate.
  - Prazer, Kate.
  A mulher falava sobre a nova casa e suas expectativas de recm-casada, mas Kate mal lhe prestava ateno, de to preocupada que estava com Marianne. Por fim, cortou 
o assunto com uma certa impacincia:
   Seja bem-vinda, Laura. Desculpe-me, mas preciso levar as crianas...
   Oh! claro, claro. Foi um prazer.
   O prazer foi todo meu.
   Aparea quando quiser.
  Kate sacudiu a cabea e quase voou para casa. Deixou as crianas na sala e abriu a porta que dava para o quintal. Marianne estava deitada de bruos na grama, chorando. 
Movida pela compaixo, aproximou-se vagarosamente e chamou com carinho:
   Marianne...
  Ela levantou os olhos, assustada, e encarou a me, que se ajoelhara ao seu lado. Kate engoliu em seco e sentiu vontade de tom-la nos braos, mas um certo temor 
a deteve. Marianne estava to s, to perdida e carente, que s o que queria era sentir o acolhimento materno. Dando livre curso s lgrimas, agarrou-se  me em 
desespero e deixou-se dominar pelo pranto convulso e pelos soluos sentidos. Desconcertada, Kate afastou gentilmente os braos da menina de seu pescoo, fez-lhe 
um afago sem jeito e balbuciou:
   No chore, Marianne. Eu estou aqui...
  A filha tentou abra-la novamente, mas Kate se sentiu estranha recebendo-a em seus braos. A lembrana da ltima briga tolhia seus gestos, reacendendo a dificuldade 
e o preconceito do passado. Queria abra-la, porm, no conseguia. Achou melhor se levantar e puxou Marianne pela mo, passando os braos da menina ao redor de 
sua cintura. Era o mximo que conseguia fazer.
   Venha me ajudar, Marianne. O que acha de fazermos uma torta de ma?
  Ela foi. No pensava em tortas nem em comer. Queria apenas o carinho da me, que, naquele momento, seria a nica coisa capaz de acalmar seu corao abatido. Kate 
serviu o almoo e a torta de sobremesa, mas Marianne recusou ambos. Terminada a refeio, ajudou a me a lavar a loua em silncio e subiu para o quarto, atirando-se 
na cama para chorar.
  Depois de acomodar as outras crianas para a soneca da tarde, Kate foi bater  porta de Marianne. Encontrou-a deitada, de bruos, o corpo estremecendo a soluos 
esparsos. Aproximou-se cautelosa e sentou-se ao lado dela. Fez um pequeno esforo e alisou seus cabelos.
  - Marianne  chamou baixinho.  Precisamos conversar.
  - Sobre o qu?  retrucou ela, sem interesse.
  - Sobre Ross.
  Todas as atenes de Marianne se voltaram para Kate ao ouvir o nome do primo. Ela se sentou, enxugou os olhos e olhou para a me.
  - Voc sabe por que ele no foi  escola?
  Kate queria desistir, mas no podia. Aquele era o momento e, por mais doloroso que fosse, ambas teriam que enfrent-lo. Marianne teria que assumir a decepo e 
ela, como me, tinha que suportar o que quer que viesse dela, ainda que uma nova e gigantesca crise.
  Enchendo-se de coragem, Kate inflou os pulmes e, olhando diretamente nos olhos da filha, disparou. 
  - Ross foi transferido para outra escola.
  - Como assim?
  - Ele no estuda mais aqui.
  - No? Mas onde  que estuda?
  - No sei.
  - Como? A escola dele  aqui.
  - H outras escolas, Marianne. Escolas maiores e melhores. E Ross foi para uma delas.
  - Onde?
  - No sei.
  - Quando  que vai voltar?
  - No vai mais voltar.
  Aquela conversa a estava confundindo, e Marianne comeou a se exaltar, na tentativa de entender o que a me dizia. O rosto foi ficando vermelho, os lbios trmulos, 
e uma agitao dominou os seus membros, que gesticulavam e chutavam em todas as direes. Estava  beira de uma crise, e Kate se encolheu temerosa.
  No mesmo instante, Marianne deu um salto da cama e correu para o corredor, julgando ter ouvido a voz de Ross partindo de um dos quartos. A voz vinha do quarto 
dos irmos, e foi para l que ela correu, ansiosa e eufrica. Em tom audvel e claro, a voz sem rosto, imitando a de Ross, acabou por revelar:
   Estou aqui. Escondido no bero de Suzie.
  Ento era l que ele se ocultara. Muito inteligente da parte de Ross esconder-se num lugar em que ningum pensaria em procurar. Com a imagem do primo preenchendo 
todos os seus pensamentos, Marianne correu de braos estendidos para o bero. Antes de alcan-lo, sentiu-se puxar violentamente para trs, e um grito agudo trespassou-lhe 
os ouvidos:
   Marianne, no! Deixe-os em paz!
  O brado despertou as crianas, e Suzie comeou a chorar. As mos que se agitavam, em busca da me, pareceram a Marianne o apelo de Ross, implorando para que ela 
o salvasse da bruxa. E ela precisava, a qualquer custo, libertar o menino da sanha malfica de Lilian.
  Correu de novo para o bero, sem alcan-lo, contudo. Mos firmes e poderosas haviam-na puxado para trs novamente, dessa vez com mais fora, e ela caiu no cho. 
Ainda aturdida, conseguiu levantar-se, tentando imaginar de onde partira aquela agresso, que s podia ser obra da feitiaria de Lilian.
  Sua mente no conseguia se fixar na realidade presente. As imagens e sons que Luther lhe dirigia eram de uma histria fantstica e fantasmagrica, em que Lilian 
perseguia Ross, que, por encanto, conseguira ocultar-se no bero de Suzie, onde somente ela poderia salv-lo. No via Suzie, nem os irmos e, naquele momento, nem 
a me. S Ross em perigo.
  Na hora em que ela caiu ao cho, Luther retirou de sua mente as impresses equivocadas, e a realidade que ela viu foi a me estreitando Suzie no colo e abraando 
os meninos com fora, bem junto ao seu corpo. Passado o efeito da alucinao produzida pelo esprito, Marianne se deparou com a prpria lucidez, recobrando, ainda 
que transitoriamente, a capacidade de enxergar e avaliar as coisas.
  O que ela via, e conseguia compreender muito bem, era o gesto de proteo e amor com que a me cuidava dos irmos. Sentimentos que nunca foram oferecidos a ela, 
principalmente naquele dia, naquela hora, em que a dor da ausncia de Ross havia aberto uma ferida to grande em sua alma que ela nem se importaria de morrer. E 
como gostaria que a me a tivesse acariciado e protegido, como fazia agora com os irmos, ajudando-a a enfrentar a solido e o vazio que a falta de Ross lhe fazia.
  Ao invs disso, Kate a exclua de seu afeto. Subitamente compreendendo, com uma clareza surpreendente, que Ross no se encontrava ali, percebeu que o que a me 
temia era que ela ferisse a irm. Mas ela no ia atacar Suzie nem qualquer dos irmos. Enganara-se, iludira-se, pensando ouvir o que nunca existira.
  E Kate parada ali, abraada aos irmos, lhe dava a certeza de seu desamor. A me jamais a abraara como abraava a eles, nem quando, momentos antes, sua splica 
silenciosa implorara um gesto de afeto. Por que no a abraava tambm?
   Porque ela no gosta de voc  foi a resposta do esprito, invisvel atrs de Marianne.
  Ela tomou um susto. A revelao da verdade era mais dolorosa quando pronunciada por outro. A me no a amava, nem o pai, nem os irmos. A famlia dela no eram 
eles. Nunca a me ou o pai a haviam includo entre os filhos, no de forma fsica, mas no amor. O amor deles era para os irmos, jamais seria para ela.
  Aquela certeza foi por demais penetrante, e Marianne no conseguiu lidar com ela. Presa de uma sensao de vazio e solido imensurvel, sentiu que os olhos falhavam, 
os membros a traam e a alma fugia de seu corpo como algum que escapa de uma priso.
  Sem emitir qualquer som, tombou desmaiada.

  25
  A mudana de escola no foi surpresa apenas para Kate e Marianne. Ross tambm s descobrira no incio do ano letivo, quando o pai lhe apresentou o novo uniforme, 
na vspera do primeiro dia de aula. Sua surpresa s no foi maior do que a raiva que sentiu de Lilian naquele momento. Tinha certeza de que aquilo s podia ser obra 
dela.
  Nos primeiros dias, Lilian foi pessoalmente lev-lo at a nova escola, que distava umas quatro quadras de sua casa. Mais tarde, aprendido o caminho, Ross conseguiu 
convencer o pai de que podia ir sozinho, como sempre fizera no outro bairro. Foi um alvio at para Lilian, que no se sentia  vontade em seu forado papel de me.
  Aos poucos, Ross foi-se familiarizando com as ruas e comeou a empreender incurses pelas redondezas. O pai ficava o dia todo ausente, no trabalho, e a madrasta 
no se importava com ele. Passava as horas fazendo compras e ajeitando os cabelos, sem nem se dar conta de sua existncia. No fosse por Nora, a nova criada, ningum 
lhe dirigiria a palavra.
  Era graas  sua ajuda que Lilian mantinha seus encontros com Richard. Tudo era feito dentro de sua prpria casa. De manh, logo aps a sada de Nathan e de Ross, 
Nora o introduzia furtivamente na casa, levando-o at o quarto de Lilian. Durante algumas horas, ficavam ali trancados, se amando.
  Como todos os outros dias, aquele no era diferente, e Lilian, deitada na cama em roupas ntimas, examinava o anel que ele pusera em seu dedo logo aps o ato de 
amor.
   Ser que Nathan no vai desconfiar?  indagou Richard.
   Nathan  um tolo  desdenhou ela.  No entende nada de coisa nenhuma. Nem sabe que joias possuo.  s dizer que j a tinha, e pronto.
  Richard suspirou e deu o ltimo n na gravata, virando-se para ela em seguida.
   Essa situao tem que acabar  alertou ele.  Sua casa no  o melhor lugar para nos encontrarmos.
   Enquanto voc no alugar um apartamento decente, recuso-me a sair daqui. Para aquela pocilga de antes, no volto mais.
   No  assim to fcil. Lugares elegantes custam dinheiro e atraem a ateno dos vizinhos. Voc conhece a minha popularidade e o gosto das pessoas por mexericos. 
No posso arriscar me encontrar com algum conhecido.
   Ento no reclame da minha casa.
   No estou reclamando. S que voc prometeu que, com Nathan no trabalho, teramos o tempo todo para ns. E no  isso que est acontecendo.
   Eu no contava com o garoto. Nathan insiste em no se livrar dele. O que posso fazer?
   Por que no o manda a um colgio interno?
   Duvido que Nathan concorde. Pois se no quis deixar o filho nem com a cunhadinha do corao, no vai quer-lo longe por meses a fio.
    diferente. Uma boa escola  sempre um argumento poderoso. Ele pode no querer se separar do menino, contudo, quer para ele uma boa educao.
   Falando assim, parece uma boa ideia.
    uma excelente ideia. Ele pode resistir no princpio, mas acabar concordando que  melhor para o filho. Ainda mais agora, que est terminando o treinamento 
e logo vai ser mandado ao exterior.
   O que devo fazer? Se Nathan notar o meu interesse em mandar Ross embora, no vai concordar.
   Voc no precisa fazer uma abordagem direta. Comece falando da rebeldia do garoto e da dificuldade de control-lo sozinha. Ento, comente sobre o colgio interno. 
Sem presso, apenas um breve comentrio.
   No sei se isso vai dar certo...
   Voc tem que tentar! Estou investindo muito alto em Nathan para poder t-la s para mim. Voc est me saindo muito cara, e estou no direito exigir o que  meu.
  Lilian sentou-se na cama e estendeu as pernas, calando as meias com ar sedutor.
   O que  seu, Richard?  provocou.  Meu corpo?
   Voc por inteiro.
  Ela sorriu maliciosamente e recebeu-o para novo e rpido ato de amor. Enquanto o mantivesse satisfeito, podia contar com valiosas recompensas.
   Sou toda sua  sussurrou ela.  Voc  o nico homem que me satisfaz.
  Por mais que Richard soubesse que Lilian estava com ele pelo dinheiro, o prazer que lhe dava em troca valia cada libra gasta com ela.
   Nathan no  mais um homem pobre  declarou ele, demonstrando sua superioridade.  E enquanto voc for minha, ele ganhar um bom dinheiro. Se voc me deixar, 
ter que se acostumar a viver com pouco ou ele ter que encontrar um emprego que o remunere com o salrio exorbitante que lhe pago, o que duvido.
   Eu nunca vou deix-lo. Dinheiro pode ser bom, mas  a voc que amo.
  Aquela era uma mentira que, efetivamente, fazia bem aos seus ouvidos e a seu ego. Richard beijou-a ardorosamente, ajeitou as calas e o palet e j ia sair, quando 
leves batidas na porta o detiveram.
   O que ?  irritou-se Lilian.
  - Desculpe-me, senhora  replicou Nora do lado de fora.  Mas  que j est quase na hora do almoo, e o menino Ross no tarda a chegar. Pela janela o vi, agora 
mesmo, subindo a rua.
   Maldio!  esbravejou Lilian.
  Foi o tempo exato de Richard apanhar o chapu e sair pelos fundos, na mesma hora em que Ross entrava pela porta da frente. Para surpresa do menino, Lilian estava 
diferente naquele dia, mais bem-humorada e falante, arriscando, inclusive, uma pequena conversa com ele.
   Est gostando da nova escola?  questionou interessada.
   No  respondeu ele secamente.
   Que pena... Ouvi dizer que os melhores colgios esto em Oxford, onde fica, inclusive, a universidade.
  Ross a olhou desconfiado e respondeu com cautela:
  - E da?
          E da nada. Foi apenas um comentrio.
  Era bvio que aquele comentrio no fora gratuito. Ross podia ser criana, mas no era tolo. Terminou de comer, pediu licena e se levantou, remoendo a raiva que 
sentia de Lilian. Como se ele no soubesse que era muito fcil para os pais livrarem-se dos filhos sem culpa, bastando apenas mand-los estudar em internatos. Exatamente 
como o tio David pensara em fazer com Marianne.
  Sem chamar a ateno ou fazer rudos excessivos, saiu sem dizer nada a ningum, em direo  estao do metr que, segundo suas pesquisas, o deixaria mais ou menos 
prximo  casa de Marianne. Chegara o momento de ir v-la. J se sentia seguro andando pelas ruas do bairro, certo de que no iria se perder.
  Deu tudo certo. Pouco depois, entrava na rua de Marianne, e seu corao disparou. Passou pela antiga casa, onde a movimentao indicava a presena de novos moradores, 
e seguiu direto para o porto de Kate. Deu a volta na casa e foi at a porta dos fundos, que no costumava ficar trancada.
  Com o corao aos saltos, rodou a maaneta e empurrou a porta, que cedeu sem rudo. Entrou na cozinha clara e asseada, direcionando-se para a sala, onde a tia 
auxiliava Roger com o dever de casa. Ao v-lo, Kate levou a mo ao corao e soltou um grito de espanto, mas largou o lpis e correu para ele, recebendo-o em seus 
braos como uma verdadeira me.
   Quantas saudades, meu menino!  exclamou ela emocionada.  Por que no veio nos ver?
   No pude...  balbuciou sentido.  Morria de saudades de vocs e me esforcei para aprender os caminhos.
  Ela o afastou um pouco e o encarou.
   Seu pai sabe que voc veio?
   Se soubesse, eu no estaria aqui.
   Lilian tambm no sabe, suponho.
   Ela, principalmente,  que no pode saber.
   Isso no est certo, Ross. Voc pode no gostar, mas Lilian  sua madrasta, e voc deve obedincia a ela.
   Sei que o que fiz  errado, mas por acaso  certo me afastar de vocs e, principalmente, de Marianne? Tem ideia da saudade que sinto dela?
   Posso imaginar.
  Por mais que no aprovasse a atitude do sobrinho, no se atrevia a mand-lo de volta. No apenas pelo esforo que ele devia ter feito para chegar at ali, mas, 
principalmente, por Marianne. A lembrana do dia em que lhe contara sobre a mudana de escola de Ross ainda estava vvida em sua mente. Marianne correra para o quarto 
dos irmos e desmaiara, felizmente, antes de lhes fazer qualquer mal. Daquele dia em diante, tornara-se ainda mais taciturna, evitando encarar os pais, tratando-os 
feito dois estranhos. Sem dvida, a presena de Ross ali s podia fazer-lhe bem.
   Onde ela est?
  A voz do menino puxou-a de volta ao presente, e ela respondeu com ternura:
   L em cima.
  Mal contendo a ansiedade, Ross se desvencilhou da tia, correndo escada acima feito uma bala. Atravessou o corredor s pressas e rapidamente alcanou o quarto da 
prima. Nem perdeu tempo batendo. Escancarou a porta e irrompeu pelo meio do aposento.
  Sentada na cama, Marianne tranava os cabelos de uma boneca e quase desfaleceu de susto. Vinha passando por tantas angstias, levava tantas repreenses e surras, 
que um rompante daquele s podia sinalizar nova reprimenda. Mas, ao invs da me, a imagem do primo apareceu ntida  sua frente, e ela demorou ainda alguns segundos 
para se convencer de que a presena de Ross era real. Largou a boneca em cima da cama e saltou no pescoo dele, ao mesmo tempo em que exclamava:
   Ross!  voc mesmo! No  um fantasma!
   No sou nenhum fantasma. Estou aqui, vivo e cheio de saudades de voc.
  A voz embargou, e ela no respondeu. De to emocionada, s o que conseguiu foi dar vazo ao pranto. S depois que as lgrimas deixaram de consumir-lhe as palavras 
foi que ela, com uma certa dificuldade, conseguiu articular:
   Pensei que fosse morrer quando voc foi embora. Por que me abandonou?
  Ross estreitou-a de encontro ao peito e retrucou sentido:
   No a deixei. Jamais a deixaria.
   Mas voc foi embora...
   Fui obrigado. Mas isso agora no importa. Vamos aproveitar que estou aqui.
   Voc fugiu?
   Mais ou menos.
   Fugiu da bruxa?  horrorizou-se ela.
  Com um sorriso que misturava compaixo e amor, Ross alisou os cabelos de Marianne e aconselhou:
   Quero que voc pare de pensar em Lilian como uma bruxa. Ela  s uma mulher m.
   D no mesmo...
   Tudo bem ento, Marianne, deixemos isso para l. Quero que voc me conte como tem passado, como tem ido na escola, o que tem feito. Quero saber tudo.
  Com um riso de satisfao, Marianne contava tudo  sua maneira, omitindo os acontecimentos ruins que passara com a me. No queria falar de nada que deixasse Ross 
chateado. Mais tarde, Kate apareceu. A cena que viu a deixou emocionada e triste ao mesmo tempo. Os dois haviam adormecido nos braos um do outro.
  Kate suspirou e se aproximou deles, tocando Ross gentilmente no ombro.
   Acordem, crianas  chamou baixinho.
  Marianne despertou primeiro, e Ross, logo em seguida. Os dois se sentaram na cama, esfregaram os olhos, e o menino falou em tom de desculpa:
   Acho que adormecemos.
   No tem problema. Vim cham-los para ui lanche. Fiz aqueles biscoitinhos de manteiga de que voc tanto gosta, Ross.
  Juntos, os trs desceram para a cozinha, onde outras crianas j estavam acomodadas. Kate servil os de biscoito e leite, e uma conversa trivial, porm feliz, se 
iniciou. Todos contavam histrias e riam, ai Marianne, que achava graa nas novidades de Roger sobre a escola. Ross respirou profundamente o ar c casa da tia. Aquela 
sim era sua famlia de verdade!
  Ao final do lanche e da agradvel conversa, Kate comeou a recolher a loua, auxiliada por Marianne e por Ross.
   Como foi que chegou at aqui, Ross?  questionou Kate.
   Peguei o metr.
   O metr?  admirou-se Marianne.  Sozinho'
   Ross j  um rapaz, Marianne. Pode muito bem andar sozinho.
  Ela o fitou com embevecimento e orgulho, ouvindo parcialmente as palavras da me:
   Seu pai deve estar preocupado. No devia sair sem falar com ele ou com Lilian.
   Eu sei, tia Kate, mas no pude evitar.
   No quero que eles pensem que tive algo a ver com isso.
   No vo pensar.
   Isso no est certo, Ross. Sabe disso, no sabe?
   Eles no sabem que estou aqui e nem precisam saber.  s voc no contar.
   Como poderia contar? Nem sei onde vocs esto morando.
          Se quiser, posso deixar-lhe o endereo.
   Prefiro que no. Se seu pai quisesse que soubssemos, ele mesmo teria nos dado.
  -  Ross no vai mais poder voltar?  indignou-se Marianne.
   No  isso  desculpou-se Kate.  Preferia que ele viesse com o consentimento de David.
   Meu pai no vai dar consentimento. No enquanto estiver casado com Lilian. E se souber que vim aqui, vai acabar me mandando a um internato.
   Credo!  surpreendeu-se Marianne, para quem internato tinha sentido de punio.
   No quero ir para nenhum colgio interno nem sair de Londres. Aqui  a minha casa.
  Depois de refletir alguns minutos sobre o que ele dissera, Kate acabou concordando:
   Tem razo. No  certo vir aqui s escondidas, mas muito mais errado  querer lev-lo para longe. Contudo, no me agrada a mentira.
   A mim tambm no. Mas Lilian veio com umas idias esquisitas sobre Oxford. Fiquei desconfiado.
   Por favor, mame  pediu Marianne com sua vozinha mida.  No conte nada  bruxa. Deixe que Ross venha me visitar. Por favor!
  A splica da filha foi suficiente para convenc-la. Kate no estava acostumada a mentir, mas o que era uma mentira em troca da felicidade de Marianne?
   Est certo, Ross. Mas quero que saiba que no acho certo enganar seu pai. No entanto, no vou dizer nada, por ora.
   Oh!  exultou Marianne, com genuna e rara alegria.  Obrigada, mame!
A animao da menina dava-lhe a certeza de que havia feito a coisa certa, contudo, no podia descuidar de Ross, a quem indagou, entre curiosa e preocupada:
   O que vai dizer em casa?
   O que quer que diga, Lilian no vai se importar. Kate o fitou com pesar. Consultou o relgio da cozinha e, dado o avanado da hora, aconselhou com firmeza.
   J est ficando tarde.  melhor voc voltar.
   Ah, no!  queixou-se Marianne.
    preciso  afirmou Kate.  Se gosta de seu primo e quer o melhor para ele, deixe-o ir.
   Amanh eu volto, Marianne  assegurou Ross.  Prometo.
  Mesmo contra a vontade, Ross viu-se obrigado a partir. Caminhou at a estao do metr e embarcou de volta. J estava escurecendo quando ele chegou, mas, por sorte, 
seu pai ainda no havia voltado do trabalho. Apenas Lilian estava em casa, toda emperiquitada, derramando na sala vazia sua faceirice afetada e artificial.
   Onde esteve?  perquiriu, assim que ele abriu a porta.
   Sa com uns amigos  foi a resposta seca.
   Que amigos?
   Da escola.
   Onde foram?
    confeitaria.
  Como no estava com disposio para conversas, Ross rodou nos calcanhares e subiu correndo para o quarto, deixando Lilian desconfiada a fit-lo pelas costas. Mais 
tarde,  hora do jantar, ficou  espera de uma reao do pai, que no veio. Lilian no havia comentado de sua ausncia, ou porque acreditava nele, ou porque realmente 
no se interessava, ou porque estava tramando alguma coisa. Das trs opes, Ross sabia, a terceira era a mais provvel. E a pior.
  Ross no podia imaginar o quanto estava certo.  claro que a sada dele fora notada por Lilian, assim como a dos dias posteriores, sempre  mesma hora. Todas as 
vezes, ela perguntava aonde ele fora, e ele sempre lhe dava a mesma resposta. timo para ela, pois o menino, sem saber, colocava nas suas mos a arma que a faria 
vitoriosa.

  26
  Marianne aguardava com impacincia a chegada da me  sada da escola. Desde que Ross voltara a visit-la, no pensava em outra coisa, a no ser no momento em 
que o encontraria novamente. Com a volta dele, as coisas pareciam haver retomado a normalidade, e uma calma h muito perdida tinha retornado ao lar da menina.
  Mal Kate despontou na esquina, Marianne desceu correndo as escadas, disparando ao seu encontro. Tinha a impresso de que, se corresse, as horas correriam tambm, 
e o momento de rever o primo chegaria mais depressa. Juntou-se ao grupo familiar e seguiu em silncio, enquanto Roger, como sempre, no parava de tagarelar, contando 
as novidades de sua turma, e os pequenos seguravam, cada um, uma das mos de Kate.
  Contagiada pela alegria dos irmos, Marianne deu a mo a Kevin, causando enorme estranheza e, ao mesmo tempo, felicidade em Kate. O menino, no entanto, acostumado 
a levar belisces e tapas da irm, puxou a mo e a escondeu atrs do corpo, tornando visvel o ar de mgoa de Marianne.
  J haviam ultrapassado quase toda a extenso do muro da escola quando algum chamou bem prximo:
   Senhora Landor!
  Virando-se abruptamente, Kate deu de cara com o senhor O'Neill a fit-la meio sem jeito. A viso do professor provocou conhecido mal-estar, e ela procurou Marianne 
com os olhos. A menina, de cabea baixa, no ousava encar-la.
   Sim?  respondeu ela com ar vago.
   Ser que a senhora pode me acompanhar at a escola por uns minutos? Preciso falar-lhe com urgncia.
  Estava claro que o assunto s podia ser Marianne. Kate sentiu um mau pressentimento, a certeza de que Marianne havia feito algo errado e estragaria todo aquele 
momento de alegria e paz, provocando a necessidade de nova repreenso e castigos.
  Na sala da diretora, Kate sentou-se com Suzie no colo e Marianne a seu lado, enquanto os meninos tomavam assento em um banco mais atrs.
   O que foi que aconteceu?  perguntou Kate desanimada, no fundo, sem querer saber.
   Vou ser franco e direto com a senhora  adiantou-se o professor.  Mesmo porque essa situao est se tornando insustentvel. A cada dia, fica mais difcil lidar 
com Marianne.
   Como assim?
   Desculpe-me a franqueza  interrompeu a diretora , mas sua filha no tem inteligncia suficiente para estar nesta escola.
   O qu?
  Kate levantou-se de um salto e entregou Suzie aos cuidados de Roger. Olhou para Marianne que, rosto vermelho, no ousava levantar os olhos.
   Por acaso est chamando minha filha de burra?  retorquiu com raiva.
  O professor pigarreou e lanou um olhar de splica  diretora, que continuou sua fala cortante:
   No quero que pense que estamos sendo intolerantes ou exigentes demais. Mas a situao alcanou o seu limite. E depois, a senhora no respondeu a nenhum de nossos 
comunicados.
   Que comunicados? No recebi nenhum.
   Mandamos diversos por Marianne. Ela no lhe entregou?  Kate balanou a cabea.  Foi o que imaginamos, j que no houve resposta a nenhuma de nossas cartas. 
Por isso resolvemos abord-la  sada da escola.
   Marianne est criando muitos problemas acrescentou o senhor O'Neill, visivelmente irritado.   agressiva com as colegas, no presta ateno s aulas e vive 
inventando histrias.
   A senhora ainda deve se lembrar do caso da garotinha morta  esclareceu a diretora.
   Lembro-me perfeitamente  disse Kate com frieza.
   A menina ficou muito abalada  comentou o professor.  Tambm, no era para menos.
   Se no me engano  rebateu Kate , esse assunto j foi resolvido. Ou no foi?
  No suportando mais que falassem dela como se ela no estivesse ali, Marianne ergueu os olhos e tentou se defender:
   Ela falou comigo...
   Ela no pode ter falado com voc!  censurou o professor.  A menina est morta!
   No vejo porque reviver essa histria  exasperou-se Kate.  A no ser que estejam tentando encontrar algum motivo para acusar e punir Marianne.
   Isso no  tudo  acrescentou a senhora Plumer, no querendo perder a oportunidade de expor todas as esquisitices de Marianne.  Ela parou de aprender. No evolui, 
no acompanha a turma. Estagnou no primeiro ano.
   Mas ela faz os deveres de casa. Eu mesma a supervisiono.
   Os deveres no parecem feitos por ela  irritou-se o professor.  Ultimamente, tm vindo todos corretos. Mas quando lhe pergunto algo, ela faz cara de espanto 
e no sabe responder.
  Tudo ficou claro na cabea de Kate. Era bvio que era Ross quem fazia os deveres para ela.
   Lamento inform-la, senhora Landor  tornou a diretora, tentando ocultar o alvio por trs da mscara do desgosto , mas Marianne ter que deixar a escola. No 
podemos permitir que comprometa a qualidade de nosso ensino.
   No podem fazer isso!  objetou Kate.  Meu marido paga a escola em dia. No podem expulsar Marianne.
   No a estamos expulsando. Se ela ainda aprendesse...
  Enquanto continuavam discutindo, Marianne, sem que ningum percebesse, abriu a pasta e retirou um livro de geografia. Abriu-o ao acaso e comeou a ler com voz 
ntida e pausada:
   Os rios europeus so, em geral, de pequena extenso, mas desempenham um papel de grande importncia na vida humana e econmica das regies por onde circulam. 
Os principais rios europeus so: o Volga, na Rssia, o Danbio, que atravessa diversos pases, e o Reno, que nasce nos Alpes suos e desgua na Holanda  com o 
livro ainda aberto sobre o colo e, ante o ar embasbacado dos presentes, fitou um ponto perdido na parede e foi falando:  Lisboa  a capital de Portugal, Berlim 
 a capital da Alemanha, Atenas  a capital da Grcia...
   Marianne!  exclamou Kate, tomada pela surpresa.
  E Marianne prosseguiu:
   Dois vezes um, dois; dois vezes dois, quatro; dois vezes trs, seis...
  Com os olhos rasos de gua, Kate abraou Marianne e, virando-se para a diretora, falou vitoriosa:
   O que dizia mesmo sobre Marianne no aprender, senhora Plumer?
  A diretora e o professor O'Neill se olharam embasbacados. Mal podiam crer no que estavam ouvindo. Marianne lia fluentemente, sabia as capitais dos pases da Europa 
e recitava at a tabuada. Estavam confusos, mas era bvio que a menina aprendia.
   No compreendo  gaguejou o senhor O'Neill. Por que ela finge que no sabe? Por que no responde corretamente quando lhe fao alguma pergunta?
  Nem Kate sabia a resposta. Tampouco ela entendia por que Marianne agia de forma to estranha. Ao menos agora tinha certeza de que ela no era estpida. Podia ser 
desatenciosa e desinteressada, mas burra, definitivamente, no.
   Responda ao senhor O'Neill, Marianne  incentivou Kate.  Por que  que no responde quando ele a questiona?
  Marianne deu de ombros. Achava aquilo tudo uma inutilidade e, por isso, preferia ficar olhando o nada, fitando o vazio, sonhando acordada. A mente, no entanto, 
captava tudo o que o senhor O'Neill ensinava. Quando ele a argua, no via sentido em responder, por isso, no respondia. S o fazia agora porque o semblante da 
me lhe pareceu bastante aborrecido, e ela sentiu medo de ser proibida de ver Ross.
   Bem, senhora Plumer  considerou Kate , creio que o problema no existe. Como v, Marianne aprendeu, e muito bem.
   Isso no exclui o fato de que ela  agressiva e mentirosa  insistiu o senhor O'Neill em tom irritado.
  Ante o olhar interrogador de Kate, Marianne deu de ombros novamente e respondeu acanhada:
   Elas  que implicam comigo... E no sou mentirosa. Falo com pessoas que so gentis...
  O professor fuzilou-a com o olhar. Estava ficando cansado das esquisitices de Marianne e a queria fora de sua aula. A diretora, porm, no parecia assim to convencida 
e interveio a favor da menina:
   Acho que podemos contornar isso. Talvez Marianne tenha a mente excessivamente fantasiosa. Coisa normal em crianas da sua idade.
   Normal?  contraps o professor, visivelmente irritado.  Considera normal a agressividade?
   Minha filha, por acaso, bate em algum? contraps Kate de m vontade.
  O professor O'Neill foi categrico:
   Bate.
  Kate calou-se, sem saber o que dizer, e fitou a filha novamente.
   So elas que me provocam...  desculpou-se a menina.
   Mesmo assim  tornou o professor, de cenho franzido.  No  motivo para agredi-las.
   Isso  um problema, realmente  concordou a diretora.
   Por favor, senhora Plumer, pense bem. Marianne acabou de demonstrar que  uma menina inteligente. Quanto  agressividade, no se preocupe. Conversarei com ela 
e garanto que ela nunca mais vai bater em ningum.
  Por causa do senhor O'Neill, a diretora no queria mais Marianne entre suas alunas. No entanto, o sofrimento daquela me a tocou profundamente. E depois, tinha 
pena da menina. Achava mesmo que ela era desequilibrada e talvez at representasse um perigo para as demais crianas. Todavia, era uma criana tambm. Merecia uma 
segunda chance.
   Est certo, senhora Landor  admitiu ela. Vou dar outra oportunidade a Marianne. A ltima. Se ela me decepcionar, no terei outra escolha, a no ser convid-la 
a se retirar desta escola.
  Kate suspirou aliviada. Conversar com Marianne pouco ou nada adiantaria, mas ela podia contar com Ross. S ele conhecia o mtodo adequado para lidar com a menina. 
E, se no por ela, por ele, tinha certeza de que Marianne mudaria de comportamento.

  27
  A noite avanava lentamente, e o pio das corujas, postadas na rvore em frente  janela do quarto de Lilian, deixava-a irritada e sem sono. No gostava de aves, 
muito menos de seu jeito ruidoso e sujo. Tentou no prestar ateno,  espera do marido, que se preparava para deitar.
  Quando a cama afundou ao seu lado, Lilian virou-se para ele. Ocultando a repulsa, deu-lhe um beijo de leve nos lbios e perguntou com fingido interesse:
   Como vai indo o treinamento?
   Bem. O senhor Bradley quer me enviar em viagem j na semana que vem.
   To cedo? Pensei que pudesse ficar um pouco mais, at as coisas se ajeitarem por aqui.
   Que coisas?
   Olhe, querido  pronunciou em tom excessivamente adocicado ,  o Ross. Voc sabe que ele no me obedece, e fico imaginando como vai se comportar na sua ausncia, 
sem algum para control-lo.
   Ross  um menino sensato e obediente. No precisa ser controlado.
  - Tem certeza?  ele a olhou curioso, e ela acrescentou com malcia:  Por acaso ele lhe conta aonde vai todas as tardes?
   Ele sai todas as tardes?  ela assentiu.  Para onde?
    confeitaria com os amigos. Ao menos  o que ele diz, embora eu no acredite.
    confeitaria... Ser que no  verdade?
   Pode at ser, mas eu duvido. Quem lhe d dinheiro? Voc?
   No creio que a mesada que lhe dou seja suficiente para frequentar a confeitaria todos os dias  refletiu Nathan.
   Foi o que pensei. Ento, ele est mentindo.
   Voc devia ter-me contado isso antes.
   No contei porque, para mim, ele tinha sua autorizao.
   Ser que vai  casa de Marianne?  arriscou ele.
   Pode ser. Ou ento, est metido com ms companhias.
   Voc acha?  horrorizou-se ele.
   Tudo  possvel.
   No acredito nisso. Ross sempre foi um menino ajuizado. O mais provvel mesmo  que esteja indo ver Marianne.
   E voc vai tolerar isso? Vai permitir que seu filho saia furtivamente, contra as nossas ordens, para se encontrar com aquela maluca?
  Aps um breve momento de reflexo, Nathan considerou:
   Acho que j est na hora de pormos um ponto final nessa briga. Sinto falta de David e Kate.
   Isso  que no!  bradou ela, tentando imprimir  voz um tom de cimes.  No quero aquela mulher em minha casa.
   Por que no? David  meu irmo, e Kate...
   Kate, Kate, sempre Kate! Ento  isso, no ? Est sentindo saudades da cunhadinha!
   Estou, mas no do jeito que voc est insinuando. Kate, David e as crianas so a minha famlia. Devo muito a Kate.
   J ouvi essa histria mais de mil vezes e sei que o motivo no  gratido. A quem quer enganar? Quer esconder de mim e de si mesmo sua paixo mal resolvida por 
Kate?
   Nunca mais repita uma coisa dessas!  censurou veemente.  Jamais tive por Kate qualquer sentimento que no fosse uma forte amizade. Ela  a mulher do meu irmo.
  Temendo haver ido longe demais, Lilian reconsiderou:
   Perdoe-me, Nathan, sei que no devia ter dito isso. Mas  que o seu interesse por Kate me enlouquece. Que mulher no sentiria cimes ao ouvir o marido defender 
outra com tanto mpeto?
   Ento  isso?  retrucou ele, entre incrdulo e feliz.  Tudo no passa de cimes?
   Precisa ver a forma como fala de Kate. Voc nunca falou assim de mim.
   Ora, Lilian, o que  isso?  replicou ele mansamente, acercando-se dela e acariciando seus ombros.
   Sabe que  a voc que amo.
  Lilian fez beicinho, para ocultar a careta de nojo que o hlito dele provocava, e tornou melosa:
   Eu sei. Mas  que Kate me deixa louca. E ela me desfeiteou...
   Ser que voc no pode esquecer isso?
   Ainda tem Marianne. Aquela garota me odeia ele suspirou, e ela prosseguiu:  Por favor, Nathan, no me obrigue a receber aquela gente em minha casa. Se Kate 
se meter na nossa vida, imiscuindo-se em nossos assuntos, a  que nunca conseguirei controlar Ross. Quero o melhor para ele, contudo, por causa de Kate, ele no 
me respeita.
   Talvez voc tenha razo  considerou pensativo.
   Acho melhor falar com ele.

   Faa isso. Pelo amor que me tem, d um basta nessa situao. No aguento mais sentir-me uma estranha dentro de minha prpria casa, como se eu estivesse usurpando 
o lugar de me de que Kate se apoderou.
  Nathan se levantou e foi apanhar o roupo no encosto da poltrona, reparando num pequeno panfleto cuidadosamente pousado no cho, ao lado. Curioso, apanhou o papel 
e leu.  medida que lia, Lilian acompanhava seus olhos, fingindo no lhe prestar ateno.
   O que  isso?  perguntou ele.
   O qu?  disfarou ela, e ele exibiu-lhe o folheto.  Ah! Isso!  o panfleto de um colgio em Oxford.
   O que est fazendo aqui?
   No sei. Uma amiga me deu, e devo t-lo largado por a.
  Nathan guardou o folheto dentro de uma gaveta e anunciou:
   Vou ver Ross.
  Encontrou o menino recostado na cama, lendo um livro de aventuras.
   Ainda acordado a essa hora?
    cedo. No estou com sono.
   O que est lendo?  Ross levantou para ele Moby Dick, e Nathan continuou  Est gostando?
   Sim.
  Nathan balanou a cabea e sentou-se ao lado dele na cama.
   Ser que pode me dar ateno um minuto? Preciso falar com voc.
  Ross pousou o livro no colo e encarou o pai, sentindo estranheza em sua voz.
   O que foi?
   Sua madrasta me contou que voc sai todas as tardes sem lhe dizer aonde vai.
  - Vou  confeitaria. Ela sabe disso.
   Ser que vai mesmo?
  Ele encarou o pai e revidou, deixando crescer dentro do peito a raiva que tinha da madrasta:
   E da se no for?
   E da que voc  um menino. Sabe que no deve mentir e tem de obedecer.
   Obedeo voc. Ela no  minha me.
   Ela  sua madrasta. Tem autoridade sobre voc.
  Ross saiu da cama, aproximou-se da janela e retrucou irritado:
   Acontece que eu no reconheo a autoridade dela.
   Est sendo rebelde, coisa que nunca foi. Por qu?
  O olhar dele foi deveras penetrante quando revidou:
   No sabe mesmo?
   Voc tem ido ver Marianne, no tem?
   E se tiver ido? Qual o problema?
   Sabe que eu briguei com o pai dela.
   E da? Isso  problema de vocs. Marianne e eu no brigamos com ningum.
   No fale comigo dessa maneira!  ralhou Nathan, e Ross lanou-lhe um olhar de desafio.
   No sei por que deixa Lilian se intrometer em nossas vidas  rebateu ele com raiva.  Ela pode ser sua mulher, mas no  minha me. Voc a escolheu, no eu. 
Foi por causa dela que voc e tio David tiveram aquela briga idiota.
   Est enganado. Sua tia e Marianne no gostam de Lilian e a desrespeitaram.
   Marianne no raciocina direito, e tia Kate sempre foi gentil com todos. Por que ser que s com Lilian  que no ?

   Isso no vem ao caso  desculpou-se ele. No foi para falar de sua tia e sua prima que vim aqui. Preocupo-me com voc e com a harmonia da nossa famlia.
   Ns no temos mais famlia. Vivemos sob o mesmo teto,  s. Minha famlia ficou l, na outra rua, na outra casa, onde deixei meu corao.
  As palavras de Ross soaram pungentes, e Nathan engoliu em seco.
   Sei que est sendo difcil, mas, com o tempo, isso vai passar. Voc pode fazer outras amizades.
   No quero outras amizades! No, se para isso tenho que abrir mo da minha verdadeira famlia.
   Voc no pode ir at l contra as minhas ordens!  explodiu Nathan, cujos argumentos j haviam se esgotado.
   E quem vai me impedir? Voc? Ou dona Lilian? frisou bem aquele dona e encarou o pai com ironia.
   Voc  meu filho. Deve-me respeito.
   Eu o respeito. E respeitaria Lilian tambm, se ela no fosse a pessoa horrvel que .
   No quero mais que v  casa de Marianne ordenou ele, tentando firmar uma autoridade que no possua.
  Ante o olhar frio de Ross, Nathan se encolheu. O menino o encarou com desdm e respondeu calmamente:
   No sou mais criana. Tenho vontade prpria. E nem voc, nem ningum vai me impedir de visitar Marianne e tia Kate.
   Lilian vai tomar conta de voc. Se me desobedecer, ela ir me contar.
   No coloque aquela mulher perto de mim! esbravejou ele, cada vez com mais raiva.
   Ela  sua madrasta. Quantas vezes tenho que repetir isso?
  - No quero uma prostituta por madrasta  rosnou entre os dentes. 
  Foi uma ousadia insensata e impensada, e Nathan perdeu a cabea. Estalou-lhe uma bofetada na face, causando espanto e uma ira descomunal no menino. No era a primeira 
vez que o pai lhe batia por causa daquela mulher. No fosse o respeito filial, teria revidado. Seus olhos, porm, diziam tudo o que lhe ia no corao. Engolindo 
a raiva e o choro, Ross rodou nos calcanhares e, sem dizer nada, saiu batendo a porta.
  Na mesma hora, veio o arrependimento em Nathan, que partiu atrs do filho, ignorando a presena de Lilian, que, no corredor, ouvido colado  porta, no perdera 
uma parte sequer da conversa.
   Ross!  chamou desesperado.  Espere, meu filho...
  Ross no deu ateno. Alcanou a porta da frente e ganhou a rua, sumindo na primeira esquina. Aturdido, Nathan permaneceu parado na soleira, pensando se devia 
ou no segui-lo. A resoluo veio rpida, e ele j ia fechando a porta quando a mo de Lilian o segurou.
   Aonde voc vai de pijamas?  indagou, enrgica.
   Preciso ir atrs do meu filho  balbuciou Nathan.
   No faa isso  disse ela em tom imperativo.
   Como no? J  noite. E se alguma coisa lhe acontecer?
   Nada vai lhe acontecer. No v que  isso que ele quer?
           Como assim, o que ele quer?
   Ross quer provoc-lo. Quer medir foras comigo.
   Voc no entende... Bati nele de novo.
   Pois foi muito bem feito. Ele mereceu apanhar.
  Apesar de indeciso, Nathan acabou concordando. Era o que sempre fazia. S o que o acalmava era a certeza de que o filho seguiria direto para a casa de David.
  Na rua, Ross tomou a direo da casa dos tios. No havia metr quela hora, mas ele conseguiu apanhar um txi. Saltou em frente  casa de Marianne e pediu ao motorista 
que aguardasse. No tinha dinheiro nem para pagar a viagem. Bateu na porta diversas vezes, e foi David quem atendeu.
          Meu Deus, Ross!  exclamou alarmado. Aconteceu alguma coisa?
  Engolindo as lgrimas, o menino respondeu:
          Tive que vir.
  Do lado de fora, o motorista pigarreou, com cara de poucos amigos, esperando que algum lhe pagasse. David correu para dentro e apanhou o dinheiro para pagar a 
corrida.
  A hora j ia avanada, e a casa estava praticamente s escuras, pois todos j haviam ido se recolher. Como David se demorava em voltar, e preocupada com aquela 
visita inesperada, Kate resolveu descer.
   Quem , David?  perguntou ela, do alto da escada.
    o Ross  esclareceu ele, levando o menino para dentro.
  Kate desceu s pressas e abraou o sobrinho com efuso.
    O que foi que houve?  questionou.  Brigou com seu pai?
  Ele assentiu e contou tudo, deixando Kate indignada e David, surpreso. No sabia que Ross ia todos os dias  sua casa. Apesar do olhar interrogador que deu a Kate, 
ela no ousou encar-lo.
   No devia ter desobedecido a seu pai  censurou David.
   Meu pai s faz o que Lilian quer, e ela no me deixa ver Marianne.
   Ela  sua madrasta, a mulher que seu pai escolheu para ocupar o lugar de sua me.
   Isso nunca! A nica mulher que pode ocupar o lugar de minha me  tia Kate!
  Kate mordeu os lbios, emocionada sentindo as lgrimas lhe aflorarem aos olhos.  
  - De qualquer forma  prosseguiu David, a voz tambm embargada -, isso no est certo. E voc tambm, Kate. No devia ter permitido isso. 
  - Tia Kate no tem culpa de nada  objetou o menino.  Teria dado um jeito de vir mesmo que ela no quisesse.
    E fez tanto bem a Marianne...  acrescentou ela, quase como se desculpando pela sua falta.
   Mas est errado  protestou David, dando mostras de aborrecimento.  E agora, vejam s no que deu.
   O que vamos fazer?
   A nica coisa certa, que  levar Ross de volta para casa imediatamente.
   No adianta, tio David, eu no vou!  objetou o menino.
   Seu pai deve estar preocupado com voc considerou Kate.
   Eu no me importo. E duvido que ele tambm se importe.
   Est sendo injusto  cortou David.  Seu pai sempre gostou muito de voc.
   - At se casar com aquela megera.  ela quem o probe de vir v-los.
  Kate pigarreou e rebateu em tom spero:
   Desculpe, Ross, mas no creio que Lilian tenha o poder de proibir seu pai de alguma coisa. Ele no vem porque no quer.
   Sua tia tem razo. Se seu pai quisesse mesmo, j teria vindo nos procurar.  David espalmou as mos nos joelhos e finalizou:  Bem, agora chega. Vou subir e 
me trocar para lev-lo em casa.
   Por favor, tio, deixe-me ficar  implorou ele.
   No posso. Por mais que queira, no  direito.
   Posso, ao menos, ver Marianne?
   Melhor no. Ela est dormindo, e  melhor que no saiba de nada disso. Pode provocar outra crise.
  Ele se levantou e deixou Ross ajoelhado aos ps de Kate, com a cabea pousada em seu colo, chorando de mansinho. Assim que colocou o p no primeiro degrau, ouviu 
a vozinha fina de Marianne:
   Quem est a, papai?  o Ross?
  No adiantava mentir, porque Marianne, no meio da escada, ouvira nitidamente a voz do primo e j comeava a saltar os degraus de par em par, correndo ao encontro 
dele.
   Veio me visitar?  perguntou ela, em sua peculiar inocncia.
          Ross j est de sada  esclareceu Kate.  Veio apenas nos dar um beijo de boanoite. No , Ross?
   , sim.
   No quer passar a noite comigo? Deixo voc dormir na minha cama.
  Ross sentiu a garganta estrangular. Daria tudo para ficar com ela, no apenas naquela, mas em todas as noites de sua vida. Deu-lhe um beijo amistoso na testa e 
abraou-a com ternura, tentando ocultar-lhe as lgrimas.
  Logo David reapareceu, j vestido, emocionando-se com a cena de genuno afeto entre a filha e o sobrinho.
   Venha, Ross  chamou baixinho.  Temos que ir. Ele se separou de Marianne e soprou-lhe baixinho ao ouvido:
   No fique triste. Amanh estarei de volta. Marianne fez beicinho e ameaou chorar, mas Kate a segurou pelos ombros e concordou:
    isso mesmo, Marianne. Ross vir de novo amanh.
  Nem ela acreditava em suas palavras. Dissera   aquilo s para confortar a filha e evitar nova crise. Ou melhor, adiar. Quando Lilian soubesse que Ross estivera 
ali, faria um estardalhao sem tamanho e obrigaria Nathan a encerrar aquelas visitas. E ento, o pior estaria por acontecer. 

   28
  O novo bairro em que Nathan vivia causou um choque em David, que jamais poderia supor que seu irmo tivesse condies de comprar uma casa num lugar daqueles. A 
rua elegante, de jardins imensos e bem cuidados, chamou-lhe a ateno, dando-lhe o        efeito de que entrava num mundo de sonhos. Em frente  casa que Ross indicara, 
estacou boquiaberto. Tocou a campainha e esperou alguns minutos, at que uma criada veio atender.
  J era tarde, e Nora, ao ver Ross em companhia daquele homem de aparncia grosseira, apertou o roupo em volta do pescoo e soltou uma exclamao de susto, ao 
mesmo tempo em que berrava pelo patro:
   Senhor Landor! Senhor Landor!
  Nathan desceu correndo, seguido por Lilian. Empurrou Nora para o lado e escancarou a porta, puxando Ross para dentro de seus braos. O menino se deixou abraar 
friamente, e Lilian surgiu atrs do pai. Exibia um nervosismo e uma preocupao que, decididamente, no sentia.
   Meu filho!  murmurou ele.  Quase morri de preocupao.
  A viso de Lilian reacendeu a raiva de Ross, que se soltou do abrao do pai e o encarou, guardando frio silncio. No estava com disposio para conversar. Nem 
do tio se despediu. Ergueu a cabea com altivez e passou rente  madrasta, ostensivamente ignorando sua presena.
  Depois que ele se foi, Nathan estendeu a mo para David, que a tomou meio sem jeito.
   Seja bem-vindo, meu irmo  cumprimentou Nathan, com sincera alegria.
   Perdoe-me a intromisso  desculpou-se ele. Mas Ross foi a minha casa, e achei que seria melhor traz-lo. No queria deixar voc preocupado.
  Nathan ia dizer-lhe que no havia o que perdoar, que estava feliz por aquilo ter acontecido, pois s assim tinha chance de reencontr-lo. S que Lilian no lhe 
deu chance. Com ar aborrecido, tomou a dianteira e foi falando de um jeito pedante:
   Ns lhe agradecemos muito, David. Realmente. Mas agora, se nos der licena, precisamos descansar. Nathan levanta cedo amanh. Tem um cargo muito importante e 
no pode se atrasar. Sabe como , precisa dar exemplo aos subordinados.
  Com a mo, foi enxotando-o devagarzinho, e Nathan ainda tentou intervir:
   Espere, Lilian, no podemos deix-lo sair assim. David veio de longe s para nos trazer o Ross.
   Ah! meu Deus, certamente. Como no havia pensado nisso? A periferia fica bem distante daqui, no ? Vamos, querido, d-lhe um trocado para a volta.
  A despeito do olhar embasbacado de Nathan, David empertigou-se e virou-lhes as costas, murmurando da porta:
   No preciso de dinheiro. Passar bem.
  Saiu a passos rpidos, e Nora, seguindo a orientao de Lilian, que fazia gestos com o queixo, fechou a porta mais que depressa.
   O que foi que deu em voc?  esbravejou Nathan.  Isso l  coisa que se diga ao meu irmo? 
  Fingindo-se de desentendida, Lilian arregalou os olhos e retrucou com indignao:
   O qu?
   Como pode ter-lhe oferecido uns trocados?
   Oh! Perdo  ironizou.  Se soubesse que era pouco, teria lhe oferecido mais.
  Era inacreditvel. Aquela no era a mulher com quem se casara. Quando a conhecera, era meiga e carinhosa. Agora transformara-se numa criatura sarcstica e cruel. 
E ele no reagia. Podia muito bem impor a sua vontade e sair atrs do irmo. Se ao menos tivesse coragem...
  Com profundo desgosto, Nathan olhou para a porta e depois para a esposa. Deixou carem os braos ao longo do corpo e seguiu vagarosamente para o quarto, sem nimo 
de confrontar o filho.
  David, por sua vez, saiu da casa do irmo espumando de raiva e humilhao. Aquela mulher o tratara como se ele fosse um servial. E Nathan no fizera nada para 
impedir. Seu prprio irmo! Como estava mudado!
  Chegou a casa abatido e encontrou Kate esperando-o no sof da sala, com a cabea de Marianne pousada em seu colo.
   Foi tudo bem?  sussurrou ela, para no acordar a menina, e ele fez que sim.
  Depois de ajeitar Marianne de volta em sua cama, David contou  mulher:
   Voc no faz ideia do que aquela mulher fez. Lilian teve coragem de me oferecer dinheiro para voltar para casa.
   O qu?  indignou-se Kate, mal acreditando no que ouvia.
   E Nathan ficou parado l, sem fazer nada.
   Ele no o recebeu bem?
   Recebeu, sim. Vi em seus olhos a alegria. Mas Lilian praticamente me expulsou.   Para mim, est mais do que claro que ela no quer manter relaes conosco.
   Marianne vai sofrer. Logo agora que tudo parecia voltar ao normal!
   Tinha que ver a casa em que eles moram divagou ele.  Parece at um palacete.
   Verdade? Ser que o salrio de Nathan d para tudo isso?
   Lilian disse que ele agora tem subordinados. Deve ter recebido outra promoo.
   Isso no lhe d o direito de destratar os parentes. E logo voc, que acolheu Ross como um filho. Quanta ingratido!
   Sim, Nathan est sendo muito ingrato. Nem se lembra do que fizemos pelo filho, e a nica coisa que eu pediria em troca seria que tratasse bem de Marianne.
   Vai ser difcil para ela.
   Eu sei. Mas ela vai ter que se acostumar. Falaremos com ela.
   Voc quer dizer, eu vou falar. Voc nunca est presente quando o pior acontece.
   Tenho que trabalhar  objetou, em tom de desculpa.
   Voc tem que trabalhar e larga tudo na minha mo. Pensa que  fcil?
   No posso faltar ao trabalho para paparicar Marianne.
  Aquela discusso no levaria a nada. David e Nathan, cada qual a sua maneira, eram dois covardes. Um no tinha coragem de enfrentar a filha. O outro morria de 
medo da mulher. No negavam que eram irmos.
  No dia seguinte, como esperado, Ross no apareceu, nem no outro, nem nos prximos. Pressionado pelo pai, que lhe cortara a mesada, foi obrigado a permanecer em 
casa. Embora no estivesse disposto a se submeter para sempre quela proibio, esperaria at a poeira assentar, para ento retornar  casa de Marianne.
  A prima, por sua vez, comeava a inquietar-se, pois a me lhe dissera que Ross estava estudando para os exames finais e voltaria assim que terminasse o ano letivo. 
David tambm tiraria umas frias e todos iriam para a praia, levando Ross com eles.
   Pode demorar, mas vai valer a pena  afirmava Kate.  Mas voc tem que estudar. Se no passar de ano, no tiraremos frias.
  Rodeada de livros e cadernos, Marianne punha-se a estudar, na esperana de passar o vero inteiro na praia, ao lado de Ross. Os dias iam passando, e a ansiedade 
da menina aumentava cada vez mais. A espera se demonstrava muito longa, e ela queria ver Ross apenas uma vez antes do fim das aulas. No entendia por que ele no 
podia visit-la ao menos uma vez.
  Kate tentava distrair a sua ateno, mas estava ficando difcil. Uma nova e violenta crise era s questo de tempo. Ela havia contado uma mentira  filha que no 
poderia sustentar eternamente. No estava longe o dia em que Marianne perceberia que Ross no iria voltar, e sua reao seria das mais colricas. Como me, seu corao 
se apertou, e ela tomou uma deciso.
  Aps deixar Marianne e Roger na escola, Kate levou os menores para a casa de Jane e tomou o metr rumo  casa do cunhado. Conseguira, a muito custo, que David 
lhe desse o endereo, e partiu para l, vestida em suas melhores roupas.
  Esprito preparado pelo marido, no sentiu o impacto do luxo desconhecido. Subiu a rua resoluta e tocou a campainha da casa de Nathan, evitando maravilhar-se com 
a elegncia do bairro. Como sempre, Nora veio atender:
  - Pois no?
  - Por favor, mocinha, gostaria de falar com sua patroa. Ela est?
  Com ar desconfiado, Nora indagou:
  - A quem devo anunciar?
  - Diga-lhe que  Kate Landor, sua concunhada.
  Nora abriu a boca, estupefacta. Pediu licena e encostou a porta, subindo desabalada at o quarto de Lilian. Ela e Richard se amavam loucamente, e foi com extrema 
m vontade que ela respondeu s batidas na porta:
  - O que ?
  - Dona Lilian, depressa. Est a uma mulher que diz ser a sua cunhada...
  - Era s o que me faltava  praquejou.
  Muito contrariada, Lilian saiu de debaixo de Richard, apanhou um penhoar e jogou-o displicentemente sobre os ombros.
  - Vai receb-la?  quis saber Richard.
  - J que ela est aqui, no posso perder a chance de lhe mostrar o seu devido lugar.  Terminou de se ajeitar diante do espelho e gritou para a criada: - Mande-a 
entrar... pela porta da cozinha.
  Realmente, a oportunidade de humilhar a concunhada era por demais tentadora. Lilian    
 e Kate no mantinham vnculos do passado, no entanto, o orgulho desmedido da primeira despertou a animosidade entre elas. Lilian via em Kate um possvel obstculo 
a seus planos, pois tinha certeza de que o que Nathan sentia pela cunhada ia muito alm de uma simples amizade. E Marianne a havia afrontado, coisa que jamais aceitaria 
de ningum. Por isso, incapaz de dominar o orgulho, no tolerava as duas.
  Embora jurasse a si mesma que no se deixaria humilhar pela outra, a primeira sensao de Kate foi, efetivamente, de humilhao. A empregada a introduzira pela 
entrada de servio e a fizera aguardar na cozinha, sem nem indicar-lhe uma cadeira. Teve que esperar em p, remoendo o mal-estar, at que Lilian apareceu, toda coquete 
em seu penhoar cor-de-rosa. Entrou com ar de grande dama, apanhou uma uva sobre a fruteira e disse asperamente:
   O que deseja? Sou uma mulher ocupada.
  Kate esforava-se ao mximo para no partir para cima da outra e esbofetear-lhe as faces. A esnobe! Pensava que podia trat-la feito lixo s porque agora tinha 
dinheiro. Encarando-a com frieza e altivez, Kate comeou a dizer:
   Imagino o quanto voc  ocupada, por isso, vou direto ao assunto. Estou aqui para falar de Ross.
   Ross no  problema seu.
   Ele deixou de ir  minha casa.
   J no era sem tempo.
   Voc sabe o quanto isso  importante para Marianne.
  Do alto de sua soberba, Lilian sustentava o olhar de Kate e disparou com arrogncia:
   Francamente, Kate, no estou nem um pouco interessada no que  importante para Marianne.
  Era preciso fazer surdos os seus ouvidos se quisesse obter um resultado positivo. A empfia de Lilian a levava ao extremo da tolerncia, no entanto, a filha era 
mais importante do que qualquer aviltamento a que fosse obrigada a se submeter.
   Voc no pode ser to insensvel. Sabe o quanto Marianne est sofrendo. E Ross tambm.
   Ross no precisa de Marianne, e se ela sofre, o problema  seu, no meu.
  Kate sentia ganas de mat-la, mas ainda conseguia se conter.
   No vim aqui para brigar com voc  contemporizou.
   Imagine se eu ia me dar o trabalho de ter uma briga com voc.
   Por que est sendo sarcstica? Vim aqui em paz.
   Veio aqui porque a sua filhinha maluca est endoidando de vez, no ?
   Marianne tem problemas. Nunca escondi isso.
   Chama de problema a loucura dela? Aquela menina  louca, e no digo isso no sentido figurado. Seu lugar  no hospcio.
  Lilian estava espezinhando-a, mas Kate estava disposta a no se deixar abater. Tudo pela estabilidade de sua filha.
   No seja to dura, Lilian Vim aqui em paz, estendendo-lhe minha mo...
   Quem foi que disse que preciso de sua mo calejada e encardida? Voc no passa de uma dona de casa de subrbio que no sabe o que  viver. Pensa que o mundo 
se resume aos seus probleminhas quotidianos? Aos seus filhinhos subnutridos e emporcalhados?  sua casa de aluguel barato e sem classe? Ora, Kate, francamente! No 
percebe o quanto est sendo ridcula, vindo aqui implorar a minha compaixo?
  Kate no ouviu mais nada. O sangue subiu-lhe s faces, toldando-lhe a viso e o raciocnio, e ela partiu para cima da outra, agarrando-a pelos cabelos e arranhando-lhe 
o rosto.
   Maldita!  berrava Kate fora de si.  Demnio, cadela!
  Diante daquela cena inslita, Nora tentou segurar Kate por trs, lutando para afast-la de Lilian. Kate, contudo, no largava a presa. Desesperada, a criada subiu 
ao andar de cima e foi chamar Richard, que, deitado na cama, s em mangas de camisa, cochilava de vez em quando.
           Senhor Bradley! Acuda! Ela vai mat-la!
  Richard deu um pulo da cama e correu para a porta, perguntando aflito:
   O que foi que houve? Por que essa gritaria?
    a cunhada de dona Lilian... Vai mat-la!
  Ele ainda pensou duas vezes. Corria um risco muito grande expondo-se a estranhos. Mas no podia deixar que uma louca matasse Lilian. Vestiu as calas s pressas 
e saiu no encalo de Nora. Ao entrar na cozinha, as duas estavam engalfinhadas, rolando pelo cho. A cena no deixou de lhe parecer engraada, porm, foi forado 
a tomar uma atitude. Com cuidado, meteu as mos entre Lilian e Kate e puxou, prendendo a segunda firme com os braos.
   Solte-me!  gritava Kate furiosa.  Vou acabar com voc!
  Lilian se levantou toda descabelada e rasgada, derramando sobre Kate fagulhas de seu dio. Aproveitando-se de que ela estava presa, preparava-se para atacar quando 
se deu conta de que era pelas mos de Richard que Kate fora imobilizada.
   Senhor Bradley...  balbuciou confusa. Kate continuava a se debater, e ele a apertou com fora, falando com severidade:
   Acalme-se, madame, ou quebro o seu brao.
  Sem chances de se mover, Kate segurou as lgrimas e se aquietou, enquanto ele a conduzia para a porta, que Nora abriu rapidamente. Sem nenhum cuidado, empurrou-a 
para fora, derrubando-a ao cho, e a empregada bateu a porta com estrondo. Kate pensou em investir contra a porta aos murros, mas mudou de ideia. Nunca, em toda 
a sua vida, passara por tanta humilhao. Tinha a roupa rasgada, os cabelos em desalinho, to envergonhada que no se importaria de morrer.
  Mas dera uma surra em Lilian. No fosse aquele homem, teria acabado com ela. Pensando no estranho que a segurara, Kate estacou embasbacada. Quem era aquele homem 
que aparecera na casa de seu cunhado, em mangas de camisa, na companhia de Lilian, que a recebera de penhoar? Como Lilian disse que era mesmo seu nome? Senhor Bradley, 
era isso. Quem seria aquele homem, que to providencialmente cara do cu para salv-la?
  Uma certeza foi tomando conta de Kate, e ela sorriu para si mesma, desfrutando o doce sabor da descoberta. Agora estava tudo explicado. Aquele homem no podia 
ser outra coisa a no ser o amante de Lilian. Por que outro motivo estaria na casa dela, quela hora, em trajes menores, junto com ela? Pobre Nathan! Enganado e 
trado dentro de sua prpria casa. Por isso Lilian queria mandar Ross para longe, porque ele representava uma ameaa  sua sem-vergonhice.

  29
  A caminho de casa, Ross ia refletindo sobre os ltimos acontecimentos. Mal via a hora de reencontrar Marianne, mas no podia. Lilian o estava vigiando, controlando 
seus horrios, marcando a hora em que saa de casa e a hora em que voltava. Caso se atrasasse um minuto, l vinha repreenso. O pai era um covarde e fazia tudo o 
que ela queria, sempre cedendo aos seus caprichos. E ele, apesar do mpeto de desobedecer, no o fazia. No por medo de Lilian ou do pai, mas de ser mandado para 
Oxford. Aquela conversa de Lilian sobre as maravilhosas escolas de Oxford fora a nica coisa que, realmente, o havia assustado.
  Assim que entrou, percebeu uma movimentao diferente. Nora estava na cozinha preparando um ch, enquanto Lilian berrava ao telefone:
   Voc precisa vir para casa agora!  pausa No tem ideia do que ela fez... No me interessa se est trabalhando! Sou sua mulher...
  Furiosa, Lilian bateu o telefone e fitou Ross, que passou por ela indiferente. Os arranhes no rosto e a boca inchada eram sinais de que ela havia se metido em 
alguma confuso. Provavelmente, algum chilique por causa de um vestido novo que viu na vitrine.
  Sem demonstrar interesse, Ross apenas a olhou e relance e comeou a subir a escada, quando, inesperadamente, foi surpreendido com os gritos esganiados da madrasta:
   E voc, seu pirralho! Venha j aqui!
  O menino se voltou contrariado e a encarou com olhar hostil.
   O que voc quer?  exasperou-se.
   Voc tem ido ver Marianne?  ele no respondeu.  Porque se tiver, vai se arrepender!
   Deixe-me em paz.
  Sem esperar resposta, Ross se voltou e recomeou a subir as escadas, deixando Lilian a esbravejar furiosa no meio da sala.
   hora do almoo, ela no desceu, e Ross comeu sozinho, dando graas a Deus que ela estivesse aborrecida. Nora comeou a lhe servir um bolo de carne quando ele 
indagou com ar displicente:
   O que foi que aconteceu aqui, Nora?
  Sem desviar a ateno do prato que servia, ela respondeu:
   Sua me brigou...
   Ela no  minha me  cortou ele calmamente.
   Que seja. Sua madrasta, ento. Brigou feio com a cunhada.
   Tia Kate, voc quer dizer?
   Essa mesma.
   Tia Kate esteve aqui?
   Esteve.
   Por qu? O que ela queria?
   No sei bem. Algo sobre voc e a filha dela.
   O que foi que Lilian fez?
  Nora deu de ombros e acrescentou com cautela:
   Na verdade, nada. Sua tia foi que ficou zangada
  E a agrediu.
   Minha tia bateu em Lilian?  Nora fez que sim,
  E Ross comeou a rir.  Bem feito.
   No tem graa. Essa tal de Kate  maluca. Sem mais nem menos, comeou a bater em dona Lilian.
   Duvido que tenha sido sem motivo. Pelo que conheo das duas, imagino que Lilian deve ter ofendido minha tia ou Marianne.
   Est errado  mentiu.  Dona Lilian foi at gentil. Sua tia foi que no quis ouvir. Saiu logo agarrando-lhe os cabelos e dando-lhe belisces.
  Ross jogou o corpo para trs numa gargalhada espontnea e acrescentou de bom humor:
   Daria tudo para ter visto essa cena... Aposto que tia Kate levou a melhor.
   Qual! Aquela mulher  um horror...
   No fale assim de minha tia, Nora.
  A criada silenciou e continuou a servir o jantar, at que ele tornou a indagar, curioso:
   Como voc conseguiu apart-las?
  Nora ruborizou. No sabia se devia falar do senhor Bradley. Terminou de servi-lo, depositou a terrina sobre a mesa e finalizou:
   Coma.
  Saiu para a cozinha, e Ross no se deu conta de que ela no havia respondido a sua pergunta. Acabou de comer e foi para o quarto. Dez minutos depois, saa para 
a rua. O pai que o perdoasse, mas ele precisava ver a tia e Marianne.
  Catou no bolso alguns trocados que juntara e tomou o metr. Quando chegou, Kate estava na sala com as crianas, ensinando a lio a Roger. Apenas Marianne no 
se encontrava ali.   Ele entrou sem bater e cumprimentou meio sem jeito:
   Ol.
  A tia ergueu a cabea e, apesar da surpresa, sorriu, levantando-se para abra-lo.
   O que est fazendo aqui?
  Seu abrao era sincero e confortador, e ele se aninhou em seus braos.
   Precisava v-la  anunciou ele, perscrutando seu rosto ferido.
   Seu pai e Lilian sabem que est aqui?
   No, mas no me importo. Vim porque precisava saber o que aconteceu entre voc e Lilian. Nora me disse que vocs brigaram.
   Aquela mulher  um demnio. No tem alma nem amor no corao.
   Por que fez isso, tia Kate? Por que foi at l? Foi por causa do outro dia?
   Isso no tem mais importncia agora. Mas sabe o que achei mais estranho?  ele a fitou curioso.  Um tal de senhor Bradley apareceu do nada para defender Lilian. 
Agarrou-me por trs e me expulsou de casa.
   Senhor Bradley?  surpreendeu-se ele.
   Voc o conhece?
    o patro de meu pai. Que covarde!
   Tem ideia do que ele podia estar fazendo em sua casa, quela hora da manh?
   No posso imaginar. Se tivesse assuntos urgentes a tratar com papai, seria mais fcil conversar com ele no escritrio. Mas na nossa casa? E na ausncia dele? 
Muito estranho.
 Fez-se um silncio constrangedor, e a desconfiana precipitou-se pela mente de Ross. A presena de um homem em sua casa, numa hora em que o pai no estava, no 
podia significar muitas coisas. Principalmente se aquele homem era seu chefe e deveria estar com ele no trabalho.
  O olhar de Ross para Kate traduzia sua dvida, e ela balanou a cabea, dando mostras de que havia compreendido. Contudo, preferia no se meter. J tinha coisas 
demais com que se ocupar, e Nathan no era problema seu. Alertar o sobrinho era o mximo a que se permitia.
   Quer ver Marianne?  Kate falou, para desviar a ateno do menino.
  Ele assentiu e foi vagarosamente para o quarto da prima, o corao consumido pela nova suspeita. Marianne estava deitada na cama, de olhos fechados. Ele se aproximou 
na ponta dos ps, afastou o cabelo dela para o lado e deu-lhe um beijo amoroso na face.
   Ross!  exultou ela.   voc mesmo?
   Em pessoa.
  Os dois se abraaram felizes, Marianne j com as lgrimas despontando nos olhos. Ross abraou-a diversas vezes e puxou-a para fora do quarto e pelas escadas.
   Aonde vo?  questionou Kate, assim que eles passaram por ela apressados.
   Dar uma volta.
  Passaram o resto do dia juntos. Na hora do lanche, Kate lhes deu dinheiro para tomarem um sorvete, causando uma alegria inenarrvel em Marianne. Estavam to entretidos 
e felizes que nem viram a hora passar, e s muito mais tarde foi que ele voltou para casa, o corao dividido entre a alegria e a raiva.
  Lilian nem se deu conta da ausncia de Ross. Trancada em seu quarto, maldizia a cunhada e o marido, que no atendera o seu chamado e s veio para casa no horrio 
de costume.
   A culpa  toda sua!  berrou ela.  Devia ter-me dado apoio.
   Estava trabalhando  desculpou-se Nathan. No posso sair a cada vez que minha mulher tiver um chilique.
   Chilique? Como se atreve? Aquela louca quase me matou!
   Essa histria est muito estranha. Kate nunca foi uma mulher violenta.
   No. Eu  que sou, no ? Por acaso tenho o costume de ir  casa dos outros agredi-los?
  - Kate deve ter vindo aqui por algum motivo, e posso bem supor por qu.
  - No me interessa por qu! O caso  que ela veio sem ser convidada e avanou em mim. Veja s o que fez no meu rosto.
  Exibiu o rosto ferido, causando um certo mal-estar em Nortan, que deduzia o motivo pelo qual Kate fora a sua casa. Com certeza, tinha relao com o dia em que 
Ross fugira e Lilian oferecera dinheiro a David por t-lo levado de volta.
  - Isso tudo  muito estranho. Ser que voc no a humilhou, como fez com David?
  - Eu?! Imaginei! Ainda consenti que Ross fosse visitar Marianne de vez em quando.
  - Voc o qu?
  - Fiquei com pena da menina. Voc sabe que no gosto dela, mas a piedade falou mais alto. Afinal, Marianne  uma criana, e Jesus nos ensinou a amar as criancinhas. 
S que Kate  orgulhosa e no aceitou meu gesto de caridade. O que queria era vingana.
  - Nathan mantinha o olhar ctico, e Lilian prosseguiu: - Se no acredita, vamos perguntar  Nora.
  - No precisa...
  Lilian, contudo, j havia aberto a porta do quarto e se dirigia para a cozinha, onde Nora terminava de dar os ltimos retoques no jantar. Ao v-la, com Nathan 
atrs, a criada estremeceu, temendo esquecer alguma coisa do que Lilian lhe mandara dizer.
  - Nora  comeou ela com fingido ressentimento -, o senhor Landor no acredita que fui agredida por Kate. Diga a ele o que viu.
  Nora abaixou os olhos e comeou a guaguejar:
  -  verdade... Aquela mulher...
  - No precisa ficar nervosa  interrompeu Lilian, fuzilando-a com o olhar.  Diga apenas o que viu.
     Ela inspirou fundo, fixou os olhos no bico dos sapatos de Nathan e disparou:
   Aquela mulher entrou aqui, e dona Lilian foi gentil com ela. De repente, comeou a esbravejar e partiu para cima de dona Lilian feito uma fera. Foi horrvel... 
 ps-se a chorar baixinho, e Lilian deu um risinho de satisfao.
   Eu no disse?  exultou.  Kate  uma doida. Por muito pouco no me mata.
   Quer me convencer de que Kate simplesmente veio aqui, xingou voc, agrediu-a e depois foi embora? Assim, sem mais nem menos?
  Era agora. A desculpa havia sido muito bem ensaiada, e Lilian exprimiu com cautela:
   U...! O senhor Bradley no lhe contou?
   No me contou o qu? O que tem ele a ver com isso?
   Foi graas a ele que aquela louca no me matou. Ele passou aqui para deixar um presente para voc, disse que era uma surpresa...
   Que histria  essa de surpresa? Vi o senhor Bradley na fbrica, e ele no me disse nada.
  Lilian deu de ombros e procurou por Nora, que vinha chegando com um embrulhinho na mo e estendeu-o a Nathan, que o apanhou desconfiado.
   O que  isso?  perguntou Nathan.
   No sei. Abra. Tambm estou curiosa.
  Sem dizer nada, ele rasgou o papel de seda azul e exibiu uma caixinha de veludo, com um carto preso a ela. Abriu a caixa, surpreendendo-se com seu contedo. Um 
par de abotoaduras de ouro, com as iniciais de seu nome gravadas em alto relevo, luziu diante de seus olhos perplexos. Ele despregou o carto e leu:
  Ww Meu caro Nathan,
  Peo que me perdoe a ousadia, mas, como logo voc estar empreendendo importantes viagens em nome da minha companhia, achei que seria justo que se apresentasse 
condignamente. Por isso, resolvi presente-lo com as abotoaduras. Optei por entreg-las em sua casa para no despertar inveja nos demais empregados. Espero que no 
se importe.
  Um grande abrao,
  Richard Bradley.
  Fora a nica sada em que Lilian conseguira pensar. Temendo que Kate comentasse com algum que vira um estranho em sua casa, mandou Richard  joalheria mais prxima 
comprar as abotoaduras. Apesar de contrariado com a despesa desnecessria, ele concordou que seria uma boa soluo. E se algum perguntasse por que se apresentara 
em mangas de camisa, outra desculpa estaria arranjada, mas ningum perguntou nada, e ela preferiu no se antecipar.
          Que gentil!  exclamou Lilian, fingindo surpresa.  Foi a minha sorte. Se ele no tivesse vindo pessoalmente trazer-lhe esse presente, no sei o que seria 
de mim agora. Veja, Nathan, no  lindo? Faz at a gente esquecer os problemas e a sua cunhadinha maluca.
  O presente era mesmo maravilhoso, todavia, no agradara Nathan. A visita do patro, na sua ausncia, era algo que no soava bem. Em silncio, guardou o carto 
e a caixa e foi sentar-se no sof, deixando o olhar perdido vaguear pela sala luxuosa.
          Quer que mande servir o jantar?  perguntou Lilian com voz melosa.
  Ele acenou com a cabea e redarguiu fatigado:
          Onde est o Ross?
   Deve estar no quarto.
          O menino saiu logo depois do almoo  esclareceu Nora, que vinha chegando com uma travessa.
   No disse aonde foi?  quis saber Lilian.
   No, senhora.
  Enquanto tomavam a sopa, Lilian continuava suas reclamaes:
   Agora veja s. Como se no bastasse o que Kate me fez, tenho certeza de que Ross foi v-la. Aposto como est do lado dela e daquela estpida da prima.
   J estou cansado dessa histria. Kate e Marianne so pessoas importantes na vida de Ross.
   E ns no somos, no  mesmo? Para a tia e a prima, tudo. Para seus pais, nada.
   Ross est passando por um perodo difcil.
   E eu tambm! Ao menos ningum ainda o atacou. Nem ele atacou ningum, o que tambm no vai demorar muito.
   No fale assim. Ross nunca foi violento.
   Como Kate.
  Nathan soltou um suspiro de desnimo. Aquela situao estava ficando insustentvel.
   J no o proibi de ir at a casa de Kate?
   E voc acha que ele obedece?  Nathan no respondeu.  Onde est ele? Ns dois sabemos que ele est l, no  mesmo?
   O que voc quer que eu faa, Lilian?  ele explodiu de repente, dando um soco na mesa que fez chocalhar toda a loua.  Quer que eu lhe d uma surra? Que o coloque 
de castigo? Ross j no  mais um garotinho. No posso trat-lo feito um beb.
    por isso que ele est do jeito que est. Porque no tem limites nem sofre qualquer punio. Est livre para ir  casa de Kate quando bem entender, especialmente 
para apoi-la quando ela me desafia.

   Se voc no tivesse implicado com Marianne, nada disso teria acontecido.
   Ah! Agora a culpa  minha. Marianne me morde, e eu  que sou a culpada. Kate me agride, e a culpada ainda sou eu. Quando Ross perder a cabea e me bater, a culpada 
serei eu tambm.
   Ross jamais faria uma coisa dessas!
    voc quem diz. Gostaria que visse os modos com que ele me trata, sua arrogncia, seu olhar hostil. Talvez assim acreditasse em mim.
  Nathan enfiou a colher na boca, dando o assunto por encerrado. O resto do jantar transcorreu em clima tenso, com palavras indizveis consumindo a paz de Nathan. 
Quando a sobremesa foi servida, ele deu graas a Deus por ver prximo o fim daquele suplcio. Recusou o caf e, levantando-se, anunciou com pesar:
   Vou dar uma volta.
  Na rua, olhou para os lados, procurando um sinal do filho, que no apareceu. A situao em sua casa estava se tornando insustentvel. Desde que se mudara, vivia 
um verdadeiro inferno. No trabalho, as acusaes silenciosas o perseguiam a todo lugar. Em casa, a mulher e o filho se digladiavam feito inimigos ferrenhos, e, para 
completar, fora obrigado a afastar-se da famlia. Por quanto tempo mais iria suportar?
  A caminhada longa no diminuiu a espera de Ross, e Nathan resolveu entrar. Sara sem agasalho e sentia frio. Logo que se tornou visvel pela janela da sala, Nora, 
postada de viglia atrs da cortina, gritou eufrica para Lilian:
    agora, dona Lilian! Ele est voltando.
  Na mesma hora, Lilian largou o jornal, que folheava sem interesse, e correu para o telefone. Retirou o fone do gancho, sentou-se de pernas cruzadas e esperou. 
Assim que  Nathan abriu a porta, iniciou uma conversa consigo mesma, fingindo que falava com uma amiga:
   No, claro... Voc est coberta de razo... Fez bem em mand-lo para Oxford. Claro, claro... Dizem que so timos... Ele vai ter uma educao primorosa... E, 
e vai se afastar das ms companhias...
  Por mais que Nathan no quisesse prestar ateno, foi impossvel no ouvir. Lilian no gritava, mas usava um tom de voz moderado e perfeitamente audvel. Nunca 
lhe passara pela cabea mandar Ross estudar em outra cidade, contudo, talvez aquela fosse a nica soluo para seu problema. Contentaria Lilian, e o filho estaria 
em casa nas frias e feriados. Sem contar que teria garantido o seu futuro, com vaga em uma boa universidade, quem sabe, na prpria Oxford?
  Era algo em que valeria a pena pensar.

  30
  O quarto de Ross estava vazio, e Nathan entrou meditativo. Sentou-se na cama para esper-lo, e Lilian ficou  espreita. No demorou muito para o menino aparecer, 
e antes que ele abrisse a porta da frente, Lilian entrou em seu quarto e anunciou com fingido alvio:
   Graas a Deus! Ross est chegando.
  Nathan estranhou a preocupao dela, mas no disse nada. Andava pensando em muitas coisas. Quando o menino se aproximou pelo corredor, logo percebeu a porta aberta 
e constatou, com desagrado, que o pai e a madrasta estavam  sua espera.
   Onde esteve, filho?  indagou Nathan aflito. Ross entrou cauteloso e respondeu vagamente:
   Fui dar uma volta.
   Onde?
   Acho que voc j sabe.
   Foi  casa de sua tia?  ele assentiu.
   Eu no falei?  interrompeu Lilian, desafiadora. O olhar de Ross atravessou-a c como uma adaga afiada, todavia, ela no se deixou intimidar.
   Pensei que o tivesse proibido de ir l  prosseguiu Nathan.
   No quero lhe faltar com o respeito nem ser desobediente, mas no vejo razo para no visitar minha famlia.
   Sua famlia somos seu pai e eu  provocou Lilian.
   Cale a boca, sua vadia  rosnou Ross entre os dentes.  No lhe perguntei nada.
  Por pouco Nathan no lhe acertou nova bofetada. Conseguiu se segurar a tempo, mas repreendeu com veemncia:
   Jamais torne a falar assim de novo de sua madrasta! Se no quiser levar uma surra da qual nunca ir se esquecer!
  Lilian sorriu vitoriosa, enquanto Ross mordia os lbios, de dio.
   Ela no  minha me  grunhiu contendo a clera.
   Voc lhe deve respeito.
   Como, se ela  a primeira a no respeitar ningum? Viu o que ela fez a tia Kate?
   Sua tia exagerou. No tinha o direito de vir aqui e agredir Lilian.
   Foi o que ela lhe contou? E voc, o tolo, acreditou, no foi?
   Estou avisando, Ross! Voc est passando dos limites! No me obrigue a tomar medidas drsticas!
   Deixe-o, Nathan  interrompeu Lilian com ironia.  Sei que ele no gosta de mim. No sou igual  tia perfeita, que  to louca quanto a priminha feiosa.
   Vadia!  descontrolou-se ele.  Falsa, cnica, mentirosa! Por que no conta que est traindo meu pai?
   Basta!  bradou Nathan.  No vou permitir essa afronta!
    verdade! Voc pode no saber, mas o senhor Bradley esteve aqui hoje, sozinho, na sua ausncia. Pergunte a ela!
  Nathan olhou para o filho e revelou com desgosto:
   Eu sei. Lilian me contou  meteu a mo no bolso, retirando o carto e as abotoaduras de ouro, que exibiu para Ross.  Veio me trazer isto.
  O menino recuou aturdido. No era possvel, no acreditava naquilo. Olhou para o pai como a pedir-lhe socorro e compreenso, mas Nathan recusou-se a encar-lo. 
Nem ele sabia em que acreditar.
   No fique contra mim, querido  ironizou ela, tentando abra-lo.  Quero ser sua amiga.
  Ross deu um salto para trs, enojado, e disparou irado:
   Nunca! Jamais seria amigo de uma mulher mentirosa, falsa e maquiavlica feito voc. Cadela!
  Ele estava to fora de si que no media as palavras. Dominado pela raiva, prosseguiu com suas imprecaes, provocando a reao de Nathan, que ergueu a mo para 
bater-lhe. Ross, contudo, com um gesto rpido e preciso, aparou o golpe no ar e retrucou revoltado:
   Com todo respeito que lhe devo, jamais permitirei que voc encoste a mo em mim outra vez.
  Havia em Ross uma superioridade moral difcil de se confrontar. A despeito das vibraes de raiva e indignao, que tingiam sua aura de um vermelho rubro e vivo, 
Ross era uma criatura normalmente calma e, acima de tudo, digna. To digna que nem o pai foi capaz de enfrent-lo.
  Nathan saiu vencido, sem ter o que dizer. Jamais deveria ter levantado a mo para ele novamente. Atrs dele, Lilian seguia sem saber exatamente a favor de quem 
seria o resultado final daquela briga.
   Eu no disse?  falou ela,  em seu quarto  Ross no respeita mais ningum. Nem voc.
    No sei mais o que fazer  confessou ele - Sinto-me impotente para lidar com ele.
   Aposto como ele est pensando em fugir envenenou.  Com aquela doida.
   Fugir?!
   Como ele mesmo disse, no se julga mais criana. Pensa que  autossuficiente e pode cuidar de si mesmo e de Marianne. Na primeira oportunidade, vai fugir e lev-la 
com ele.
   Mas eles so duas crianas...
   Que esto crescendo. E Marianne logo vai ficar mocinha. Com que olhos voc pensa que ela vai olhar para um rapaz atraente feito Ross?
   Voc est exagerando. Ross j tem quatorze anos, mas Marianne s tem dez. Ainda pensa em brincar de bonecas.
   At quando?
   Falta muito para ela se interessar por esses assuntos.
   Caso no saiba, eu fiquei mocinha aos onze anos. Marianne est bem perto disso. E voc sabe como as garotas mudam quando ficam mocinhas. No demora muito, e 
seus seios brotaro por debaixo do vestido. Pensa que Ross no vai ser o primeiro a notar e, pior, a tocar? Vai, e vai se encher de desejo.
   Pare com isso! Ross  inteligente e responsvel, no seria capaz de fugir com ela.
   Mesmo que no fuja. Voc acredita que ele no vai burlar a nossa vigilncia para ir  casa de Kate? E sua cunhada, com tantos filhos que tem, no vai tomar conta 
dos dois, como nunca fez, alis. Imagine-os  vontade, com um quarto e uma cama s para eles.
   Voc acha que eles seriam capazes?
   Imagine dois jovens que pensam que se amam dormindo na mesma cama, se tocando e compartilhando da prpria nudez. Em breve, Marianne ser uma mulher, e se voc 
no tomar cuidado, ela vai estragar a vida de Ross. Pense no desastre que seria se ela engravidasse.
  - Deus me livre!  horrorizou-se.
  - Quem tem que livrar o seu filho dessa desgraa  voc. Se depender de Kate, eles podem 
dormir juntos  vontade. Aposto como ela at deseja isso, como forma de empurrar para Ross os cuidados com Marianne. Seria bom para ela, no seria, se eles se casassem?
  - Voc est fantasiando. Ross  apenas um menino.
  - E rico. Pense, Nathan, pense! Kate asseguraria o futuro de Marianne.
  - Ela no seria capaz. No a Kate que eu conheo.
  - Voc no a conhece de verdade. Nem eu a conhecia. E pensar que cheguei a sugerir que voc deixasse Ross morando com ela. O que seria dele no futuro? Um derrotado 
feito o tio.
  - David no  um derrotado.  engenheiro, ganha bem.
  - No to bem quanto voc. E Ross no seria nada alm das bab de sua filha. E sem ganhar salrio!
  Nathan caminhava de um lado a outro no quarto, passando a mo pelos cabelos em busca de uma soluo. Lilian exagerava em algumas coisas, menos no perigo que a 
amizade entre Ross e Marianne poderia representar dali para a frente. Kate e David podiam no estimular, mas quem seria capaz de controlar dois adolescentes descobrindo 
a sexualidade e dormindo juntos com a conivncia da famlia?
  Parou em frente  cmoda e abriu a gaveta, vislumbrando a ponta do panfleto que guardara no outro dia. Apanhou-o relutante e tornou a ler as informaes sobre 
a escola.
  -  essa a escola para onde sua amiga mandou o filho?  perguntou de repente.
  - O que?  fez Lilian, como se no houvesse entendido.  Ah! Foi essa mesma. Engraado, estive falando com ela h pouco no telefone, e ela me disse que o menino 
est adorando o colgio.
   Se eu mandar Ross para l...  hesitou voc acha que Evelyn consideraria uma quebra na promessa que lhe fiz?
   Sua primeira mulher est morta. No vai considerar nada. Mas, se estivesse viva, aposto como aprovaria sua deciso. Como me, ela tambm haveria de querer o 
melhor para o filho.
   Tem razo.
  Olhando do folheto para Lilian, Nathan se decidiu. No queria que o filho estragasse seu futuro para cuidar de Marianne. Acostumara-se a olhar a menina como uma 
criana, porm, Lilian tinha razo. Ela estava crescendo, se tornando mulher, e Ross j era praticamente um homem. Melhor seria separ-los antes que uma tragdia 
acontecesse.
  Evelyn, com certeza, aprovaria. E depois, no estava realmente se afastando do filho. Mand-lo a uma escola de qualidade s podia fazer-lhe bem. O nico problema 
era que Ross no aceitaria. Por isso, precisava agir rapidamente e sem que o menino soubesse, ou se recusaria a ir. Ainda estavam no meio do ano letivo, mas no 
fazia mal. Trataria de arranjar a mudana sem participar nada a Ross.
  Logo no dia imediato, conseguiu uma licena no trabalho, pegou o trem e foi visitar a tal escola. O colgio era caro, mas muito bem conceituado. De volta a Londres, 
comentou o assunto com o patro, que lhe garantiu uma ajuda de custo, pois era muito importante investir no futuro dos filhos. Nathan no teve dvidas. Era l que 
seu filho iria estudar.
  Todo processo de mudana de escola no levou mais do que duas semanas. Nathan, sozinho, organizou tudo, providenciando, inclusive, o alojamento que ele iria dividir 
com outros trs estudantes.
  Comprou uniforme e material, tudo s escondidas do filho, que, igualmente s escondidas, continuava a visitar Marianne quase diariamente.
  No dia da partida, o senhor Bradley, gentilmente, lhe concedeu nova licena para acompanhar o filho at a nova escola em Oxford. Ross no sabia de nada. Para todos 
os efeitos, iria com o pai numa viagem de negcios para ajud-lo e, ao mesmo tempo, espairecer. O menino nem de longe desconfiou da farsa. Aprontou uma pequena valise, 
com roupas bsicas para alguns dias, que, na escola, seriam trocadas pelo uniforme colegial.
  Chegando em Oxford, Ross estranhou imensamente quando o pai entrou com ele na gigantesca e rica escola. O que faria um vendedor de tecidos numa instituio de 
ensino, ao invs de oferecer seus produtos no mercado txtil? Uma sensao de desconforto o invadiu e,  medida que caminhava pelos corredores, sentia a garganta 
estrangular.
  Nathan seguiu sem responder. Chegou  sala da diretoria e bateu.
   Sei que vai me odiar  falou finalmente.  Mas  para o seu bem.
  Tudo ficou claro de repente. O diretor lhe deu as boas-vindas e ps-se a explicar-lhe as regras da escola, que Ross ouvia sem entender, os olhos ardendo de decepo 
e revolta. Encarou o pai diversas vezes, mas Nathan mantinha a ateno presa no diretor, que, aps as primeiras orientaes, chamou um auxiliar para levar Ross a 
seu novo quarto.
  O auxiliar entrou sorridente, convidando Ross a segui-lo.
   Despea-se de seu pai agora  aconselhou o diretor.  De agora em diante, no ir v-lo todos os dias.
   No  objetou Ross.  Meu lugar no  aqui.
   Por favor, Ross, no me crie problemas  recomendou Nathan.  No vai adiantar.
   Por que fez isso comigo?  revidou em lgrimas.
           Como pde me trair dessa forma?
    para o seu bem.
  Ross ia protestar, mas o diretor interferiu solcito:
   Tenho certeza de que vai gostar daqui, meu jovem. E ter uma instruo como poucos.
   V com ele, meu filho  Nathan quase implorou.
   No  para sempre. Poder voltar para casa nas frias e feriados.
  Engolindo em seco, Ross no protestou mais. De nada adiantaria sua revolta nem sua rebeldia. Estava diante do inevitvel e no tinha como fugir. O pai era quem 
detinha poder sobre ele, e s lhe restava obedecer.
  Engolindo as lgrimas, Ross lhe virou as costas e saiu seguindo o auxiliar. Nem conseguiu se despedir. Achava mesmo que jamais tornaria a falar com o pai enquanto 
vivesse. E a nica coisa em que conseguia pensar, ao atravessar de volta aquele corredor, era na consequncia funesta que seu desaparecimento repentino traria a 
Marianne.

  31
  Agora livres, Lilian e Richard passavam longas horas juntos, aproveitando a primeira viagem de Nathan  Amrica. Sua felicidade era tanta que resolveram viajar 
tambm. Lilian aprontou as malas, e partiram para um fim de semana na praia.
  Era de tarde ainda, e os dois haviam acabado de se amar, sem nem se dar conta de que um esprito acompanhava todos os seus movimentos. Margot presenciava aquelas 
cenas sem ter como intervir. Marianne ficara distante, e Lilian no era uma boa receptora. Acompanhar os amantes comeava a lhe causar desgosto e repulsa.
   Ah! Richard  gemeu Lilian, toda melosa. Acho que nada no mundo poder estragar essa nossa felicidade.
   Foi a melhor coisa que fizemos, querida. Com Nathan longe e Ross no internato, ficamos com o tempo todo para ns.
  Era verdade. A mulher de Richard era uma ingnua, ou ento, se fazia de ingnua, fingindo nada perceber. Richard se casara por interesse, porque o dinheiro e a 
fbrica eram do pai dela. Com a morte do sogro, ele assumira tudo. Por isso, no podia se separar da mulher.
          Fico imaginando a reao da doida da Marianne ao descobrir que o adorado priminho foi para bem longe  comentou Lilian.
   Isso agora no nos importa mais  encerrou ele, dando-lhe ardoroso beijo na boca.
  Margot, enojada, virou o rosto para no ver e pensou em Marianne. Ser que j sabia que Ross fora mandado a um colgio interno? Uma saudade sbita da menina a 
invadiu, e ela resolveu ir ao seu encontro. Encontrou-a em sua cama, prostrada e abatida como sempre, acompanhando o revoar dos passarinhos pela janela.
   Ol, Marianne  cumprimentou o esprito, sentando-se ao lado dela.
  Marianne olhou para ela sem interesse e deu de ombros, voltando a centrar a ateno nos pssaros.
   Como vo as coisas?  prosseguiu Margot, e a menina no respondeu.  Tem visto o Ross?
  O nome do primo atraiu sua ateno, e ela desviou os olhos da janela, fixando-os na interlocutora.
   No  respondeu com amargura.  Ele sumiu de novo.
    por isso a sua tristeza?  ela assentiu.  Sentir-se-ia melhor se eu lhe dissesse onde ele est?
   Voc sabe?
   Sei, sim  apesar da dvida, Margot resolveu revelar:  Ele foi mandado para o internato em Oxford.
  Marianne franziu as sobrancelhas algumas vezes, tentando concatenar os pensamentos:
   No entendo... No pode ser verdade. Voc est enganada, Margot. Ross prometeu que nunca ia se separar de mim.
   Infelizmente, ele no teve escolha.
   No acredito que tio Nathan faria isso.
   Lilian o convenceu. Ela no gosta dele.
  Ainda confusa, Marianne tentava no acreditar nem se deixar convencer:
   Ser que voc no se enganou?
   No h engano algum. Tenho certeza.
   Mas ele vai voltar. Sei que vai.
   Pobre Marianne  lamentou ela.  Imagino o quanto deve estar sofrendo. E foi por isso que vim. No quero que fique alimentando iluses desnecessrias, que vo 
faz-la sofrer ainda mais.
  Marianne fixou em Margot os olhos questionadores, mentalmente remontando o dilogo inslito que encenara com ela. Aos poucos, foi juntando os pedacinhos da verdade, 
tentando imaginar quanto tempo fazia que Ross no ia v-la. Muito tempo. A conselho da me, ficara esperando, e s o que fazia era esperar. Ross, contudo, no aparecia. 
Indagou de si mesma o porqu, mas no obteve resposta. E agora, olhando diretamente para os olhos difanos de Margot, a resposta lhe pareceu bvia e devastadora.
  Subitamente, uma onda gnea atingiu o corpo de Marianne, como se uma tempestade solar eclodisse em sua mente. O corao descompassado parecia que ia provocar uma 
exploso. A cabea doa e rodava, como um rodamoinho de fogo embebendo em chamas cada pensamento seu. A raiva incendiou seu corpo emocional, liberando flmulas pontiagudas 
que eram atiradas no ambiente astral como dardos incandescentes.
  O espanto de Margot s no foi maior do que a surpresa causada pela horda de espritos que afluiu ao quarto de Marianne, atrados pelas ondas chamuscantes e poderosas 
do dio. Sem nenhuma cerimnia, empurraram Margot para o lado e envolveram a menina num abrao espectral e sufocante, falando e xingando ao mesmo tempo.
  Marianne quis fugir, contudo, seus ps haviam se colado ao cho. Ela ainda tentou pedir auxlio a Margot, que, desesperada, viu-se impotente diante da malta furiosa. 
Tentou tapar os ouvidos, mas continuou escutando as vozes alteradas. Diziam coisas terrveis, mandavam-na fazer coisas que ela no queria: derrubar os livros no 
cho, bater na parede, espalhar as roupas.
  Embora no quisesse, Marianne no tinha foras para resistir. A mente naturalmente fraca, logo ela perdeu o eixo da realidade fsica e mergulhou fundo na outra 
realidade, agora mais visvel e palpvel a seus sentidos astrais. Veio a fria incontrolvel, e ela comeou a atirar coisas longe e bater com a cabea na parede.
  Foi um caos. Margot tentava intervir, contudo no conseguia romper a barreira energtica formada pelo dio de tantos espritos. Olhando ao redor, em busca de um 
meio para romper aquela sintonia tenebrosa, encontrou os olhos vermelhos e malignos de Luther. Sentado no parapeito da janela, balanando as pernas, ele ria cheio 
de satisfao. Olhou para ela e cumprimentou-a com um aceno de mo, demonstrando, naquele gesto, o quanto estava grato. S ento Margot compreendeu o que fizera. 
Sem saber, servira de instrumento aos propsitos de Luther. Na tentativa de ajudar, acabou disparando a bomba da loucura na cabea de Marianne.
  Os rudos produzidos pela sanha descontrolada de Marianne chegaram at o andar de baixo, onde Kate se ocupava com seus afazeres domsticos. Prevenida pelos espritos 
das sombras e pelas prprias experincias com a filha, soltou o que estava fazendo e        disparou escada acima. De chofre, abriu a porta e parou estarrecida. 
Marianne se jogava de corpo inteiro contra a porta do armrio, provocando um barulho infernal.
  A tempestade estava comeando, e Kate olhou assustada para o corredor, temendo pela segurana dos outros filhos. Precisava pensar na escolha que deveria fazer 
e no podia errar. Nem teve tempo. Marianne decidiu por ela. Seguindo os conselhos de antigos desafetos de Kate, levados ao hospcio pela sua intolerncia, Marianne 
partiu para cima dela com fria redobrada.
  Kate recebeu o impacto como uma pedrada no estmago. A dor causou-lhe nsias de vmito, mas ela conseguiu se controlar e agarrou a filha pelos ombros, lutando 
com ela como se lutasse com um gigante. No entendia como uma criana to pequena podia reunir a fora de muitos homens. No sabia que eram os espritos a seu redor 
que a envolviam numa nuvem negra de poder revigorante e de sustentao.
  Quanto mais Kate tentava cont-la, mais a menina se debatia e gritava, visivelmente fora de si. S pensava nos outros filhos e no que Marianne, naquele estado, 
poderia lhes fazer. Com o p, bateu a porta do quarto, sufocando os gritos causados pelas mordidas e arranhes que Marianne lhe dava.
   Pare com isso!  gritou Kate.  Pare! Sossegue!
  Marianne nem se abalava. Pulava e grunhia feito um bicho, deixando Kate cada vez mais apavorada. Nem parecia que era sua filha que estava ali. Sentiu-se diante 
de uma criatura sada das selvas ou das profundezas do inferno. Precisava agir de forma mais drstica. No queria bater na menina, mas no via outro jeito. De forma 
desajeitada, conseguiu desferir-lhe diversos tapas na face, ao mesmo tempo em que se defendia das violentas investidas de Marianne. Depois de muita luta, conseguiu 
derrub-la ao cho e empurrou-a com o p, saindo para o corredor e passando a chave pela fechadura do lado de fora.
  Respirou ofegante, entre aliviada e pesarosa, e correu a ver os outros filhos. Roger, j acostumado quelas crises, trancara-se com os irmos no quarto e s abriu 
quando ouviu a voz da me do outro lado. Foi preciso muito custo para acalm-los, e Kate os levou para baixo, na esperana de que ouvissem menos a barulheira de 
Marianne.
  Quando David chegou do trabalho, tudo parecia calmo, a no ser pelo fato de que Marianne no se encontrava entre as crianas. J conhecia aquele sinal. Kate contou-lhe 
o ocorrido, embora no soubesse precisar o que provocara aquela crise.
  O jantar transcorreu envolto numa aura de pesaroso silncio. Quando terminaram de comer, Kate preparou uma bandeja e a levou para a filha, depositando-a no criado-mudo. 
Marianne estava sentada no cho, toda encolhida a um canto, e falava sozinha:
   Por que voc no impediu?
  Ao que Margot respondia, sem que Kate pudesse escut-la. Os outros espritos j haviam se retirado, satisfeitos com o resultado de sua empreitada, e apenas Margot 
ficara, compadecida de seu sofrimento.
   Ele tem que voltar  prosseguia Marianne.  Para onde foi?... Minha me me disse que fica longe... Tudo por culpa daquela bruxa... Ah! Margot, v buscar Ross 
para mim...
   Com quem est falando, Marianne?  indagou Kate, sem nimo.
  A menina teve um sobressalto. No ouvira a me entrar.
    a Margot  respondeu como num sonho. Disse que Ross foi para Oxford...
  Kate fitou-a com angstia, sem saber o que fazer ou pensar, e disse simplesmente:
   Trouxe o seu jantar.
  Marianne se levantou e passou por ela, olhar perdido no vazio. Dirigiu-se at a mesinha, apanhou a bandeja e a atirou longe. A bandeja passou raspando pelas pernas 
de Kate, que chegou para o lado bem a tempo de v-la estatelar-se no cho.
   Saia daqui!  comeou a gritar.  Saia daqui!
  Kate rodou nos calcanhares e saiu correndo, trancando a porta novamente. Ao p da escada, David a aguardava, com as crianas agarradas aos seus joelhos.
   O que aconteceu?  questionou amedrontado.
   No aguento mais  desabafou Kate, desmoronando nos ombros do marido.
  As crianas choravam assustadas, e Kate se desvencilhou do marido para cuidar delas. Depois de acalm-las, subiram juntos ao quarto de Marianne. Com uma vassoura 
e um balde na mo, Kate limpou o cho, enquanto David a segurava para que no os atacasse.
  No dia seguinte, o mesmo sucedeu. Quando Kate abriu a porta, Marianne comeou a gritar e tentou agredi-la, s no conseguindo porque David a segurou firmemente. 
A me colocou a bandeja na mesinha e foi buscar balde e panos para limpar a sujeira que Marianne fazia pelo cho.
  No outro dia, nada se alterou, como nos outros tambm. Kate e David mostravam desnimo e cansao, sem saber o que fazer, pois agora o estado de fria de Marianne 
era quase constante.
   No podemos mais continuar assim  queixou-se Kate.  No aguento mais. Voc sai para trabalhar e eu fico aqui com as crianas, sempre com medo de que Marianne 
faa alguma coisa. Tenho medo at de que pule da janela.
   Queria poder dizer alguma coisa. Fazer alguma coisa. Mas o qu?
   E se trouxssemos Ross aqui? Se falarmos com Nathan, a ss, tenho certeza de que nos atender.
   Pensa que j no fiz isso?  Kate fez cara de espanto.  Ontem mesmo fui procur-lo no trabalho e me disseram ele est em viagem de negcios pela Amrica. No 
satisfeito, fui pessoalmente  casa dele, para falar com Ross. S que Ross tambm no est. Foi mandado para um internato, em Oxford.
   Em Oxford?  ele assentiu.  Mas como Marianne sabia disso?
   No sei e no creio que isso seja importante agora. O principal, no momento,  resolvermos o problema da menina.
   Como?
   Andei pensando... E se chamssemos aquele psiquiatra de que sua irm falou?
   No, David, isso no!
   No podemos ficar com Marianne presa no quarto para sempre. Ela nem tem ido  escola.
   Ela vai melhorar. Voc vai ver.
  Kate encerrou o assunto. No queria ver sua filha tratada feito uma louca. Nos dias que se seguiram, Marianne teve uma sbita melhora. David e Kate foram levar-lhe 
a bandeja de comida, e ela parecia mais calma. Chegou mesmo a lhes enderear um sorriso tmido e no fez fora quando David a segurou, sem fazer meno de ataque.
  Na manh seguinte, Kate e David se surpreenderam com a sua melhora. Ela havia usado o urinol, e o quarto estava limpo. Certos de sua recuperao, deixaram-na sair 
para tomar caf da manh com o resto da famlia, o primeiro em muitos dias.
  Na cozinha, Marianne sentou-se, e a me serviu-a de uma xcara de leite. Comeou a tomar o caf da manh calmamente, alheia ao mundo ao seu redor. Tudo parecia 
calmo, tranquilo, sereno. O rudo infantil dos irmos no a incomodou, nem ela se importou com os olhares enviesados e temerosos que, por vezes, lhe dirigiam.
  Foi quando a pequena Suzie, inadvertidamente, esbarrou com a mozinha na ala do bule de caf, entornando o lquido quente sobre a mo de Marianne. A reao foi 
imediata e inesperada. Rosto em fogo, Marianne deu um salto da cadeira e agarrou a irmzinha pelo pescoo, torcendo-o com o mximo que suas foras permitiam.
  Saindo de seu torpor inicial, David segurou as mos de Marianne e soltou-as do pescoo de Suzie, que comeou a tossir e logo foi acolhida pela me. Dominado pela 
indignao e a revolta, David cerrou os punhos e, sem pensar, desferiu um murro no rosto da filha, e um filete de sangue comeou a escorrer de sua boca.
   Demnio!  gritou Marianne descontrolada. Cafajeste! Cretino! Porco!
  As imprecaes deixaram David atnito. Marianne se debatia e tentava mord-lo, a boca inchada e roxa, e ele saiu arrastando-a escada acima, puxando-a sem piedade 
pelos cabelos. Com o pai, Marianne no tinha muitos recursos. Por mais que naqueles momentos de crise redobrassem-lhe as foras, ele era mais forte do que ela e 
menos piedoso do que Kate.
  Trancada no quarto, Marianne dava chutes na porta, e David a ignorou, voltando correndo para a cozinha. Kate, com Suzie no colo, tentava faz-la parar de chorar.
   Como est ela?  perguntou ele, examinando o pescoo da filha.
   Est bem. Marianne no conseguiu machuc-la. Foi s o susto.
  De repente, um grito agudo partiu do andar de cima, e um baque abafado fez com que todos corressem ao mesmo tempo. Sobre o gramado, o corpo de Marianne jazia desfalecido. 
Sem ter como sair, buscara a nica forma possvel de se libertar. Sem nem pensar nas consequncias, muito menos na morte, Marianne subiu no parapeito da janela e 
se precipitou pelo ar, seguindo a sugesto do invisvel de que pousaria no cho com a leveza de um passarinho.
  Obviamente, no foi o que aconteceu. O mundo das sombras, contudo, no contava com a participao dos seres que se movimentavam na luz invisvel do bem. Emitindo 
fluidos de proteo que eles no podiam ver, direcionaram o salto de Marianne para a esquerda, onde um grupo de arbustos aparou-lhe a queda, provocando-lhe escoriaes 
leves e algumas costelas quebradas, sem comprometimento de nenhum rgo vital.
  Levaram-na s pressas ao hospital, onde ela foi tratada, ocasio em que Kate e David tiveram que ouvir a reprimenda do mdico sobre deixar crianas pequenas sozinhas 
num quarto no segundo andar. Por sorte no havia morrido nem sofrera leses graves que lhe deixassem sequelas. Ouviram tudo sem protestar ou se justificar. Era desnecessrio 
que aquele mdico, ou qualquer outra pessoa, fosse colocado a par de seus problemas. O que interessava era que ambos agora concordavam e j sabiam o que fazer.

  Segunda Parte
 

  1
  Marianne levantou os olhos e fitou o menino que tentava subir numa rvore prxima, dando socos no enfermeiro que lutava para control-lo. Durante alguns minutos, 
permaneceu a olh-los sem muito interesse, mais interessada no anozinho que, ao lado deles, no parava de gargalhar.
  Aproximou-se. Com a mo, tocou gentilmente o ombro do ano, que se virou abruptamente para ela.
   Ah!  voc?  exclamou, sossegando o espanto. J ia revidar.
   Saia da, Escobar. Est chateando ele.
   Por que o interesse?
  Marianne deu de ombros. Achava o ano pedante e atrevido.
   Porque voc  irritante e mau  respondeu de m vontade.
   E da? O que voc tem com isso?
  Marianne levantou a mo e bateu nele, sem perceber que havia atravessado o rosto do ano. Ao mesmo tempo, o enfermeiro, finalmente, conseguiu dominar o menino. 
Aplicou-lhe uma injeo e esperou at que se acalmasse, quando ento se voltou para ela:
   V andando voc tambm, Marianne.
  Ela deu de ombros e se afastou. O enfermeiro no vira Escobar, mas j estava acostumado ao fato de as crianas falarem sozinhas. Ajudou o menino a ficar de p. 
Dera-lhe uma dose leve de ludano, apenas o suficiente para que ele parasse de se agitar.
  Vagarosamente, conduziu o menino trpego a um banco do jardim. Com ar alheado, o garoto fitava Escobar, que os seguira tambm. Fora intil tentar subir naquela 
rvore. Aquele ano maldito o acompanhava aonde quer que ele fosse. Teve vontade de gritar com o ano, mas algo em sua mente o confundiu. Foi piscando os olhos, 
mas suas plpebras custaram a descer e a subir. Envolvido por uma sonolncia gostosa, por instantes, fechou os olhos e adormeceu.
   Aquele James  uma besta  disse Marianne a seu lado, mas o menino no respondeu.      Eric! Eric!
  No adiantava. Ele havia ferrado no sono, e Marianne suspirou com pesar, indo para o outro lado do jardim. Gostava de Eric. Desde que chegara ali, havia pouco 
mais de trs anos, ele tinha sido seu nico amigo. Eram poucas as crianas no hospital. Em sua maioria, os internos eram adultos e adolescentes. Crianas eram raras, 
e a maioria parecia completamente abobada.
  Marianne espichou o pescoo e fitou o horizonte  distncia, por cima do muro de pedras. Fazia um bonito dia de fim de vero e, em breve, as rvores comeariam 
seu bailado de lamento. Ouviu um gemido ao lado e olhou. Uma menina completamente retardada havia acabado de urinar nas calas, e o enfermeiro ralhava com ela. Que 
coisa intil, pensou. A menina no entendia uma palavra do que ele dizia.
  Quando Marianne chegou ao hospcio, em companhia do pai e da me, nem sequer suspeitava do que estava para lhe acontecer. Havia acabado de sair do hospital, e 
os pais lhe disseram que a levariam a outro lugar para tratamento de possveis leses na coluna. Como no entendia nada daquilo, no protestou. At fsicos aparentes, 
era praticamente impossivel, para os mdicos, constatarem qualquer anomalia cerebral. Os casos que envolviam leses ou ms-formaes cerebrais eram mais facilmente 
diagnosticados, mas ningum sabia explicar por que determinadas pessoas, aparentemente sem causa alguma, ingressavam naquele processo degenerativo e perdiam o contato 
com a realidade da matria, mergulhando num inexplicvel mundo de sombras e vultos.
  Por razes diversas, espritos buscam a loucura como subsdio no aprimoramento de suas aptides morais. Atravs da sutilizao de suas faculdades sensrias, colocam-se 
em contato direto com vrios mundos e outras dimenses, permanecendo acessveis a toda sorte de seres que transitam no invisvel, desde os mais iluminados aos mais 
empedernidos.
  Com tratamento espiritual adequado, associado a macias doses de amor, muitos loucos poderiam ter sido curados, e o sofrimento, evitado. No era o que acontecia, 
porm. Todo aquele que fugia ao padro de normalidade imposto pelos valores sociais da poca era atirado nos hospcios para experimentar as precrias drogas que, 
na poca, eram ministradas para induzir o choque e a convulso, com a nica finalidade de acalmar os mais furiosos.
  Nada disso, contudo, curava. E Marianne, como os demais loucos, no encontrou a cura entre as paredes do sanatrio, que isolavam os loucos do mundo, nem com o 
uso constante de drogas que a colocavam cada vez mais em contato com esses seres do invisvel. Por essa poca j eram conhecidas, dentre outras obras importantes, 
todas as da Codificao de Allan Kardec, que muito auxiliaram no conhecimento e reconhecimento dos processos medinicos e suas consequncias.
  Alheios ao surgimento dessa e de outras cincias do esprito, Kate e David buscaram na cincia dos homens explicao para os males da alma. No a encontraram, 
e uma promessa de paz lhes pareceu suficiente e adequada.
  Depois que David conseguiu libertar o mdico, veio o diagnstico irreversvel. Kate chorava amargurada, e Marianne, presa ainda pelas mos do pai, no compreendia 
o que eles diziam. A seu lado, um esprito conversava com ela, contando-lhe as maravilhas que encontraria ali.
   Mas doutor, deve haver outro jeito...  soluava Kate.
  O mdico a encarou por cima dos culos e, lanando um olhar de esguelha para Marianne, esclareceu:
   Entendo como a senhora se sente, mas veja bem. Olhe para sua filha e me diga, a senhora mesma, se ela lhe parece normal.
  Kate fitou David com angstia. Ele permanecia segurando os pulsos de Marianne. Na cabea, um mundo de pensamentos indizveis. Ele no tinha coragem de dar a palavra 
final, e Kate no queria se convencer. Em seu ntimo, refazia os gestos do passado que no queria mais repetir. Por isso, relutava em desfazer-se de Marianne, que, 
alm do mais, era sua filha.
   A senhora tem mais trs filhos  continuou o mdico.  Quer arriscar a vida deles por causa de uma criana que no tem mais soluo? Sei que  triste, mas no 
se iluda: sua filha  louca e altamente agressiva. Representa um perigo para os outros e para ela mesma. Imagine que, um dia, a senhora pode encontrar seus outros 
filhos mortos, ou a prpria Marianne, que j tentou se suicidar uma vez.
   O doutor tem razo, Kate  estimulou David.  Imagine se uma desgraa dessas acontecer. No podemos ficar com ela. Voc sabe que eu tambm era contra essa internao. 
Mas o doutor vem com argumentos poderosos. Temos que pensar em nossos outros filhos e na segurana da prpria Marianne.
   Ela no tentou se matar  desculpou-se.  Tenho certeza de que ela caiu da janela por acidente.
   Acredite em mim, senhora Landor  intercedeu o mdico.  No h outro remdio. Marianne nunca vai se recuperar. Ao contrrio, sem tratamento, vai piorar cada 
vez mais.
   Tudo porque Ross partiu  lamentou Kate.  Se o encontrssemos... poderamos traz-lo para junto de ns. Tenho certeza de que, ao lado dele, Marianne iria melhorar.
  Ao ouvir o nome do primo, Marianne se empertigou e olhou para a me.
   Voc est se iludindo, Kate  alertou David. Ross no vai mais voltar. J esqueceu o que houve?
   Volte para casa e conforte-se com seus outros filhos  insistiu o mdico.  Esquea Marianne. Ela s lhe trar problemas e desgostos.
   O senhor fala como se Marianne fosse uma coisa. Ela  uma criana e  minha filha! Acha que  assim to fcil descartar-se de uma filha?
   Sei que no. Mas a senhora vai se acostumar. Quando a paz voltar ao seu lar, vai me dar razo. Acha que vale a pena destruir a felicidade de sua famlia s por 
causa de uma menina que, com o tempo, no vai nem reconhec-la mais? Marianne, aos poucos, vai perder o contato com a realidade e com as pessoas que a cercam. J 
perdeu a afetividade pelos pais e pelos irmos. Logo, logo, vai estar agindo como se vocs fossem seus inimigos.
   Ele tem razo  concordou David.  Pense nas crianas. J se esqueceu do que aconteceu a Suzie? E se ns no estivssemos l? Teramos hoje o cadver de nosso 
beb nas mos.
  Kate abaixou a cabea e assoou o nariz, os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. No queria se separar de Marianne, mas reconhecia que ela representava um 
perigo para si mesma e os outros filhos. Sentindo-se impotente e vencida ante aquela situao, fitou a menina com piedade e tristeza. A contragosto, balanou a cabea 
e assentiu com voz sumida, carregada de dor:
   Tem razo. Podem lev-la.
   Excelente!  exultou o mdico, encarando Marianne de forma estranha. Parecia exagerada-mente satisfeito com aquilo.  Vocs no tm com o que se preocupar. Nossa 
instituio  muito bem conceituada, e tenham certeza de que Marianne ser muito bem tratada aqui.
  Percebendo uma movimentao diferente, Marianne comeou a se agitar. O mdico apertou um boto e, pouco depois, dois homens vestidos de branco apareceram, tirando-a 
das mos do pai e segurando-a pelos braos. Ela comeou a se debater e mordeu os enfermeiros, correndo para junto da lareira. Os homens se acercaram dela novamente, 
mas Marianne gritava e os ameaava com o atiador de chamas, que conseguira pegar imperceptivelmente.
  Os homens pararam indecisos e olharam para o psiquiatra, que ordenou frentico:
   A camisola! Rpido!
  Um dos enfermeiros saiu e foi buscar a camisola. O esprito ao lado de Marianne ria e lhe dizia para no se assustar, porque eles iriam vesti-la para uma bonita 
festa, onde todos teriam que ir de branco. Sem que ningum entendesse, Marianne soltou o atiador no cho e se voltou para o esprito. Ia lhe perguntar se j era 
o aniversrio de Ross, mas no teve tempo. Os homens a dominaram brutalmente, derrubando-a no cho. Enquanto ela gritava e esperneava, eles a imobilizaram e conseguiram 
vestir-lhe a camisola, puxando as mangas para trs e prendendo seus braos.
   O que  isso?  gritou, entre furiosa e indignada.  Por que esto fazendo isso comigo? Soltem-me! Deixem-me ir!
  Chocada com a forma como tratavam sua filha, Kate se adiantou, mas foi contida por David.
   Marianne...  balbuciou pesarosa.
   Me!  gritou a menina.  Ajude-me! No deixe que faam isso comigo! Por favor, mame, prometo que vou ser boazinha. Eu prometo...!
  Os homens a suspenderam e a levaram para fora, deixando Kate aos prantos, fortemente segura pelo marido.
   Minha filha!  agonizou Kate.  O que foi que fiz  minha filha?
  No foi possvel acompanh-la nem voltar atrs.
  O desespero tomou conta de Kate de tal forma que ela queria desistir. Queria dizer ao marido e ao mdico que no pretendia deixar sua filha naquela casa de loucos, 
que iria lev-la para casa e cuidar dela com carinho. Mas David no permitiu. Sem dizer nada, apertou o seu brao, fazendo-a calar os protestos e engolir o pranto.
  Kate nunca se perdoou por ter-se submetido  deciso do marido, culpando-se, e a ele, pelo destino da filha.  claro que nenhum dos dois era culpado de nada. Cada 
um agia de acordo com o seu amadurecimento, e Marianne ia pintando a tela de sua vida com as tintas de sua escolha.
  De toda sorte, a culpa no pode ser explicada pela mente racional. E foi assim que Kate realmente se sentiu: culpada por no ter sido forte o suficiente para resistir 
 tentao do passado, que se repetia sem que ela dele tivesse conhecimento ou foras para lhe resistir.

  2
  Trs anos haviam se passado desde esses acontecimentos. No comeo, fora difcil, mas agora Marianne j se acostumara ao lugar. Ao menos ali no precisava enfrentar 
os olhares de estranheza das outras pessoas quando falava com criaturas que somente ela podia ver. Em geral, relacionava-se bem com os demais internos e nem tanto 
com os enfermeiros, cuja brutalidade era constante e incentivada pelos mdicos.
  Mas o pior mesmo era o dirigente do hospcio. Carrasco e torturador em sua ltima existncia, ainda vibrava em sua alma o prazer de causar dor. Oto Kramer era 
um psiquiatra sdico e frio, partidrio da loucura institucionalizada. Fascinado pela sensao de poder do torturador, encontrou, no reduto quase esquecido dos manicmios, 
um vasto campo para infligir toda sorte de suplcios a seres humanos que, segundo ele, no possuam serventia alguma. Com isso, alimentava sua sede de violncia 
sem medo de represlias, pois contava com o respaldo da lei e o silncio dos enfermos. Ningum falava, e os poucos que se atreviam eram desacreditados por suas prprias 
alucinaes. Depois da tentativa frustrada de se fazerem entender, os loucos eram punidos com os mais variados mtodos de tortura, sempre sob a argumentao do condicionamento 
que poderia disciplinar sua mente. Mas, na verdade, o que Oto Kramer desejava era simplesmente infligir dor e medo.
  Naquele domingo, como sempre acontecia nesse dia, os detentos eram deixados livres no jardim,  espera de visitantes ou simplesmente para se distrair ao sol. Alguns 
recebiam visitas constantes, outros, espordicas, outros no recebiam visita nenhuma.
  Da famlia de Marianne, apenas Kate costumava ir. David sempre se desculpava, alegando que no tinha estmago nem estrutura para frequentar aquele lugar horroroso. 
Jane tambm aparecia de vez em quando, e Ross vinha sempre que podia, mesmo contra as ordens do pai. Embora estivesse estudando em Oxford, visitava-a nas frias 
e feriados, dizendo-lhe para ter calma. Em breve alcanaria a maioridade e a tiraria dali. Casar-se-ia com ela, e seriam felizes para sempre.
  J acostumada  rotina de entrada e sada do hospcio, Kate deu o nome na recepo, que o atendente anotou mecanicamente, e passou para o lado de dentro. Desde 
que Marianne fora internada, no havia um s domingo em que no fosse visit-la, levando-lhe sabonetes e algumas guloseimas, que eram confiscados pelos enfermeiros 
logo que ela saa. Naqueles trs anos, tornara-se bastante conhecida por sua assiduidade e persistncia. Ningum compreendia por que ela insistia em visitar e conversar 
com aquela criana que mal lhe prestava ateno. Por vrias vezes, fora aconselhada a esquecer a menina e viver a vida, mas Kate jamais assentiu a essas sugestes. 
Marianne era sua filha e jamais desistiria dela.
  Assim que chegou ao jardim, um dos enfermeiros a cumprimentou com um aceno de cabea e foi chamar a menina:
   Marianne. Sua me chegou.
  Ela olhou adiante e viu a me se aproximar com sua cesta de presentes. Kate sentou-se ao lado dela, beijou-a no rosto e alisou seus cabelos curtos e irregulares. 
A viso de sua menina, to maltratada e desleixada, no princpio lhe causou imenso choque. A indignao fora tanta que levara o caso  diretoria, contudo o doutor 
Kramer a convencera de que o tratamento era adequado, e a aparncia ora relaxada, ora repugnante, desvia-se  dificuldade que os enfermeiros encontravam em aplicar-lhes 
cuidados pessoais mais esmerados, pois os doentes no permitiam que lhes escovassem os cabelos nem que se lhes desse banho. Ante as dificuldades, faziam o melhor 
que podiam.
  Kate encara o mdico com estupor e raiva. Protestou, reclamou, ameaou relatar tudo s autoridades competentes. No entanto, o marido a dissuadira da idia, alegando 
que ela estava se metendo em assuntos dos quais no tinha o menor conhecimento, que o tratamento era satisfatrio, e o doutor Kramer, muito competente. Sem ter como 
reagir, Kate, muito competente. Sem ter como reagir, Kate silenciou e, aos poucos, foi-se acostumando com o aspecto descuidado de Marianne.
  E agora, sentada ao lado da filha, aps trs anos de lutas, lgrimas e revolta, Kate finalmente se rendera  realidade de que Marianne era irremediavelmente louca.
  - Como ests, Marianne?  perguntou ela, e a menina no respondeu.  Trouxe algo para voc.
  Kate colocou a cesta em cima do banco, desembrulhou um lindo bolo de nozes, todo enfeitado, e apanhou duas caixas de sabonete perfumado, Marianne olhou para tudo 
sem interesse e voltou os olhos para o horizonte, enquanto Kate ia dizendo:
  - Seu pai mandou lembranas. E seus irmos tambm. Sua tia Jane no pde vir essa semana, mas disse que vir domingo que vem.
        
  Ela no estava interessada. Desde que fora para ali, parecia-lhe que havia perdido o contato afetivo com a famlia. Mesmo Kate, que a visitava regularmente, no 
lhe parecia mais familiar. Era uma estranha. S conseguia mesmo pensar em Ross. Com a imagem dele a povoar-lhe por inteiro a mente, ergueu os olhos para a entrada, 
na esperana de que ele aparecesse.
   Cad o Ross?  indagou.
   Est no colgio, mas vir assim que puder.
  Com um suspiro de frustrao, Marianne abaixou a cabea e chorou baixinho. Apesar da vontade de estreit-la, Kate se controlou, pois a filha sempre se retraa 
quando ela tentava abra-la. Para desviar sua ateno, continuou falando sobre a famlia, o progresso dos irmos na escola e outras coisas sem a menor importncia 
para Marianne. Depois calou-se e limitou-se a contemplar o horizonte com ela, fazendo-lhe companhia, como sempre fazia, ficando, muitas vezes, at o trmino do horrio 
de visitas.
   At domingo que vem  despediu-se Kate, quando o enfermeiro lhe acenou, indicando que era hora de ir embora.
  Marianne lanou  me um apelo mudo, que Kate no compreendeu. Tinha vontade de contar a algum o que acontecia ali, mas de que adiantaria? Como o prprio doutor 
Kramer dissera, ningum acreditaria nela. E depois, talvez a me no estivesse mesmo interessada em ouvir, pois no existia nada que a convencesse a lev-la embora. 
Apenas Ross acreditaria nela e a tiraria dali, para poderem se casar e viver longe de tudo e de todos.
Depois que Kate se foi, uma sirene estridente soou por todo o ptio: era o toque de recolher dos doentes. Marianne se levantou como um autmato, deixando no banco 
as coisas que a me lhe trouxera, e ps-se a caminhar sozinha para o enorme prdio branco que agora lhe servia de lar. Uma enfermeira mal-encarada recolheu os presentes, 
e os enfermeiros foram conduzindo os doentes que no sabiam ou no podiam se locomover ou chegar sozinhos. Marianne foi para onde Eric estava sentado, cabea tombada 
sobre o peito.
   Eric  chamou ela, sacudindo o seu ombro. Acorde, Eric, j  hora de entrar. Eric!  berrou ao seu ouvido.
  O menino estremeceu e abriu os olhos lentamente, murmurando:
   Hum...?
  O efeito do ludano parecia estar passando, e Marianne deu um sopro em seu ouvido, despertando os seus sentidos.
   Eric  chamou baixinho.  Sou eu. Acorde ou James vir cutuc-lo.
  Eric tossiu, esfregou os olhos e bocejou, fixando-os em Marianne.
   Eu dormi?  rumorejou.
   Dormiu. James lhe deu aquela injeo...
  Ele esfregou o pescoo, sentindo ainda a dor da picada, e Marianne se arrepiou toda, levando a mo ao prprio pescoo. Podia sentir, ela tambm, os efeitos das 
muitas agulhadas que, constantemente, levava ali.
   Vamos entrar  falou Eric, levantando-se meio trpego, ao avistar James vindo em sua direo.
  De mos dadas, foram para dentro, direto ao refeitrio, fazer a refeio noturna. Sentaram-se todos ao redor das imensas mesas de madeira tosca e uma sopa indigesta 
lhes foi servida, acompanhada de um po dormido. O estmago de Marianne deu uma reviravolta, e ela se lembrou do bolo que a me trouxera e que ela abandonara no 
banco. Nunca podia com-lo. Mesmo quando se lembrava de lev-lo com ela, alguma enfermeira o apreendia, de forma que ela era sempre obrigada a comer aquela comida 
sem gosto.
  Sentada ao lado de Eric, Marianne ia se alimentando sem nenhum prazer, at que sentiu que algum a observava. Instintivamente, levantou os olhos e olhou na direo 
certa. Parado perto da porta, um dos enfermeiros, de nome Mike, olhava-a fixamente, exibindo nos olhos aquele estranho brilho que ela, algumas vezes, surpreendera 
voltados para outras garotas mais velhas.
  Marianne corou. Era a primeira vez que ele a olhava assim. De cabea baixa, tentou captar a inteno dele, to visvel que ela imediatamente compreendeu. Mike 
no estava olhando propriamente para ela. Mirava o decote de sua camisola, cujo boto superior havia desabotoado, deixando  mostra parte de seus pequeninos seios. 
O rubor duplicou, e uma raiva desmedida fez acelerar seu corao. A seu lado, invisvel, um esprito lhe soprava ao ouvido palavras obscenas, e ela, apesar de no 
as conhecer, entendia-lhes o sentido.
  Ela estava crescendo. No ano anterior, ficara mocinha, confusa e assustada com o sangue da primeira menstruao. A partir da, os seios desabrocharam, o corpo 
foi-se arredondando, tomando as formas da menina-moa, e Marianne nem se dava conta dessas transformaes.
  Com a colher na boca, fitou Mike pelo canto do olho. Ele a olhava insistentemente e, ao perceber que ela tambm olhara para ele, fez um gesto obsceno com a lngua 
que deixou Marianne furiosa. Embora no entendesse o significado do gesto, o esprito a seu lado o traduziu. Com o corao aos pulos, Marianne ocultou a colher na 
mo, levantou-se calmamente do banco e aproximou-se do enfermeiro, que se abriu todo num sorriso lbrico.
  Sem dizer palavra, Marianne esticou o brao e acertou a colher no rosto de Mike, que soltou um uivo de dor. O golpe e o instrumento no eram fortes o suficiente 
para rasgar-lhe a pele, mas deixaram um vergo comprido e vermelho sobressaindo de suas bochechas.
   Sua ordinariazinha!  bradou ele, tentando segur-la.
  Marianne saiu correndo pelo refeitrio, causando uma balbrdia geral. Todos comearam a gritar e atirar coisas, enquanto ela corria por entre as mesas, com Mike 
em seu encalo. Percebendo a confuso, outros enfermeiros se aproximaram, e um apito soou. Sinal de que algum iria responder por aquilo.
  Por fim, Mike a alcanou. Derrubou-a ao Cho, atirando-se sobre eia, e, puxando seus braos para trs, imobilizou-a. Logo, outros enfermeiros apareceram e lhe 
vestiram a camisola, conduzindo-a  ala de isolamento.
  Na manh seguinte, logo que o doutor Kramer entrou em seu consultrio, foi colocado a par do episdio da noite anterior. Mandou que buscassem Marianne. Assim que 
Mike abriu a porta da pequenina cela, a menina comeou a gritar, ciente do que estava por vir. Presa na camisola, sem poder reagir, foi levada aos berros e pontaps.
  O enfermeiro arrastou-a por um corredor escuro, descendo com ela por uma escada suja e mal iluminada, que ia dar no poro. Marianne comeou a chorar, enquanto 
Mike dava risinhos debochados:
   No adianta chorar. No soube criar confuso? Agora, aguente.
  Tomaram um corredor igualmente sujo e escuro, at que pararam diante de uma grande porta de ferro. Com seu sorriso sarcstico, Mike empurrou a porta, que se abriu 
com um rangido. No mesmo instante, o som da msica atingiu seus ouvidos. O fongrafo do doutor Kramer tocava a Sonata ao Luar, de Beethoven, sua msica preferida.
  Ladeado por dois enfermeiros, Oto Kramer fitou Marianne com uma certa euforia, fazendo sinal para que Mike se aproximasse. Aterrorizada, ela comeou a chorar e 
a implorar:
   No... por favor...
  Suas palavras eram interrompidas por soluos agoniados, que s faziam aumentar a sanha desvairada do mdico. Ele se virou de costas e apanhou algo em cima de um 
carrinho de ferro, que ela reconheceu como uma seringa.
   Muito bem, Marianne  comeou ele, com voz terrvel, aplicando-lhe uma injeo no pescoo. Soube que voc foi uma menina muito m ontem e, por isso, sou obrigada 
a puni-la.
   Por favor...  choramingou ela, j sentindo o efeito estonteante da medicao.  No vou fazer mais... no vou...
  A um sinal do doutor, Mike desamarrou a camisola, e ela permaneceu paralisada pelo terror. Olhou para a maca com a viso embaciada, e seus soluos redobraram. 
Em cima dos lenis encardidos, as tiras de couro j se encontravam dispostas, esperando que ela se deitasse para serem atadas ao seu corpo.
  O remdio lhe tirava parcialmente a vontade e a fora para resistir, e ela se entregou passivamente. Mike ergueu-a no colo e deitou-a sobre a cama, enquanto ela, 
sem se mover, via as coisas rodarem. Mais que depressa, os outros enfermeiros ataram as correias em seus tornozelos, punhos e ao redor do pescoo. Sentiu quando 
umedeceram sua testa e viu os fios na mo do doutor Kramer. Logo os eletrodos se grudaram a suas tmporas, e ela chorou, quase inconsciente, implorando, em vo, 
que a perdoassem.
  - Espero que isso a ensine a se controlar  disse o mdico, denotando sdico prazer.
   No...  balbuciou com a lngua enrolada.  Por favor, doutor... no...
    para o seu bem  ele olhou para Mike, que aumentou o volume do fongrafo, e sorriu prazeroso. A orquestra disparou pelo ambiente enchendo seus ouvidos com 
aquela lgubre sinfonia, a sonata do terror.  E agora, relaxe e deixe a msica penetrar em seus ouvidos. Vai acalm-la, voc vai ver.
  Diante do inevitvel, Marianne apenas soluava de mansinho, sem foras para soltar-se das amarras. Quando a onda de choque percorreu o seu corpo, sacudindo-o horrivelmente, 
um grito agudo partiu de sua garganta, e a mente comeou a embaralhar, as imagens a sumir, e a nica coisa que ainda pde reter na memria, no breve instante que 
precedeu  inconscincia, foi o som da msica de Beethoven se espalhando pelo ambiente e abafando seus gemidos e os risinhos de satisfao de toda a equipe mdica.

  3
  Faltava pouco para os feriados de Natal, e Ross j estava de malas prontas para partir para Londres. Mal podia esperar a hora de rever Marianne. Em sua ltima 
carta, ela havia escrito coisas horrveis sobre o hospital. Ross sabia que aquela carta s havia chegado a suas mos porque Marianne conseguira pass-la a Kate s 
escondidas, j que toda correspondncia era submetida  censura do diretor do hospcio. Precisava muito falar com a tia sobre o que estava escrito ali.
  Apanhou o casaco no armrio, calou as luvas, enrolou o cachecol no pescoo e saiu para a friagem da rua. Estava nevando, e o frio era cortante. Entrou no nibus 
da escola que levaria todos os alunos  estao de trem e sentou-se cabisbaixo perto da janela. Em poucos segundos, os outros alunos entraram, e seu amigo Vincent 
foi sentar-se ao lado dele.
  Vincent era um dos melhores amigos de Ross na escola. No dormitrio, sua cama ficava ao lado da dele, e Arnold, tambm seu amigo, dormia do outro lado. Era com 
eles que Ross dividia os seus anseios e temores, e contara-lhes tudo sobre Marianne e sua vida no hospcio.
  Os trs moravam em Londres e s voltariam a Oxford aps o Ano Novo. Ross se lembrou de que o aniversrio de Marianne estava se aproximando. Ela faria quinze anos 
e estava ficando uma mocinha muito bonita. Assim que atingisse a maioridade e terminasse os estudos, trataria de tir-la de l e casar-se com ela, para que ningum 
mais pudesse feri-la.
   A situao na sia est cada vez pior...  dizia Arnold, que havia acabado de chegar e se sentara no banco de trs.  O ltimo incidente japons levou  queda 
de Nanquim.
  Incidente...  desdenhou Vincent no banco da frente, virando-se para ele.  Eufemismo para guerra, isso sim.
   Os japoneses tm medo de que os Estados Unidos e a Inglaterra entrem no conflito    acrescentou Ross.  Temem a derrota.
   J imaginou?  tornou Vincent.  Sermos convocados para a guerra?
   Pena que no somos ainda maiores de idade...  lamentou Arnold  Se fssemos, estaramos sendo convocados pelo Exrcito.
   Vocs acham que esse conflito pode chegar at a Europa?
   Com Hitler no poder, tudo  possvel  admitiu Ross, acabrunhado.
   A guerra  apenas questo de tempo  concordou Vincent.  Meu pai, que  da Marinha, est muito preocupado.
  O assunto da guerra continuou at o desembarque em Londres. Na estao, Nathan j estava  espera de Ross. Viera sozinho, alegando que Lilian no se sentia bem 
por causa do mau tempo. Ross apertou o sobretudo, despediu-se dos amigos e foi seguindo o pai at o automvel.
   Como est indo na escola?  indagou Nathan, para puxar assunto.
   Bem  respondeu Ross laconicamente.
  Seguiram em silncio at sua casa, e Ross se perguntava quando foi que aquele abismo se abrira entre eles. Se antes eram amigos, agora pouco se falavam. Era como 
se Ross no possusse mais qualquer afinidade com o pai, que se tornara um estranho em seu corao. No sentia a menor vontade de ficar em casa com ele. Queria mesmo 
era ver Marianne e a tia. E, embora nada pudesse fazer at domingo, no dia seguinte trataria de fazer uma visita a Kate.
  Quando o dia amanheceu, Ross se aprontou e desceu para o caf. Lilian j estava sentada  mesa, com aquela cara de antiptica de sempre. Ele puxou uma cadeira 
e se sentou ao lado do pai, cumprimentando a todos sem muito interesse.
   Vai sair com um tempo desses?  perguntou Nathan.
   Vou.
   Pode-se saber aonde  que vai?  era Lilian, com sua voz esganiada e seu jeito petulante.
  Ross olhou bem fundo nos olhos dela e respondeu calmamente:
  - Vou ver tia Kate.
  Na mesma hora, um rubor esquentou as faces de Lilian. Ross fazia aquilo s para desafi-la, mas ele iria ver quem podia mais. Com a arrogncia de sempre, lanou 
a Nathan um olhar de intimidao, e ele tornou sem muita convico:
   No, Ross, no posso permitir. No seria conveniente...
   Voc no est entendendo, pai  cortou ele com irritao.  No estou pedindo sua autorizao. Antes voc podia mandar em mim. Agora, no. Tenho quase dezoito 
anos e posso tomar minhas prprias decises.
   Mas meu filho, no se trata disso...
   No me interessa do que se trata. Kate  minha tia, gosto dela e no vou deixar de v-la, ou a Marianne, s porque vocs no querem.
   No fale assim com seu pai!  censurou Lilian.
          E voc no se intrometa onde no  chamada  rebateu ele friamente.
  Lilian enrubesceu e retrucou com indignao:
   Como se atreve?
   Estou decidido a ir visitar tia Kate e Marianne, e ningum vai me impedir. No sou mais criana, e vocs no podem mais me trancar no quarto.
   - Ora, seu moleque  enfureceu-se Lilian.  Mal saiu dos cueiros e j pensa que  dono do seu nariz. Pois no , ouviu? Voc ainda  um fedelho e deve obedincia 
a seu pai.
Ross sentiu que o sangue comeava a subir-lhe s faces. Atirou o guardanapo sobre a mesa, levantou-se e, com ar glido, disparou:
   Pois fique sabendo, dona Lilian, que a obedincia que devo a meu pai no se estende a voc nem s ordens que voc d a ele. Se meu pai  um tolo que se deixa 
dominar por uma mulher ftil e vazia, o problema  dele. No tenho nada com isso. Mas digo e repito que vou visitar minha famlia, quer vocs queiram, quer no.
   Basta, Ross!  intercedeu o pai.
  O rapaz fuzilou o pai com o olhar, rodou nos calcanhares e saiu a passos decididos. Estava cheio de Lilian. Ela se julgava grande coisa, distribuindo ordens a 
todos, mandando no pai como mandava em Nora, como devia mandar tambm no amante. O pai era um tolo. Ross no podia provar, mas estava certo de que Lilian mantinha 
um romance secreto com o senhor Bradley. Ainda no se havia esquecido de que a tia lhe dissera que o encontrara em sua casa. O pai, contudo, no acreditara. Preferira 
acreditar naquela histria idiota de abotoaduras.
  Tomou o metr e foi direto para a casa de Kate, sentindo saudades da rua onde vivera por quase toda sua vida. Parou e fitou as casas, todas iguaizinhas , dispostas 
simetricamente de ambos os lados da rua. Permaneceu parado em frente  porta da tia, pensando que havia trs anos no aparecia por l. Durante esse perodo, encontrava-se 
com Kate rapidamente no hospcio, todas as vezes em que ia visitar Marianne. Seu lar, contudo, continuaria sempre sendo aquele.
  Sem saber se batia na porta ou no, ficou parado com a mo na maaneta. Nunca, em todos anos em que morara ali, precisara bater para entrar. No bateria agora. 
Decidido, rodou a maaneta e abriu a porta bem devagar.
  Suzie estava sentada na sala, brincando perto da lareira, e foi a primeira que o viu. Em seus quase oito anos, poucas lembranas guardava de Ross.
   Mame!  exclamou ela assustada.  Tem um homem aqui.
  Kate veio correndo da cozinha, empunhando um faco de cortar carne, pronta para agir caso algum malfeitor houvesse penetrado sorrateiramente em sua casa. Ao dar 
de cara com Ross, mal podia acreditar. Largou a faca no cho, enxugou as mos no avental e abriu os braos para receb-lo. Ele se aninhou naquele abrao de me e 
permaneceu entregue quele momento de carinho.
  Depois de muito tempo, ela se afastou dele e alisou o seu rosto.
   Voc no para de crescer!  observou maravilhada.  E est um rapaz cada vez mais bonito.
   Voc  que continua linda  elogiou ele.  Linda e corajosa. A mulher mais maravilhosa que um dia pisou na face da Terra.
  Kate sorriu satisfeita e chamou a filha com a mo.
  A menina se aproximou, e ela foi logo esclarecendo:
          Esse  seu primo Ross, Suzie. Lembra-se dele?
   Mais ou menos  confessou ela, cativada pelo sorriso do rapaz.
   Suzie era muito pequena quando parti  observou ele.
    verdade  concordou Kate.  Faz muito tempo que voc no vem a minha casa.
   Trs anos...
   Seu pai sabe que veio aqui?
   No tenho motivos para esconder. No sou mais criana, e ele no pode me impedir. Lamento apenas pela discusso.
   Vocs discutiram?
   Como sempre. Meu pai precisa se acostumar ao fato de que j no tem mais domnio sobre mim. Em breve farei dezoito anos.
   Dezoito anos... Quem diria?
  Ross beijou a mo de Kate e foi com ela sentar-se no sof.
   E Marianne, titia?  indagou ansioso.  Como  que ela est?
   Do mesmo jeito, suponho. No recebeu sua ltima carta?
   Recebi. E foi justamente para falar dela que vim aqui.
   Aconteceu alguma coisa?
  Ele balanou a cabea e tirou do bolso a ltima carta de Marianne, estendendo-a para a tia.
   Voc leu?
   No. Marianne me entregou fechada, e eu a enviei do jeito que estava.
   Leia.
  Kate apanhou a carta e comeou a ler. Com sua letra mida e insegura, Marianne narrava as barbaridades cometidas pelo doutor Kramer: as injees, os banhos gelados, 
os choques. Sem falar na brutalidade dos enfermeiros, que tratavam os doentes feito trapos. Kate leu avidamente, sentindo o corao disparar a cada linha. Quando 
terminou, encarou o sobrinho e confessou com pesar:
   Eu no sabia.
   Foi o que imaginei.
   Marianne nunca me contou nada. Ela mal fala comigo quando vou visit-la. Sei que, em silncio, me culpa por t-la deixado l.
          Acho que voc se culpa mais do que ela. S que no foi culpa de ningum. Voc no teve sada.
   Se pudesse, voltaria atrs.
   Voltar atrs, no pode. Mas acho que j  hora de tirar Marianne de l.
   No sei se David ir concordar. Ele teme pelas crianas...
   As crianas esto maiores agora, e Roger j  um rapazinho. Pode tomar conta dos menores.
   David no vai consentir...
   Voc tem que tentar convenc-lo. O que se passa l dentro  cruel e desumano.
   Ser que  verdade? Ser que Marianne no est inventando isso s para que a tiremos de l?
   Acha mesmo que Marianne teria imaginao suficiente para criar uma histria to bem elaborada como essa? E de onde ela tiraria a ideia de banhos gelados e choques 
eltricos, coisas com as quais nunca esteve familiarizada?
   Pensando por esse lado, acho que tem razo. E nada me agradaria mais do que ter minha filha aqui de volta, comigo. Voc no faz ideia do quanto me arrependi 
de t-la internado l.
   Pois agora  a hora de reverter essa situao. J estou crescido e poderei vir mais vezes.
   De Oxford?
   Virei todo fim de semana, direto para sua casa.
   Seu pai no vai gostar. E voc sabe que no gosto de fazer nada escondido.
   Quem falou em se esconder? No tenho medo do meu pai nem de Lilian. J disse que eles no podem mais me impedir de fazer o que quero. Se digo que virei,  porque 
virei.
   Com certeza, Marianne iria at melhorar.
           Ento, tia Kate? Vamos traz-la de volta. Prometo ajudar.
   Se dependesse s de mim, ela j estaria aqui. Mas tem o seu tio. Ele insiste que o melhor  deix-la l.
   Voc sempre foi mais forte do que tio David. Aposto como conseguir enfrent-lo e convenc-lo.
   Sabe de uma coisa?  tornou ela decidida. Voc tem razo. Vou falar com David e exigir que traga Marianne de volta.
  Tiveram que esperar at o anoitecer, quando David chegou do trabalho. A presena de Ross foi motivo de muita surpresa e preocupao, mas tanto o rapaz quanto Kate 
no tinham tempo para maiores explicaes. Ross entregou-lhe a carta, que ele leu com ar incrdulo. Quando terminou, encarou a mulher e o sobrinho e ponderou convicto:
   Isso  fantasia da cabea daquela menina. Muito me admira vocs acreditarem numa baboseira dessas. Imaginem se o doutor Kramer, um psiquiatra de alto gabarito 
e reputao, ia fazer um absurdo desses. Logo se v que isso s pode ser imaginao da mente distorcida de Marianne.
   Mas tio David  contraps Ross , no acha que deveria ao menos investigar?
   Para qu? Marianne est sendo muito bem tratada l.
   Como  que sabe?  indignou-se Kate.  Voc nem sequer a visita. Nunca se deu ao trabalho de ir v-la.
  Ele abaixou a cabea, envergonhado. Era verdade. Desde que Marianne fora internada, jamais a visitara. No princpio, fora muito difcil aceitar a vergonha de ter 
uma filha louca. Contudo, passado o trauma do primeiro momento, comeou a se acostumar. As pessoas j no tocavam mais no assunto, e a paz voltara a reinar em sua 
casa. Os outros filhos cresciam alegres e saudveis e, no fosse pelos domingos, em que Kate insistia em ir ver Marianne, ele at j se teria esquecido daquela filha.
   Voc sabe que no posso ir  desculpou-se ele.  Algum tem que ficar cuidando das crianas.
   Isso  uma desculpa muito da esfarrapada! Kate irritou-se.  Voc no vai visit-la porque no quer, porque tem vergonha dela.
   No vou visit-la porque assim posso ao menos fingir que tenho uma famlia normal. Ou vai negar que Marianne transformou a nossa casa num inferno?
   Ela no tem culpa de ser doente  rebateu Kate furiosa.
   E ns muito menos. Ningum aqui tem culpa da loucura de Marianne.
          Ela  sua filha!  gritou Kate descontrolada.
  O olhar que David lhe deu naquele momento foi to devastador, que Kate sentiu o mundo ruir. E as palavras que se seguiram revelaram uma indiferena muito maior 
do que a que transparecia nos olhos dele:
   Antes no fosse.
  Tia e sobrinho se entreolharam atnitos. Kate quis protestar, contudo, a indignao atravessou um espinho em sua garganta, e ela se calou, os olhos ardendo, transbordando 
de lgrimas de revolta. A reao dos dois deu a perceber que David havia ido longe demais. No entanto, o orgulho lhe toldou qualquer esboo de reao, e ele simplesmente 
entregou a carta a Ross, para depois se levantar em silncio e subir as escadas num caminhar arrastado e pesaroso.
  Depois que ele se foi, Ross encarou a tia, que chorava de vergonha e decepo.
   Sempre soube o que ele achava de Marianne desabafou ela.  Mas nunca pensei que fosse capaz de reneg-la como filha.
   Ele no a renegou.
   Mas  como se tivesse renegado.
  Ross continuou encarando-a, buscando na mente uma soluo rpida e segura. Quando falou, foi com profunda angstia na voz:
   E agora, tia, o que vamos fazer?
   No sei. Sem a autorizao do seu tio, nada poderei fazer.
   Pois ento, eu mesmo vou tir-la de l  afirmou Ross, resoluto.  Darei um jeito de ajud-la a fugir.
   De que adiantaria uma fuga? Seu tio a mandaria de volta.
   Voc no est entendendo, tia. Vou fugir com Marianne de Londres.
   E a escola?
   Largo a escola, minha casa, largo tudo. Em breve terei dezoito anos e posso muito bem arranjar um emprego.
   Voc est se iludindo. Marianne precisa de cuidados. E quem cuidar dela quando voc for trabalhar?
  Visivelmente desorientado, Ross passou a mo pelos cabelos e fixou na tia seus olhos de splica:
   Tem que haver um jeito. No podemos simplesmente deix-la nas mos daquele monstro.
  Kate estava desalentada. No sabia o que fazer. H muito se arrependera de haver internado Marianne naquele lugar. Para tir-la de l agora, seria muito difcil. 
No entanto, precisava fazer alguma coisa. Sua filha estava sofrendo, e era tudo culpa sua. Sua e de David. Jamais se perdoaria se alguma coisa de muito ruim acontecesse 
a ela.
   Espere-me aqui, Ross. Vou subir e falar com David. Ele vai ter que me ouvir.
  Em poucos segundos, Kate alcanou o quarto, onde David, sentado a uma escrivaninha, ocupava-se em fazer algumas contas domsticas. Ela se aproximou e nem esperou 
que ele se voltasse. Foi logo dizendo:
   O que voc disse agora h pouco foi inadmissvel  surpreso com a voz dela, ele se virou, enquanto ela prosseguia:  Voc pode at no gostar, mas Marianne  
to sua filha quanto minha. E no vou permitir que voc a trate como uma estranha indesejvel, porque ela no . Nossa filha precisa de ns, e vamos ajud-la. Ela 
est sendo maltratada naquele lugar, e voc sabe disso. S no quer admitir, porque  mais fcil calar do que enfrentar o problema. Pois bem, David, vou lhe dar 
um aviso: ou voc vai l e toma uma providncia, ou vou embora daqui levando comigo as crianas.
   Isso  um disparate!  protestou ele.  Voc  minha mulher e no pode sumir com meus filhos.
   Por que no, se voc est sumindo com Marianne de nossas vidas?
    diferente.
   No . Ela nasceu da mesma forma que os outros.
   Marianne est louca..
   Mais loucos fomos ns quando a deixamos naquele lugar! Estou lhe avisando, David: ou voc a tira de l, ou eu peo o divrcio.
   Est brincando.
   Voc duvida? Pois ento, experimente no fazer nada.
   Voc se deixou impressionar pela carta de uma louca!
   No vou mais discutir com voc. Minha ltima palavra j foi dada. Se quer salvar o nosso casamento, tire Marianne de l.
  Ela se virou furiosa, mas, antes que alcanasse a porta, David a segurou pelo brao, fazendo com que ela se voltasse para ele. Arrependera-se do que falara l 
embaixo, no propriamente por Marianne, mas pelo desgosto que causara  mulher. Queria remediar a situao, principalmente porque no podia permitir que ela o deixasse.
   Est bem  disse vencido.  Se  o que voc quer, irei pessoalmente falar com o doutor Kramer. Mas vou sozinho. No quero que ele pense que deixo minha mulher 
mandar em mim.
  Embora Kate no compreendesse nem aceitasse a ltima sugesto, achou melhor se calar. Ao menos ele concordara em ir, enchendo-a de esperana.

  4
  O silncio reinava no dormitrio das meninas, onde Marianne, amarrada ao leito, comeava finalmente a pegar no sono. Passara um dia agitado, e os enfermeiros ataram 
seus punhos s grades da cama, para que ela no sasse perambulando  noite e lhes desse trabalho. Ela j se acostumara quilo, e seus pulsos, apesar de doloridos, 
no se ressentiam tanto da aspereza das correias.
  As plpebras, cansadas de lutar com os olhos para manter a conscincia, por fim renderam-se ao silncio e  escurido. Marianne adormeceu num sono ainda leve, 
seus ouvidos captando,  distncia, os sons abafados da noite. Tudo se foi aquietando aos poucos, e seu corpo todo comeou a relaxar, os pensamentos se aprofundando 
mais e mais no mundo dos sonhos. De repente, um peso sobre seu corpo fez a cama afundar, dando-lhe a perceber que no estava sonhando. Abriu os olhos assustada, 
e mos speras e firmes apertaram sua boca, impedindo-a de gritar.
   Sh          sussurrou o enfermeiro.  Nem um pio, ou leva uma surra.
  Marianne estremeceu, reconhecendo, no escuro, o rosto medonho de Mike. No estava sozinho. A seu lado, um outro enfermeiro, conhecido apenas por Grando, dado 
o seu tamanho descomunal, olhava para ela com ar de cobia. Grando era um dos enfermeiros encarregados da vigilncia dos internos e costumava usar mtodos nada 
amistosos com os mais difceis e violentos.
  Sentiu medo. A princpio, no entendeu o que eles queriam, mas, aos poucos, foi-se dando conta. Grando tirou do bolso uma gaze e a amordaou, enquanto Mike afastava 
suas pernas, amarrando-as na cama. Estava completamente imobilizada e comeou a chorar.
   No adianta chorar, sua ordinariazinha  disse Mike em tom maldoso.  Vai ver no que d ficar me provocando.
   Aposto at que ela vai gostar  desdenhou Grando.  E vai pedir mais.
  Os dois soltaram uma gargalhada abafada, e Mike levantou a camisola de Marianne, rasgando suas roupas de baixo com violncia, deixando-a constrangida e assustada. 
Ainda com seu riso debochado, deitou-se sobre ela, possuindo-a com golpes violentos que lhe causaram imensa dor. Contidos pela mordaa, os gritos morriam na garganta 
de Marianne, que chorava de dor, medo e humilhao. Mike ficou ali por um bom tempo, violentando a menina e regozijando-se com o sofrimento que lhe causava e que 
s fazia aumentar o seu prazer.
  Quando Mike finalmente se saciou, foi a vez de Grando. Com a mesma selvageria, deitou-se sobre ela e a possuiu, machucando-a com mordidas e belisces. Marianne 
virou a cabea para a esquerda, tentando no ver a cara horrenda de Grando nem sentir-lhe o bafo da bebida. Na cama ao lado, dois olhos pesarosos a fitavam, transmitindo-lhe 
empatia e compreenso. Sua vizinha de cama parecia partilhar seu sofrimento.
  Foi ento que Marianne se lembrou de que um dia, muito tempo atrs, percebera uma movimentao parecida na cama da outra garota e s agora entendia o que havia 
acontecido. Como custara um pouco a desenvolver as formas femininas, os enfermeiros, at ento, no a haviam notado. Mas repararam na menina ao lado, cujos seios 
volumosos e os quadris largos haviam despertado neles o sentimento nefasto da luxria. E agora voltavam tambm para ela a sua lascvia desenfreada.
  Grando terminou, e Mike possuiu-a ainda uma segunda vez. Marianne no parava de chorar, o corpo todo dolorido, como se algum lhe houvesse triturado as entranhas. 
Tomada pela exausto e a dor, ainda conseguiu ouvir as ltimas palavras de Mike, ao repreender Grando, que ameaava subir em cima dela novamente:
   Agora chega. Ela  muito pequena e pode no aguentar.
  Desmaiou. Quando acordou no dia seguinte, no estava mais amarrada. Sentiu uma dor lancinante no ventre e apalpou a barriga. Logo, a porta da enfermaria se abriu 
e James, outro enfermeiro, entrou. Aproximou-se dela, levantou o lenol e espiou.
   Bem que Mike avisou  disse com rispidez.  O que andou fazendo, hein, Marianne?
  Ela se encolheu toda, sentindo o sangue seco a engrossar o lenol. James, sem nenhum cuidado, levantou-a da cama e saiu arrastando-a para fora. Marianne pulava 
e gritava, contudo, James conseguiu domin-la facilmente. Alm de franzina, o episdio da noite anterior a esgotara inteiramente.
  Foi descendo com ela pelas escadas escuras que levavam ao poro, e ela ps-se a gritar com mais fora ainda. Conhecia aquele caminho e sabia onde  que ia dar. 
Ao final da escada, James virou para a esquerda, tomando a direo oposta  da sala dos castigos.
  Ao se aproximar do fim do corredor, a msica, novamente, atingiu os seus ouvidos, mas dessa vez era a Quinta Sinfonia de Beethoven, anunciando outra terapia. O 
fongrafo do doutor Kramer era um coadjuvante em todas as suas tcnicas e, para cada tratamento, como ele chamava, tocava uma msica diferente de Beethoven. S Beethoven, 
o que fez Marianne passar a odiar esse compositor em particular.
  James abriu a porta com o p e entrou com Marianne. O doutor Kramer l estava e olhou para ela com ar de reprovao. Mike, parado do outro lado, sorria seu sorriso 
debochado de sempre.
   Ora vejam s, Marianne  censurou, como sempre fazia.  O que fez dessa vez?    ela no respondeu, no sabia o que dizer.  Quem foi visit-la em sua cama ontem 
 noite?
  Ela olhou para Mike e esboou uma resposta, mas James no lhe deu tempo. Ergueu-a no colo novamente e foi com ela para o meio da sala, onde uma espcie de banheira 
circular havia sido encravada no cho de ladrilhos brancos. Marianne gritava feito louca:
   No! No! Est frio!
  Mais que depressa, James deitou-a dentro da banheira de gua gelada, ainda vestida com a camisola de dormir. Marianne comeou a tiritar, at que um entorpecimento 
foi-se espalhando pelo corpo, primeiro pela pele, at atravessar a carne e penetrar nos ossos, como se o sangue congelasse nas veias.
   Isso vai acalm-la  prosseguiu o doutor Kramer.  Voc est ficando muito agitada. Assim no  possvel. E agora que descobriu os prazeres do sexo, no sei 
onde vai parar. Aposto que foi para aquele idiota do John que voc se entregou. Foi ou no foi?
John era um paciente completamente retardado. No entendia nada do que falavam com ele e fazia tudo o que lhe mandavam. Se era para ficar deitado, ele ficava. Se 
era para balanar a cabea, ele balanava. Se era para ficar parado na mesma posio o dia inteiro, ele ficava. E tudo isso sem se queixar ou reagir. Realmente, 
era o culpado perfeito.
  Marianne ouvia o que o doutor Kramer dizia, porm, no conseguia responder. Era bvio que John nada tinha a ver com aquilo, e sim Mike e Grando, habituados a 
estuprar as internas. O doutor Kramer, contudo, jamais recriminaria aquelas prticas. Ao contrrio, incentivava-as, como forma de manter os enfermeiros atentos e 
satisfeitos com o trabalho. Era um meio de compens-los pela rdua tarefa que executavam.
  Apesar de estimular os estupros, o doutor Kramer no podia simplesmente fingir que nada havia acontecido. Precisava fazer seus relatrios, para apresent-los s 
autoridades competentes em dias de inspeo. Se Marianne aparecesse grvida algum dia, teria que ter uma desculpa convincente para dar a seus superiores. A culpa 
no podia recair sobre seu corpo de enfermagem, e um detento abobado e estpido como John, sem condies de contestar, seria o culpado perfeito.
  Era preciso tambm controlar e acalmar Marianne, que andava muito inquieta ultimamente. Da o banho frio, que era considerado um timo tratamento para tranquilizar 
os doentes mais agitados. Na verdade, os banhos gelados eram mais uma das formas de entorpecer os detentos, que iam perdendo as foras e se entregando ao desnimo. 
Era uma terapia de choque, o choque trmico, que causava uma inrcia dos sentidos e retardava os movimentos, tornando os enfermos momentaneamente dceis e fceis 
de controlar.
  Imersa em gua gelada, os olhos de Marianne comearam a fechar lentamente, e o doutor Kramer, percebendo a roxido em seus lbios e ao redor dos olhos, decidiu 
que j era hora de tir-la dali. James ergueu-a novamente e foi apanhar o cobertor, enrolando-a toda molhada e saindo com ela de volta para o quarto.
  Deitou-a novamente na cama, sobre os lenis ainda sujos, e saiu, deixando-a sozinha com sua dor. Ela no havia desmaiado, mas permanecera de olhos cerrados, com 
medo de que eles a imergissem outra vez. Muito lentamente, o efeito do frio foi passando, e o corpo retomando o calor.
  Em lgrimas, Marianne olhou pela janela cheia de grades. Do lado de fora, o ano Escobar ainda perturbava Eric. Ele era o nico de quem ela gostava, s que agora 
vivia a maior parte do tempo dopado ou amarrado na cama. Muito violento, era constantemente punido. Ainda assim, Eric tinha Escobar. O ano podia ser algum irritante, 
mas, pelo menos, era algum. Ela, por outro lado, no possua ningum.
  Margot aparecia de vez em quando, dizendo coisas que ela no entendia. Contou-lhe uma histria muito triste, algo sobre Lilian e um tal de Richard, e disse que 
no queria mais se vingar. Havia recebido ajuda e ia embora. Marianne ainda perguntou se ela no poderia ir embora tambm, mas Margot lhe dissera que s quando desencarnasse. 
Ela no entendeu, todavia, no disse nada. Compreendera o suficiente: no poderia sair dali. De qualquer forma, Margot prometera vir visit-la, e era o que fazia, 
embora muito raramente e, assim mesmo, ficava apenas alguns poucos minutos.
  Foi nesse momento de solido e angstia que se lembrou de Luther. Por onde ser que ele andava? Desde aquele dia, em seu quarto, Luther nunca mais aparecera. Uma 
vez ele lhe dissera que, se quisesse, poderia cham-lo. Ela ficou em dvida. Ser que deveria? Por que no? Ele no disse que era seu amigo?
   Luther...  arriscou timidamente.
  No foi preciso chamar outra vez. Na mesma hora, Luther como que se materializou na frente dela, parado aos ps de sua cama.
   Como vai, amiguinha?  cumprimentou com voz sarcstica.
   Bem...
   Que bom que me chamou. Estava com muitas saudades.
  Sufocada pelo pranto, Marianne no conseguiu responder. Luther se aproximou e colocou a mo em seus cabelos, falando com voz melflua:
   Ora, Marianne, o que  isso? No est contente em me ver?
   Ah! Luther, estou me sentindo to sozinha! disparou num desabafo.  Todo mundo me trata mal aqui. Queria tanto ver o Ross! S ele me compreende.
   Acho que Ross no se lembra mais de voc.
   No  verdade. Ele  meu amigo.
   Se  seu amigo, por que no est aqui?
   Porque no pode.
   Por que no experimenta cham-lo?
   Ele no pode me ouvir.
   Viu? S eu posso ouvi-la e atend-la. Logo, s eu sou seu amigo.
    diferente. Voc  um fantasma.
  Luther soltou uma gargalhada. Para todos os efeitos, ele era o nico fantasma que ela conhecia e, assim mesmo, porque ele lhe dissera. Como Marianne no sabia 
distinguir entre encarnados e desencarnados, os demais espritos que via lhe pareciam to vivos quanto ela.
   Se voc no gosta de mim, por que resolveu me chamar?  retrucou ele, provocador.
   No  isso. Gosto de voc. E s que, s vezes, voc me assusta.
   Oh!  debochou.  Desculpe-me, queridinha, no fao isso por mal. Mas  que j estou to acostumado a ser mau...
  Abafou um risinho sarcstico, e ela retrucou amuada:
          Se continuar assim, mando voc embora outra vez.
    mesmo? E quem mais, alm de mim, vai querer ser seu amigo? Aquele retardado do Eric e seu ano idiota? Acho que no. No fundo, voc sabe que sou o nico aqui 
que pode defend-la.
   Pode me defender do doutor Kramer e de Mike?
           Se voc quiser...
   No gosto do doutor Kramer. Ele me lembra o professor O'Neill, s que  muito pior. Livrei-me do professor para cair nas garras desse mdico...
  Nesse momento, Mike entrou no dormitrio. Vinha busc-la para almoar.
   Com quem est falando, sua doida?
  Marianne olhou para Luther, que fez um sinal afirmativo com a cabea, aproximando-se de Mike, e ela respondeu:
           Com Luther.
   Luther? Esse  novo.
   Diga-lhe que vou lhe dar um tombo  tornou Luther.
   Ele disse que vai lhe dar um tombo  repetiu Marianne.
    mesmo? E posso saber como  que ele pretende fazer isso?
  Ao se aproximar da cama, Luther enfiou o p na frente de Mike, e o enfermeiro, tropeando nas prprias pernas, saiu cambaleando todo trpego, tentando se segurar 
em qualquer lugar. Intil, porm. Mike veio ao cho com estrondo, sob as gargalhadas sonoras de Luther e de Marianne.
  O enfermeiro levantou-se aparvalhado e encarou Marianne, que ria sem parar. No conseguia entender como tinha tropeado. Olhou para o cho por onde passara, imaginando 
se Marianne no teria colocado ali algum objeto para que ele tropeasse, mas no viu nada.
   Do que  que est rindo, imbecil?  revidou ele com raiva, dando-lhe uma bofetada no rosto.
  Marianne levou a mo  face e olhou para Luther, na esperana de que ele fizesse alguma coisa para defend-la. Luther, porm, ergueu as mos para o alto, num gesto 
de desnimo, e afirmou:
   Lamento, Marianne, isso no  assim to fcil. Tive que retirar uma boa dose de fluido desse idiota a. Agora, no d mais.
  Ela no entendeu muito bem, mas no respondeu. Achou que era melhor no confiar tanto assim no auxlio de Luther. Sem dizer nada, suspirou e apanhou a camisola 
que Mike lhe estendia. Trocou-se e foi para o refeitrio. Subitamente, sentiu que estava com fome, porque Luther lhe dera um passe que reequilibrara um pouco as 
suas energias.
  O passe de Luther era algo bastante peculiar. H muito aprendera a manipular certos fluidos a seu favor, de forma a injetar no indivduo boas doses de ira, desnimo, 
dio, cimes e toda sorte de sentimentos menos dignos. Esses fluidos, comumente, eram retirados dos prprios encarnados que, abarrotados de sentimentos difceis, 
acabavam por fornecer a matria-prima com que eram moldados seus prprios pensamentos destrutivos.
  Luther tambm sabia reconfortar. Muitas vezes,  preciso reanimar um esprito, encarnado ou no, a fim de que ele possa cumprir o papel que lhe foi destinado pelas 
autoridades das sombras. E era desejo de Luther que Marianne ficasse bem e disposta, porque s assim ele poderia provocar ainda mais o seu sofrimento, com o qual 
pretendia levar a termo sua vingana. Se ela adoecesse, tinha certeza de que seus amigos do outro lado logo acorreriam, e isso no era de seu interesse.
  Por isso, com a mesma eficincia com que manipulava fluidos pesados e densos, engendrava energias neutras da natureza para delas extrair os elementos que lhe favorecessem 
a aplicao de passes com resultados altamente benficos e reconfortantes.

  5
  Muito pouco  vontade na sala de espera do doutor Kramer, David se remexia sem parar. S estivera ali uma nica vez, quando levara Marianne para a internao, 
e aquele retorno no lhe agradava em nada. Contudo, tinha que fazer a vontade da mulher, ou ela se divorciaria dele. A ameaa fora explcita, e ele conhecia Kate 
o suficiente para acreditar que ela cumpriria sua promessa.
  Com medo de perd-la, tomara aquela deciso. Marcara uma hora com o psiquiatra para esclarecer os fatos. No acreditava nas palavras de Marianne e no temia pela 
sua segurana. Embora Kate e Ross acreditassem que o doutor Kramer puniria a menina se soubesse da carta, ele estava certo que no.
  Esperou cerca de quinze minutos at que o mdico aparecesse. Kramer estendeu-lhe a mo, que ele apertou timidamente, e se sentou do outro lado de sua pesada mesa. 
David pigarreou, completamente sem jeito, e comeou a dizer:
   Lamento vir incomod-lo, doutor Kramer, mas Kate insistiu...  o mdico permanecia parado, olhando-o com ar frio, impassvel. David pigarreou novamente e continuou: 
 E Marianne, como vai?
   Sua filha est indo muito bem  respondeu o mdico de forma impessoal.  Tem feito excelentes progressos.
   Foi o que disse a Kate, mas ela insistiu...
   Insistiu em qu? Por favor, seja mais claro. Novo pigarro, e ele meteu a mo no bolso do sobretudo, retirando a carta de Marianne, toda amassada.
   Bem, doutor,  que Marianne escreveu essa carta ao meu sobrinho...
   Carta?  indignou-se Kramer, imaginando como a menina fizera para burlar a vigilncia do hospital e passar, clandestinamente, uma missiva.
  David estendeu a carta ao mdico, que a apanhou rapidamente. Ajeitou os culos e ps-se a ler a letrinha mida e insegura de Marianne. Estava tudo ali. Todos os 
castigos, desde os banhos gelados at os choques, as injees, as camisolas, as correias de couro, as bofetadas, tudo,  exceo do estupro. Kramer pousou o papel 
sobre a mesa e, com um tremor que soube muito bem disfarar, contemporizou:
   No posso crer que o senhor tenha dado ouvidos a uma louca. Nossos mtodos so os mais modernos em psiquiatria. Confesso que algumas terapias aqui descritas 
so realmente utilizadas, mas no da forma como Marianne descreve. No so dolorosas nem tm intuito de punio. So elas que causam a melhora dos pacientes e aproximam 
sua filha da cura.
   Ento  verdade?  surpreendeu-se David.  O senhor usa mesmo choques, injees e bofetadas?
   So mtodos teraputicos. Menos as bofetadas, que so inveno da mente fantasiosa de sua filha. Posso assegurar-lhe que ela no sente nenhuma dor, a no ser 
uma sensao de indizvel bem-estar. Aps as terapias, os doentes apresentam visvel melhora. O que acontece  que sua filha, como muitos outros, no quer ser controlada, 
no quer se submeter s regras do hospital. Prefere ficar solta, sem controle, para fazer o que bem quer.
          Foi o que imaginei. Minha mulher e meu sobrinho, contudo, ficaram muito impressionados com o que Marianne descreve na carta.
   Pois pode voltar para casa e tranquiliz-los. Marianne, como os demais internos,  muito bem tratada aqui. Distorceu a verdade s para impression-los e provocar, 
quem sabe, a sua compaixo. Os enfermeiros nunca maltrataram os pacientes. So at bem cuidadosos. Mas o senhor h de convir que temos loucos muito violentos aqui 
e que precisam ser contidos, para sua segurana e dos demais. Os enfermeiros so enrgicos, sim, mas violentos, jamais.
   Tem razo...
   Os banhos so uma forma de tratamento que acalma o paciente. E, c entre ns, gua nunca matou ningum, no  verdade?  ele fez uma expresso de regozijo e 
acrescentou em tom sarcstico:  S se os afogssemos, o que no  o caso.
          Marianne fala de choques e injees.
   O senhor no  mdico e no est a par dos recentes avanos em psiquiatria. O eletrochoque  uma inveno moderna, amplamente utilizado nos mais conceituados 
hospitais de toda a Europa. E indolor, totalmente indolor.
   Sim...
   Quanto s injees... bem, essas so, realmente, necessrias para aplicao dos medicamentos. Mas quem  que gosta de levar umas espetadelas, hein? Com certeza, 
ningum. Nem o senhor.
  -  verdade.
  Durante mais de uma hora, o doutor Kramer explicou a David a finalidade e a funo de cada terapia. No estivesse David to apressado em deixar o hospital e se 
livrar daquela situao, teria percebido o ar de insanidade que acompanhava os gestos do mdico. Ao final da entrevista, David se deu por satisfeito.
   Bem se v que o senhor  um psiquiatra muito competente  afirmou.  Tenho certeza de que tudo o que faz  para o bem de Marianne.
   Sem dvida! Se quiser, pode constatar por si mesmo.
   No precisa, obrigado. Confio inteiramente na sua palavra.
   No vai se arrepender por essa confiana, asseguro-lhe.
          Quanto  carta, posso confiar tambm que Marianne no sofrer nenhum tipo de punio.
   Por Deus,  claro que no!
   timo. S mais uma coisa. Minha mulher est arrependida de ter internado Marianne e pode tentar solt-la sem o meu consentimento. O senhor, por favor, no permita, 
a menos que eu autorize.
   Fique tranquilo. Marianne s sai daqui com a sua autorizao pessoal.
  Exibindo um sorriso forado e falso, o doutor deu por encerrado aquele encontro. Esperou at que David sasse e apanhou a carta de Marianne, que ele esquecera 
de pegar de volta. Picou-a em vrios pedacinhos e saiu feito uma bala.
  Ela estava na pequena sala de jogos, em companhia de Eric, enquanto o ano Escobar tentava atirar uma bola plasmada na cabea do menino. O mdico se aproximou 
e, com semblante endurecido, ordenou:
   Venha comigo.
  Marianne levantou-se de um salto e saiu correndo para o outro lado, com medo da incomum apario do mdico, que no podia significar boa coisa. Os enfermeiros 
saram atrs dela e a dominaram, levando-a at ele.
  L se foi Marianne de novo para o poro, para a sala dos castigos, onde seria amarrada e levaria choques e injees, ao som da Sonata ao Luar. Terminada a sesso, 
Marianne voltou para o dormitrio, completamente aturdida, e foi amarrada na cama. Acordou horas mais tarde e, ao abrir os olhos vagarosamente, viu Luther sentado 
na cama ao lado.
   Viu o que aconteceu?  indagou Luther com ar mordaz.
   No entendo  choramingou ela.  O que foi que eu fiz dessa vez?
   Voc foi trada.
   Como assim, trada?
   Lembra-se da carta que escreveu para Ross? Aquela que mandou pela sua me?  ela assentiu.
   Pois o seu queridinho entregou-a ao mdico.
   No acredito  protestou ela com veemncia.
   Ross no faria uma coisa dessas.
    o que voc pensa.
   Pode ter sido minha me.
   No foi ela, tenho certeza. Foi o Ross. Ele  falso, no gosta de voc.
   Est mentindo, Luther. Por que est fazendo isso? V embora, v!
  Ouvindo as acusaes de Luther, Marianne sentiu imensa raiva do esprito. Por mais que ele tentasse ser convincente, o amor e a confiana que ela e Ross nutriam 
um pelo outro era a nica coisa que no fazia sua mente vacilar. Ningum jamais conseguiu ou conseguiria envenenar o sentimento que os unia. Ao perceber que havia 
dado um passo errado, Luther achou melhor no insistir. Simplesmente esvaneceu no ar, deixando no ambiente resqucios de uma vibrao densa e sufocante.
  Em casa, David contou a Kate parte da conversa que tivera com o doutor Kramer, omitindo que havia lhe revelado a existncia da carta.
   Por que no a trouxe de volta?  vociferou ela, mal contendo a decepo por no ver Marianne chegar com ele.
  - Ela est muito bem l.
  - Voc a viu?  ele meneou a cabea.  Ento como sabe? E os castigos?
  - Que castigo? No h castigo algum. O doutor Kramer foi muito gentil em perder o seu tempo comigo e me explicar cada uma das terapias. So mtodos modernos utilizados 
em toda a Europa.
  - E voc acreditou?
  - Por que no acreditaria? Vamos, Kate, deixe disso. Fiz como lhe prometi: fui ver o dr. Kramer e posso lhe assegurar eu Marianne est em muito boas mos.
  Kate estacou desanimada. Se quisesse salvar sua filha, no podia contar com o marido. Estava to decepcionada com ele que nem conseguiu mais conversar. Afastou-se 
acabrunhada e s recuperou um pouco da animao quando Ross chegou, no dia seguinte, para irem juntos visitar Marianne.
  - E agora, tia? O que vamos fazer?
  Kate no sabia. Foi com ele para o hospcio, levando presentes de Natal para a filha. Para fugir do frio, as visitas foram transferidas para o salo de jogos, 
onde a maioria dos internos recebia os visitantes sem muito interesse. Marianne, como muitos outros, estava sentada em frente  janela, observando os primeiros flocos 
da neve que comeava a cair.
  - Ol, Marianne  disse uma voz atrs dela.
  Reconhecendo aquela voz, ela se virou abruptamente, atirando-se no pescoo de Ross e cobrindo-o de beijos.
  - Eu sabia!  exclamou.  Voc veio.
  - Est se tornando uma moa muito bonita, Marianne  elogiou ele.
  - Voc  lindo. Meu prncipe...
  Kate permanecia parada mais atrs, olhando-os com admirao e discretas lgrimas nos olhos.
     No vai falar com sua me?  indagou ele.
   Para qu? Voc est aqui.
   Tia Kate tem sentido muito a sua falta.
   Mentira. Primeiro, ela me colocou aqui. Depois, entregou a carta ao doutor Kramer.
   Sei que voc no  uma menina rancorosa. Vamos, ao menos diga-lhe al.
  Ela no queria. Mas tambm no queria contrariar Ross. Por isso, olhou para a me e sorriu, o que estimulou Kate a ir em sua direo. Marianne se arrependeu. Queria 
ficar a ss com Ross, e a me agora ia atrapalhar tudo.
  Kate no fez nada do que Marianne esperava, dando-lhe apenas um beijo carinhoso na face. Alisou os seus cabelos e perguntou como estava. Marianne deu de ombros, 
e Kate, virando-se para o sobrinho, finalizou:
   Espero voc l fora.
  Saiu a passos vagarosos. Sofria muito tambm. Sofria por ter colocado a filha ali e sofria pela sua indiferena. Depois que ela sumiu de vista, Ross olhou para 
os lados e perguntou:
   No quer dar uma volta?
  Ele queria sair das vistas dos enfermeiros. Marianne assentiu e se levantou, e os dois foram se encaminhando para a porta que levava ao jardim. Na mesma hora, 
Grando os deteve e indagou carrancudo:
   Aonde  que pensam que vo?
   L fora  respondeu Ross firmemente, sustentando o seu olhar de mau.  Vamos dar uma volta, tomar um pouco de ar.
   Est fazendo frio.
   Trouxe um casaco para Marianne.
  Mesmo a contragosto, Grando no os impediu. No era aconselhvel provocar a famlia de Marianne, uma das poucas que podiam trazer problemas ao doutor Kramer. 
A neve caa bem fininha, e eles saram para a friagem, seguidos pelo olhar do enfermeiro. Ross ajeitou o casaco sobre os ombros de Marianne, e foram para o jardim.
   Luther me contou da carta  confessou ela.  Disse que foi voc que a entregou, mas sei que voc no faria isso. Desconfio que foi aquela mulher, minha... me.
Embora Ross no soubesse quem era Luther, achou melhor no perguntar.
   No foi sua me  afirmou.  Foi seu pai. Tio David acreditou na palavra do doutor Kramer.
   Ele me castigou. Fez aquelas coisas comigo de novo...
  Ross parou no meio do jardim e olhou para o edifcio, onde Grando permanecia observando-os.
   Vou tirar voc daqui, Marianne. Daqui a pouco, fao dezoito anos. Vamos fugir e nos casar.
  Num impulso de amor genuno, Ross puxou-a para si e, pela primeira vez, beijou-a com paixo, como um homem beija uma mulher. Ela correspondeu ao beijo com ardor 
e se apertou contra ele, mas logo ouviram a voz estrondosa de Grando, gritando da soleira da porta:
   Vamos parar com essa sem-vergonhice, vocs dois! Ou querem que eu v at a?
  Afastaram-se, Ross com medo do que pudesse acontecer a Marianne. Ela, em sua inocncia e temor, no teve coragem de contar a ele o que Mike e Grando haviam feito. 
Escutara os enfermeiros conversando sobre virgindade e ouvira um deles dizer que homem decente no se casava com mulher que no fosse mais virgem. Ela no entendia 
muito sobre virgindade, at que uma das internas mais velhas lhe explicou. Temendo que Ross no a quisesse por no ser mais virgem, preferiu guardar segredo.
  Aproveitaram ao mximo o tempo de visitas.
  Quando Ross foi obrigado a partir, Marianne se atirou na cama e chorou. Ross, por sua vez, seguiu contrariado, um aperto no corao causado pela revolta de ver 
Marianne naquele lugar horroroso. Tinha que fazer alguma coisa para libert-la. Se pudesse, libertaria todos os enfermos. No era crvel que pessoas pudessem dar 
tratamento to indigno a seus semelhantes. Pensar nos internos do hospcio causou-lhe grande revolta e a certeza de que seria capaz de mover cus e terra para tirar 
Marianne dali.
  No dia seguinte, Kate foi sozinha falar com o doutor Kramer. Pretendia, ela mesma, libertar Marianne. No dissera nada a ningum, nem a Ross. Kramer a recebeu 
com cerimnia e frieza. Esperou at que ela dissesse tudo o que tinha a dizer e, no final, rebateu com ar glido:
   Lamento, senhora Landor, so ordens expressas do seu marido. Marianne s sai daqui com a autorizao dele.
  Arrasada, Kate no tinha como contra-argumentar. O doutor Kramer foi categrico e muito pouco amigvel. Ela voltou para casa remoendo a desiluso e, quando David 
chegou do trabalho, despejou sobre ele toda a sua raiva e frustrao:
   Voc no tem o direito de me impedir de lev-la!
   Fiz isso para a proteo de todos.
   Mentira. Fez isso porque  egosta, mesquinho e cruel.
   Pouco importa, Kate!  esbravejou ele, j cansado daquele drama.  Marianne  louca e vai ficar onde est.
   Acho que voc no se lembra do que lhe disse.
   O qu? Que vai me deixar? Essa ameaa no me impressiona mais. Voc no tem como sustentar trs crianas sozinha.
  Kate sentiu a mgoa e a raiva inflarem seu peito, remoendo o desejo de cumprir a promessa e partir dali com os outros filhos. Todavia, ele tinha razo. Quando 
fizera aquela ameaa, no falava realmente a srio. Era uma mulher sem posses. No tinha como trabalhar com trs crianas para cuidar e ainda se preocupar com Marianne.
  Com um olhar glacial, Kate foi dormir no quarto vazio de Marianne. A partir daquele dia, nunca mais voltou a dormir com David. Naquele momento, algo dentro dela 
se rompeu, como se os vnculos que a ligavam ao marido houvessem se partido.
  O arrependimento levava-a a compreendera necessidade de amor e a reformular sua antiga opinio sobre a loucura. Os procedimentos do passado no mais encontravam 
eco na mente ou no corao de Kate. Estava agora distante das crenas do passado, vendo a loucura e os loucos com outros olhos, sensvel ao seu sofrimento e desejosa 
de possuir meios para ajud-los a todos.
  Foi essa dissociao que provocou um rompimento entre ela e o marido. Enquanto David permanecia ainda arraigado aos sentimentos do passado, Kate j comeava a 
se libertar e, em seu ntimo, comeou a idealizar um plano para salvar Marianne... sua filha.

  6
  Os feriados de Natal haviam terminado, e Ross acabou de arrumar as malas para voltar  escola. Partiria no dia seguinte, bem cedo, no sem antes falar com Kate. 
A tia o recebeu com um entusiasmo exacerbado e o levou para o quintal, onde poderiam conversar mais  vontade. Apesar do frio, no estava nevando, e o sol se insinuava 
pelas nuvens, deitando um pouco de calor sobre a cidade glida.
  Tomei uma deciso, Ross  afirmou ela com segurana.  Vou soltar Marianne.
   Como, se tio David no consente?
   No preciso do consentimento dele. Vou usar meus prprios mtodos.
   Que mtodos?
   Tenho tudo planejado. Vamos tirar Marianne de l... voc e eu.
   Impossvel. Pensa que j no pensei nisso? Observei bem o hospcio e posso lhe garantir que ele  muito bem vigiado.
   Pois vamos burlar essa vigilncia. Basta que prestemos um pouco de ateno aos controles de entrada e sada e ajamos com rapidez. No pode falhar.
  Em detalhes, Kate contou a Ross o seu plano. A ideia era simples e arriscada, mas podia dar certo.
  Depois que ela terminou, Ross segurou sua mo e exprimiu com profundo respeito:
  - Voc  uma mulher de muita fibra, tia Kate. Estou orgulhosa de voc.
  Ela enrubesceu e enxugou duas discretas lgrimas que insistiam em cair.
  - Sou me. Jamais deveria ter consentido em submeter minha filha a tratamento to desumano.
  - Ainda h tempo de consertar isso. Sua idia  boa e vai dar certo. Pode deixar que falarei com meus amigos da escola. Tenho certeza de que concordaro em ajudar.
  - timo.
  - Difcil vai se esperar at o fim das aulas.
  - Precisamos ter calma. Se nos precipitarmos, poderemos pr tudo a perder. Em breve voc far dezoito anos, terminar a escola e ningum mais poder mand-lo para 
longe.
  -Papai quer que eu faa faculdade. Se eu for, levarei Marianne comigo, como minha mulher.
   Kate sorriu agradecida e admirada com tanta maturidade num moo to jovem.
  -  isso mesmo o que quer? Casar-se com Marianne.  
          Minha vida sem ela no tem sentido algum.
           muito bonito esse seu amor por Marianne. Qualquer outro, no seu lugar, no estaria mais pensando nisso. Ainda mais porque no sabemos se o problema 
dela  hereditrio.
          Que seja. No me importo. Contento-me com o que Deus tiver reservado para mim.
  Ela deu um beijo discreto na face de Ross e finalizou:
          Obrigada, meu filho. Sem voc, eu no conseguiria enfrentar a minha culpa.
  Ross foi para casa. Ao chegar, o pai e Lilian estavam reunidos para o jantar. Cumprimentou-os brevemente e tomou a direo do quarto.
   No vem jantar?  indagou Nathan.
   No estou com fome.
  Depois que ele se foi, Lilian queixou-se ao marido:
   Esse menino anda muito estranho. Aposto que Kate coloca uma poro de bobagens na cabea dele.
   Ross j  um rapaz. No se deixaria influenciar por ningum.
    um rapaz tolo e sentimental. Ainda pensa que gosta de Marianne.
   Mas ele gosta.
   Que rapaz bonito e rico feito Ross vai querer perder seu tempo com uma louca? Kate  que deve estar fazendo alguma chantagem com ele. Voc no devia permitir 
que ele a visite.
   Perdi o controle sobre Ross. Ele no me obedece mais.
   E por causa disso permite que ele e Kate falem de mim pelas costas?
   De onde tirou essa ideia? Aposto como eles nem tocam no seu nome.
   Duvido. Aquela mulher me odeia.
   Como se voc gostasse dela  murmurou.
  No dia seguinte, bem cedo, Nathan foi levar Ross de volta  estao de trem. Os feriados tinham terminado, e havia ainda um semestre inteirinho de aulas antes 
da formatura. Era preciso pacincia e uma boa dose de sangue frio para, sabendo o que ele sabia, aguardar o momento oportuno para agir.
  O plano para libertar Marianne parecia perfeito, contudo, a espera  que seria longa demais, inclusive para Kate. Daquele dia em diante, ela e David se tornaram 
praticamente estranhos, e todo cuidado era pouco para que ele no descobrisse suas intenes.
  No domingo seguinte, quando Kate chegou ao hospcio, foi informada de que Marianne estava doente e no podia receber visitas.
   Quero ver minha filha  disse imperiosa ao atendente na mesa de recepo, de onde no lhe permitiram passar.
   Lamento, senhora, mas tenho ordens para no deix-la entrar  avisou o atendente.
   Como assim? Sou a me dela.
  -        Marianne no est bem. E, no estado em que se encontra, est impossibilitada de receber visitas.
   No me interessa. Quero v-la agora.
   Sinto muito...
   Escute aqui, rapaz! Ou voc me deixa ver Marianne , ou vou daqui direto para a polcia e digo que vocs sumiram com a menina. Vocs tm que me dar conta da minha 
filha!
  O atendente no estava gostando nada daquilo. Recebera ordens de no deixar ningum passar para ver Marianne e nem sabia por qu. Entretanto, no lhe disseram 
que teria que lidar com a polcia.
   Aguarde s um minuto. Vou ver se o diretor pode atend-la.
  Saiu apressado, deixando Kate furiosa no saguo de entrada. Prevenido, o doutor Kramer quis ignorar a presena dela, s no o fazendo porque no queria a polcia 
bisbilhotando em seus assuntos. Marianne no estava realmente doente. Recebera uma forte dose de ludano e entrara em choque. Por pouco, no a perdia.
  Minutos depois, ele apareceu. Veio com um sorriso idiota no rosto e mandou que a deixassem entrar. Kate teve que se conter para no esbofetear a sua cara macilenta 
e vermelha.
   Senhora Landor  disse ele com disfarada cortesia , lamento o transtorno.  que no so permitidas visitas na ala das enfermarias, para evitar qualquer tipo 
de contaminao.
   S o que quero  ver minha filha. Tenho esse direito. No sou visita, sou a me dela. Ou o senhor me deixa entrar, ou vou  polcia.
  Ele balanou a cabea e indicou-lhe o caminho da enfermaria. Kate seguiu em silncio, rezando para que Marianne estivesse bem. Enquanto seguiam, o mdico ia falando:
   Marianne teve um choque sbito. Talvez tenha sido algo que comeu.
   Desde quando comida causa choque sbito? Francamente, doutor, posso no entender nada de medicina, mas no sou estpida.
  Alcanaram a enfermaria, e ele empurrou a porta vagarosamente, dando-lhe passagem. Foram andando pelo corredor formado entre as camas, e a viso lastimvel dos 
vrios doentes jogados ali lhe causou imenso mal-estar. Contendo a revolta, a indignao e a compaixo por toda aquela gente, Kate foi caminhando, at que chegaram 
ao leito de Marianne. Ao v-la, Kate levou um susto. Ela estava plida feito cera, os olhos cerrados circundados por imensas e fundas olheiras.
   O que h com ela?  indagou assustada. A enfermeira no sabia o que dizer e fitou o mdico, que respondeu com aparente calma:
   Como lhe disse, ela teve um choque sbito. Parecia estar bem, at que comeou a gritar e desmaiou. Foi trazida para c e medicada, mas ficou assim.
  Kate examinou bem o rosto de Marianne, que mais parecia uma morta-viva.
   Que espcie de profissionais vocs tm aqui, doutor Kramer, que no sabem cuidar de uma doente?  tornou ela com raiva.
  O sangue subiu s faces de Kramer, mas ele disfarou e retrucou com voz que mal continha a ira:
   Nossos enfermeiros so muito capazes e treinados. Contudo, lidam com loucos, que, como a senhora sabe, so imprevisveis.
  Kate virou-lhe as costas e aproximou-se da cama da filha, sentindo-lhe a fraca respirao. Com lgrimas nos olhos, abaixou-se perto dela e beijou-a na face, surpresa 
com a frieza e a aspereza de sua pele.
   No se preocupe, Marianne  sussurrou bem baixinho em seu ouvido, de modo que somente ela pudesse ouvir.  Ross e eu vamos tir-la daqui.
  Ela pareceu compreender, porque um leve tremor agitou os seus lbios, mas no pde falar. Kate afagou seus cabelos e se virou para sair, lutando para conter o 
pranto. J no corredor, encarou o doutor Kramer e disparou:
   No pense que me convenceu com a sua histria, doutor, porque no convenceu. Por ora, contudo, no h nada que eu possa fazer alm de lhe dar um aviso: cuidado 
com seus mtodos. Se alguma coisa acontecer a minha filha, venderei tudo o que tenho para pagar o melhor advogado da Inglaterra e me certificar de que o senhor seja 
preso por tempo suficiente para que nunca mais possa atingir ningum. Entendeu?
  Sem esperar resposta, rodou nos calcanhares e saiu a passos firmes, deixando Kramer indignado e furioso com o seu atrevimento. Naquele momento, veio-lhe a certeza: 
no podia libertar todos os loucos do hospcio, mas poderia, ao menos, livr-los do doutor Kramer.

  7
  Os seis meses seguintes pareceram a Ross uma eternidade. Em meados de abril, completou dezoito anos, satisfeito com a maioridade, que, finalmente, lhe permitiria 
casar-se com Marianne. O fim do ano letivo tambm se aproximava, e a formatura no tardaria. Quando sasse da escola, arranjaria um bom emprego, talvez num banco, 
onde ganhasse o suficiente para sustent-la. Mais tarde, quem sabe, ingressaria na universidade.
  Um dia, logo aps a prova de matemtica, Ross chamou os rapazes para uma conversa.
   Vocs so meus amigos?  perguntou.
   Voc sabe que sim  respondeu Vincent.
   Por que a pergunta?  estranhou Arnold.
   Todos sabem de meu amor por Marianne, no sabem?  eles assentiram.  Pois vou precisar da ajuda de vocs.
   Que espcie de ajuda?  tornou Arnold, inquieto.
   Tia Kate e eu temos um plano para tirar Marianne do hospcio. S que, sozinhos, no conseguiremos realiz-lo.
   Voc ficou louco?  objetou Arnold.  Quer que sejamos presos?
   Ningum vai ser preso. Se fizerem tudo direitinho, todos sairemos muito bem.

  - E se algum descobrir?  ops Vincent.
   Ningum vai descobrir  continuou Ross.  Tia Kate planejou tudo direitinho. Nada pode dar errado.
   Quero primeiro saber que plano  esse  pediu Arnold.
   Tudo bem. O plano de tia Kate  muito simples, porm, seguro. Todos os domingos, dia de visita, os visitantes so obrigados a dar seus nomes na entrada, e um 
atendente vai anotando num livro, junto com a hora de chegada. Na sada, do o nome de novo, e ele anota a hora de sada na coluna ao lado do nome respectivo.  
assim que controlam quem entra e        quem sai.
  Quando Ross terminou de contar o plano de Kate, os amigos o fitaram com admirao e respeito. Era uma ideia ousada, que tinha tudo para dar certo. Se cada um cumprisse 
bem o seu papel, nada poderia sair errado.
   Muito bem  falou Arnold.  Conseguiu me convencer. Vou adorar participar da encenao. Acho que vai ser divertido.
   Eu tambm  concordou Vincent.  O plano  arriscado, mas  o perigo que traz a emoo. Pode contar comigo.
  Com a concordncia dos amigos, Ross dedicou-se s provas, riscando no calendrio os poucos dias que faltavam para o trmino das aulas.
  Rapidamente, Marianne se recuperou da superdose da droga e voltou ao dormitrio. Registrara na mente algumas palavras, que pareciam ter sido ditas num sonho: Ross 
e eu vamos tir-la daqui. Era a voz da me. Marianne animou-se com aquela promessa e tentou conversar com Kate, que no lhe deu chance de falar, temendo que ela 
estragasse tudo. E como Kate no voltara a tocar no assunto, ficou imaginando se no teria sido obra de algum de seus amigos invisveis, como os enfermeiros os chamavam. 
Por isso, em pouco tempo, a promessa caiu no esquecimento, e ela retornou  indiferena.
  Os amigos invisveis tambm haviam escutado aquela histria e no estavam nada satisfeitos. Principalmente Luther. No era de seu interesse que Marianne sasse 
do hospcio, onde eles tinham livre acesso a ela, principalmente para ir viver com Ross. O amor do menino era suficiente para estragar seus planos. Com a insuportvel 
onda de amor que emanava do corao de Ross, ficaria praticamente impossvel, para eles, atuarem sobre ela.
  No foi por outro motivo que Luther intensificou seu assdio. No podia facilitar, e estar junto dela, sempre que possvel, era essencial naquele momento. Com 
esse intuito, aproximou-se novamente.
   Ol, Marianne  cumprimentou, sentando-se ao lado dela e de Eric no jardim.
  Eric tambm j se acostumara com Luther e no estranhou sua presena ao lado de Marianne.
   Ol, Luther  respondeu ela, sem muito interesse.  Andou sumido.
    verdade.  que sou um homem muito ocupado e tenho uma cidade inteira para comandar.
   Voc comanda uma cidade?  espantou-se Eric.
   Luther  uma pessoa importante  esclareceu Marianne.
   Quero falar com voc a ss, Marianne  continuou o esprito.
   Agora no estou com vontade. Eric e eu estamos observando os pssaros. Temos que aproveitar enquanto Escobar no est aqui. Daqui a pouco ele volta...
  No lhe deu tempo de concluir. A um gesto seu, duas sombras que os olhavam  distncia se aproximaram de Eric e colocaram a mo em sua nuca.
  Na mesma hora, o menino comeou a espernear e a xingar, atraindo a ateno dos enfermeiros. James e        Grando, a muito custo, conseguiram cont-lo, e Mike 
lhe aplicou uma injeo calmante. O menino foi-se acalmando e adormeceu, at que os enfermeiros o ergueram e o levaram para dentro.
   Isso no se faz, Luther  censurou Marianne.
  Os enfermeiros a ouviram repreender o invisvel e deram um riso debochado. Marianne no se cansava. Sempre falando com seus fantasmas.
   A culpa foi sua  objetou ele.  Eu disse que queria falar a ss com voc.
   O que ?
   No quero que voc saia daqui.
   Quem disse que vou sair daqui?
   Voc no pode me deixar  prosseguiu ele, aps alguns segundos em que permaneceu encarando-a.  No depois do trabalho que tive para encontr-la.
           Voc no me respondeu  tornou ela desconfiada.  Quem disse a voc que vou sair daqui?
   Ningum me disse nada. S que quero lhe dar um aviso. No posso levar voc comigo, mas posso fazer com que jamais se esquea de mim.
  Afastou-se aborrecido. Estava prestes a perd-la, o que o irritava sobremaneira. Logo em seguida, dois outros vultos apareceram e se colaram a Marianne. Ela os 
viu se aproximar e tentou fugir.
   Por que  que no me deixam em paz?  esbravejou ela  No estou com vontade de companhia hoje.
  Os vultos nada disseram. Colados a ela, comearam a sugar as suas foras e a dominar os seus centros nervosos. Em breve, a subjugaram. Quase inconsciente, Marianne 
saiu correndo pelo jardim e foi ao encontro de Mike, que j havia voltado l de dentro. De frente para ele, Marianne rasgou a roupa e comeou a gritar-lhe palavras 
obscenas, que nem conhecia.
  Mike se assustou. Era a primeira vez que ela fazia aquilo. Marianne costumava ser uma menina tmida. Agressiva, porm, tmida, e nunca se comportara de maneira 
a chamar a ateno. Ao contrrio, vivia quieta e calada, e s reagia quando provocada.
  Confuso, Mike tentou cont-la, segurando-a pelos punhos. Ela se debateu e falou espumando:
   O que h, covardo? Perdeu o desejo por mim, foi?
  Atirou-se contra ele, tocando em suas partes ntimas e tentando lamber o seu pescoo, mas ele conseguiu afast-la.
   Acalme-se, Marianne!  repreendeu ele, em tom ameaador.
Desvencilhando-se dele, Marianne saiu correndo pelo jardim, com a camisola rasgada, e aproximou-se de outro doente. Era John, o menino retardado com quem disseram 
que ela havia feito sexo. Ele estava sentado na grama, e ela saltou em cima dele, fazendo-o deitar-se de costas. Sentada sobre ele, levantou a camisola rasgada e 
comeou a esfregar os seios em seu rosto, enquanto ele tentava afast-los, para no sufocar. Os enfermeiros, achando a cena engraada e picante, diminuram o passo, 
rindo e j comeando a ficar excitados. John soltava grunhidos estranhos, feito um animal, deixando Marianne cada vez mais irritada.
  John comeou a se debater e,  medida que se agitava, Marianne pulava sobre ele, como se o estivesse cavalgando. Mike e Grando riam cada vez mais, pensando em 
qual dos dois, naquela noite, seria o primeiro a se aliviar com Marianne. Estava claro que a menina tomara gosto pela coisa e tentava provoc-los para que eles a 
possussem.
   Muito bem  disse Mike a Grando.  Se  disso que ela gosta, faremos a sua vontade. A noite hoje vai ser quente, meu amigo. Que tal se a levarmos para a lavanderia? 
L, a farra pode ser muito melhor. Podemos at arrumar uma outra para incrementar a coisa.
  Grando ria gostosamente, levando a mo  barriga, quando escutaram gritos agoniados. Olharam ao mesmo tempo e desataram a correr. Completamente fora de si, Marianne 
batia com a cabea de John no cho, gritando e xingando-o dos palavres mais feios.
  Logo, os dois enfermeiros chegaram com a camisola e a prenderam. Com medo de dop-la em demasia, ergueram-na e saram com ela, ainda se debatendo.
   O que faremos?  indagou Grando.  O doutor Kramer est l embaixo com Eric.
   Vamos amarr-la na cama e esperar. Ele nos dir o que fazer.
  Duas horas depois, Marianne entrava de novo no quarto do poro, ao som da Sonata ao Luar. Assim que entrou, Eric saiu na outra maca, e os espritos se descolaram 
dela, provocando uma lucidez sbita. Ela ainda os via, contudo, no sentia mais vontade de fazer aquelas coisas e logo se deu conta do que estava para acontecer. 
Comeou a chorar e a se debater.
   No adianta chorar  repreendeu um dos espritos.  So ordens de Luther. Voc tem que pagar!
   Pagar...?  balbuciou ela.  No lhe devo nada.
   Cale a boca, Marianne!  esbravejou o doutor Kramer, impaciente.  No tem ningum a. Voc j me causou problemas demais. Quem vai me pagar  voc. E nem um 
pio a sua me, ouviu? Ou dou um jeito de acabar com a sua vida sem levantar suspeitas.
  Marianne olhava do mdico para os espritos, que riam sarcasticamente. De repente, Luther surgiu diante dela, rindo tambm.
   No adianta, Marianne  falou ele com ar aterrador.  No vou deixar voc sair impunemente. Quer ir embora? Que v. Mas no sem antes passar por toda sorte de 
sofrimentos que eu puder lhe impingir.
   Por que est fazendo isso?  tornou ela magoada.  Pensei que fosse meu amigo.
   Amigo? Besteira! Voc  minha inimiga. Sempre foi! E agora chegou a hora de me pagar!
   No, no!  gritava ela, enquanto os enfermeiros passavam as correias ao redor de seus punhos. No vou pagar nada, no vou!
  Pensando que Marianne se referia a ele, Kramer respondia com ar de mofa:
   Ah! vai sim. Vai me pagar por toda humilhao que me fez passar diante de sua me.
   No! No!
  Enquanto ela gritava, o doutor Kramer mandou que aumentassem o volume do fongrafo, dando incio a mais uma de suas sesses de tortura. Marianne sentiu uma picada 
no pescoo, e tudo a sua volta comeou a rodar. Como se isso no bastasse, veio a violncia do choque em sua cabea, e ela foi perdendo a conscincia, enquanto a 
msica estourava em seus ouvidos e as gargalhadas de Luther e dos outros vultos invadiam a sua mente.
   Bem feito!  rugia Luther.  Quis se livrar de mim? Pois agora vai ver s! Prometo muitas sesses dirias de castigos. Eu prometo... prometo...
  A voz de Luther foi sumindo, sumindo, at que cessou por completo. Marianne cerrou os olhos e apagou, pensando se no seria melhor morrer.

  8
  A formatura de Ross transcorreu em clima de entusiasmo e muitos planos para o futuro, dos quais Nathan no tinha conhecimento. Somente o pai estivera presente 
 cerimnia e voltara s pressas para Londres, pois teria que partir em viagem de negcios a Southampton na segunda-feira de manh.
   Mal vejo a hora de voltar para casa  anunciou Ross eufrico, enquanto acompanhava o pai  estao de trem.
   Espere eu voltar de Southampton  contraps Nathan.
   Por qu? Agora que as aulas terminaram, no tenho mais motivos para permanecer em Oxford.
   E a universidade?
   J conversamos sobre isso. Para o ano, quem sabe?
   No devia estragar a sua vida por causa de Marianne.
   Voc no entende mesmo, no , pai? No percebe que, sem Marianne, minha vida j est estragada?
   No compreendo. Um menino que tem tudo. Como foi se apaixonar pela prima louca?
   Quem disse que estou apaixonado por ela?
   Ningum precisa dizer. Sou um homem experiente, sei das coisas. E  por isso que lhe digo que esse romance com Marianne no vai levar a lugar nenhum. Ela  doente, 
e voc, muito jovem para cuidar de uma menina assim. No  possvel que no tenha conhecido outras garotas.
   Outras garotas no me interessam. Voc tem razo, sou mesmo apaixonado por Marianne.  algo que no posso explicar.
   Vocs foram criados juntos. No est misturando os sentimentos? No  porque  mais velho e, por isso, sente-se responsvel por ela?
  Ele pensou durante alguns momentos, at que meneou a cabea e considerou:
   No  que me sinta responsvel. Sinto-me protetor e sei que essa proteo vem do amor que tenho por ela. Quando estamos juntos, tenho vontade de beij-la e estreit-la. 
Isso no  amor?
  Nathan no respondeu. No conseguia compreender aquele sentimento e era melhor no questionar. O que o preocupava naquele momento era a reao de Lilian quando 
Ross voltasse para casa. Sem ele para contornar as coisas, temia uma catstrofe em seu lar. Ao menos fora o que Lilian lhe dissera. Planejando um fim de semana a 
ss com o amante, convencera o marido a impedir a volta de Ross at que ele retornasse de sua viagem de negcios cuidadosamente arranjada para Southampton.
   Voc j est um homem  afirmou Nathan aps alguns minutos de reflexo.  No posso mais mandar em voc. Nem Lilian.
   Ela nunca mandou em mim  revidou ele com raiva.  Francamente, pai, no sei como suporta aquela mulher mesquinha e ftil.
   Sou casado com ela.
   Isso no  desculpa. Devia se impor, ao invs de permitir que ela lhe d ordens e faa exigncias. Lilian  insuportvel. Por causa dela, tive que me afastar 
de tia Kate.
   Tambm sinto falta de meu irmo, contudo, no posso contrariar minha esposa. No se esquea de que sua tia a desfeiteou.
   S voc para acreditar numa infmia dessas.
   No importa, Ross. Isso tudo  passado. A situao entre voc e Lilian permanece a mesma. E  para evitar desavenas que peo a voc que aguarde a minha volta. 
So s cinco dias.
   Posso ficar com tia Kate.
   Por favor, no...
   Pensando bem, acho que  isso mesmo que vou fazer. Vou tomar o trem direto para a casa dela.
   No faa isso, eu lhe imploro  suplicou Nathan, com angstia na voz.  No posso perder o meu filho.
   Passar uns dias na casa de meus tios no vai fazer voc me perder.
   Tenho medo de que, acostumando-se ao ambiente de sua tia, voc no volte mais para casa.
   Voc est  com cimes.
   Que seja. Mas voc no pode, ao menos uma vez, fazer a vontade de seu pai? Depois que eu voltar, voc poder fazer o que quiser da sua vida. Por favor... Voc 
 tudo que me resta.
   E sua mulher?  tornou com desdm.
   No  a mesma coisa. Lilian  minha esposa. Voc  meu sangue. Conto com voc para me ajudar a suportar os meus dias.
   Voc no quer admitir que sua vida com Lilian est se tornando insuportvel, no ? Do contrrio, por que me diria essas coisas?
   Por favor, meu filho,  s o que lhe peo. Voc no sabe o quanto tenho sentido a sua falta.
   Entendo os seus argumentos, mas isso no  motivo para me reter aqui. Vou ficar com tia Kate e depois, quando voc voltar de Southampton, volto para casa.
   Promete?
   Prometo. No se preocupe.
  Despediram-se com abraos efusivos, e Ross percebeu o quanto era importante para o pai. Aquela mulher estava acabando com ele, sugando tudo o que podia. No era 
justo. Ele e Nathan haviam se distanciado por causa dela. No entanto, ainda havia um forte sentimento de pai e filho unindo os dois. No teve coragem de dizer-lhe 
que pretendia fugir com Marianne. Faria isso quando ele voltasse, pois no queria que Nathan partisse em uma viagem de negcios levando tantos problemas na mala.
  Era uma segunda-feira nublada quando Nathan partiu para Southampton, contrariado por ter que deixar Londres justo no retorno do filho. Mas alguns clientes naquela 
cidade pareciam insatisfeitos, ameaando fechar negcios com uma empresa concorrente, e ele precisava resolver a questo, levando-lhes amostras de novos tecidos 
de qualidade, a preos de ocasio.
  Apanhou o trem das seis horas e recostou-se no banco, adormecendo em seguida. Por cerca de meia hora, o trem percorreu os trilhos com suavidade, exalando sua fumaa 
cinzenta no cu enevoado da manh. Nathan sentia o balano ritmado do vago a embalar-lhe o sono, desviando de seus pensamentos todas as preocupaes. Tudo corria 
bem, at que os freios foram subitamente acionados, sacolejando toda a composio e atirando pessoas e coisas para a frente e para o cho. Foi uma gritaria geral. 
Os que estavam dormindo acordaram apavorados, imaginando em que terrvel acidente haviam se envolvido.
  Finalmente, o comboio parou, e todo mundo se levantou, tentando ajeitar-se da melhor forma. Algumas pessoas estavam um pouco feridas, embora no gravemente. Quase 
ao mesmo tempo, todos correram para a janela, a fim de verificar o que havia acontecido. Num cruzamento de nvel prximo, duas composies haviam se chocado, fechando 
as linhas de acesso. O auxlio comeava a chegar, com sirenes estridentes e pessoas gritando, dando incio  retirada dos corpos e feridos, muitos dos quais ainda 
presos nas ferragens.
  Fechada a linha, ningum podia passar. Nathan ainda tentou argumentar, no entanto, no houve jeito. Era impossvel atravessar de trem por ali. O jeito era voltar 
e tentar no dia seguinte. Mais aborrecido do que nunca, Nathan voltou para casa, sob ameaa de perder o negcio e, pior, o emprego. O senhor Bradley realmente ficaria 
muito insatisfeito com aquele contratempo, contudo, no era culpa sua. Subiu no nibus posto  disposio dos passageiros pela companhia ferroviria, retornou  
estao de trem e dali tomou um bonde para sua casa.
  Enquanto isso, Ross fazia a viagem de volta a Londres em companhia dos amigos, cuidadosamente repassando o plano de fuga. Vindo de ramais distintos, os comboios 
de pai e filho no se cruzaram, percorrendo, cada um, direes diferentes. Ao passo que o trem em que Nathan estava ia para o sul, o de Ross vinha do norte, de forma 
que o rapaz no ficou sabendo do acidente que fez o pai retornar.
  Enquanto o trem de Ross chegava a Londres, Nathan j subia a rua a passos lentos. Vinha alquebrado, preparando-se para o interrogatrio a que Lilian o submeteria 
quando chegasse. Deixaria a mala em casa e iria para o trabalho conversar com o patro. O senhor Bradley haveria de entender que, se perdesse o negcio, no seria 
culpa sua.
  Na porta de casa, parou, reunindo nimo para entrar e enfrentar o mau humor usual da mulher. Olhou para os dois lados da rua, desejando que o filho despontasse 
em uma das esquinas, arrependido por no ter consentido que fosse para casa. Como gostaria que Ross estivesse ali! Mas ele no estava, e era preciso dar continuidade 
 vida. De cabea baixa, pisou no pequeno caminho de pedras que cortava o gramado, conduzindo  porta da frente. Ao segundo passo, estacou. Bem na entrada, um automvel 
estacionado lhe causou imensa sensao da familiaridade. A lembrana despontou com a rapidez do pensamento, e ele se virou de forma abrupta, fixando o olhar no colorido 
desmaiado e inconfundvel do veculo.
  Com a quase certeza da traio, que a teimosia do medo pretendeu rechaar, abriu a porta e entrou em silncio, depositando a mala no vestbulo. A manso estava 
quieta, sem sinal visvel de habitante, a no ser por Nora, que cantava baixinho na cozinha. Com todo cuidado para no emitir nenhum som, Nathan foi seguindo pela 
sala. O mais silenciosa e mansamente que podia, subiu as escadas, evitando o ranger dos degraus. P ante p, chegou  porta do quarto. Colou o ouvido  porta e escutou. 
De dentro, vinham risinhos abafados, gemidos e suspiros carregados de xtase.
  O sangue de Nathan ferveu. Quis irromper porta a dentro e flagrar a mulher e o amante em seu ato nojento de amor, porm, no conseguiu se mover. O medo e a vergonha 
o paralisaram, causando terrvel hesitao. Ser que deveria mesmo surpreend-los? Ou no seria melhor voltar pelo mesmo caminho, fingindo que nada havia acontecido? 
Assim poderia continuar levando sua vidinha insossa, sem que Lilian soubesse o que ele sabia dela.
  Arrasado, retirou a mo da maaneta e se voltou, no exato instante em que Nora vinha subindo as escadas, com a vassoura e o espanador na mo. Ela soltou um grito 
agudo e largou tudo no cho. Em poucos instantes, a porta do quarto se escancarou e Richard saiu, em mangas de camisa e ceroulas, seguido por Lilian, que vestia 
apenas um penhoar fino e transparente, sem nada por baixo para encobrir-lhe a nudez.
  Os trs se olharam perplexos, e Richard comeou a gaguejar:
   Nathan... o que... que faz aqui...?
  A viso quase desnuda da mulher, na companhia de seu chefe, trouxe Nathan de volta  realidade e fez dissipar sua covardia. Saltou em cima de Richard e ps-se 
a esbofete-lo, ao mesmo tempo em que gritava:
   Cachorro! Canalha! Cafajeste! Como se atreve a trair-me debaixo de meu prprio teto?
  Richard revidou e, em breve, sobraram socos e pontaps para todos os lados. Lilian, boquiaberta, no tinha coragem de falar, e Nora voltou correndo pelas escadas, 
com medo de ser responsabilizada por no ter dado o sinal. Em determinado momento, Richard se desvencilhou e, evitando os golpes desencontrados do outro, conseguiu 
dominar Nathan. Empurrou-o de encontro  parede, espremendo sua face na aspereza do reboco, e torceu-lhe o brao para trs.
   Devia me agradecer, Landor!  vociferou, entre colrico e sarcstico.  Voc no era nada at eu aparecer. Eu o transformei num homem rico. Foi graas a mim 
que conseguiu tudo o que tem. Inclusive a mulher!
  Sem poder se mexer, Nathan gritou vencido:
   Solte-me!
  O outro deu uma gargalhada irnica e prosseguiu: 
   Por que acha que ela se casou com voc? Poramor?  claro que no, e voc seria muito estpido se acreditasse nisso. Ela s se casou com voc porque no podia 
se casar comigo. Voc foi o nosso disfarce, uma forma de manter Lilian perto de mim sem levantar suspeitas.
  Foi um raio fulminante a cortar o corao de Nathan, imprimindo-lhe a dor da humilhao e da revolta. Agora compreendia tudo: o mau humor de Lilian, as viagens, 
as promoes sucessivas. Nathan percebeu o quanto fora idiota e sentiu raiva de si mesmo. Brigara com o irmo, afastara-se da famlia, privara o filho do convvio 
com os seus. E tudo por qu? Por uma mulher que nada valia e que o usara para acobertar seu romance esprio.
  Vencido e humilhado, Nathan choramingava baixinho. Satisfeito com a derrota moral do outro, Richard soltou-lhe o brao, e o corpo alquebrado de Nathan, sem foras 
para lutar ou resistir, deslizou at o        cho, onde permaneceu, rosto colado na parede, engolindo o pranto e a vergonha.
   Se quer continuar a ocupar o importante cargo que ocupa na minha fbrica  advertiu Richard , finja que no houve nada aqui hoje. Esquea o que viu, e tudo 
voltar ao normal. Caso contrrio, vse acostumando a viver na misria, que  para onde voc e o seu filhinho ho de voltar.
  Como Nathan se odiou naquele momento por no conseguir reagir. Sentia desprezo de si mesmo, de sua incompetncia e covardia. Por que no encarava o        rival 
e tomava uma atitude?
   Levante-se, Nathan  ordenou Lilian friamente , e pare de fricotes. Voc  um homem ou um maricas?
  Nesse momento, de forma inesperada, um vulto surgiu no alto da escada. Ross nem sabia ao certo por que mudara o rumo no ltimo instante, tomando a direo de sua 
casa, ao invs da casa da tia. S o que sentiu foi que precisava ir para l. No entendia por que nem questionara a si mesmo, dando vazo ao pensamento intuitivo 
de que sua presena seria de fundamental importncia naquela hora.
  Ao despontar no final do corredor, o que viu o encheu de indignao e revolta: o pai, sendo humilhado pelo amante da madrasta, em sua prpria casa! Seu sangue 
jovem e indomado borbulhou a tal ponto que, cego de dio, investiu contra Richard e, interpondo-se entre este e o pai, disparou com assustadora fria:
   Saia daqui, verme! Ou serei capaz de mat-lo.
  Apesar da vontade de contestar, Richard sentiu a superioridade moral do outro, incapacitando-o de reagir. Por pouqussimos segundos, seus olhos se cruzaram, provocando 
um calafrio na pele do homem mais velho, que recuou com medo. Dono da situao, Ross agarrou-o pelo colarinho e saiu arrastando-o pelo corredor e escada abaixo, 
sem se deixar abater pela resistncia de Richard, que, sentindo-se preso, lutava para se soltar.
   Largue-me, moleque!  conseguiu falar.
  Alheio aos protestos dele, Ross continuou a pux-lo, forando-o a segui-lo aos tropees. Com uma das mos, escancarou a porta com estrondo e empurrou Richard 
de qualquer jeito para fora, fazendo com que ele rolasse os degraus e se estatelasse no cho, esfolando as faces nas pedras da entrada.
   Nunca mais ouse voltar a esta casa  ameaou, fremente de dio.  Se no quiser que o mate com minhas prprias mos.
  Bateu a porta com fora, e Richard se viu a ss no jardim, em mangas de camisa e ceroulas. Pouco depois, suas roupas voaram pela janela, e ele as recolheu apressadamente, 
apanhando as chaves do carro e disparando para o interior do automvel.
  Do lado de dentro da casa, Lilian tremia de medo de Ross. Nunca o vira dominado por tanta ira e violncia. Toda encolhida a um canto, ps-se a chorar e a se justificar 
com fingido arrependimento:
   No foi culpa minha. O senhor Bradley me obrigou. Fez chantagem. Disse que ia despedir seu pai...
  - Cale-se, vadia!  berrou ele, transtornado.
    verdade... Por favor, acredite!
  Sentada na beira da cama, com parte do corpo  mostra, as mos postas em sinal de splica, ela lhe pareceu pattica. Teria sido melhor se no tivesse dito nada 
e assumido sua culpa. Ao menos, seria mais digno. Ela comeou a agitar os braos, implorando perdo, e o penhoar se abriu quase todo, causando tamanha fria em Ross 
que, por pouco, no a agrediu tambm.
  Cubra-se, ordinria!  esbravejou o rapaz.
   No nos embarace ainda mais com a sua falta de vergonha!
   Deixe-a, Ross  interrompeu Nathan, com voz que o sofrimento tornava fria.  Ela no merece a sua raiva.
   No v me dizer que ainda pretende ficar com ela!  indignou-se.
   Lilian no  digna do nosso perdo ou respeito
          Ross sorriu vitorioso, e ele continuou:  Vamos, mulher. Apronte suas coisas e saia daqui!
   Nathan...  choramingou ela.  Voc no pode. Se fizer isso, vai perder o emprego, vai perder tudo. Do que  que vai viver?
   Pensa que me importo?  respondeu Nathan, cada vez mais glido.  No me importo. Comecei de baixo e posso voltar para l. E Richard fez um trabalho bem feito. 
Ensinou-me tudo que eu precisava saber para me tornar um bom diretor de vendas. Tenho recebido vrias propostas de emprego e s no aceitei antes por fidelidade 
ao senhor Bradley.
   O que est esperando, Lilian?  vociferou Ross, interrompendo o desabafo de Nathan.  No ouviu meu pai mandar voc pegar suas coisas e sair?
   Voc no pode fazer isso comigo! Sou sua mulher...
   Saia daqui!  esbravejou Nathan.  V procurar seu amante e pea a ele que a ajude! De mim, no ter nada!
   No, Nathan, escute-me...
  Ela tentou segur-lo pelos braos, mas ele se desvencilhou e a empurrou, deixando-a aos prantos no cho. Lilian sabia que, sem o disfarce de Nathan, Richard tambm 
lhe voltaria as costas. No iria comprometer o casamento e a fortuna.
  Nathan saiu do quarto, com Ross atrs dele. Desceu as escadas s pressas e irrompeu na cozinha feito uma bala.
   Voc tambm, Nora  disse em tom imperativo para a criada.  Apanhe suas coisas e suma. Est despedida.
  Pouco depois, Lilian apareceu toda chorosa, vestida e carregando duas pesadas malas. Parou na sala, onde Nathan e Ross aguardavam, e lanou ao marido um olhar 
esperanoso. Nathan, contudo, levantou-se furioso e subiu correndo para o quarto, sem olhar para ela. Lilian enxugou os olhos e ergueu as malas, esticando o pescoo 
para olhar a cozinha. De Nora, nem sinal.  primeira ordem de Nathan, tratara logo de sumir.
  Ela pousou uma das malas no vestbulo e abriu a porta. Quando se voltou para peg-la, deparou-se com Ross, encarando-a com tanta frieza que ela se arrepiou toda.
   Mande-nos depois o endereo... E aguarde a visita do advogado.
  De Ross, no podia esperar mesmo nada. Lilian mordeu os lbios e engoliu o dio que sentia dele. Nem sabia para onde ia, como podia ele pretender que lhe mandasse 
o endereo? E para qu? Para receber a visita de um advogado que, muito provavelmente, a obrigaria a assinar o divrcio?
  O carro de Richard no estava mais parado ali. Com certeza, ele se fora, temendo ser descoberto ou visto por algum. Era apenas ela, agora. No contar com mais 
ningum, apenas consigo mesma. Permanecera, sozinha, presa ainda s iluses transitrias do mundo.

  9
  Depois que Lilian e Nora se foram, pai e filho se sentiram unidos como h muito no acontecia. Nathan no voltou mais ao emprego, mas enviou uma carta de demisso. 
O estado dele era de visvel abatimento, e Ross preferiu adiar o momento de lhe contar sobre seus planos a respeito da libertao de Marianne. Ia, todos os dias, 
visitar os tios e os primos, mantendo contato quase dirio com os amigos que iriam ajud-lo. Em casa de Kate, repassaram o plano vrias vezes, at que cada um ficasse 
bem seguro do que deveria fazer.
  A execuo do plano teve que ser adiada vrias vezes, j que Marianne era agora usualmente conduzida  enfermaria, devido  forte reao ao ludano e outras drogas 
calmantes. Sabedor dos planos de Kate e Ross, Luther tudo fazia para impedir a sua concretizao, e como no podia atingi-los diretamente, direcionava seus fluidos 
malignos para a menina, que, associando-os ao efeito dos narcticos, tornava-se presa de torpores quase invencveis.
  Chamar a polcia, naquele momento, podia comprometer o doutor Kramer, mas, certamente, no livraria Marianne dos grilhes do hospcio e atrairia, para ela, a ateno 
das autoridades. Kate no podia pr em risco a fuga da filha. De qualquer jeito, precisavam libert-la. Desesperada, Kate e Ross fizeram a nica coisa possvel naquela 
situao: rezaram.
  Setembro entrou com a deflagrao da guerra e a rpida entrada do Reino Unido no conflito, decidindo o rumo dos acontecimentos. Ross e seus amigos ainda no haviam 
sido convocados, mas, de qualquer forma, Vincent e Arnold tiveram que retornar a Oxford, para o incio das aulas.
   Voltaremos no prximo fim de semana prometeu Vincent.  E tiraremos Marianne de l de qualquer jeito. Ainda que tenhamos que arrombar a enfermaria.
   Est certo  retrucou Kate em tom agradecido.  Acho que estamos todos prontos. Deus h de nos ajudar, e Marianne estar em condies de seguir conosco.
   No se preocupe  recomendou Arnold. Faremos tudo direitinho. No haver erros.
   E estaremos l no domingo, sem falta acrescentou Vincent.  Pode contar conosco. No faltaremos.
  Kate os abraou e finalizou emocionada:
   Para serem amigos de Ross, vocs s podiam ser pessoas de bem. Nem posso lhes dizer o quanto fico grata pelo risco que esto correndo para salvar uma menina 
que nem conhecem.
  Todos se abraaram com muita emoo. Kate no sabia explicar, mas tinha certeza de que, daquela vez, no encontraria Marianne na enfermaria. Suas preces, realmente, 
haviam alcanado o resultado desejado, e espritos luminosos intervieram em favor da menina, cuidando para que, no dia, Marianne estivesse bem e no precisasse ser 
dopada pelos enfermeiros.
  A espera chegara ao limite e, com ela, a hora de Ross revelar ao pai o que pretendia fazer. No podia esperar mais nem desaparecer de uma hora para outra. O amor 
reconquistado exigia confiana, que levava a explicaes sinceras.
   Como est se sentindo?  comeou ele,  hora do jantar.
   Estou superando. O novo emprego est me ajudando muito.
   Fiquei impressionado com a rapidez com que conseguiu uma nova colocao.
   Como disse, aprendi muito com o senhor Bradley.
    verdade  fez uma pausa sugestiva e mudou de assunto:  Tenho algo a lhe contar.
          Vai para a faculdade?
   No  isso.  um assunto srio e tem a ver com Marianne.  Nathan tomou um gole de vinho e encarou o filho,  espera de que ele prosseguisse: Tia Kate e eu 
tomamos uma deciso. Vamos tir-la daquele lugar.
   Seu tio consentiu?
   Ele no sabe.
  Nathan levantou as sobrancelhas e retrucou, deveras surpreso:
   Est querendo me dizer que vo ajud-la a fugir?
          ele assentiu.  Vocs enlouqueceram?
   Precisamos fazer alguma coisa, ou ela vai acabar morrendo l.
   No faa nenhuma besteira, filho. Dar fuga a um louco  um crime muito srio.
   Marianne  s uma menina!  contraps ele.
   E voc no faz ideia do quanto est sofrendo. Apesar de no querer contrariar o filho, Nathan no conseguia ocultar a preocupao:
   Voc e sua tia devem estar mais loucos do que ela. Esto querendo o impossvel.
   No  impossvel. Temos tudo planejado. Vai dar certo.
  - Posso saber como pretendem fazer isso sozinhos?
   No estaremos sozinhos. Meus amigos da escola vo me ajudar.
   Acha prudente comprometer seus amigos numa aventura insana feito essa?
   No  aventura, muito menos insana. O plano tem tudo para dar certo, e ningum vai poder provar que fomos ns. A no ser que algum conte.
   Voc sabe que eu jamais o delataria.
   Sei disso. E por isso que estou lhe contando. Voc  meu pai e precisa saber o que ir acontecer. Quando tirarmos Marianne de l, vou fugir com ela.
   Fugir?  surpreendeu-se.  Para onde?
   Para a Esccia, talvez.
  Nathan balanou a cabea, contrariado, e tornou aflito:
  - E quando vai ser isso?
   No prximo domingo, dia de visita.
   Ser que  prudente? Estamos em guerra contra a Alemanha.
  - Se tudo correr bem, estaremos longe antes que possamos sentir seus efeitos.
Nathan no disse mais nada. Abraou-se ao filho em lgrimas, como se quisesse prend-lo para sempre em seus braos, evitando que sofresse. Contudo, tinha conscincia 
de que Ross era dono de seu destino.
   Faa o que tem que fazer  disse por fim.  S no se esquea de seu velho pai. E voc sabe que pode contar comigo, seja para o que for, no sabe?
   Sei, sim, e sou-lhe grato por isso.
   No se agradece o amor. Amo voc e tudo farei para ajud-lo a ser feliz. Acho uma loucura libertar Marianne, mas se  o que voc quer, tem o meu apoio.
  Na vspera da visita, quando Ross entrou em casa, vindo de seu ltimo encontro com Kate antes da execuo do plano, Nathan o aguardava na sala, andando de um lado 
a outro, preso de uma preocupao extrema.
   Pai?  chamou Ross, apreensivo.  Aconteceu alguma coisa?
   Estou muito preocupado com essa guerra confessou aflito.
   Tenha calma.
   E se convocarem voc, meu filho? O que  que eu vou fazer se voc for para o front?
   Isso no vai acontecer.
   Voc no sabe. Faz tempo que jovens esto sendo convocados para o alistamento militar. E agora, ouvi dizer que qualquer um pode ser recrutado.
   Ningum vai me recrutar.
   Hoje mesmo, o filho de nosso vizinho recebeu a convocao. Um jovem pouco mais velho do que voc. Fiquei apavorado. O que ser de ns se voc for?
  Confuso, Ross comeou a andar pela sala, tentando concatenar as idias. No podia ir para a guerra. No que tivesse medo do combate ou de morrer. O que temia era 
deixar Marianne presa naquele hospcio.
   No posso ir para a guerra  objetou ele.  E Marianne? Ela precisa de mim. Vamos tir-la de l no domingo e vamos fugir...
  Para Nathan, a ideia da fuga, repentinamente, pareceu a nica salvao, e ele lhes facilitaria a escapada. Tinha dinheiro e poderia comprar-lhes passagens para 
a Frana. L, onde a Linha Maginot 6, certamente, manteria os alemes  distncia, no recrutariam um estrangeiro, e Ross estaria em segurana. E essa seria tambm 
uma excelente oportunidade para se reconciliar com Kate e o irmo.
  6. A Linha Maginot foi uma linha defensiva de fortificaes construda pela Frana, entre 1930 e 1936, ao longo das fronteiras com a Alemanha e a Itlia. Apesar 
de poderosa, no conseguiu impedir a invaso, em maio de 1940, quando as tropas alems a contornaram e invadiram a Frana pela regio de Sedan, onde sua construo 
havia sido interrompida (N.A.).
   Vou ajud-los, Ross  disse ele por fim.  Vou tir-los da Inglaterra. Os dois.
  s oito horas em ponto de domingo, Kate e Ross estavam parados no saguo do hospcio, enquanto Arnold e Vincent, sem serem vistos, os observavam do lado de fora.
   No vai entrar, senhora Landor?  indagou o atendente, que anotava os nomes dos que chegavam.
  Kate j era conhecida e, olhando para ele com simpatia, respondeu calmamente:
   Daqui a pouco. Estou esperando minha irm.
  O homem no disse nada e voltou a ateno para o servio, anotando o nome de um recm-chegado, tambm conhecido, e o horrio de entrada. Kate viu quando ele entrou 
e fingiu que olhava para fora,  procura de algum. Precisava esperar at que algum estranho passasse por ali. No podia correr o risco de usar o nome de um frequentador 
costumeiro.
  Cerca de vinte minutos depois, finalmente surgiu o visitante ideal. Kate jamais o havia visto e imaginou que deveria ser parente de algum novo interno. Fez um 
sinal imperceptvel para os rapazes e entrou com Ross atrs do homem.
   Acho que ela no vem  anunciou de forma displicente.  No vou mais esperar, ou perderei todo o horrio de visita.
  O rapaz balanou a cabea e sorriu com simpatia. Tomou nota do nome do homem  sua frente, da hora, e deixou-o passar. Na vez de Kate, o atendente foi logo escrevendo 
seu nome na lista. Enquanto ele anotava, ela deu uma espiada no livro e leu o nome imediatamente anterior ao seu, que era do homem que acabara de passar: George 
Phillips.
  Entrou apressada, seguida pelos rapazes.  exceo de Ross, que ali estivera outras vezes, todos declinaram nomes falsos.
   Seu nome, por favor?
   Bob Smith  mentiu Vincent.
   E o seu?
   John White  falou Arnold.
  Como o homem no os conhecia, no suspeitou de nada. Admitidos ao interior do sanatrio, Kate e Ross suspiraram aliviados ao receber a notcia de que Marianne 
se encontrava no jardim. Nada de enfermaria, como os amigos invisveis e silenciosos haviam providenciado. O grupo seguiu para l ansioso, procurando por ela, e 
encontrou-a parada de costas, ao p de uma rvore, aparentemente espanando alguma poeira invisvel. Kate percebeu o olhar de espanto dos outros rapazes, que nunca 
antes haviam entrado num hospcio, e afirmou, segurando as lgrimas:
    o resultado das drogas.
  Ross engoliu em seco, lutando para no chorar nem esmurrar os enfermeiros. No tinha permisso para visitar Marianne na enfermaria e, por isso, no sabia de seu 
real estado. Presa em sua fantasia, ela agora tentava espantar pssaros negros que esvoaavam  sua frente. Essa era uma das figuras que os espritos plasmavam para 
ela. Podiam ser morcegos, insetos, cobras ou qualquer outra coisa repugnante.
   Deixem que eu vou cham-la  anunciou Ross, tentando no demonstrar tristeza.
  Kate mandou que os rapazes no tirassem os olhos do tal George Phillips, e Arnold ficou encarregado de vigiar os seus passos. Ele estava sentado ao lado de uma 
mulher jovem, que Kate no conhecia, provavelmente, uma recm-chegada.
  Ross chegou por detrs dela e chamou baixinho:
   Marianne.
  Ela parou de sbito, a mo ainda suspensa no ar, afugentando o vazio. Aos poucos, foi-se virando, e Ross levou um susto. Seu rosto estava extremamente plido, 
sulcado por olheiras, e os cabelos, cortados bem curtinhos, exibiam falhas e pontas irregulares. Todavia, no tinha tempo para perder com a surpresa.
   Sou eu, Marianne, o Ross  disse ele, tentando no demonstrar desespero.  No me reconhece?
  Ela ficou parada, olhando para ele, balanando a cabea de um lado para outro. Em algum lugar de sua mente confusa, a imagem de Ross ainda estava guardada. Sorriu 
e estendeu as mos para ele. Ross a puxou para si e abraou-a com fora, transmitindo tanto amor naquele abrao, que os pssaros se desmancharam e os espritos se 
afastaram acabrunhados, sem entender que estranha fora era aquela que os repelia.
   Vim busc-la  sussurrou ele.
  Ela se deixou conduzir. Ao passar perto de uma pequena fonte, viu Luther sentado, olhando para ela com ar diablico. Ela estacou e tentou recuar. Luther deixara 
de ser seu amigo e passara a aterroriz-la, tornando-se a causa de vrios de seus castigos.
   Aonde pensa que vai, Marianne?  perguntou entre os dentes, exibindo seus olhos rubros.
   No, no!  gritou ela aterrorizada, agitando-se freneticamente e tentando recuar.
  Parecia que ela ia se descontrolar, e os enfermeiros, de longe, olharam para ela, prontos para uma nova injeo. Na mesma hora, Ross abraou-a de novo, falando 
bem baixinho ao seu ouvido, mas, com tanto sentimento, que at Luther conseguiu escutar:
   Eu a amo. Confie em mim. Deus est do nosso lado. Nada pode ser mais forte do que Deus e o nosso amor.
  Era verdade. O amor transcende qualquer obstculo, e mesmo o mal, por mais empedernido que seja, enfraquece ante o seu inigualvel poder. Luther sentiu isso, porque 
uma estranha fraqueza comeou a tomar conta dele. Aquele calor, que partia dos corpos de Marianne e Ross, atingiu-o em cheio, e ele foi recuando, sentindo-se incomodado 
por aquela onda de amor que no podia suportar.
  Marianne ganhou foras e foi aos poucos recobrando a conscincia de si mesma. Fitou Luther pelo canto do olho e passou por ele, sustentada pelos braos e pelo 
corao de Ross. Em poucos minutos, alcanaram Kate e os demais. Sentaram Marianne num banco e fingiram conversar. Os enfermeiros desviaram a ateno dela, deixando 
Kate livre para agir.
   Venha comigo, Marianne  falou com ternura.
   No  respondeu ela secamente.
   Por favor, Marianne, v com ela  pediu Ross com carinho.
  Marianne obedeceu. Levantou-se feito um autmato e seguiu a me para dentro. Permaneceram na sala de visitas at que no houvesse ningum por perto, quando, ento, 
Kate entrou com ela no banheiro.
  Do lado de fora, Ross dizia para os rapazes:
    hora de distrair a ateno dos enfermeiros.
   Deixe comigo  falou Vincent, preparado para aquele momento.
  De forma imperceptvel, apanhou uma pedrinha no bolso, esperou at que ningum estivesse olhando e lanou-a com fora, acertando a cabea de um dos internos, gordo 
e de ar mais enfezado. O homem se empertigou, levou a mo  nuca e olhou para trs. Vincent, que j esperava por isso, piscou o olho para ele e apontou para o outro 
lado, onde um jovem alto e forte falava sozinho. Deu certo. O homem, furioso, saiu de onde estava e agarrou o outro, dando incio a uma briga que logo atraiu os 
enfermeiros.
  No mesmo instante, Arnold se levantou e foi caminhando calmamente em direo  sada. Deu uma ltima olhada no senhor Phillips, certificando-se de que ele ainda 
estava ocupado com a mulher, e passou pela porta que dava acesso ao saguo do prdio. Do lado de fora, o atendente ainda estava sentado na cadeira, e ele deu o nome 
ao rapaz, torcendo para que ele no se lembrasse:
   George Phillips.
  O atendente o olhou por um momento, sentindo alguma coisa errada que no soube definir, mas balanou a cabea e procurou na lista. Anotou o horrio de sada ao 
lado do nome indicado e mandou que ele passasse. Mais que depressa, Arnold ganhou a rua e sumiu.
  A balbrdia era grande, e Kate aproveitou para sair com Marianne, que havia trocado de roupa, vestindo calas de homem, camisa, suspensrio e um imenso bon que 
lhe cobria parte do rosto. Ela olhou de um lado a outro no corredor vazio. Empurrou Marianne gentilmente e saiu mais atrs, cuidando,  distncia, de seus passos, 
rezando para que ningum as notasse.
  Na porta da sala de visitas, adiantou-se e procurou o sobrinho com os olhos. Ross estava atento e, na mesma hora, chamou Vincent, seguindo em direo  tia. Os 
enfermeiros, ainda ocupados com a briga, nem se aperceberam de sua sada.
  Rapidamente, Ross segurou o brao de Marianne e saiu com ela e Vincent, enquanto Kate permanecia olhando a confuso, pronta para responder que a menina se encontrava 
no banheiro, caso algum lhe perguntasse. Se ela sasse junto, poderia levantar suspeitas. Enquanto caminhavam a passos rpidos, Ross dizia para Marianne:
   Seu nome  Bob Smith...
    Marianne.
   Por favor, Marianne. Diga que  Bob Smith. Por mim, diga que  Bob Smith. E Bob Smith.
  Bob Smith era o falso nome que Arnold havia dado ao atendente quando entrara e sob o qual Marianne iria sair. Escolheram um nome fcil, para que ela o memorizasse 
sem problemas.
   Depressa  Kate sussurrou para si mesma, de olho no verdadeiro George Philips.
Chegaram  porta. O enfermeiro do lado de dentro, sem desconfiar de nada, franqueou-lhes a passagem para o saguo.
   Seus nomes?  perguntou o atendente do outro lado, sem nenhum interesse.
   Ross Landor.
   Voc no  o sobrinho da senhora Landor? indagou ele, levantando os olhos e estudando Ross cuidadosamente.
   Sou.
   E ela no vem com voc?
   No. Minha tia vai ficar um pouco mais. Tenho coisas a fazer.
  Novamente aquela sensao de estranheza cujo sentido o rapaz no conseguiu captar. Ele localizou o nome de Ross, tomou nota do horrio de sada, e voltou-se para 
Marianne. Parada logo atrs, ela o encarava por debaixo da aba do bon, tentando se lembrar do que deveria dizer. Havia esquecido. Ross, aterrado, lanou para ela 
um olhar de splica, enquanto o atendente indagava:
           Qual o seu nome, moo? No se lembra? Se esqueceu, esse  o lugar certo para voc.
  Riu da prpria piada, e Ross quase desmaiou. Foi Vincent, que vinha logo atrs, que salvou a situao:
   Ande logo, Bob. Deixe de namorar o moo. Ele no  disso.
  O atendente, pensando tratar-se de um homem feminado, contraiu o rosto e olhou para a lista, perto de onde marcara o nome de Ross.
    Bob Smith?  indagou, rubro de raiva e vergonha.
  Marianne assentiu, e ele tomou nota da hora na coluna apropriada. Depois foi a vez de Vincent, que repetiu o falso nome e acrescentou para o atendente em tom jocoso:
   No ligue para ele, no. J o mandamos largar essa vida, mas no tem jeito.  um caso perdido.
  O atendente balanou a cabea em sinal de assentimento e concluiu de m vontade:
   Deviam era fuzilar esses homossexuais. Onde j se viu? Deixe a polcia descobrir...
  Vincent assentiu de bom humor, bateu com os dedos na ponta do bon e saiu atrs de Ross e Marianne, que j estavam quase na esquina. Pouco depois, Kate saa tambm 
e nem precisou dar o nome ao atendente. Passou por ele e lanou-lhe um sorriso amistoso, como sempre fazia, e ele respondeu:
   At domingo que vem, senhora Landor.
  Kate saiu para a rua. Olhou ao redor, e nem sinal de Marianne. Dera certo. quela altura, ela j devia estar a caminho da casa de Jane. Haviam conseguido enganar 
todo mundo. Por sorte, ningum percebera nada.
  O que Kate chamava de sorte nada mais era do que a fora do amor e da f, que a levaram e a Ross a acreditar que conseguiriam. Os amigos espirituais de Marianne, 
conhecedores e inspiradores do plano, enviavam a todos ondas energticas de fora e coragem, fazendo vibrar o poder pessoal e interior de confiana que cada um possua 
em si mesmo. Foi assim que conseguiram fazer com que todas as coisas se encaixassem e tudo sasse conforme o esperado. Ningum desconfiou, nem fez perguntas, nem 
atrapalhou. No foi a sorte ou o acaso que lhes facilitou. Foi a prpria determinao.

  10
  Seguindo o combinado, Ross levou Marianne para a casa de Jane. O ar triste e derrotado da menina lhe causou espanto e compaixo. Ouvira falar dos maus tratos aos 
doentes dos hospcios, mas pensara que aquilo havia ficado no passado. Jamais poderia imaginar que mdicos civilizados pudessem utilizar mtodos to cruis no tratamento 
de seres humanos que precisavam, acima de tudo, de amor.
  Quando os dois l chegaram, Nathan j estava  sua espera e abraou o filho demoradamente, sentindo imenso alvio por v-lo de volta so e salvo. Cumprimentou 
Marianne, que pareceu no o reconhecer, e sentiu um bolo no estmago ao imaginar o que seria a vida de Ross dali em diante. Tentava desviar o pensamento e centrar-se 
na segurana do filho quando a porta da frente se abriu.
  Kate entrou apressada, levando um susto ao dar de cara com Nathan. Procurou o sobrinho e a filha com os olhos, temendo que o cunhado os houvesse delatado. Notando 
a sua preocupao, Ross se adiantou e, colocando as mos em seus ombros, anunciou:
   Est tudo bem, tia Kate. Meu pai est aqui para ajudar.
  Mesmo sem entender, Kate relaxou, sentindo que podia confiar nas palavras de Ross. No tinha tempo para se ocupar com Nathan naquele momento, preocupada que estava 
com Marianne. Ao v-Ia, seu corao se enterneceu. Aproximando-se dela, passou a mo em seus cabelos ralos e irregulares, acariciou seu rosto sulcado e desceu a 
mo pelo seu pescoo, sentindo a aspereza que as muitas picadas lhe haviam deixado na pele.
  Para que ela no desabasse em prantos, Ross interveio com estudada jovialidade:
   Gostaria de ver a cara do tal George Phillips quando sair e descobrir que seu nome j foi riscado.
    mesmo  concordou Kate.  O atendente vai pensar que cometeu algum engano.
   Isso at descobrirem que Marianne sumiu falou Bill, marido de Jane.
   Vai custar um pouco at acreditarem. Marianne j estava l h tanto tempo!
  A referncia ao hospcio fez tremer todo o corpo de Marianne, que comeou a chorar baixinho.
   Tenha calma  confortou Ross, abraando-a.
   Est tudo bem. Eu estou aqui. Vou cuidar de voc. Vou faz-la esquecer-se de tudo.  A cena os comoveu a todos, e Kate e Nathan se entreolharam com lgrimas nos 
olhos.     Para cortar a tenso, Jane sugeriu:
   No quer tomar um banho, Marianne?
  A palavra banho tinha um significado horrendo para Marianne, que voltou a se debater e retrucou angustiada e aflita:
   No... Banho no...
    com gua quente  esclareceu Ross, sabendo que o terror de Marianne decorria dos banhos gelados.
   Vai lhe fazer bem. Voc vai ver.
  Confiante nas afirmaes de Ross, ela assentiu, mas pediu em tom de splica:

   Fica comigo?
  Ross questionou a tia com o olhar. Afinal, Marianne era uma moa, e ele era um homem. Apesar de no possuir qualquer outra inteno alm de auxiliar Marianne no 
que fosse preciso, ele no podia olvidar o fato de que os costumes no permitiam que dois jovens solteiros ficassem sozinhos e nus num banheiro. Kate, contudo, nem 
de longe se preocupava com isso. S lhe interessava o fato de que Marianne confiava em Ross e de que ele a amava acima de qualquer desejo da carne.
   Creio que no haver problema se Ross ajudar Marianne  afirmou.  Vocs no vo se casar?
  Envergonhada, Marianne abaixou os olhos e apanhou a mo de Ross, levando-a aos lbios. O que faria quando ele descobrisse que ela no era mais virgem? Ela no 
sabia como os homens conseguiam descobrir aquelas coisas, mas no seria ela que iria contar. Se Ross a abandonasse, seria prefervel se matar.
  Minutos depois, Jane anunciou que o banho j estava pronto. Gentilmente, Ross conduziu Marianne at o banheiro. Despiu-a carinhosamente, lutando para no chorar 
ante a viso de seu corpo esqulido, a pele macilenta, sem vida, os hematomas...
  Ela estava com medo da gua, e Ross apanhou um pouco em concha, despejando sobre seus punhos. Ela se retraiu toda, mas o contato do lquido morno fez abrandar 
o seu temor. Aos poucos mais confiante, entrou na banheira, ajudada por Ross, e foi arriando o corpo lentamente, at imergi-lo quase todo e recostar a cabea na 
borda da banheira. Com uma esponja, Ross foi alisando sua pele, o mais gentilmente possvel. Aos pouquinhos, ela foi relaxando, at que as plpebras pesaram, e ela 
adormeceu. H muito tempo no se sentia to bem e em paz consigo mesma.
  Despertou quando a gua comeou a esfriar. Com o susto, quis saltar da banheira, mas o olhar carinhoso de Ross a acalmou, e ela conteve o pnico, ciente de que 
no estava no poro do hospital. O rapaz deu-lhe uma saia e uma blusa novas e muito bonitas, compradas especialmente para ela. Penteou seus cabelos curtos e ralos, 
e ela se olhou no espelho, chorando ao se deparar com seu rosto transfigurado. No havia espelhos no hospcio, e o pouco que ela conhecia de suas feies de moa 
provinha da sombra inexata refletida nos vidros sujos das janelas.
  Enquanto Ross ajudava Marianne, Nathan aproveitou para contar a Kate tudo o que havia lhe acontecido desde que partira. Contou do mau humor de Lilian e de sua 
covardia ao consentir que Ross fosse mandado a estudar em Oxford, sentindo-se culpado, inclusive, pela piora no estado de Marianne. Falou das promoes, das viagens, 
da formatura do filho e da derradeira viagem a South Hampton, quando fora obrigado a voltar por causa do acidente. E, por fim, assumiu a vergonha ao descobrir o 
caso de Lilian com Richard e a humilhao que o ex-patro o fizera passar, concluindo com a chegada de Ross e sua atitude, ao mesmo tempo digna e firme, de expulsar 
o senhor Bradley e Lilian. Depois veio a guerra, e o temor de perder o filho no campo de batalha foi conclusivo para que ele pusesse uma pedra no passado e procurasse 
se reconciliar com a famlia, de quem jamais deveria ter-se afastado.
  Kate, Jane e Bill ouviam em silncio, incapazes de interromper ou contestar aquela narrativa to pungente e sincera. Quando ele terminou, Jane achou que deveria 
dar-lhes uns minutos a ss e foi para a cozinha terminar o almoo, enquanto Bill foi fazer uns reparos na garagem.
   No sei o que dizer  considerou Kate, confusa.
   Diga apenas que me perdoa  ela no respondeu, e ele insistiu:  Ser que o que fiz foi to terrvel que voc no pode me perdoar?
   No se trata disso.  que voc se tornou praticamente um estranho para ns.
   Sou seu cunhado, no posso ser um estranho. Amo-a como a uma irm...
  Ao pronunciar a palavra irm, Nathan engoliu em seco e fitou a cunhada, que o encarava com espanto. Pela primeira vez, percebera uma entonao diferente na voz 
dele, algo que provinha da incerteza do que dissera, pois Nathan, no fundo, tinha sentimentos contraditrios para com ela. Tentando no pensar naquilo, ela abaixou 
os olhos e ponderou:
   No sou sua irm. Seu irmo est em casa, louco por uma palavra sua.
   Eu sei. Tambm gostaria muito de me reaproximar dele, mas no posso fazer isso antes de me reconciliar com voc.
   Eu nunca briguei com voc  afirmou peremptria, encarando-o com firmeza e ternura.  Foi voc que me afastou da sua vida.
   S Deus sabe o quanto me arrependo disso! E como gostaria que voc me perdoasse.
   Voc sabe que no sou mulher de guardar ressentimentos...
   Voc me perdoa?
   Por certo. Tudo o que mais quero, nesse momento,  reunir novamente a famlia. Principalmente agora, que nossos filhos vo fugir juntos, precisamos estar mais 
unidos do que nunca.
  Movido pela emoo, Nathan se ajoelhou aos ps dela e tomou-lhe as mos, levando-as aos lbios em sinal de gratido e afeto. Confusa e atordoada, Kate puxou as 
mos de volta no exato momento em que Ross chegava com Marianne.
  Jane havia acabado de pr a mesa e chamado o marido e os filhos, convidando-os a se sentaram. Caprichara ao mximo na refeio, preparando os pratos de que Marianne 
mais gostava. A menina comeou a comer vagarosa e prazerosamente, instigada pelo aroma e o sabor agradveis da comida, dos quais j havia praticamente se esquecido.
  Depois da sobremesa, com a qual se deliciou, Nathan se adiantou preocupado:
   Acho que j  hora de Marianne partir  ela o olhou surpresa, com medo de que a levassem de volta ao hospital, mas o gesto do tio a tranquilizou:
   Fiz reservas para os dois em um hotelzinho perto do cais. Nada de luxo, que  para no chamar a ateno.
   Pensei que Marianne e Ross pudessem ficar aqui
   interveio Jane.
    perigoso. Quando descobrirem a fuga, iro direto  casa de Kate. De l at aqui, ser questo de tempo.
   Tem razo  concordou Bill.  Se a pegam aqui, ser o seu fim.
  No foi difcil convencer Kate, que se levantou s pressas:
   Vamos, ento. No temos tempo a perder.
   Voc no, Kate  objetou Nathan.  Precisa ir para casa deter David.
   Acha que  necessrio?
   Voc, melhor do que ningum, pode dizer qual ser a reao dele quando souber da fuga.
  Apesar da tristeza, Kate concordou. Realmente, se David aparecesse ali, todo o plano iria por gua abaixo. Doa-lhe muito ver Marianne partir sem que tivessem 
a oportunidade de conversar fora dos muros do hospcio. Havia tantas coisas que gostaria de dizer! Explicar por que a internara e falar-lhe de seu arrependimento 
e amor. Agora, porm, era tarde demais. A urgncia era tirar os dois dali.
   Voc est certo  concordou ela, olhos banhados em lgrimas.  Fao qualquer coisa para ver minha filha em segurana e feliz.
  Afagou o rosto de Marianne, deu-lhe um beijo, outro em Ross e murmurou:
   Obrigada. Cuide bem dela.
  Remoendo a tristeza da separao, Kate apanhou a bolsa e encaminhou-se para a porta, sentindo a quentura das lgrimas que se derramavam de seus olhos. No queria 
olhar para trs, com medo de fraquejar, e colocou a mo na maaneta, disposta a abrir a porta com deciso. J ia gir-la quando a vozinha infantil de Marianne a 
alcanou em cheio:
   Mame... sei o que voc fez. Obrigada... Vou sentir saudades.
  Kate largou a maaneta e virou-se para a filha, puxando-a para envolv-la num abrao terno e transbordante de amor. A muito custo soltou-a. Acariciou seu rosto 
novamente, enxugou as lgrimas dela e sussurrou com emoo:
   Amo voc, Marianne. Sabe disso, no sabe?
  Marianne apenas assentiu, e Kate se forou a sair, ou no conseguiria mais deix-la. No trajeto para casa, a certeza de que fizera a coisa certa a acalmou. Ainda 
mais agora, que Nathan se juntara a eles, nada podia dar errado. Com as passagens compradas, em breve estariam na Frana.
  Antes de ir para casa, passou na confeitaria e comprou uma torta de mas. Queria ter algo que justificasse sua demora. Assim que chegou, o perambular nervoso 
de David, que caminhava de um lado a outro na sala, foi o sinal de que ele j sabia.
   At que enfim!  exclamou ele.  Onde  que esteve?
  Ela largou a bolsa sobre a poltrona, tirou o chapu e respondeu com cautela:
   Fui visitar Marianne, como sempre fao aos domingos.
   Por que demorou tanto?
   Passei na confeitaria para comprar uma torta. Tive que esperar at que ficasse pronta e...
   Marianne fugiu!  gritou ele, esfregando as mos nervosamente.
   O qu?  balbuciou ela, fingindo-se surpresa.  O que foi que disse?
   Disse que Marianne fugiu. Acabaram de avisar.
   Deve haver algum engano. Deixei-a, agora mesmo, no hospcio.
   No h engano nenhum. Ela fugiu!
   Mas como?
   No sabem ao certo. Parece que ela usou um nome falso.
   Um nome falso? Ora, no me diga.
  Kate no fazia muito esforo para mentir de forma convincente, e David olhou-a em dvida.
  - Voc tem algo a ver com isso?
   - Eu?!  claro que no.
  A boca dizia uma coisa, mas os olhos e, principalmente, o sorriso de vitria em seus lbios, diziam outra bem diferente.
   Est mentindo  afirmou David.  Sei que est.
   Se sabe, por que me pergunta?
   Pelo amor de Deus, Kate, voc sabe o que fez? Soltou no mundo uma louca!
   Essa louca  sua filha. E depois, eu no disse que a soltei. Como poderia?
   Voc tramou tudo direitinho. Onde ela est? Onde a escondeu? Na casa de Ross no pode estar, seria bvio demais. Ento, s pode estar na casa de Jane.
   No sei de nada. E se soubesse, no lhe diria.
          O diretor do hospcio disse que Ross esteve l hoje, em companhia de uns amigos desconhecidos. Quem so esses amigos?
   Eu  que vou saber?
   Vocs entraram juntos.
  No fiz perguntas a Ross. Alis, mal falei com ele.
   Est mentindo, Kate, sei que est. Vocs entraram e saram juntos, s que um dos amigos de Ross no era o verdadeiro. Era Marianne, no era?
   Quer saber, David? No tenho nada com isso. Se eles so desorganizados l no hospcio, o problema  deles. E agora, com licena. Preciso ver as crianas.
  David tinha certeza de que Kate e Ross haviam ajudado Marianne a fugir. Contudo, no a levaram nem para casa, nem para qualquer lugar conhecido. Se fosse desse 
jeito, ento talvez no fosse to ruim. Desde que Marianne no voltasse para sua vida, no tinha por que se preocupar com ela.
  As crianas brincavam no quintal, e Kate foi ao encontro delas. A cerca que dava acesso  casa vizinha, por onde Marianne e Ross costumavam passar, h muito fora 
consertada. Quando os novos vizinhos fizeram o conserto, ela se ressentira. Era como se houvessem fechado uma porta em seu corao. Agora, porm, a cerca fechada 
tinha um outro significado. Aquela no seria mais a porta de fuga do sofrimento de Marianne. Aquele era o passado que ela deixara para trs, partindo em busca de 
um futuro mais feliz. Muito provavelmente, ela e Ross se casariam, e Kate ficaria  espera de que eles voltassem um dia, com seus netos, trazendo de volta a felicidade 
ao seu lar.

  11
  No muito depois de Kate deixar o sanatrio, o verdadeiro senhor Phillips resolveu ir embora. Despediu-se da irm, que fora visitar, atravessou o saguo e foi 
apresentar-se ao atendente.
   Nome, por favor?  perguntou o rapaz.
   George Phillips  respondeu o homem, sem qualquer tipo de preocupao.
  O atendente correu a lista com a ponta do lpis at parar no nome que o homem lhe dera, j marcado com o horrio da sada. Pensando que havia entendido errado, 
o rapaz tornou a indagar:
   Seu nome?
    George Phillips, j disse.
  O outro o fitou com um assombro mudo, tentando compreender o motivo daquele engano.
   Perdo, senhor, mas George Phillips j foi embora. Saiu faz tempo.
   Isso  alguma brincadeira? George Phillips sou eu.
  Confuso, o atendente espetou o lpis em cima da anotao e exibiu o livro ao homem:
   Veja o senhor mesmo. George Phillips, entrada s 8h45 e sada s 9h10.
   Meu jovem, por acaso est insinuando que no sei quem sou?  aborreceu-se o homem.
   Vai ver  algum com o mesmo nome  sugeriu o senhor de trs, louco para passar.
   Impossvel  declarou o atendente.  S um George Phillips entrou aqui hoje.
   E fui eu. Vim visitar minha irm.
   Mas... George Phillips j saiu...  insistiu o atendente.
   Oua aqui, rapaz!  berrou o senhor Phillips. Sei que isso  um hospcio, mas se algum aqui fora est ficando louco  voc! Sei muito bem quem sou!
   Ser que vocs podem andar logo com isso?  queixou-se algum.
  O atendente no sabia o que fazer, mas no estava disposto a deixar ningum passar. Alguma coisa estava errada, e, enquanto tudo no se esclarecesse, permaneceriam 
todos ali.
   Isso  um absurdo!  indignou-se o senhor Phillips.
  Percebendo a movimentao na mesa da entrada, um supervisor apareceu:
   O que est acontecendo aqui?
   Senhor Waldo...  balbuciou o atendente  no sei o que houve. Este senhor aqui diz que se chama George Phillips, mas George Phillips saiu h muito tempo...
  O supervisor no esperou resposta. Em segundos, compreendeu tudo. Soprou um apito com estridncia, e guardas acorreram de todos os lados.
   Fechem todos os portes!  ordenou ele, correndo de volta para dentro do edifcio.     Ningum sai!
  Enquanto todos na fila se queixavam, exigindo passar, o senhor Waldo foi chamar o doutor Kramer e iniciou a contagem dos internos. Um a um, os doentes foram identificados, 
at que Mike deu o sinal:
    Marianne! Est faltando Marianne!
   Procurem-na!  berrou o doutor Kramer, o rosto vermelho e afogueado de tanta raiva.  No vou admitir nenhuma fuga nesta instituio!
  Seguiu-se imenso alvoroo. As pessoas na fila foram identificadas e liberadas, e todos os cantos do hospcio, do jardim e at mesmo das redondezas foram revistados 
pelos enfermeiros e pela polcia, chamada s pressas para ajudar nas buscas. Os demais enfermos, ao saberem que Marianne havia fugido, puseram-se a gritar e a espernear, 
e foram necessrias doses macias de ludano para controlar a situao.
  Por fim, a notcia se confirmou: ao que tudo indicava, Marianne havia fugido usando o nome de outra pessoa, embora ningum soubesse precisar como aquilo sucedera.
   Ela teve ajuda externa  rosnou o doutor Kramer.  Marianne no tem inteligncia para idealizar um plano desse porte.
   O senhor sabe quem foi?  indagou o supervisor.
   Sei  afirmou ele entre os dentes, um estranho brilho despontando no olhar.  A me. S pode ter sido ela.
  Imediatamente, a polcia partiu para a casa de Kate, no a encontrando. Apenas David estava em casa, e o ar de espanto que fez foi to genuno que convenceu as 
autoridades de sua ignorncia a respeito da fuga.
   Tem ideia de onde ela possa estar?  questionou o oficial de polcia.
  David deu o endereo de Jane e, por via das dvidas, tambm o de Nathan. Como a casa do irmo ficava mais prxima, foram primeiro para l, mas no havia ningum. 
Em casa de Jane, s a famlia, que afirmou no ter notcias da menina h muito tempo. Sem ter mais onde procurar, a polcia encerrou as buscas.
  A fuga de Marianne provocou uma reao inquietante em Kramer. Era bvio que Marianne contaria a todos o que se passava ali. Ele no fazia nada que no tivesse 
o apoio da comunidade psiquitrica, e alguns dos seus mtodos, se bem que ultrapassados, ainda produziam resultados altamente satisfatrios. A terapia do eletrochoque, 
recentemente desenvolvida na Itlia, era o que havia de mais moderno no tratamento aos doentes.
  Se era assim, por que ento se demonstrava to aflito? Se no fizera nada que no merecesse aprovao de seus colegas psiquiatras, de onde provinha o seu medo? 
No sabia explicar. No conseguia compreender que era sua prpria conscincia quem o acusava de crueldade. Para o mundo, podia justificar suas atitudes com a inteno 
da cura. Mas, e para si mesmo? Que desculpas tinha para dar quando sabia do prazer que sentia ao causar dor aos doentes? Como enganar a alma que reconhecia o sadismo 
de seus mtodos?
  O medo foi, cada vez mais, tomando conta de Kramer, que passou a temer os prprios enfermos. Aos poucos, comearam a parecer pessoas assustadoras e acusadoras. 
Sem se dar conta, o mdico via alm do fsico dos loucos: enxergava seus corpos fludicos maltratados, acusando-o de tirania e crueldade.
  Passou a ser assaltado por sonhos que denominava malditos. Marianne e os outros viviam a acus-lo em pensamento, cobrando-lhe coisas que ele no compreendia. Esses 
sonhos o atormentavam dia aps dia. Kramer julgava-se vtima da vingana dos loucos, que se recusavam a compreender o sacrifcio que lhes era exigido. Sofriam em 
nome de um bem muito maior, que era a descoberta da cura. Da cura! Ser que no entendiam? Se ele descobrisse uma cura, se tornaria o mdico mais bem conceituado 
do mundo!
  Resolveu tentar no pensar mais naquelas bobagens. Sim, eram bobagens. Marianne fugira, mas sua fuga no abalaria em nada sua vida no hospcio. Ela no era ningum 
importante, ningum por quem valesse a pena brigar. Ningum se importava com ela. Ningum, alm daquela me igualmente louca e estpida.
  Estava enlouquecendo e nem sabia. No compreendia nem se dava conta, mas estava to louco quanto os internos. Um dia, sua loucura o dominou. Estava agitado, descontando 
nos pacientes a raiva que ainda sentia pela fuga de Marianne. Foi quando, numa sesso de choques, ao som da Sonata ao Luar, exagerou na voltagem e acabou eletrocutando 
Eric. O rapaz, acompanhado pelo esprito do ano Escobar, veio a desencarnar, acelerando o processo de loucura do mdico.
  Da em diante, Kramer passou a tomar atitudes cada vez mais estranhas, cruis e autoritrias. Mandava espancar os doentes e ameaava dispensar os enfermeiros por 
qualquer motivo. Xingava os visitantes, maldizia as autoridades, mandava que Eric levasse dali aquele ano maldito. Atravessava graves crises e esbravejava para 
as paredes, amaldioando a todos que encontrava.
  Para piorar a situao, Kate e Ross levaram a pblico as atrocidades por ele cometidas, com o auxlio de alguns enfermeiros. A notcia foi manchete nos jornais, 
e a acusao levou as autoridades a intervirem no hospcio, iniciando-se uma sindicncia. Os aparelhos utilizados por Kramer em seus tratamentos foram encontrados 
e transferidos  administrao de outros mdicos. Muitos enfermeiros foram dispensados, alguns at submetidos a investigao, acusados pelas internas de amarrar 
as moas  cama e violent-las.
O cerco em torno de Kramer foi-se fechando. As autoridades o submeteram a rigorosa investigao, e choveram acusaes sobre ele. Acuado e desesperado, tomou a nica 
deciso que lhe pareceu digna naquele momento. Numa noite chuvosa, enforcou-se no sto do hospcio, sendo arrastado pelos espritos das sombras, que, sem qualquer 
discernimento ou sentimento de perdo, puderam enfim aprision-lo.

  12
  Em setembro de 1939, Ross e Marianne chegaram a Paris em meio a forte comoo. Tendo declarado guerra  Alemanha, os franceses contavam com a linha Maginot para 
manter o inimigo longe de sua ptria. Confiante em sua segurana, Ross alugou um pequeno apartamento num bairro ao sul de Paris com o dinheiro que o pai lhe dera, 
suficiente para manter a ambos durante alguns meses. Embora Nathan prometesse enviar mais quando necessrio, Ross pretendia arranjar um emprego. Era jovem, inteligente, 
bem apessoado e tinha um bom domnio do francs. Nos primeiros tempos, contudo, no deixaria Marianne sozinha. Somente depois que ela se acostumasse, e estivesse 
pronta para se cuidar sozinha,  que partiria em busca de trabalho.
  Apesar das dificuldades, estavam felizes. Sentiam-se livres e em paz, e poderiam enfim viver o verdadeiro amor. Na primeira noite em sua nova casa, Ross deitou-se 
ao lado de Marianne e ps-se a alisar seus cabelos ralos e curtos, beijando-os com ternura, sentindo-se inebriado pelo seu aroma suave.
  Conhecera Marianne a vida inteira e sempre a vira como menina. Mesmo quando lhe dera banho, no sentira o despertar do desejo, talvez devido s circunstncias 
em que tudo acontecera. Agora, porm, via-a com outros olhos. Ela no era dotada de nenhuma beleza clssica ou que chamasse a ateno, mas tinha um rosto regular, 
feies delicadas, olhos profundos que variavam constantemente do azul para o verde. Ross pensou no quanto a achava bonita e teve a certeza de que jamais poderia 
amar outra mulher em toda a sua vida.
  Ao sentir que Ross a acariciava, Marianne encolheu-se toda na cama, com medo de que ele descobrisse que ela no era mais virgem e desistisse de se casar havia 
passado por maus momentos, e ele compreendia sua reao. Aconchegou a cabea dela em seu ombro e continuou a afog-la, ouvindo-a chorar baixinho.
  - Est tudo bem agora. Estamos juntos. Nunca mais vou me separar de voc nem deixar que lhe faam mal.
  Marianne chorava agarrada a ele, tentando se esquecer de tudo por que havia passado. Tinha vontade de contar-lhe a verdade, mas no conseguia.
  Adormeceram. No dia seguinte, fizeram compras e Ross lhe deu roupas novas e bonitas. Fazia muito tempo que no se vestia adequadamente. Acostumara-se aos roupes 
do hospcio, aqueles camisoles brancos, retos e compridos, que nada tinham de agradvel. Tambm foram ao mercado e compraram frutas, legumes, carne e doces.
  Iam aprendendo juntos as tarefas do lar, e Ross acabou por se revelar um exmio cozinheiro, enquanto Marianne cuidava da casa. Aos poucos, foi tomando gosto pelas 
coisas belas e distraa-se plantando flores em pequeninos vasos que Ross lhe comprava, ajeitando um enfeite aqui e ali, pendurando quadros nas paredes. Logo a casa 
tomou um ar agradvel e aconchegante, levando confiana e paz a Marianne. Pela primeira vez, sentia que tinha um lar.
  Aps quatro meses, ainda viviam como irmos. Vrias foram as vezes em que Ross tentara um contato mais ntimo, contudo, Marianne sempre se encolhia e comeava 
a chorar. Ele ento a afagava e soprava palavras de amor aos seus ouvidos, procurando transmitir-lhe confiana. Marianne tambm sentia o desejo, que acabava sendo 
sufocado pela lembrana atroz da brutalidade dos enfermeiros e pelo medo de perd-lo.
  Mesmo que ela no dissesse nada, Ross tinha quase certeza de que algo acontecera no sanatrio. No foram poucas as vezes em que surpreendera os olhares lbricos 
que os enfermeiros lanavam a algumas pacientes mais jovens e bonitas. No havia garantias de que eles no molestassem as moas, ainda mais porque o doutor Kramer 
no parecia o tipo que se importava com o que acontecia s doentes.
  Aos poucos, Marianne foi substituindo o medo pela confiana e a certeza de seu amor. Ele se aproximava com carinho e a acariciava com ternura, sem tentar for-la 
a nada, sempre dizendo o quanto a amava. At que um dia, enchendo-se de coragem, Marianne indagou de sbito:
    verdade que os homens no se casam com mulheres que j no so mais virgens?
A ingenuidade da pergunta o comoveu, e ele a abraou com efuso antes de retrucar:
   Quem lhe disse isso?
   Ouvi os enfermeiros comentando  revelou ela, cheia de medo.
   Pois eles esto enganados. Quando h amor, tudo o mais perde a importncia.
          Virgindade no  importante?
   No.
  Ela se calou, refletindo no que Ross dissera, enquanto ele se convencia do fundamento de suas desconfianas. Queria, porm, fazer com que ela compreendesse que 
nada faria diminuir o seu amor por ela.
   E se eu no fosse mais virgem?  arriscou ela timidamente.  Voc se importaria?
   No  respondeu ele de imediato, encarando-a com seriedade.
  Com os olhos abaixados e midos, Marianne acabou revelando numa voz quase inaudvel:
   No sou mais virgem, Ross. Os enfermeiros fizeram isso comigo...
  Os soluos a fizeram calar-se, e Ross a estreitou o        mais que pde. Todo o corpo de Marianne estremecia, e ele foi beijando-a suavemente, dizendo com o mximo 
de ternura que conseguiu reunir:
   Tudo se acabou agora. Eles no podem mais lhe fazer mal, e eu farei de tudo para fazer voc esquecer o que houve.
   Eu no queria...  gemeu baixinho.  Mas eles me obrigaram... me amarraram na cama... subiram em cima de mim... fizeram coisas horrveis...
  O pranto agora a dominava por completo, e Ross a tomou nos braos como um beb, embalando-a com sua voz doce e carregada de amor:
   Est tudo bem. Chore, minha querida, e descarregue sua dor. Eu estou aqui e nunca vou deixar voc.
   No est zangado?
   Com voc, nunca! Eu a amo, no entende? Mas fico triste e com raiva das pessoas que fizeram voc sofrer. Perdoe-me por no ter podido evitar. Devia ter tirado 
voc de l h mais tempo, mas no pude.
  Ele chorou tambm, e ela sentiu fluir do corpo dele uma energia de compreenso e amor que lhe trouxe serenidade. Aos poucos, sentiu-se descontrair em seus braos 
e alisou-lhe o rosto, molhando suas mos com as lgrimas do rapaz. Ross beijou as pontas de seus dedos e puxou seu rosto, recebendo os lbios entreabertos de Marianne 
como um doce presente para os seus. O beijo que se seguiu no foi carregado de volpia nem de ardor, mas tinha uma dose to grande de amor que fez com que Marianne 
se entregasse sem medo ou hesitao.
  Depois de consumado o ato de amor, os dois estavam seguros e felizes. Marianne se abraou a ele, sentindo esvair-se o temor e a lembrana da brutalidade, substituda 
agora pelos momentos de carinho e afeto que vivera com Ross. Nada  mais poderoso do que a vivncia do amor, que supera todos os traumas e os faz pequenininhos diante 
de sua beleza.
   Ainda seremos muito felizes  comentou ele, acariciando suas faces.  Vamos nos casar e ter muitos filhos.
  Ela desviou os olhos dele e balbuciou sentida:
   Ross...
   O que ?
   No quero ter filhos. Tenho medo de que eles sejam como eu.
   No tem importncia, Marianne  afirmou compreensivo.  Quero apenas estar com voc.
  Finalmente, haviam conquistado a felicidade. Estavam em paz com eles mesmos. At que o tempo passou, trazendo para mais perto os horrores da guerra.

  13
  Em Londres, quando as buscas por Marianne haviam cessado, Kate resolveu revelar a verdade ao marido. David recebeu a notcia sem entusiasmo. Apesar de ela ter 
demorado a lhe contar, ele tinha certeza de que fora ela a responsvel pela fuga da filha.
   Pensou bem no que fez?  censurou ele. Deixou fugir uma louca que no tem a menor condio de cuidar de si mesma. E ainda envolveu um rapaz que mal comeou 
a viver.
   No envolvi ningum  defendeu-se.  Ross  adulto e sabe cuidar de si. E ama Marianne de verdade, ao contrrio de voc, que deveria am-la tanto quanto eu.
   Ah! Agora o seu amor  o maior do mundo. Mas no pensou assim quando a internou.
   Vi o que Marianne sofreu.
   Ela no sofreu nada alm do necessrio ao tratamento.
   Acha necessrio ela tomar choques na cabea?
   O doutor Kramer me afirmou que o mtodo  novo e foi muito bem aceito na comunidade mdica. Acalma os doentes.
   O doutor Kramer  um louco. Aquele lugar  todo de gente louca. A nica diferena que separa os doentes dos mdicos e enfermeiros  a posio que cada um ocupa. 
Os doentes so os loucos, assim declarados pelos que vivem a liberdade para exercer a loucura com o respaldo da lei e da justia.
   No devia falar assim. O doutor Kramer fez de tudo para ajudar Marianne.
   Voc no sabe o que diz  rebateu ela com profundo desprezo.  E no sabe porque no quis ver. Mas eu vi. Vi em que Marianne se transformou. Voc no. Quando 
foi visit-la...?
   Ela no queria me ver.
   A mim tambm no e, mesmo assim, no deixei de visit-la um domingo sequer. E sabe por qu? Porque ela  minha filha e, haja o que houver, nunca vai deixar de 
s-lo.
  A acusao na voz dela era facilmente perceptvel, e David retrucou com uma certa raiva:
   Sinto muito se no fui o pai e o marido que voc esperava. Mas, se fiz o que fiz, foi pensando no bem-estar da famlia.
   Essa desculpa j no convence mais a nenhum de ns. Por que no assume que no gosta dela, que tem vergonha de sua loucura e, por isso, preferiu jog-la no hospcio 
e esquecer que ela existe?
   Voc est sendo injusta. Ela agrediu voc e tentou matar os irmos. Era meu dever proteger a todos da fria incontrolvel de Marianne.
   Se desde cedo a tivssemos tratado com amor e respeito, ela jamais teria atacado ningum. Poderamos t-la controlado, assim como Ross sempre o fez.
   Isso so conjecturas. Ningum sabe por que ela agia de forma diferente com Ross. Mas loucos so imprevisveis, no raciocinam, no agem pela lgica, no tomam 
atitudes sensatas. No precisam de motivos nem de explicao para nada. So apenas... loucos.
   So seres humanos. Precisam de amor. E Marianne...  apenas uma criana. To jovem e j to carregada de sofrimentos.
   Ora vamos, Kate, ela no sofreu tanto assim. As terapias eram necessrias...
   Ela foi estuprada, David!  irritou-se Kate, interrompendo-o.  Vrias vezes. Isso tambm  uma terapia necessria?
  David encarou-a perplexo:
   Estuprada? Por quem? Algum entrou no hospcio sem que vissem? Foi outro doente?
   Foram os prprios enfermeiros! Eles a amarraram na cama e a violentaram. Vrias vezes!
   Como  que sabe disso?
   Ross me contou.
  Ela desdobrou uma carta que trazia guardada dentro do corpete e exibiu-a a David, que a tomou e leu brevemente.
   Ser?  duvidou.  Talvez isso seja mais uma de suas invenes.
  Ela arrancou a carta das mos de David e rebateu furiosa:
  Marianne pode ser louca, mas estava dizendo a verdade quando nos contou todas aquelas coisas. Voc no a viu, no viu os hematomas pelo seu corpo. No viu o medo 
em seus olhos, no sentiu o tremor de seu corao. Como pode dizer que ela inventou todo aquele sofrimento? E agora isso!
  Sem conseguir se conter, Kate atirou a carta em cima de David e saiu batendo a porta. Estava arrasada. Sentou-se no degrau da varanda e ficou pensando em sua vida. 
Os outros filhos cresciam saudveis e quase j no se lembravam mais de Marianne. Nem sabiam que ela tinha sido internada. Eles haviam inventado uma desculpa de 
que ela ficara doente e fora para outra cidade se tratar. Depois disso, o assunto foi morrendo, at que a lembrana de Marianne quase se esvaneceu por completo da 
cabea das crianas.
  No era certo que os filhos esquecessem a irm. Marianne podia estar longe, mas tinha o mesmo sangue que eles, era to sua filha quanto os outros. Decidida a no 
deixar a memria de Marianne desaparecer daquela casa, partiu para o quintal atrs da casa, onde os outros estavam brincando. Contou-lhes tudo. Roger e Kevin compreenderam 
bem, mas Suzie ainda ficou um pouco confusa. Era a mais nova e no se lembrava muito bem da irm. Os trs, porm, lamentaram profundamente a sorte de Marianne. No 
lhe guardavam raiva, ainda mais porque Kate lhes dissera o quanto ela era doente.
   Onde  que ela est agora?  quis saber Roger.
   Na Frana. Com Ross.
  No disseram nada. Fizeram algumas perguntas a respeito do hospcio e da fuga, e acharam genial a ideia e a coragem da me.
   Libertei Marianne porque a amo  respondeu ela emocionada.  Assim como a internei por amor a vocs. Posso no ter feito a coisa certa, mas pensei estar ajudando 
a todos.
  David ouviu a conversa sem dizer uma palavra. Comeava a se arrepender do que fizera, mas o orgulho o impedia de se retratar. Era-lhe difcil reconhecer o erro. 
Muito mais difcil pedir perdo.
  Na semana seguinte, assim que voltou do trabalho, David percebeu que havia vizinhos novos na casa ao lado. A movimentao de mudana era familiar e corriqueira, 
pois, desde que Nathan se mudara, a casa j devia ter sido alugada umas trs vezes.
   Temos vizinhos novos outra vez  anunciou ele, sentando-se  mesa para jantar.    Ser que estes vo ficar mais tempo?
   Algo me diz que sim  afirmou ela em tom misterioso.
  Apesar de perceber o ar de mistrio, David no lhe deu importncia, tentando evitar, ao mximo, desavenas com a mulher. Kate terminou o jantar, e ele estranhou 
imensamente quando ela reapareceu na cozinha, segurando nas mos um prato de bolo coberto por um pano.
   O que  isso?  indagou com curiosidade.
   Fiz um bolo de boas-vindas para o novo vizinho.
   Novo vizinho?  um homem solteiro?  ela assentiu.  No tem famlia?
  Ela simplesmente sorriu e retrucou de bom humor:
   No quer vir?
  Era a primeira vez que Kate lhe pedia que a acompanhasse  casa vizinha. Alis, ele no se lembrava de nenhuma outra vez em que ela levasse bolo para os novos 
moradores. Alguma coisa estava acontecendo, e ele no sabia o que era. Resolveu acompanh-la, no apenas pela curiosidade, como tambm para no desfazer o ar de 
felicidade que ela exibia no rosto, algo que ele no via h muito tempo.
   Est bem. Vamos.
  Foram, em companhia das crianas, para a casa vizinha, causando uma estranheza ainda maior em David. Kate tocou a campainha e aguardou com expectativa o novo morador. 
Segundos depois, a porta se abriu, e David estacou, mudo de emoo, mal acreditando no que via.
   Nathan!  exclamou surpreso, sem saber se o abraava ou se permanecia onde estava.
   Meu irmo  sussurrou Nathan, a voz embargada.  No sabe o quanto esperei por esse dia.
  Abraaram-se meio constrangidos, e Nathan olhou para Kate por cima do ombro. Ela permanecia parada, olhos rasos de gua, segurando na mo o prato de bolo. Nathan 
separou-se de David e convidou-os para entrar. Beijou os sobrinhos, surpreendendo-se com o quanto haviam crescido. Roger estava um menino e fez com que se lembrasse 
de Ross. Eram bastante parecidos, assim como ele e David se pareciam tambm. Entraram todos e se sentaram ao redor da mesa. Nathan apanhou vinho para eles e refresco 
para as crianas, enquanto Kate servia o bolo. Faltavam-lhes Ross e Marianne, mas se haviam tornado de novo uma famlia.
  A famlia era o que de mais caro havia para Nathan. Depois do divrcio e da ida de Ross para Paris, sentira-se mais solitrio do que nunca. Apenas Kate o visitava 
de vez em quando, tentando estimul-lo  reconciliao. Nathan, contudo, temeroso de que David o rejeitasse, ia adiando o reencontro. At que a casa vizinha tornou 
a ficar vaga. Com a mudana dos inquilinos, veio a ideia de Kate. Por que Nathan no comprava a casa em que passara os anos mais felizes de sua vida?
  A ideia ganhou forma, e Nathan concretizou a transao. Com o que lhe restou do dinheiro da venda da manso, fez uma proposta ao proprietrio, que, aps certa 
relutncia, aceitou. A casa precisava de pintura, mas Nathan preferiu deixar a reforma para depois da mudana. E agora, ali estava ele, junto da famlia que jamais 
devia ter abandonado.
  Durante muito tempo, ficaram entretidos em amistosa conversa, at que Kate foi para casa com os filhos, deixando o marido e o cunhado a ss. J era tarde, e os 
dois permaneceram bebericando vinho. A certa altura, levemente estimulado pela bebida, Nathan disse:
   David, eu... nem sei como comear...
   Comear o qu?
   A me desculpar pelo que fiz...  Nathan engoliu em seco, e David apertou a sua mo.
   No precisa  confortou ele.  Somos irmos, e desculpas no so necessrias.
   So sim. Sinto-me pssimo pela forma como o tratei.
   Voc estava envolvido por aquela mulher. E eu no consegui compreender os seus motivos.
   Mas eu estava errado.
   No fique se culpando pelas atitudes que tomou  cortou David, reflexivo.    Todos ns fazemos coisas das quais nos arrependemos depois.
    verdade.
          Veja eu, por exemplo. Quando internei Marianne, achei que era o certo. Hoje no estou mais to seguro.
   Ns dois tomamos caminhos errados. Ser que ainda temos como voltar?
   Acho que sempre podemos voltar. O caminho que vai  o mesmo que vem. Basta dar meia-volta.
   A meia-volta  o mais difcil.
   Creio que  mais difcil por causa do orgulho. Aceitar que falhamos e retornar fere a imagem de altivez que construmos a nosso respeito.  um problema que temos 
que resolver conosco. No diz respeito a mais ningum.
  Nathan ficou algum tempo pensativo, at que considerou:
   Voc est mudado. Mais maduro, sei l.
    o que Kate faz por mim. No posso dizer que foi ela que me mudou, mas, com certeza,  graas a ela que hoje penso essas coisas. Kate  uma mulher e tanto,
   Tem razo. No fosse por ela, eu no estaria aqui hoje. Foi ela que me incentivou a comprar a casa, depois que Ross se foi.
   Voc sabia que ele estava envolvido no plano para libertar Marianne?
   Ross me contou tudo. E fui eu que dei dinheiro para eles viajarem para a Frana.
   Voc fez por minha filha o que eu, como pai, jamais a aproximao de um velho conhecido seu, at ento afastado pelas ondas de amor provenientes de Ross.
  Mesmo sem poder se aproximar, Luther acompanhava de longe todos os passos de Marianne. Muitas vezes, ela o via sentado no parapeito da janela, como ele gostava 
de fazer, e se assustava. Logo reagia. Parava o que estava fazendo e comeava a gritar:
   Ele est aqui! Luther quer me pegar! No deixe, Ross! No deixe!
  Embora Ross no visse nada e julgasse tratar-se de mais uma de suas muitas alucinaes, no fazia qualquer comentrio que a embaraasse. Nunca a contrariou ou 
tentou convenc-la de que no havia ningum ali. Aos poucos foi percebendo que, se rezasse, as alucinaes sumiam e, abraado a ela, costumava sintonizar com vibraes 
mais elevadas, atraindo espritos amigos que espargiam no ambiente partculas invisveis de amor e luz, to poderosas que enfraqueciam o poder de Luther.
  Certa manh, em fins de novembro de 1941, Ross recebeu uma carta de Kate, contando-lhe que o pai e o tio haviam sido convocados pelo exrcito. J no havia muitos 
jovens que pudessem atender s necessidades militares, e a conscrio se voltou para os mais velhos, homens de at cinquenta anos, com fora e sade suficientes 
para lutar.
  A notcia foi causa de imenso desgosto para Ross. Seu pai o enviara a Paris para fugir do alistamento. No entanto, ele mesmo acabara ingressando no exrcito, ao 
lado do tio, ambos enviados para o campo de batalha. Mesmo seus amigos, Vincent e Arnold, haviam-se alistado espontaneamente. Apenas ele fugira covardemente e se 
refugiara em Paris, onde pensara que a guerra jamais iria chegar. Por mais que justificasse sua vinda com a necessidade de proteger Marianne, o que era inteiramente 
verdade, a alma do jovem indcil e indomado comeou a incomodar, e Ross sentia, mais do que nunca, a necessidade de retornar a seu pas e participar dos eventos.
  Com o pai ausente, na guerra, o dinheiro comeou a escassear. Ross economizou o mais que pde, at que lhe sobraram apenas alguns poucos francos, suficientes para 
a viagem de volta. No havia oportunidades de emprego, e a escassez era geral. Na Inglaterra talvez no fosse to diferente, no entanto, era o seu pas e no estava 
ocupado pelos nazistas.
   Precisamos voltar  informou a Marianne. Nosso dinheiro acabou.
   No quero ir  choramingou ela.  O doutor Kramer vai me encontrar e me levar de volta. Se tiver que voltar para aquele lugar, eu me mato. Voc vai ver.
   Isso no vai acontecer  assegurou ele com firmeza.  Vamos voltar porque nosso dinheiro acabou.  a guerra, Marianne, voc tem que compreender isso.
   Tenho medo... Tenho mais medo do doutor Kramer do que das bombas.
   Estaremos juntos, e o doutor Kramer no vai encontr-la. Eu prometo. E mesmo que a encontre, mato-o antes de encostar as mos em voc.
   Voc promete?
   Prometo, j disse. Mas voc tem que confiar em mim. Se continuarmos aqui, vamos morrer ou ser presos. Voc no quer ir para um campo de concentrao, quer?
   No sei...
   Voc no sabe o que diz. Campo de concentrao  um lugar horroroso. Matam as pessoas l.
   No quero ir.
   Ento, vamos voltar. Na Inglaterra, ningum poder nos prender nem mandar embora.
  Finalmente, ela concordou. Auxiliado por seus amigos na resistncia, Ross comprou passagens para ele e Marianne. Apesar dos riscos, conseguiram chegar a Londres 
em segurana.
  A rua onde Kate morava vivia agora praticamente deserta. Toda a populao masculina com capacidade de combater havia sido recrutada, e os empregos antes destinados 
aos homens passaram a ser ocupados pelas mulheres. Kate era uma mulher por demais corajosa e decidida para ficar em casa lamentando a fome e a falta de tudo.
  Conseguiu emprego numa fbrica de armas. No que aquilo a agradasse, mas no podia se dar ao luxo de escolher. Roger, agora com quatorze anos, conseguiu emprego 
na mesma fbrica, enquanto Kevin e Suzie faziam o servio de casa. Foram tempos difceis. As notcias que recebia do marido e do cunhado eram poucas e nada animadoras, 
contudo, lhe davam nimo, pois sabia que, ao menos, estavam vivos. As cartas de Ross, por outro lado, haviam cessado aps a invaso alem, o que a deixava em constante 
sobressalto.
  Naquela noite, Kate e Roger chegaram a casa  hora de costume. Caa uma chuva fininha e soprava um vento frio e cortante. Suzie, agora com dez anos, cedo aprendera 
a cozinhar e a fazer algumas tarefas domsticas, auxiliada por Kevin, que cuidava dos servios mais pesados.
  Kate entrou em silncio, seguida pelo filho, e foi-se sentar  mesa. J nem sentia mais fome. Comia porque precisava, porque no podia desistir da vida enquanto 
tivesse seus filhos para cuidar. Terminado o jantar, ainda reuniu foras para ajudar Suzie com a loua. Faziam o trabalho em silncio, ambas exaustas, sem querer 
admitir, quando ouviram batidas na porta. Apesar do susto, Roger foi atender. Era o homem da casa agora e se sentia responsvel pela segurana de toda a famlia.
  Atrs dele, Kate seguiu apreensiva. Assim que ele abriu a porta, ela se adiantou e soltou um grito de surpresa, passando por Roger com rapidez. Parados do lado 
de fora, Ross e Marianne, molhados da chuva, tiritavam de frio.
   Meu Deus!  exclamou Kate.  So vocs. Depressa, entrem!
  Os dois passaram para o lado de dentro, causando enorme estranheza nos filhos de Kate, para quem a irm e o primo haviam-se tornado dois estranhos.
   Tia Kate...  balbuciou Ross, a voz embargada.
  Kate mal conseguia falar. Abraou os dois ao mesmo tempo, chorando de alegria. Com as mos postas sobre os lbios, abafando os soluos, fitou Marianne admirada. 
Ela estava bonita, como nunca antes lhe parecera. Os cabelos haviam voltado a crescer e a palidez cedera lugar a um rosto corado e vioso. Estava diferente. Engordara, 
ganhara formas de mulher. J no era mais uma menina.
   Marianne...  sussurrou, tentando conter as lgrimas.  Como est bonita!
   Senti saudades  disse ela, fitando as quase esquecidas feies da me.
  Passado o impacto do primeiro momento, Kate enxugou os olhos e chamou os filhos.
   Venham cumprimentar sua irm.
  Os trs se aproximaram acanhados. Marianne tambm se sentia pouco  vontade na presena deles, envergonhada pela forma como os tratara no passado. Suzie, percebendo 
o seu mal-estar, ergueu-se na ponta dos ps e deu-lhe um beijo no rosto, acrescentando com genuna emoo:
    muito bom t-la de volta, Marianne. Mame sempre nos fala de voc.
  Fitando-a por uns momentos, Marianne sentiu o corao se apertar. Suzie era uma menina muito bonita, assim como os irmos. Os dois se aproximaram tambm e a beijaram, 
e Marianne se espantou com o tamanho de Roger. Era um homem e se parecia muito com Ross.
  Sentiu-se feliz e reconfortada. Estava em casa, sua antiga casa e, de repente, era como se nunca tivesse sado dali. Lembrou-se de que, nos primeiros tempos, antes 
de tudo acontecer, formavam uma famlia feliz. Os pais eram dedicados e, apesar de ela sempre ter sido uma menina calada e arredia, sua primeira infncia foi bastante 
agradvel.
  Afastou aqueles pensamentos. Fazia um bom tempo que ganhara lucidez e no tinha nenhuma crise. No era agora que pretendia ter.Durante o tempo em que permaneceram 
ali, ningum relembrou aqueles tristes episdios. A loucura e o hospcio se tornaram assuntos proibidos naquela casa. No lhe perguntaram nada e, seguindo a sugesto 
de Ross, no a contrariavam quando ela dizia ver alguma pessoa invisvel ou ouvir alguma voz inaudvel por perto.
  O principal e mais temido assunto agora era a guerra. Era com esse terror que precisavam se preocupar. Com Marianne e Ross em casa, um pouco de alegria voltou 
ao corao de Kate. O marido e o cunhado estavam longe, e a presena dos filhos reunidos, inclusive Ross, que sempre considerara seu prprio filho, era o que a mantinha 
viva e confiante.

  15
  Kate terminou de se aprontar e desceu para tomar caf, que Marianne havia feito caprichosamente. Ela estava mudada, mais madura, perdera os gestos infantis e assumira 
atitudes de mulher. De forma bvia, ela e Ross levavam uma vida de casados, fato que no incomodou Kate. Naqueles tempos de guerra, onde o futuro era incerto e tenebroso, 
o importante era viver.
  Sentada ao lado de Roger, Kate engolia a refeio, com medo de se atrasarem para o trabalho.
  - Ande, filho  apressou ela.  No temos muito tempo.
  Roger assentiu e enfiou um pedao de po dormido na boca. Antes que terminassem o desjejum, Ross comentou:
  - Preciso arranjar um emprego. No posso continuar assim.
  - Se puser a cara para fora de casa, ser imediatamente convocado  alertou Kate, dando mostras de que aquela possibilidade a amedrontava terrivelmente. 
  - Sou homem, no posso viver s custas de minha tia e de meu primo menor.
  - No  hora para orgulho  censurou ela.  No se esquea de que, para todos os efeitos, voc est fora da lei.
  - Mame tem razo  concordou Marianne preocupada, tremendo s de pensar em perd-lo.  Voc fica aqui e cuida de ns.
   Sei que a situao no  das mais agradveis e entendo a sua preocupao  acrescentou Kate.  Mas  s por uns tempos, at a guerra acabar.
   E at l, fico fazendo o qu?
   Fica comigo  falou Marianne.  Podemos passear juntos.
   No podemos  objetou ele.
   Estamos em guerra, Marianne  disse Kate com pacincia.  Ross no pode ficar perambulando por a. Voc no quer que ele seja convocado, quer?
   No.
   Pois ento, vocs tm que ficar em casa. Tenho certeza de que Ross vai encontrar alguma coisa para fazer.
  Saiu com Roger, e Ross permaneceu em casa, fazendo companhia a Marianne e aos demais. Ajudava na arrumao, cozinhava com Marianne, cortava a grama do quintal. 
Mas no saa. Era como uma priso que j o estava enervando. No estava acostumado a ficar escondido e sentia-se um intil dentro de casa. Roger, seis anos mais 
novo, trabalhava para ajudar no sustento da famlia, enquanto ele, um homem, ficava em casa ajudando as crianas com as tarefas domsticas. Era humilhante.
  Quis ir  sua antiga casa e soltou a madeira da cerca por onde costumavam passar. Precisava fazer alguma coisa para ajudar. Em companhia de Marianne, abriu a porta 
dos fundos e entrou. A casa estava escura e cheirando a mofo. Com o trabalho na fbrica, Kate no tinha tempo de arej-la nem de limp-la. Ross reconheceu alguns 
mveis que o pai trouxera da outra casa e viu que ele havia comprado outros, mais modestos e discretos. Subiu ao seu antigo quarto e encontrou ali todos os pertences 
que havia deixado.
   O que est procurando?  indagou Marianne, interrompendo as suas lembranas.
   No sei. Algo para vender.
  Vasculhou todos os cmodos e fez uma trouxa com algumas peas de maior valor. Juntou tudo e saiu, fechando a porta com cuidado.
   Aonde vai com isso?
   Vou vender. Mas no se preocupe. Logo, logo estarei de volta.
   Mame mandou voc no sair.
   Voc no entende, Marianne. Preciso colaborar com alguma coisa. Se no posso trabalhar, essa vai ser a minha colaborao.
  Apertando o saco na mo, deu um beijo em Marianne, sorriu e ganhou a rua, imaginando onde poderia vender aqueles objetos, suas coisas e de seu pai. Com aquela 
escassez de comida, ningum pensaria em comprar objetos de valor e obras de arte.
  Ningum, exceto os novos ricos. Se, por um lado, a guerra gerara muitos miserveis, por outro, enriquecera muita gente, como os fabricantes de armas e munies. 
Pensando nisso, tomou uma resoluo. Sabia onde ficava a fbrica em que a tia trabalhava e se dirigiu para l, evitando as ruas de maior movimento. No queria ser 
surpreendido por nenhum oficial do exrcito nem por algum que pudesse denunci-lo.
  Chegou aos portes da fbrica e pediu para falar com o dono. O vigia, um senhor de seus sessenta anos, olhou-o com desconfiana e indagou bruscamente:
   Por qu?
   Tenho algo que talvez possa lhe interessar.
   Hum... No sei o que um pobreto como voc pode ter a oferecer ao senhor Wood.
  Ross refreou a nsia de esbofetear o sujeito e insistiu:
   Diga-lhe que tenho objetos de valor... Obras de arte por uma ninharia.
  O velho considerou por alguns instantes. Podia ser que o senhor Wood tivesse algum interesse naquilo, afinal. Coou a barba mal feita e mandou que Ross esperasse. 
Pouco depois, ele entrava no escritrio do senhor Wood.
   Muito bem, meu rapaz  disse o homem, tambm j de uma certa idade.  Carl disse que voc tem alguma coisa a me oferecer.
   Sim, senhor.
  Abrindo a trouxa sobre a mesa, Ross exibiu seu contedo. O senhor Wood levantou as sobrancelhas e segurou uma das peas na mo. Era um castial de prata macia, 
com acabamentos em ouro, muito bonito. Colocou-o sobre a mesa e foi examinar o restante. Havia bandejas, talheres, pratos, tudo de prata. O senhor Wood ficou impressionado. 
Tinha em mos uma pequena fortuna.
   Onde arranjou isso?  indagou desconfiado. Por acaso voc roubou?
   No, senhor. Veio tudo da minha casa.
   Da sua casa? Por qu?
   Precisamos comer. Ningum se alimenta de prata.
   Entendo...
  Ele balanou a cabea e ficou estudando o menino, at que perguntou novamente:
   Por que no est no exrcito, rapaz?
    Ross. Meu nome  Ross.
   Est certo, Ross... Mas voc no respondeu a minha pergunta. Por que no est no exrcito, como os outros jovens de sua idade?
  Ross engoliu em seco e respondeu acabrunhado:
   Acabei de chegar da Frana.
   Da Frana? Sei... E por que no foi alistar-se?
   Por qu? Ora, porque... porque... Olhe, senhor Wood, vim aqui lhe oferecer mercadorias de muito valor, no para falar da minha vida. Se no est interessado, 
tudo bem. Posso procurar outro.
  Rapidamente, Ross comeou a recolher os objetos, mas o senhor Wood segurou a sua mo.
   No precisa ficar nervoso, rapaz... Ross. Quanto quer pelas peas?
  Vendeu tudo pela metade do que valiam, mas pelo menos conseguiu vender. Foi correndo para casa, feliz da vida e, quando Kate chegou, entregou-lhe todo o dinheiro.
   Como conseguiu isso?  inquiriu ela, perplexa.
   Vendi umas peas valiosas de minha casa.
   No devia ter feito isso. Seu pai no vai gostar.
   Meu pai vai ficar feliz se souber que tivemos com o que nos alimentar.
   Arriscou-se desnecessariamente. Algum podia t-lo visto.
   Fique sossegada. Ningum me viu.
   Onde foi que conseguiu comprador para isso? Ele piscou um olho e colocou o dedo nos lbios da tia, respondendo num cicio:
    segredo.
  Ross no queria lhe contar que vendera as peas ao seu patro. Kate no iria gostar e, se o senhor Wood descobrisse, poderia fazer alguma coisa contra ela e Roger. 
Apesar da curiosidade, Kate no perguntou mais. Confiava nele o suficiente para saber que ele jamais se envolveria em alguma atividade ilegal.
  Na semana seguinte, Ross reuniu novas peas e voltou ao escritrio do senhor Wood, que o recebeu com uma certa cortesia. Comprou o que ele levara, sempre pela 
metade do preo. Aos poucos, Ross foi vendendo tudo. Quadros, vasos, pratarias. Qualquer coisa que tivesse algum valor. Graas ao dinheiro dessas vendas foi que 
conseguiram uma vida um pouco melhor. O salrio de Kate e Roger mal dava para sustentar cinco pessoas, que dir agora, com mais duas bocas para alimentar.
  Graas ao dinheiro que Ross apurou, o Natal no foi to ruim. Conseguiram comprar um peru magrinho e presentes singelos para toda a famlia. A poca lhes trouxe 
um pouco mais de conforto, renovando a esperana do fim da guerra. O conflito, todavia, estava longe de terminar. Poucos dias depois, iniciaram-se os ataques areos, 
com bombas incendirias e explosivas, provocando o Segundo Grande Incndio de Londres.
  Mesmo com os bombardeios, Ross continuou a vender os objetos de sua casa. Quando estes terminaram, Kate pediu que vendesse tambm os dela. Algumas jias, louas 
e prataria foram aos poucos passando s mos do senhor Wood. Durante um bom tempo, seus pertences renderam um bom dinheiro. Tudo foi vendido, desde a prataria at 
toalhas de renda e colchas.
  Quando, por fim, j no havia mais nada de valor que pudesse ser vendido, Ross comeou a juntar algumas roupas em melhor estado. O senhor Wood deu uma boa examinada 
no material e encarou Ross.  exceo de um casaco de peles, nada o agradou.
   O que houve, rapaz?  perguntou irnico. Acabou o seu estoque?
   Infelizmente, senhor Wood, j vendi tudo o que tinha de mais valor.
   Entendo...
  Sem dizer nada, ele abriu a gaveta e tirou um mao de notas, atirando-o para Ross. Ele contou o dinheiro e ficou desapontado. No era nem a quarta parte do que 
o casaco valia.
   S isso?  queixou-se.
   D-se por satisfeito, rapaz. As roupas no servem para nada, e o casaco j est velho e pudo.
  Era mentira, mas ele no estava em condies de barganhar. Apanhou o dinheiro e foi embora. Depois que ele saiu, o senhor Wood tocou uma sineta, e Cari apareceu:
   Pode dar o alarme  disse Wood friamente. No preciso mais dele.
  Na semana seguinte, quando Ross apareceu com algumas poucas camisas, foi surpreendido por um oficial do exrcito, que parecia estar  sua espera. Imediatamente, 
compreendeu tudo. O senhor Wood j no precisava mais dele e fez um favorzinho ao exrcito, esperando cair nas boas graas dos oficiais. Afinal, era comerciante 
de armas.
  O oficial deu ordens para que os dois soldados que o acompanhavam prendessem Ross, e foi o que eles fizeram.
   Deveria mand-lo  corte marcial.  disse o oficial com aspereza Contudo, a Inglaterra precisa de homens, e voc tem mais valor na batalha do que na priso.
   Vai me mandar para a guerra?
   O que voc acha?
  O senhor Wood nem apareceu para ver o que estava acontecendo. Ross foi levado  fora pelos soldados e deixou cair no cho o embrulho com as camisas, que Carl 
imediatamente apanhou. No faria mal se ficasse com aquilo. O senhor Wood no estava mais interessado nas ofertas do rapaz, contudo, ele precisava se vestir.
  Sem alternativa, Ross foi conduzido pelos soldados. No tinha medo da guerra e, no fosse por Marianne, teria sido o primeiro a se alistar. Contudo, o que seria 
dela se ele fosse embora? Tinha certeza de que ela voltaria a ter aquelas crises e aqueles ataques. As alucinaes retornariam com mais violncia, e a ameaa do 
hospcio, para onde ele prometera que ela jamais voltaria, o aterrorizou.
   Por favor, senhor  suplicou.  Deixe-me ao menos passar em casa para me despedir. Moro com minha tia e meus primos. Meu pai e meu tio esto na guerra. Titia 
vai ficar preocupada.
  Apesar da m vontade, o oficial consentiu. Afinal, o rapaz no estava sendo sequestrado, e sim mandado para a guerra. Era natural que a famlia soubesse de seu 
paradeiro.
   Est bem  falou com frieza.  Vamos. E que seja rpido.
  Kate no estava em casa, mas Ross no queria dizer que ela trabalhava na fbrica do senhor Wood. Falaria com Marianne que teria que se ausentar por um tempo e 
que logo voltaria. Pediria a Kevin que cuidasse dela at que Kate chegasse e deixaria uma carta  tia, explicando tudo. Quando a guerra terminasse, voltaria so 
e salvo.
  O carro do oficial estacionou em frente  casa de Kate. Sentado ao lado dele, Ross foi o primeiro a descer. O guarda, que j o aguardava na calada, prendeu seu 
brao com firmeza. Ross ia protestar quando um zumbido de mquinas passou por eles, vindo do alto. Olharam todos ao mesmo tempo, aterrados com a viso dos avies 
que cruzavam o cu enevoado. Instantes depois, um zunido agudo pareceu descer das nuvens, e vrias bombas foram caindo em direo  terra, pontilhando o espao areo 
com pequenos cilindros metlicos. Instantes depois, seguiram-se vrias exploses, o fogo levantou do solo e ouviu-se o barulho de vidros que se partiam em mil pedacinhos.
  Da em diante, foi um estouro atrs do outro. Em meio ao bombardeio, os soldados saram arrastando Ross rua abaixo, enquanto ele lutava para se soltar. Queria 
ir para casa, precisava ver Marianne. Logo depois, uma outra bomba explodiu e depois outra, e mais outra, cada vez mais perto. Ross e os militares haviam-se refugiado 
num pequeno pub que ficava no fim da rua, ocultando-se atrs do balco, e ele tentava se desvencilhar.
   O que h com voc?  esbravejou o oficial. No v que estamos sendo bombardeados?
  Em casa, Marianne e os irmos no sabiam o que estava acontecendo. Quando ouviram os zunidos, correram para o quintal e olharam. A viso dos avies e das bombas 
caindo do cu foi aterrorizante. Marianne sentiu o sangue gelar. No sabia o que fazer. Ross no estava ali para lhe dizer. Pensando o mais rapidamente que pde, 
pensou apenas em salvar os irmos. Apanhou-os pelas mos e disparou com eles para a cozinha, abrindo de chofre a porta do poro. Empurrou-os para dentro e bateu 
a porta, correndo para a rua feito louca. Precisava encontrar Ross e avis-lo do bombardeio.
  Nesse instante, atendendo a um impulso da intuio, Ross ergueu o corpo e espiou por sobre o balco, fitando a rua pelos quadradinhos de vidro que formavam a janela 
do pub. O que viu deixou-o mais apavorado do que as bombas. Descendo a rua em desabalada corrida, vinha Marianne, aflita e desnorteada, chamando-o pelo nome e agitando 
os braos feito louca.
  Ao v-la, Ross no conseguiu se conter. Deu um soco no soldado que o segurava, meteu o p no outro, empurrou o oficial e saiu correndo. Foi tudo to inesperado 
que ningum conseguiu evitar. Ross ganhou a rua com a velocidade de um relmpago, correndo em direo a Marianne com o desespero estampado no olhar.
  A primeira bomba que atingiu a rua atirou Ross a alguns metros de distncia, emborcando-o numa poa de sangue, bem diante dos olhos de Marianne. Sem acreditar 
que ele havia tombado, ela correu para ele, alheia aos estrondos e estilhaos que voavam por toda parte.
   Ross! Ross!  chorava.
  Aproximou-se rapidamente, corao aos pulos, rezando para que ele estivesse vivo. Ajoelhada ao lado dele, segurou sua cabea entre as mos e tentou faz-lo responder 
aos seus apelos. Foi quando o oficial, apavorado dentro do pub, gritou para ela:
   Saia da, menina. Saia da, vamos!
  Como Marianne no se movia, o oficial saiu de seu esconderijo e foi em direo a ela, desviando-se das exploses que aconteciam por toda parte. Nem teve tempo 
de alcan-la. Uma nova sucesso de bombas caiu em derredor, jogando pelos ares casas, carros e pessoas. O oficial sumiu no meio do fogo e, no lugar em que Marianne 
estava, uma nuvem de poeira e uma pilha de destroos ocultavam seu corpo agora inerte, atirado para longe do corpo de Ross.

  16
  Foi preciso esperar at o trmino do bombardeio para que Kate pudesse ir para casa. A destruio que foi encontrando pelo caminho fez estremecer o seu corpo. Passava 
por ruas incendiadas, ao lado de pessoas mortas e mutiladas, sensvel ao desespero dos sobreviventes, que procuravam por seus entes queridos em meio aos destroos.
  A exemplo das demais, a rua em que morava tambm fora atingida. Muitas construes haviam sido destrudas, e vrios homens tentavam conter o fogo que ainda se 
alastrava. Em companhia de Roger, Kate desatou a correr pela via interditada, saltando os destroos at se aproximar de sua casa. Quando a viu, foi como se levasse 
um soco na boca do estmago. A casa viera quase inteira abaixo. O segundo andar no mais existia, e um monte de tijolos e vigas de madeira se acumulara no que antes 
eram a sala e a cozinha.
  As runas ainda fumegavam quando Kate e Roger pisaram o cho, levantando o que podiam na esperana de encontrar sobreviventes. Paredes e tetos haviam desabado, 
e tudo estava ainda quente, dificultando a procura. Kate sentiu o desespero tomando conta dela e comeou a chorar.
   Meus filhos!  suplicou em lgrimas.  Onde esto os meus filhos?
   Tenha calma, me  Roger procurou confortar.  Vamos encontr-los.
  Com um gosto amargo na boca, Kate ia revirando os destroos, na esperana de encontr-los vivos. Mas tudo fora destrudo. Ou quase tudo. A porta que dava acesso 
ao poro estava bloqueada, mas havia uma chance de os filhos terem se refugiado ali. Com essa esperana, Kate comeou a retirar as pedras, ajudada por Roger.
   Marianne!  gritou.  Ross! Tem algum a? Pouco depois, ouviram uma vozinha abafada, que ela reconheceu como sendo de Suzie.
   Socorro!  gemia.
  Na mesma hora, Kate comeou a arrancar os destroos, atirando-os para longe feito uma louca. Algumas pessoas que estavam prximas, vendo o seu desespero, juntaram-se 
para ajud-la, e em breve a porta estava desobstruda. Suzie apareceu toda suja e ensanguentada, e Kate a abraou com desespero, apalpando-a por todos os lados para 
certificar-se de que El a estava bem. O corte era leve, e ela no parecia seriamente ferida.
   Onde esto os outros?  questionou ela, vendo que ningum mais aparecia.
  Kevin est l embaixo  falou assustada.
  Imediatamente, Kate desceu as escadas semidestrudas do poro. Saltando os degraus faltantes, ingressou na escurido, tateando em busca de corpos.
   Kevin  chamou.  Pode me ouvir?
   Estou preso, mame.
  Ela o localizou a um canto, preso sob as ferragens. Com a ajuda de Roger, conseguiu solt-lo. Kevin sofrera apenas algumas escoriaes leves na perna, onde ficara 
preso.
   E os outros?  indagou, logo aps se certificar de que os dois no corriam perigo.
   No sabemos  respondeu Kevin.  Quando as bombas comearam a cair, Marianne nos colocou no poro e saiu.
   Para onde ela foi?
  O filho deu de ombros, e Kate saiu com Roger, procurando entre os escombros. Quase todas as casas das redondezas haviam sido total ou parcialmente destrudas, 
e com uma estranha sensao de perda, um pesar indescritvel no corao, Kate foi caminhando entre elas, procurando sem esperar encontrar.
  Subitamente, corao aos pulos, sentiu, mais do que viu, um rostinho muito semelhante ao de Marianne parcialmente soterrado pelos escombros. Aflita, encaminhou-se 
para onde ele estava. Foi o caminho mais longo que j percorrera em toda sua vida. Queria aproximar-se e no queria, tentando negar para si mesma que era a sua filha 
soterrada ali. Seu corao sofreu a dor da perda, ainda que aquela no fosse Marianne. Seria a filha de mais algum, e uma tristeza inenarrvel se apoderou dela, 
por saber que haveria, dali a instantes, uma me chorando a perda da filhinha amada.
  Descobriu com pesar que aquela me era ela prpria, pois foi a sua filha que encontrou ali, mutilada e sem vida. Sentindo uma dor que jamais pensou existir, Kate 
parou, o corpo vergando para o cho, at se ajoelhar ao lado de Marianne. Juntou as mos sobre a boca, curvou-se para a frente e ps-se a chorar de mansinho. Perdera 
sua filha. A filha por quem tanto lutara. A filha que tanto fizera sofrer e por quem teria dado a prpria vida, para salv-la. A filha por quem conseguira reconhecer 
um inesgotvel amor.
  Roger viu a me tombar no cho de joelhos e correu ao seu encontro. Ao dar de cara com o rosto sem vida da irm, comeou a chorar tambm. Por uma estranha razo, 
o rosto de Marianne permanecera intacto. Apenas seu corpo sofrera laceraes, e parecia a Kate que ela dormia. Roger colocou a mo no ombro da me, apertando-o emocionado. 
Foi seguindo com os olhos pelos escombros, at que encontrou o corpo de Ross. Apesar do sangue e das feridas, conseguiu reconhecer o seu semblante.
  Ela acompanhou o olhar do filho e encontrou o sobrinho morto. Auxiliada por Roger, levantou-se e foi at ele. A dor era tamanha que ela nem conseguiu falar. Abaixou-se 
e ficou ali, alisando o rosto dele, sem se importar com o sangue que lhe manchava os dedos.
   Mame  chamou Roger baixinho, em lgrimas.  Vamos para casa.
   No, Roger  falou ela com pungente dor. Vou apanhar os meus filhos. No podemos deix-los ao relento.
  De to comovido, Roger no conseguiu responder. Nem percebeu quando um soldado se aproximou.
   Senhora  disse ele com profundo pesar , meus homens faro esse servio.
Kate ergueu para ele os olhos cheios de dor, tentando compreender o que dizia. O sofrimento era tanto que ela no conseguia concatenar as idias. Ajudada pelo soldado 
e por Roger, levantou-se. Olhou mais uma vez para Ross, depois para Marianne, virou-se com pesar e se deixou conduzir pelo menino. Precisava cuidar dos filhos. Chorar 
a perda de uns, agradecer a Deus a sobrevivncia de outros.
***
  No momento em que a bomba estourou, uma forte presso no peito deu a Marianne a sensao de que ele explodia. A dor e a violncia mostravam que ela havia morrido, 
contudo, estranhou ao perceber que continuava vendo paredes e vidros voarem pelos ares. Enquanto o peito ardia em chamas, seus olhos acompanhavam os acontecimentos. 
Ouviu e viu a sucesso de bombas e, sem compreender, procurou Ross. Num minuto, ele estava em seu colo e, no minuto seguinte, havia desaparecido. 
  Descobriu que o corpo dele havia sido atirado a alguns metros de distncia. Tentou se levantar, mas a dor no peito a impediu. Olhou para baixo e viu o corpo coberto 
de sangue. Olhou para baixo e viu o corpo coberto de sangue. Parecia mesmo que lhe faltava alguma coisa. Pernas, braos, no sabia. Confusa, olhou para a frente 
e, por uma frao de segundos, julgou ter visto um homem parado a seu lado, todo vestido de branco. Ele lhe estendeu a mo num chamado carinhoso e quase irresistvel, 
mas que ela recusou por no estar com Ross. No iria a lugar nenhum sem ele.
  Uma outra bomba estourou mais alm, sem que o homem se incomodasse. Continuava parado a sua frente, estendendo-lhe a mo com ar bondoso e gentil. Uma dor aguda 
quase a sufocou, e ela levou a mo ao peito, esforando-se para respirar. Espantou-se com a ausncia de suas mos, e ento, tentou caminhar. S que no tinha mais 
pernas. O ar foi se foi escasseando, e nova onda de dor percorreu o seu corpo como uma torrente de choque. Tudo comeou a girar ao seu redor, enquanto a dor foi 
aumentando, aumentando, at se tornar insuportvel. J no podendo mais se conter, na iminncia de cair sem sentidos, quis correr em direo ao homem vestido de 
branco, o que no foi possvel, j que no tinha pernas. Seu corpo se projetou parra a frente, e ela se sentiu despencar num abismo sem fim. Desmaiou.
  Quando acordou, estava limpa e medicada, o corpo coberto de bandagens. O que primeiro veio a sua mente foi a lembrana dos membros faltantes, e olhou para suas 
pernas e seus braos. Estavam todos ali.
  O quarto em que se encontrava era, visivelmente, um quarto de hospital, s que bem diferente daquele em que passara boa parte de sua vida. No, aquele lugar no 
tinha nada a ver com o hospcio do doutor Kramer. Era limpo, claro e perfumado. Muito aconchegante e agradvel. Por uma estranha razo, Marianne sabia que no se 
encontrava em nenhum hospital do mundo visvel. Tinha certeza da morte de seu corpo, assim como estava certa de que sobrevivera a ele, e aquele fato no a assustava.
  Uma porta lateral se abriu e o homem de branco que lhe estendera a mo apareceu.Como est?  perguntou gentil.
   Bem.
  Ele olhou as bandagens e trocou alguns curativos, acrescentando satisfeito:
   J est quase bom.
  Marianne esperou at que ele terminasse e s ento perguntou:
   Eu morri?
  O homem deu um risinho simptico, bateu de leve em sua mo e respondeu com naturalidade:
   Voc desencarnou.
  Marianne no parecia surpresa, mas continuou a perguntar:
   E Ross?
   Desencarnou tambm. Em breve, vir v-la.
  A mente de Marianne parecia haver entrado no eixo. Era como se um espinho houvesse sido arrancado de seu crebro, algo que o emperrava e lhe dificultava o raciocnio. 
Aps o breve repouso que se seguiu ao seu desenlace, retomou o controle sobre si mesma, inevitavelmente lembrando-se de muitas coisas passadas em outras vidas.
  Ross foi o primeiro a visit-la. Estava muito bem, vestido em uma tnica branca, alegre e sorridente. Nem parecia vtima da guerra. Seu corpo fludico no guardava 
nenhuma sequela do bombardeio, e ele pareceu ainda mais bonito do que costumava ser.
  Os amigos, aos poucos, foram aparecendo, parabenizando-a pela vitria que alcanara. Marianne se lembrava de todos, inclusive daqueles com quem mantivera relaes 
difceis no passado.  exceo de Ross, nenhum deles a acompanhara. Todos haviam permanecido no mundo espiritual, alguns  espera de que ela retornasse daquela curta 
encarnao para empreenderem uma programao de vida conjunta.
  Charles, o esprito amigo que a ajudara, fora uma pessoa muito querida em uma encarnao bem anterior e j estava livre do crculo reencarnatrio. Durante todo 
o perodo em que ela vivera na terra, fora ele o responsvel por sua proteo e pela manuteno de seus projetos.
  Tudo porque Marianne precisava dar um salto em sua ascenso espiritual. Durante muitas vidas, perdera-se no vcio e nos prazeres fceis, deixando-se seduzir pelos 
excessos da matria e levando uma existncia distante do bem e da moral. Tantos desregramentos acabaram imprimindo marcas em seu prprio corpo astral, cujos reflexos 
persistiriam na formao dos seguintes, caso uma medida de impacto no fosse logo tomada. Isso, aliado  necessidade de conteno de seus impulsos, fez da deficincia 
mental um timo facilitador. Marianne poderia, ao mesmo tempo, cicatrizar a ferida deixada pelos excessos e limitar suas atitudes, para que neles no reincidisse.
  Havia tambm os inimigos espirituais, que Marianne fora colecionando ao longo dos sculos. Sanguinria e cruel, teve amplo domnio das cincias ocultas, direcionando 
seus conhecimentos para prticas perversas e nocivas, cujo nico propsito era o domnio da fortuna e do poder, destruindo todos que a ela se opusessem. Muitos desses 
espritos faziam agora parte do crculo pessoal de Marianne, dispostos a reencarnar com ela para vivenciarem o amor e fazerem dissipar as nvoas da antiga inimizade. 
Outros, porm, apegados ainda ao desejo de vingana, iam se arrastando na ignorncia e no perdiam a oportunidade de assediar Marianne de todas as formas possveis, 
ganhando espao e fora atravs da mediunidade indisciplinada e da loucura da menina.
  De todos, Luther era seu pior inimigo, o mais audaz, o mais feroz. Ainda longe de enxergar as verdades da alma, s se sentia bem quando em contato com vibraes 
inferiores, alm de no desejar abrir mo do poder que conquistara na hierarquia das sombras.
  ***
  Em maio de 1945, finalmente, a Alemanha assinou o tratado de rendio com os aliados, e Kate aguardava, ansiosamente, a volta do marido e do cunhado. Recebera 
uma carta de Nathan anunciando seu retorno para aquele dia e, desde cedo, preparou tudo. Com a destruio de sua casa, o proprietrio retomou o imvel, e Kate se 
mudou com os filhos para a casa de Nathan. Arrumou o ambiente como pde e cozinhou um jantar razovel, considerando a precariedade em que se encontravam.
  Todos reunidos, puseram-se  espera na varanda, mal contendo a ansiedade. A cada um que passava, Kate se sobressaltava, mas nada de avistar o marido e o cunhado. 
No final da tarde, finalmente, um homem de farda apareceu no fim da rua. Vinha mancando, trazendo ao ombro um saco do exrcito sujo e manchado. Kate e as crianas 
se levantaram correndo, ao mesmo tempo felizes e em dvida.   
  Era apenas um. Um homem quando deveria haver dois.  distancia, no dava para dizer quem era. Ele         foi-se aproximando devagar, arrastando a perna e, de 
vez em quando, trocando o saco de ombro. Kate aper        tava as mos nervosamente, certa de que a alegria pela volta de um seria ofuscada pela morte do outro.
  Finalmente a proximidade do homem tornou possvel, a ela e as crianas, identificar-lhe as feies. Magro, maltratado e ferido, vinha Nathan, dando a todos a certeza 
de que David havia perecido. Ela desceu correndo a rua em sua direo, e ele soltou o saco no cho e a recebeu num abrao emocionado, de uma efuso comedida.
  Sem saber se ria ou se chorava, Kate se afastou dele e, com uma certa angstia, perguntou, j sabendo a resposta:
   Nathan... O que foi feito de David?
  O olhar do cunhado traduzia sua dor. David fora atingido por uma granada na ltima batalha e no ar resistira aos ferimentos.
   Queria dizer-lhe pessoalmente  desabafou ele.  Achei que lhes devia isso.
  Kate sofreu a sua dor em silncio. No podia fraquejar diante dos filhos, que dela retiravam sua         coragem. E Nathan tambm sofria. Desde que recebera a 
notcia da morte de Ross, nunca mais fora o mesmo. Lutava na guerra, ora como se quisesse morrer, ora como se desejasse desafiar a morte. Os soldados o chamavam 
de louco suicida, mas o fato  que sua ousadia intrpida lhe valeu uma condecorao por bravura, tendo ele salvado vrios de seus companheiros na batalha em que 
David perdera a vida. Mesmo assim, conseguira resgat-lo ainda vivo, no sendo capaz, contudo, de curar-lhe os ferimentos.
  O sofrimento indizvel os uniu ainda mais. Nathan conseguiu de volta seu antigo emprego, embora com salrio reduzido, e arranjou uma colocao para Roger. Aos 
poucos, foi refazendo sua casa, que no sofrera muita destruio, dividindo espao com a cunhada e os sobrinhos. Como era de se esperar, Kate e Nathan acabaram se 
casando, formando uma unio que, embora pouco calorosa e sem paixo, era pontilhada de amizade e respeito, suficientes para auxiliar na construo de um novo lar.
  Algum tempo depois, Nathan soube, por um antigo colega de trabalho, que a fbrica de tecidos do senhor Bradley fora  falncia, levando-o a uma associao com 
um fabricante de armas e munies. Desde a ecloso da guerra, o caso entre ele e Lilian tornou-se pblico, para desgosto da esposa de Richard, que se suicidou pouco 
tempo depois. Atormentado com a morte da mulher, ele deixou Lilian, casando-se com a filha de seu scio. Abandonada e sem dinheiro, Lilian passou a sobreviver dos 
favores que fazia aos soldados, vindo a desencarnar doente e em completa solido.
  Por seu turno, David foi recebido no astral por espritos encarregados de orientar as vtimas da guerra. A princpio, permaneceu no abrigo astral de recuperao, 
at sentir-se livre da sensao das feridas. Quando, finalmente, acreditou-se curado, saiu espontaneamente do abrigo e, no conseguindo lidar com a culpa pelo que 
fizera a Marianne e a Kate, deixou-se prender pelos inimigos, que o levaram para o astral inferior.

  Eplogo
  Marianne retornou de suas reminiscncias e fitou o semblante tranquilo de Ross. Fazia cinco anos que estava ali, aprendendo com ele sobre as coisas do esprito. 
Lembrar-se do passado lhe causara imenso bem, pois conseguira reviv-lo sem dor, e as lembranas, sobretudo, fizeram nascer uma admirao at ento desconhecida 
por Kate.
   Minha me  uma mulher de muita coragem  observou com respeito.  Voc no acha?
    claro. Sempre tive a maior admirao por tia Kate.
   Como ser que anda a vida dela agora?
   No gostaria de ir at l e ver por si mesma?
   Gostaria sim.
   Ento venha. Vamos pedir permisso a Charles.
  Mais tarde, Ross e Marianne entraram no quarto de Kate, no exato momento em que ela acabara de adormecer. Esperaram um pouco at que seu corpo astral se desprendesse 
parcialmente do corpo e se tornaram visveis.
   Marianne! Ross! exclamou ela surpresa. Quantas saudades!
  Beijou e abraou os dois, que corresponderam com afeto.
   Como est, tia Kate?
   Bem, na medida do possvel.
  Kate abaixou os olhos e comeou a chorar de mansinho.
   Por que est chorando, mame?
   Faz muito tempo que vocs se foram. Mas, para uma me, o tempo nunca apaga a dor da perda de seus filhos.
   Ns no nos fomos  esclareceu Ross.  No est nos vendo?
   diferente. Vivemos em mundos distintos.
   Distintos, mas que se intercalam. E  por isso que estamos aqui e poderemos vir sempre.
   Sei que Deus faz as coisas certas, mas  to difcil compreender e aceitar a perda! Alm de vocs, perdi tambm meu marido.
   Estamos livres, me  esclareceu Marianne.  Eu, principalmente.
  Kate fitou a filha com ateno, e seu rosto lhe pareceu mais iluminado e sereno.
   Voc est muito bonita  elogiou, alisando-lhe os cabelos compridos e lisos.
  Marianne deu-lhe um beijo na palma da mo e acrescentou emocionada:
   Obrigada. Por tudo que fez por mim.
   S o que fiz foi lhe causar sofrimento.
   No pense assim. Foi graas a voc e papai que tive a chance de reencarnar como louca, que era o que eu precisava. Ningum, a no ser vocs, estava disposto 
a me aceitar.
  Pelos olhos de Kate passou uma sombra de tristeza, e ela considerou:
   Voc sabe o quanto me arrependo pelo que lhe fiz.
   No precisa. Voc, papai, o doutor Kramer, todos foram instrumentos para que eu conseguisse voltar os olhos para mim mesma e aceitar a mediunidade e a doena 
como fatores de crescimento.
  - E essa guerra?  tornou ela em lgrimas.  Todos perdemos com ela. Vocs perderam a vida. Eu perdi vocs, perdi meu marido. Quantas pessoas, assim como ns, 
sofreram e sofrem as conseqncias desses terrvel flagelo?
  - A guerra  umas calamidade lamentvel, mas tambm serve a seus propsitos  esclareceu Ross.
  - Que propsito pode haver na guerra alm da ambio do homem?
  - O progresso. Precisamos destruir para, atravs da reconstruo, impulsionar o progresso.
  - No pode haver progresso no meio da maldade.
  - O que voc chama de maldade nada mais  do que a condio do prprio homem. A humanidade caminha a passos vagaroso porque se perdeu nas iluses do mundo, transformando 
a riqueza e o poder em instrumentos da vaidade e do orgulho. Tudo  permitido dentro dos princpios divinos, mas aquele que afeta o equilbrio do mundo de alguma 
forma ter que recuper-lo.
  - Ou seja, aqueles que fazem a guerra so gananciosos, e os que nela perecem esto sendo punidos.
  - Nem uma coisa, nem outra. Os que promovem a guerra esto to distantes do amor csmico que se esqueceram completamente de sua natureza divina, ao passo que as 
chamadas vtimas so apenas espritos em crescimento que no aprenderam a transformar suas culpas em nome desse mesmo amor. Tanto uns quanto outros se predispem 
ao renascimento e  renovao, assim como os povos e o prprio planeta, que atravessam guerras, catstrofes e cataclismos para provocar uma reestruturao de princpios 
e valores. E tudo isso sempre para melhor.
  - Ser? J tivemos tantas guerras e o mundo ainda esbarra na carnificina de sempre.
  - Como disse, o avano da humanidade  vagaroso, contudo, ele existe. Em breve todos os espritos desse planeta sero forados  transformao ou ao exlio. Por 
ora, as modificaes ainda se fazem com aproveitamento dos potenciais destrutivos e de reconstruo que todo ser humano possui.
   Sim, a guerra nos modifica. Somos hoje criaturas muito mais amargas e sem esperana do que fomos ontem.
   Lance sua viso para o futuro, tia Kate, e ver que tenho razo. Aposto como o planeta inteiro vai passar por uma transformao, no s no campo poltico e econmico, 
mas tambm no tecnolgico, no social, no moral e no espiritual. Essa  a inevitvel lei do progresso, que h de se impor de uma maneira ou de outra. Com a guerra, 
novas necessidades vo surgindo, e o homem  obrigado a trabalhar por si mesmo e pela coletividade da qual faz parte. Da destruio, novas idias se materializam, 
e a renovao acontece.
   E quem  que garante que vamos mudar para melhor?
   Toda renovao  para melhor. Veja esta casa, por exemplo. Como foi parcialmente destruda na guerra, vocs tiveram que reform-la, e aposto como aproveitaram 
para consertar o que j estava estragado. Trocaram canos, puseram fiao nova, ampliaram a cozinha, mudaram a cor das paredes, deixando-a mais confortvel e mais 
bonita. Agora, se ela no houvesse sido destruda, vocs continuariam na acomodao e a casa no teria sofrido nenhuma melhora. E vocs teriam deixado passar a chance 
de realizao das boas possibilidades que possuem.
  Ross fitou-a atentamente, vendo o efeito que suas palavras causavam nela. Kate parecia muito impressionada com a sabedoria do sobrinho.
   O que voc diz  muito bonito e faz sentido  rebateu ela, ainda no totalmente convencida. Mas e a paz? No conta?
  - Conta, e muito. Cada vez que se deflagra uma guerra, mais se valoriza a paz e mais cresce na conscincia do homem a certeza de que a violncia no  nem nunca 
ser o melhor caminho para a soluo de desavenas, que podem ser resolvidas, todas elas, pela via do amor.
          Se  assim, no deveria haver mais guerra. Onde est essa conscincia de que voc falou?
          Em alguns homens que se opem aos conflitos, no em todos. E so eles que tm a tarefa de contaminar o mundo para que, no futuro, ningum mais pense em 
armas para matar seu semelhante e conquistar o poder. O que falta  humanidade  compreender que o poder s a Deus pertence, e o que se exerce aqui no passa de 
mais uma iluso criada pelos sentidos para dar satisfao  alma que s faz priorizar seus desejos.  um processo lento, que no vai acontecer agora nem nos prximos 
anos, e sim nas dcadas que viro. Para isso,  preciso ao e coragem, no para matar ou morrer, mas para empreender a mudana, que  pessoal e nica. Muitos j 
deram o primeiro passo e esto ligados nessa corrente de. amor e fraternidade que vai aumentando dia aps dia, toda vez que um esprito se modifica e a eia naturalmente 
se liga. Ainda no so muitos, mas poucos  melhor do que nenhum.
  Os olhos de Kate agora estavam secos, e ela parecia finalmente assimilar as explicaes do sobrinho.
          Tambm pensa assim, Marianne?  indagou, e a filha assentiu.
  Nesse momento, Nathan se remexeu na cama, e Ross aproximou-se dele, dando-lhe um suave beijo na testa. Nathan se virou para o outro lado e continuou a dormir, 
com o corpo fludico pairando poucos centmetros acima do fsico.
   Voc e tio Nathan esto se dando bem?  quis saber Marianne.
  - No nos amamos propriamente, mas nos entendemos e nos respeitamos  esclareceu Kate.
  - No seria isso amor?
  A pergunta causou um sobressalto em seu peito, e ela fitou o marido com ternura, pensando se a filha no teria razo. Era algo em que ela mesma jamais pensara.
  - E seu pai?  redargiu.  Tem tido notcias dele?
  - Papai no est conosco. Mas no se preocupe, em breve iremos resgat-lo.
  Ross acercou-se da tia e envolveu-a num abrao caloroso.
  - Agora precisamos ir. O dia j est amanhecendo, e vocs logo vo retornar ao mundo fsico.
  - Prometem vir visitar-me sempre?
  - Sempre que pudermos.
  Enquanto Ross se despedia da tia, Marianne foi para a janela, vendo os quintais das duas casas pelo lado oposto ao que se acostumara em vida. A casa vizinha fora 
totalmente reformada e alugada a uma nova famlia.
  - Solte a tbua da cerca, mame  aconselhou ela enigmaticamente.  Seus netos em breve estaro passando por ali...
  Aos poucos, os esprito de Ross e Marianne foram esvanecendo, e Kate retornou ao corpo fsico. Quando despertou, o sol j ia alto. Era domingo, e Nathan ainda 
dormia a seu lado. Levantou-se e consultou o relgio, surpreendendo-se com a proximidade das dez horas. Nunca dormira tanto em sua vida. Sentindo um bem-estar indescritvel, 
espreguiou-se com vontade e abriu a janela. Fazia um bonito dia de vero, e um vento suave amenizava o calor do sol, tornando a manh mais agradvel.
  J ia sair da janela quando notou o esvoaar de uma saia, acompanhando o compasso da brisa. Parou e olhou detidamente. Alguns lenis muito alvos e limpos haviam 
sido estendidos no varal e, por detrs deles, a silhueta de uma moa se delineou. Kate no precisava ver o seu rosto para saber que se tratava de Suzie. Agora com 
quinze anos, tornara-se uma moa muito bonita e alegre. Encostada na cerca, conversava com algum. Pelo vaivm dos lenis, Kate conseguiu vislumbrar o rosto do 
novo vizinho, um rapazinho de seus dezoito anos, que recentemente se mudara com a famlia para sua antiga casa.
  De onde estava, Kate apenas pde perceber que Suzie parecia muito interessada no rapaz, e ele nela. Em dado momento, suas mos se tocaram por cima da cerca, mas 
ela no conseguiu ver o rubor repentino que subiu pelo rosto da filha. Apenas percebeu que ela se debruava sobre a cerca para ouvir algo que o rapaz lhe sussurrou 
ao ouvido. Enquanto ele falava, os lbios de Suzie iam gradativamente formando um sorriso espontneo e cheio de prazer. Quando ele se calou, as faces dos dois estavam 
afogueadas, e Suzie apertou a extremidade superior da cerca, permitindo que Kate antevisse o ar de paixo com que o rapaz a olhou. Suzie sentiu o nervosismo e apertou 
ainda mais a cerca. Tanto que a tbua, muito fina, no resistiu. Com um estalido, soltou-se das demais e projetou-se para o outro lado, levando com ela a menina, 
que s no caiu porque o rapaz conseguiu amparar o pedao de madeira e segurar a moa ao mesmo tempo.
  A cena causou imensa emoo em Kate, que reconhecia os primeiros sinais da paixo adolescente. No querendo ser intrometida, voltou-se para dentro, no antes que 
uma sombra de reconhecimento passasse pela sua mente. Lembrou-se de que havia sonhado com Marianne e Ross, e que a filha lhe havia dito alguma coisa. O que era mesmo? 
Puxando pela memria, Kate se lembrou: Solte a tbua da cerca, mame. Seus netos em breve estaro passando por ali...
  Com um gritinho abafado, correu de volta para a janela. O rapaz agora havia passado para o seu lado da cerca e ajudava Suzie a encaixar a tbua no lugar. Naquele 
momento, sem saber como, seu corao compreendeu tudo: seriam Suzie e aquele rapaz que trariam o novo para suas vidas? Seus netos iriam encher aquela casa com seus 
risos alegres e suas brincadeiras inocentes? Por alguns momentos ainda, acompanhou a luta de Suzie e do rapaz para recolocar a tbua, at que gritou l de cima:
   Deixe, Suzie! Para que prender, se terei que despregar depois?
  Suzie e o rapaz a olharam espantados, sem entender o que ela queria dizer. Constrangidos por terem sido surpreendidos naquele momento de tanta intimidade, obedeceram 
e soltaram a cerca. O rapaz voltou para sua casa, e Suzie apanhou o cesto vazio de roupas, voltando para a cozinha.
  Nesse momento, o sol iluminou a cerca, e a passagem que se abrira resplandeceu com o verde da grama que brilhava do outro lado. Kate sentiu o perfume das flores 
e a suavidade da brisa. Pensou nos filhos. A saudade de Marianne e Ross era tremenda, e ela pensava que jamais conseguiria superar aquela perda. Os vivos, porm, 
lhe davam muitas alegrias. Roger acabara de ingressar na universidade de Oxford, e Kevin se preparava para o prximo ano. Ambos se haviam tornado rapazes bonitos 
e inteligentes, alm de honestos e estudiosos. E Suzie, uma menina educada e gentil, estudava em um bom colgio e, ao que parecia, iria iniciar seus sonhos de moa.
  Kate olhou para Nathan, ainda adormecido, e duas lgrimas escorreram de seu rosto. No chorava de tristeza. Pela primeira vez em sua vida, sentindo-se uma mulher 
completa e plena, corava de alegria.
  Tornou a olhar para a cerca, lembrando-se de algo que algum havia lhe dito num sonho, e sorriu para si mesma.
  No seria isso amor...?
  FIM

  Sucessos de Zibia Gasparetto
  Crnicas, romances medinicos e livros. Mais de dez milhes de exemplares vendidos. H mais de dezesseis anos, Zibia Gasparetto vem se mantendo na lista dos mais 
vendidos, sendo reconhecida como uma das autoras nacionais que mais vendem livros.

  Livro: Zibia Gasparetto
  *Reflexes Dirias

  Crnicas: Silveira Sampaio
  *Pare de Sofrer
  *O Mundo em que Eu Vivo
  *Bate-Papo com o Alm
  *O Reprter do Outro Mundo

  Crnicas: Zibia Gasparetto
  *Conversando Contigo!
  *Eles Continuan Entre Ns

  Autores Diversos
  *Pedaos do Cotidiano
  *Voltas que a Vida D

  Romances: Lucius
  *O Amor Venceu
  *O Amor Venceu (em edio ilustrada)
  *O Morro das Iluses
  *Entre o Amor e a Guerra
  *O Matuto
  *O Fio do Destino
  *Laos Eternos
  *Espinhos do Tempo
  *Esmeralda
  *Quando a Vida Escolhe
  *Somos Todos Inocentes
  *Pelas Portas do Corao
  *A Verdade de Cada Um
  *Sem Medo de Viver
  *O Advogado de Deus
  *Quando Chega a Hora
  *Ningum  de Ningum
  *Quando  Preciso Voltar
  *Tudo Tem Seu Preo
  *Tudo valeu a Pena
  *Um Amor de Verdade
  *Nada  Por Acaso
  *O Amanh a Deus Pertence
  *Onde Est Teresa?
  *Vencendo o Passado
  *Se abrindo pra vida

  Sucesso de Silvana Gasparetto

  Obra de autoconhecimento voltada para o universo infantil. Textos que ajudam as crianas a aprenderem a identificar seus sentimentos mais profundos tais como: 
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  Tudo na vida trabalha para que cada pessoa desenvolva suas capacidades. Por isso, Marianne, com muita coragem, decide reencarnar e viver em meio  loucura. Numa 
jornada cheia de obstculos e desafios, ,busca superar seus pontos fracos.
  Marianne conta com o auxlio de seus guias espirituais que lutam para que a jovem entenda que, o maior desafio da vida no  o confronto com as situaes do mundo, 
mas o esforo para que viva a verdade de todo o seu ser.
 
